City Lights Follow story

noveluas Taynara C

Em uma das, muitas, pequenas ruas da cidade de São Paulo, fica um bar não muito atraente, com um letreiro em neon verde limão, onde às vezes, corações cansados ou partidos, se permitem uma bebida requintada, de nomes curiosos. E nele, dois homens muito diferentes, trocam poucas palavras em uma noite qualquer e sem ao menos saber o nome um do outro, se conectam mais do que se tivessem compartilhado as mais profundas histórias.


Drama For over 18 only.

#romance #drama #gay #bl #boyxboy #boyslove
1
2.9k VIEWS
In progress - New chapter Every 15 days
reading time
AA Share

Whisky Sour

 A noite em São Paulo estava fria, todos na rua pareciam andar encolhidos com seus casacos pesados. Benício, estava aquecido pelo sobretudo negro e pelas luvas de couro, enquanto a cabeça era protegida por uma touca de tecido grafite, que era rejeitada por boa parte de seus conhecidos, andava da mesma forma que os demais, olhando sem de fato ver as lojas da grande avenida. O jovem detetive da homicídios tem o costume de vagar pelas ruas iluminadas da cidade, depois de um dia cheio de informações sobre crimes violentos e quase sem nenhuma resposta a dar para as famílias das vítimas.

Olhar nos olhos das mães, pais, conjugues ou filhos e não ter nada a dizer, exceto um “sinto muito, é preciso paciência”, esgotava até a última gota das forças de todo e qualquer policial. Quando saiu da faculdade e decidiu que o queria era resolver crimes e contribuir para a sociedade coreana, Benício não tinha ideia que “resolver” não era uma palavra muito adequada, e muitas vezes tudo que conseguiam eram partes desconexas de um ato puro de maldade, muito bem planejado, que não os levava a lugar algum. Lidar com a frustração e com a constante vontade de desistir, o deixavam aflito demais para que apenas voltasse para casa.

Já havia saído da avenida, embrenhando-se num dos bairros da cidade, quando um letreiro neon verde limão, dizendo “REM BAR” prendeu sua atenção. Sem nenhum destino em particular, aquele lhe pareceu um lugar interessante para se entrar às onze da noite; logo após empurrar a porta pesada de vidro fumê, encontrou um ambiente pouco iluminado e com muitas mesas vazias. No bar, no máximo cinco pessoas, distantes uma da outra, em sua maioria escoradas no longo balcão; uma mulher de voz forte tocava ao fundo, com uma batida suave e quase melancólica, fazendo o ambiente parecer ainda mais solitário. Benicio não entendia, mas pensava, que talvez fosse aquela a proposta.

Se aproximou do bar, encarando o único barman do local, um rapaz bem jovem, de rosto delicado e olhar leve, que não demorou em lhe notar ali e caminhar em sua direção. Fez o pedido que fazia em qualquer bar da cidade, seu bom e velho sazerac, em dose dupla; passou os olhos pelas mesas e foi até a próxima de uma janela, que parecia ser um ótimo ponto, para recostar a cabeça no banco estofado e tentar não pensar em nada. Mas fechar os olhos entre um gole e outro, não foi de muita ajuda em afastar as imagens que desejava, e pensou ser melhor usá-los para bisbilhotar as expressões cabisbaixas daquele bar.

Uma mulher, talvez em seus quarenta, tinha uma bebida vermelha nas mãos, seus olhos quase não aguentavam mais segurar as lágrimas que os deixavam brilhando, o maxilar travado, contendo um daqueles choros que nos fazem perder todo o ar e ganhar uma dor lacerante na garganta; em pé, perto do balcão do bar, um homem que não aparentava mais de trinta e cinco, de terno e calça social que pareciam ser maiores do que o necessário, cambaleava enquanto pedia ao jovem, mais uma bebida. Benício não sabia se podia se identificar com aquelas pessoas, mas que seu olhar carregava um peso semelhante aos da maioria presente, isso era inegável.

Depois de pensar um pouco, encarando sua bebida laranja escuro, olha para frente, percebendo que as mesas entre a dele e a última que se encostava nas janelas, estavam todas vazias e davam uma visão clara do ocupante da última mesa. O rapaz tinha os cabelos castanhos como os seus, mas a pele era branca como porcelana, seus olhos estavam baixos, encarando a própria bebida, amarelada, cheia de gelo e com uma cereja se equilibrando em um dos cubos; os lábios vermelhos, como se fossem tingidos, eram cheios e se destacavam em meio ao rosto delicado. Vestia uma camisa de seda, azul marinho, marcada pelos ombros largos, uma das mãos estava sobre a mesa e com os dedos magros, desenhava algo no suor do copo.

