O Homem Que Vendeu O Mundo Follow story

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Agora trago-te um conto sobre um homem que desejou vender o mundo, sinônimo de desespero. O conto dele não é tão bonito e digno de lição de moral. É só mais um que, confuso, temeroso, sentindo-se nada, pegou uma mochila e saiu pelo próprio desespero titulado “mundo”. Desejou esvaecer a cada vento, cada passo, entretanto, no final encontrou outros seis mundos e fez deles seu universo.


Fanfiction Bands/Singers All public.

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Trocam-se Essências

Kim Seokjin.

04/12/1992.

“Awake...”

*


Na mesa de meu computador havia um relógio de pulso.


O ponteiro fazia tique-taque, enquanto fechava meus olhos e ouvia: tudo na vida é difícil, inclusive dar adeus. Na verdade, “adeus” é a coisa mais difícil que já dei e, por anos, pensei que, se vendesse um adeus a um preço caro, ninguém desejasse comprar, ganhar ou concorrer.


Que sonho, não?


Reabri minhas pálpebras, respirei fundo mais uma vez e peguei minha mochila do chão, erguendo-me e colocando-a em meu ombro. Dei uma derradeira olhada em meu aposento encaixotado pela mudança que faria para bem longe mais uma vez: diferente das primeiras ocasiões, sorri. Apaguei a luz e ouvi o eco de meus passos pelo pequeno corredor à porta de entrada do apartamento. Peguei na rotunda maçaneta e virei-me para trás, olhando a sala cheia de caixas e checando minha bolsa: documentos, passagens, saudades...


Tudo ali.


- Tenha uma boa viagem... – após tantos meses sem ouvir minha própria voz, parecia estranho como soara mais madura desde a última vez. Ri. – Uma longa e boa viagem, Namjoon...


Abri a porta e saí, abandonando mais uma morada. Conforme descia a escadaria, sentia-me como o homem que fui: abandonando coisas – dessa vez, entretanto, em prol de outra bem importante, não por desespero. Nas ruas escuras, alimentei o gato que sempre estava ali e eu não nomeara para não ficar mais complicado abandonar.


Os postes de luz apagavam-se à medida que o sol surgia, enquanto dirigia-me ao aeroporto ali perto, que acordara-me nos primeiros dias que morei naquele apartamento. Minha ansiedade fazia-me respirar e expirar fundo diversas vezes: adivinhe quem atrasou-se para o check in? Posso não demonstrar, mas não sou corajoso enfrentando meios de transportes.


Um aéreo então...


Pelo menos, dessa vez, não é fuga.


Foi em torno de uma hora ouvindo chamadas, vendo cidades e horários no grande telão, acompanhando o movimento de passageiros com bagagens para serem despachadas. Ouvi música no celular quando meu voo chegou, recordando como conheci aqueles que te contarei durante minha longa viagem. Um levava ao outro e, no final, todos conheciam-se.


Com só uma mochila, coragem e fones de ouvido, embarquei no avião e sentei-me na janela. Coloquei o cinto e apertei o apoio de braços, desejando, com o decolar, que o assento engolisse-me quando meus ouvidos reclamaram da pressão. Na altura máxima, talvez uns quinze minutos em que tudo estava pleno, reabri meus olhos e fitei as nuvens em que imergi.


- Adeus... – desviei meu olhar ao banco vazio ao lado, sorrindo. – Em breve chego...


Temo aviões, mas foi em um que conheci a essência da coragem.


Alguém que pensava que jamais voaria...


*


“- Pavor de voar? – riu o garoto ao lado quando viu-me transpirar frio a cada turbulência. – É um transporte seguro, acalme-se.


- Estou calmo. – tentei sorrir, olhando a altura pela janela. – Morrerei...!


- Se serve de consolo, todos morrerão se isso cair. – encarei-o: expressão dócil, cabelos curtos e amendoados. – Kim Seokjin. – apresentou-se, estendendo a mão, enquanto a outra segurava uma câmera. – Você?


- Kim Namjoon... – trêmulo e frio cumprimentei-o, sentindo-o apertar minha mão e massageá-la.


- Não é o único que teme. – riu. – Temos o mesmo sobrenome, não que seja incomum.


- É...


- Assim: inspire e expire devagar, com o tórax somente. – ensinou-me, acompanhando-me com a demonstração. Sentia-me ridículo, contudo, ajudava-me. – Muito bem. – sorriu, volvendo o olhar à câmera. – Visitará parentes?


- Não... – naquela época, não sabia o que estava fazendo. – Só quero sumir por aí. – engoli em seco, rememorando coisas.


Encarou-me sem questionar.


Preocupado, mesmo que não conhecêssemo-nos.


