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linda-almeida1528369410 Linda Almeida

Olho ao relógio na cabeceira e são 0h03, o empurro irritado.Pequenos arranhões começaram a atritar contra a madeira velha de minha porta, curtos, porém barulhentos. Ainda sonolento, cobri os ouvidos com a esperança de abafar o som irritante e por algum passe de magica conseguir voltar a dormir, mas assim os arranhões cessaram, dando lugar a tímidos miados incessantes. Provavelmente seria o gato que dormira o dia inteiro e resolvera dar o ar de sua graça a uma hora dessas.


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#medo #horror #terror #creepypasta
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Acordei exasperado e com a respiração descompassada, talvez pela terceira vez na semana? Já havia perdido as contas de qualquer maneira. Provavelmente acordei de mais um de meus intermináveis pesadelos, aos quais nunca lembrava-me o que havia acontecido. Algo me dizia que sonhava com ela, mas não conseguia me recordar, apenas a fadiga e o medo inexplicável me corroíam ás altas horas da madrugada faziam semanas.

Suspirei cansado buscando controlar meu coração que se encontrava atordoado.

Sentia sua falta.

Olho ao relógio na cabeceira e são 0h03, o empurro irritado. Parecia que por mais uma noite iria admirar a bela decoração do teto que descascava. Não dormia havia semanas, talvez todas as noites um pesadelo novo me assolava tirando minha paz. Pequenos arranhões começaram a atritar contra a madeira velha de minha porta, curtos, porém barulhentos, me tirando de minha linha de pensamento. Ainda sonolento, cobri os ouvidos com a esperança de abafar o som irritante e por algum passe de magica conseguir voltar a dormir, mas assim os arranhões cessaram, dando lugar a tímidos miados incessantes. Provavelmente seria o gato que dormira o dia inteiro e resolvera dar o ar de sua graça a uma hora dessas.

Mas eu não tinha um gato.

Meu coração saltara em meu peito novamente e o medo inexplicável retornara. Tirei o manto do rosto e levantei-me receoso. Os miados pararam e batidas fortes começaram em intervalos curtos, a cada passo que dava em direção à porta estes se tornavam cada vez mais fortes. A melhor maneira de vencer o medo era enfrentá-lo com rapidez, assim ela sempre me dissera. Em momentos assim o sentimento de perda parecia apertar cada vez mais em meu peito.

Apertei a maçaneta fria entre meus dedos fazendo as batidas ritmarem loucamente, logo a abrindo com rapidez e coragem que me eram desconhecidas. Nada. O apartamento gigantesco encontrava-se vazio assim como sempre estivera a semanas, frio e vazio. Notei que a maior janela que dava vista a praia estava entreaberta, ventando contra as cortinas fazendo-as dançarem levemente entre si. Provavelmente algum gato da vizinhança havia entrado pela mesma afim de fugir da tempestade e se assustara com minha presença ali.

Ela sempre quis um gato de estimação.

Resolvi que a fecharia quando retornasse ao quarto e procuraria o bichano pela manhã já que, com uma tempestade destas proporções este não iria a lugar nenhum, então rumei à cozinha em busca de um copo d’água. Procurei pelos interruptores, mas estes não funcionaram. Ótimo. Falta de energia era realmente o que precisava em uma hora dessas. Tateei as bordas da banca de madeira a fim de me guiar a geladeira e senti marcas molhadas em uma das pontas que, com os pequenos flashes provindos da tempestade, vi serem longos arranhões manchados com sangue ainda morno em meio a pequenos pedaços de unha.

O larguei rapidamente e rumei a geladeira finalmente saboreando de minha água, descia suavemente pela minha garganta seca, um alívio. O gatinho deve estar machucado, pensei. Deixei o copo sobre a bancada e me direcionei a janela a fim de fechá-la, se o bichano ainda estivesse ali dentro, o poderia procurar com mais facilidade assim não correndo risco de o deixar fugir e se machucar ainda mais.

Ouvi vidro se estilhaçar no chão da cozinha e, irritado, estalei a língua em desgosto. Gatos definitivamente eram problema, mas me reservei a verificar tudo na manhã seguinte já que estava muito cansado para meu gosto. Arrumei as cortinas e fechei a janela pelo pino lateral com cautela. O vento se tornou mais forte e a sala pareceu descer três graus de temperatura subitamente.

Um arrepio desconfortável percorreu por todo meu corpo até minha espinha assim que senti um ar mais gelado ainda tocar em minha nuca. Meus músculos enrijeceram e minha respiração pareceu esquecer que deveria ser feita, meu corpo paralisou.

Aquele aroma.

O perfume doce da mistura de canela e maçã já tão conhecido me inebriou por completo. Era o seu aroma, seu perfume quase que natural. Meus olhos passaram a arder e senti as lagrimas ameaçando serem derramadas de maneira interrupta que seu que faria. Apertei a base da janela com força entre os dedos me negando a virar-me de costas novamente, mas o reflexo vivo no vidro mesclados aos pequenos flashes de luz a minha frente não me permitiam negar. Sorri melancolicamente virando-me de costas.

Permanecia a mesma. Os cabelos escuros e visivelmente macios caíam sob os olhos, assim como a pele quase translúcida e os olhos com aquele quase imperceptível brilho de excitação continuavam os mesmos. Ela sorria. Usava o mesmo terno escuro e riscadinho que insistira em usar naquela noite que deveria ser linda e especial para nós. Gostava de lembrar de grande parte daquela noite, exceto seu fim.