Benício não tinha mais vontade de passar os olhos pelo pequeno salão, estava confortável com a visão que encontrara; o rapaz não desviou o olhar do copo nenhuma vez, pelo menos não nos quase quinze minutos em que foi encarado pelo detetive. Sem receber um segundo de atenção sequer, ele terminou sua bebida em um gole só e se levantou, indo em direção ao bar; chamou a atenção do jovem e apontou muito discretamente para a mesa que lhe prendeu o olhar, pedindo que o fizesse a mesma bebida que o rapaz bebia.

Com o copo idêntico ao do outro na mão, ele caminhou com certa confiança, até aquela última mesa e parou em frente a ela, esperando que enfim fosse notado. Os segundos em que acompanhou os olhos do rapaz se desgrudarem do copo de bebida e caminharem lentamente até seu rosto, talvez tenham sido tão tensos quanto muitas partes de seu trabalho. Nada naqueles olhos grandes indicavam o menor interesse em fazer o esforço de olhar para outra coisa naquela noite; uma ponta de arrependimento acometeu a confiança do moreno alto, que caminhou até ali a passos largos.

Para a surpresa do mesmo, o rosto bonito abaixo de si, indicou a cadeira, na frente da qual Benício estava parado, lhe dizendo para se sentar; assim que o fez, sentiu realmente que não deveria ter sido tão confiante. Parado ali, em frente aquele homem, que facilmente poderia afirmar ser o mais bonito que já vira, não tinha ideia do que dizer, só conseguia observar a face delicada e os olhos sem vida que o encaravam de volta. Quando os lábios vermelhos se moveram, um frio delicado lhe subiu pela espinha, antecipando uma ansiedade ao que poderia ser dito.

— Você prefere whisky ou conhaque? — disse, com a mesma expressão vazia, piscando os olhos lentamente, como se não quisesse de fato, receber uma resposta.

— Desculpa? — Benício questionou antes mesmo de processar a pergunta.

— Eu te vi antes, com um copo de sazerac, agora tá com um de whisky sour, geralmente quem gosta de um, ignora o outro. — Jogou a cabeça pro lado, o desafiando a se explicar.

— Ã eu... é, na verdade eu prefiro conhaque, mas... eu, meio que queria saber o que você bebia, tipo, eu pedi a mesma que você, eu nem sei o que é. — Se enrolou com as palavras, sem querer parecer óbvio demais, porém se entregando.

— Aí tem whisky bourbon, suco de limão e açúcar, devia experimentar logo — explicou a receita e na última parte, levantou uma das sobrancelhas e sorriu minimamente.

Benício não fez questão de escondeu o sorriso, nem de quebrar o contato visual enquanto levava o copo à boca; o gosto da bebida era bem diferente do que estava acostumado, de fato, a ignoraria e seguiria com sazerac, mas o rapaz não precisava saber disso; balançou a cabeça afirmativamente, antes de voltar o copo à mesa.

— É bom, diferente. — Tentou parecer o mais sincero que podia.

— Acho que ainda prefere o conhaque, certo? — Tinha os braços cruzados e o um sorriso mais largo no rosto.

— Acho que não posso vencer essa sua psiquê. — Levantou as mãos até a altura do peito, em gesto de rendição.

— Só era meio óbvio. — Soltou uma risada contida e descruzou os braços, levando o próprio copo, ainda cheio, até a boca e o esvaziando de uma só vez e o colocando de lado. — Foi bom te conhecer, Sezerac, eu vou indo agora

— Já? Ã, me deixa te pagar mais uma bebida, sim? — Não esperava a saída estratégica do outro e tentou o argumento mais atrativo para o fazer ficar.

— Um copo é o suficiente pra mim — disse curto, levantando da cadeira.

— Posso saber seu nome pelo menos?

— Não acho que vá ser útil, se me encontrar de novo, vai me reconhecer, não vai? — indagou já em pé, pegando um casaco também azul marinho que estava na cadeira ao lado.

— Claro, acho que seria difícil esquecer seu rosto — respondeu, vencido pela convicção do outro em não compartilhar nada.

— Então, é o suficiente, quem sabe nos vemos por aí. — Lançou um sorriso aberto e sem mais, virou as costas e caminhou em direção a saída.

Benício permaneceu sentado naquela mesma mesa, talvez por mais meia hora, pensando em como aquela tinha sido a conversa mais evasiva e sem muito sentido que tivera e de como desejava que aquele homem não tivesse sido tão breve e que tivesse ficado um pouco mais e compartilhado um pouco mais; aquele rosto realmente, não sairia de sua mente tão cedo e talvez, finalmente se tornaria cliente frequente uma vez na vida, naquele bar melancólico com letreiro neon, que em nada combinava com seu ambiente, na tentativa de encontrar o senhor “whisky sour” novamente.

Jan. 26, 2019, 3:17 a.m. 0 Report Embed 0
Read next chapter Entre o cheiro pútrido e o do tabaco

Comment something

Post!
No comments yet. Be the first to say something!
~

Are you enjoying the reading?

Hey! There are still 3 chapters left on this story.
To continue reading, please sign up or log in. For free!