- Deseja encontrar sua essência? Quem realmente é? – pisquei confuso e ele estendeu a câmera, mostrando fotografias. – Cada coisa no mundo possui uma essência que faz dela única e perfeita, completamente admirável. – encarei-o quando sorriu largo. – Pessoas são assim também.


- Mas só há fotografias de paisagens e concretos, hã—


- Jin, avoque-me de Jin. – assenti. – É, realmente: só flor, árvores, postes, borboletas... – ergueu os ombros, recuando. – Luz e sombra, nuvens... – apontou a janela. – Céu e Terra.


- Gosta disso? – negou. – Então?


- Amo tudo, entretanto, estou numa busca por mim: quem sou? O que desejo ser? Qual minha verdadeira essência: a que vejo no espelho ou o que transpareço às pessoas? Seriam julgamentos opiniões sensatas ou tentativas de sobrepor-se aos outros, no intuito de superestimar-se? – suspirou. – Não sei nada, então, através da fotografia, desejo admirar essências sem julgar, sem ver o que transparecem por fora somente.


- Não entendi...


Jin sorriu triste.


Quando conheci-o, imaginei quantas coisas perdera como eu na estrada da vida. Em poucos versos e com um pen-drive no pequenino computador, vi a essência de uma família incrível que perdera num voo catastrófico de balão. Jin não voara naquele transporte: não por medo, mas por uma gripe de verão. Com a queda, tornou-se órfão e recomeçara a vida buscando essências.


Ele perdera pessoas e desejara, por meses, trocar sua essência pelos da família.


Senti-me péssimo.


- Acho que é meu destino lutar e fazer dessa tragédia minha força. – sorriu, fechando as pálpebras. – Talvez nunca possa tocar o céu, mas quero estender minha mão e sonhar um pouco. Quando estava partindo, os momentos felizes perguntaram-me se estava bem e eu disse que não, que temia viver sozinho. Sabe o que fiz? Segurei seis flores e caminhei até alçar voo.


- Foi metáfora? – pisquei. Na estrada da vida, desisti de entender entrelinhas e ele riu. – Desculpe-me—


- Não! Não! Amo pessoas como você! São sinceras! – virou-se de lado na poltrona, amassando-se. – Já prendeu-se num sonho titulado “destino”?


- Talvez... – ele era tão confuso.


- Também! Quando dizem-nos que é nosso destino, compramos a ideia de que temos algo imutável e, portanto, não importa o que façamos: nada mudará, seja para melhor ou pior. – deu de ombros. – Mas tudo pode piorar, bem como pode melhorar. Quando abri meus olhos para essa verdade, não mais chorei.


- Não entendo, Jin...


- Namjoon, não sei o que houve contigo para estar aqui, voando em ideias que assombram-te a cada turbulência ou silêncio. – apontou meu coração. – Só saiba que, seja o que for, nada é destino, imutável. Quando sentir-se assim, preso num momento de desilusão que semelha pesadelo, procure essências de qualquer coisa que conforte-te.


- No seu caso...?


- É estranho, mas o mundo conforta-me, mesmo com os lados ruins: são partes das essências. – sorriu e olhei-o estranho, soltando um riso cínico. – Que foi?


- Não é que não acredite em você, contudo, estou tentando suportar...


Havia algo em mim e não sabia se era a tal essência que Jin descrevia.


Ele usou o termo “comprar ideia”...


Curioso.


- Já comprou ideias de pessoas e fez delas suas? – indaguei hesitante.


- Sempre, mas acho que meu “dinheiro” acabou. – riu. – Percebi que compram-se coisas que não dizem-te o que é, só fazem-te parecer o que desejam que seja. Isso serve para indústria da moda, beleza e opiniões sobre linguajar e atitudes na adolescência, vindo de pais e professores.


- Não compra mais o que oferecem-te?


- Não.


- Então—


- Prefiro trocar essências: é mais bonito. – sorriu, revirando a pequena mala de mão que trazia consigo e retirando um polaroid. – De todas as fotos, esta representa-me. – estendeu-me e peguei-a incerto.


Era Jin quando criança:


Braços abertos, cabeça erguida, olhos fechados e roupas claras. O jeito como fora fotografado fazia-o parecer voar no vento que bagunçara seus cabelos e fizera dançar os cadarços desamarrados dos tênis, bem como o laço negro do pescoço. A sensação que eu tinha era de uma criança dócil, corajosa, amável e livre, pronta para sonhar e voar...


Era quem vi quando ergui meus olhos ao lado, só que adulto.


- É... – sorri verdadeiramente após muito tempo desde que saí de casa. – Sem dúvidas é sua essência registrada, Jin.


- Não é? – o olhar era longínquo, bem como os lábios arredados num sorriso nostálgico. – Ei, se tivesse que mostrar-me sua essência neste exato momento... – encarou-me tranquilo. – O que mostraria?