Minhas pernas vacilaram, mas não hesitei em tocar-lhe a face pelo menos uma última vez. Era fria como gelo, mas ainda assim permanecia a sorrir, como se nada tivesse sequer acontecido ou como se não soubesse o que havia lhe acontecido

Meu amor. — sibilou sem proferir uma sequer palavra, mas o movimento de seus lábios me dizia que havia sido chamado.

Apenas assenti com a cabeça, cego pelas lágrimas que insistiam em cair sobre minhas bochechas assim que senti seu toque frio em meu queixo em um pequeno afago. A temperatura pareceu cair cada vez mais e os relâmpagos a fora se tornaram mais fortes e brilhantes, mas nada parecia importar.

Em um rápido piscar de olhos sua face mudara por completo. Seus olhos antes tão brilhantes tornaram-se opacos, assim como um parecia estar fora do lugar e dilacerado de maneira inimaginável. O aroma antes doce e delicado dera lugar ao odor sufocante de carne decomposta assim como uma mistura de químicos que faziam meus olhos lagrimarem com apenas alguns segundos de exposição.

O vestido tornara-se sujo e rasgado em todas as partes possíveis, deixando suas pernas repletas de cortes profundos e não cicatrizados totalmente amostra, tão profundos que mostravam seus pálidos ossos. Parecia ter saído de um terrível acidente ainda com vida. O que não aconteceu.

Seus lábios repuxados e praticamente mastigados tentavam proferir algo, mas que mais pareceram apenas balbucios totalmente desconexos. Os cabelos caiam sobre os olhos, sujo e bagunçado, manchados por sangue ainda fresco impedindo de ver sua face por completo.

Exatamente como estivera naquela noite.

O grito que chegara a apenas cogitar sobre, travou em minha garganta impedindo-me de sequer proferir algo compreensível. Ambas as mãos cortadas e dilaceradas com dedos a menos ameaçaram tocar-me a face novamente, porém recuei, o que não pareceu o agradar.

Seus olhos adquiriram uma coloração totalmente escura e suas mãos foram de encontro com meu pescoço, apertando-me contra a janela fria com força. Um grito esganiçado escapou-me os lábios desavisado, se unindo a um grunhido gutural que saíra de seus lábios em protesto. Sufocava-me cada vez mais e parecia de que isso alguma maneira o deleitava.

Olhava-me com prazer e excitação.

Suas unhas putrefatas e quebradas cravaram-se em minha carne a dilacerando lentamente, talvez arrancando pequenos pedaços de pele que a dor tão intensa já não me permitia sequer notar. Se aproximava mais e mais com um sorriso sádico adornado aos lábios despedaçados, até que a distancia entre nós havia se tornado praticamente nula.

Seu rosto se aproximou perigosamente do meu e seus lábios foram em direção de meus ouvidos. Senti os pequenos pedaços de pele solta roçarem em meu pescoço e os lábios cortados e manchados por sangue e lodo se colarem em meu ouvido esquerdo.

Apenas mais uma vez, eu prometo. — disse com sua doce voz em um sussurro rouco e falho.

Seus dedos agora manchados com o sangue de meu pescoço largaram o local e deslizaram até meu peito coberto apenas por uma fina camiseta. Rodeara a área de meu coração com os dedos álgidos diversas vezes, como se para si tudo fosse um mero jogo, até tocar meu peito com a ponta do dedo indicador como se apontasse algo ali, fixo.

Apertou meu queixo com força entre a mão em que três dedos lhe restavam e cravou as unhas em minha mandíbula como se fossem pequenas agulhas, fazendo-me o olhar atentamente. Parecia querer que olhasse para sua face lacerada

Sorrira secamente uma ultima vez e por fim empurrou brutalmente meu peito contra a janela, senti literalmente seus dedos penetrarem em meu peito com violência e apertarem meu coração o arrancando de meu peito como uma simples peça de um brinquedo qualquer.

Rápido.

Indolor.

Frio.

E tudo se tornou escuro.

-

Acordei exasperado e com a respiração descompassada novamente. Rapidamente toquei meu peito sentindo meus mais do que frenéticos. Sentindo meu coração onde deveria estar.

Suspirei aliviado secando algumas das gotas de suor que molhavam-me a face por completo.

"Apenas mais uma vez, eu prometo". Repeti suas palavras para a escuridão do cômodo.

Fora tudo um sonho.

Talvez um dos mais reais que já tivera em minha vida inteira, porém ainda sim um sonho. Inacreditavelmente o medo que sempre sentira durante todas estas noites havia sumido. O medo e a solidão de todas as noites desde que ele partira felizmente pareceu ter sido encoberto por um inexplicável alívio.

Retirei o cobertor de meu corpo e olhei para o relógio na cabeceira.

0h03.

E pequenos arranhões começaram em minha porta.

July 14, 2018, 9:30 p.m. 1 Report Embed 2
The End

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Lilian Roberta Lilian Roberta
O que parecia um simples pesadelo revelou-se a pura realidade. Será verdade? Misterioso e ao mesmo tempo hipnotizantes, é capaz de deixar o leitor preso em meio a uma teia tecida minuciosamente. Maravilhoso!
July 15, 2018, 2:16 p.m.
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