Baixei meus olhos até fechá-los e meus lábios esconderem meus dentes. Tudo que havia na mochila eram minhas roupas, poucos acessórios e memórias daquilo que deixei para trás. De acordo com Jin, era tudo que fazia-me transparecer, não aparecer. Se tinha uma essência, ela devia ser sombria a ponto de ninguém, sequer eu, saber como caminhar em tamanha escuridão.


Coloquei a mão no bolso e retirei um palito de pirulito mordido e entortado.


Esqueci-me de jogá-lo na lixeira quando—


- Está machucado. – encarei-o estranho e ele pegou o palito de minha mão, sorrindo. – Interessante...


- Não acho que seja eu! – pisquei incrédulo, contudo, Jin ainda acreditava que era. – O pirulito que estava aí era azul: chupei por estar nervoso e, quando acabou, fiquei mordiscando e esqueci-me de jogar—


- Por que estava nervoso a ponto de morder tanto este palitinho?


- Só... – neguei, engolindo em seco. – Escolhas, talvez erradas, que tomei... Saí em busca de algo e perdi-me, então... – sorri deprimido. – Não sou eu, Jin.


- O palito torto faz um caminho branco, cheio de obstáculos, que são suas mordidas num momento difícil. – analisava-o. – É você, porque há seus sentimentos mais profundos gravados, tanto bons, quanto ruins.


- Olhando um palito e a mim alternadamente: somos iguais?


- Metaforicamente falando, sim. Essências são similares, contudo, entenda: nunca uma representará completamente a outra. É só uma demonstração. – segurou minha mão fria quando o avião sofreu outra rápida turbulência. – Simples, talvez um tanto machucado por si e pelo mundo, mas não perdendo sua verdadeira forma, ainda que retorça-se em momentos dolentes.


De certa forma ele tinha razão...


Era gentil demais, mas estava certo.


- Valeu, Jin... – jazia escuro fora do avião, entretanto, naquele momento foi como se uma estrela brilhosa surgisse em meu imo nebuloso, que desejei seguir para encontrar-me.


- Podemos trocar nossas essências? – ofereceu-me a fotografia de infância e pegou o palito mordiscado para si.


- Espere...! – virei-me na poltrona, também amassando-me. – Essa foto é você! É especial para ti! Não posso aceitá-la! Sequer sabemos se um dia—


- Confio em você e sei que nos encontraremos por aí. – ajeitou-se na poltrona e guardou carinhosamente meu palito, fechando as pálpebras para sonhar. – Ainda que com pavor de voar, pode erguer a cabeça aos céus e encontrar-me, mesmo que somente em memórias. Estarei onde precisar e quando precisar, Namjoon”.


*


Foi quando conheci Jin e a foto ainda estava em minhas mãos, que agora admirava-a sem temer tanto as turbulências. Diferença de lá para cá: realmente acredito que nos reencontramos com pessoas e nada é acaso. No dia do desembarque, despertei com uma foto em cima de minha mochila: Jin fotografara-me adormecido e sumira sem dar adeus.


Trocamos ideias e essências para reencontrarmo-nos num parque.


Junto a ele, conheci outros meninos, outros contos que mostraram-me coisas diferentes, visões distintas, e, no final, evidenciaram-me o que é ter verdadeiras amizades e confiar nelas. Virei meu rosto e aceitei a água que a aeromoça oferecera-me naquele instante, pensando...


Jin era um garoto que via essências profundas nas almas. Viu um mundo que desejei vender com outros olhos, registrando-o com uma câmera fotográfica nada profissional. Suas fotografias eram dignas de admiração por serem simples e repletas de significados diferentes, porque cada essência é distinta.


Acompanhei-o em algumas jornadas, visitei suas exposições e vi que a essência que eu carregava em meu bolso sempre fora a mesma, imutável: seria, pelo menos a essência de um ser, imutável, Jin? Mesmo que acredite que nada seja estável?


Se há algo que sinto cada vez que olho fotografias contigo e com nossos amigos é saudades, e isso sempre será imutável quando estamos longe. Na derradeira fotografia, vi Jin abraçando um garoto que confirmava a teoria de que tudo é instável, porque as emoções dele eram claramente assim e nós o amávamos. Ainda amamos, não é? É por isso que estou chegando: para mudar logo esse sentimento de saudades...


Naquela época, saí para desaparecer, entretanto, encontrei-me num palitinho mordiscado e torto de pirulito azul, refletidos nos olhos amêndoas de uma essência pueril pela qual troquei.


Aquela estrela que gerou em minha escuridão, Jin, jamais apagou-se.


E sou muito grato por isso, meu amigo...

Sept. 16, 2018, 3 p.m. 0 Report Embed 0
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