O Pacto Real Follow story

paloma-machado1524178432 Paloma Machado

O veneno da traição corrói rapidamente e o antídoto mais eficaz é a vingança. Mas o preço é caro. Para se firmar um pacto não basta apenas a vida, também é necessária a alma.


Fanfiction Games Not for children under 13.

#Ilha-das-Sombras #Kalista #lol #League-of-Legends
Short tale
1
5.0k VIEWS
Completed
reading time
AA Share

A Lança da Vingança

Depois da morte de minha amada mãe, meu pai cuidava de mim com exagerado zelo. Eu era expressamente proibida de sair das redondezas do castelo sozinha, só podia ir à floresta acompanhada de uma escolta formada pelos melhores cavaleiros, e em hipótese alguma deveria ultrapassar os limites do reino. Eu passava a maior parte do tempo presa dentro daquela fortaleza de pedras, só saía algumas poucas vezes para as aulas de hipismo com Afonso, meu instrutor, um senhor de meia idade muito carismático.

Meu décimo aniversário já havia chegado e como sempre ele fora celebrado com grande fervor e fartura... Mas sem amigos. O presente que meu pai sempre dava era um desejo, eu poderia pedir qualquer coisa. Todas as tardes, me debruçava sobre a janela do quarto para olhar as outras crianças correndo alegres para fora dos muros, foi numa dessas observações que algo estalou em minha mente.

Pulei da cama e corri até a sala do trono, meu pai encontrava-se sentado espalhafatosamente como sempre.

— Papai! Papai!

— O que foi minha princesa? – ele se ajeitou sobre a almofada.

— Já sei o que quero ganhar. – Subi saltitando os degraus do altar.

— Venha aqui – ele deu alguns tapinhas sobre a própria coxa – diga-me o que quer?

Pulei rapidamente para seu colo.

— Eu gostaria de brincar com as outras crianças no bosque – revelei, evitando seu olhar.

— Querida, já falamos sobre isso – ele suspirou.

— Por favor – supliquei. — Não vou para a floresta profunda, eu apenas quero fazer alguns amigos, me sinto sozinha aqui.

— Mas você tem o Afonso, a Felícia, a Eugenia... – ele contava nos dedos, logo percebendo ser um número muito pequeno.

— Afonso e Felícia são adultos e nossos criados, eles não têm muito tempo para brincar comigo, e Eugenia... Aquilo não é uma prima, é um castigo.

— Ela não é má – papai acariciava meus cabelos, longos, castanhos e cacheados como os de minha mãe.

— Não. Apenas perversa – revirei os olhos. – Por favor, papai.

— Já disse que não Alda! Não insista. – Ele me tirou de seu colo.

Meus olhos se encheram de lágrimas, saí correndo pra fora do castelo, em direção aos estábulos. Empurrei a porteira e fui até a cocheira de meu corcel, coloquei a sela e montei, cavalgando depressa para fora dali. Aquela era uma das poucas coisas que eu amava na vida, a sensação de correr livre pelo campo, com o vento a gelar a face e enroscar o cabelo, nada iria me impedir de fazer aquilo.

— Senhorita Alda! Volte, por favor! – Afonso gritava em frente à estrebaria.

Incitei o cavalo a correr mais rápido e sem perceber já havia adentrado a floresta. Tentei puxar as rédeas, mas o equino parecia ter se assustado com o barulho dos galhos que se partiam sob seus cascos.

— Pare! Pare! – sem saber o que fazer, entrei em desespero. – Socorro!

De repente outro cavalo surgiu correndo ao meu lado, montado nele estava um garoto de cabelos negros levemente cacheados, vestindo roupas simples e de cores neutras.

— Segure – ele me estendeu a mão direita. – Rápido!

Agarrei sua mão com força e ele me puxou para cima de seu cavalo, ele foi desacelerando aos poucos, até parar. Meu corcel continuou cavalgando desesperado, cruzou os limites do reino e desapareceu.

— Pobre animal – o garoto lamentou o destino do cavalo. – Você está bem?

— Sim... Obrigada. – O coração quase me escapava pela boca.

— Alda! – meu pai apareceu seguido por meia dúzia de cavaleiros, ele saltou de sua montaria e correu até mim. – Você está bem querida?

— Sim pai... – Desci do cavalo, o garoto fez o mesmo.

— Quem é esse garoto? Ele te sequestrou?! – papai me empurrou para trás.

— Não! Ele me salvou! – Expliquei.

— Oh... – o rei se aprumou. – Como se chama garoto?

— Danilo – o garoto respondeu de imediato.

— Pois bem, jovem Danilo, nos guie até sua casa.

Seguimos até uma pequena fazenda e fomos recepcionados por uma mulher de aparência abatida, mas de sorriso caloroso.

— Rei Cícero, princesa Alda – ela nos reverenciou. – O que os trás a minha humilde moradia?

— Seu filho é um verdadeiro herói – disse o rei dando tapinhas no ombro do garoto.

A mulher pestanejou sem entender.

— Ele acaba de salvar minha irresponsável filha de um fim terrível – exagerou como sempre. — Um rapaz muito corajoso e hábil na arte da montaria. Quero lhes retribuir o favor de alguma forma, talvez um lugar no palácio? – Cícero sugeriu.

— Agradeço pela generosa oferta vossa majestade, mas tenho um apego muito grande a esta fazenda. Pena meu marido não estar aqui para presenciar tal momento de orgulho – a mulher fungou.

— Sinto muito – meu pai compartilhava do sentimento da perda. – Quantos anos tem rapaz?

— Quinze – Danilo respondeu.

— Bom. Ele daria um excelente cavaleiro, não tenho como ignorar este fato.

— Mas ele é apenas uma criança – a mulher preocupou-se.

— Não agora. Ele seria treinado e quando tivesse idade o suficiente, poderia entrar na guarda real.

Os olhos dela brilharam.

— Eu poderia dar condições de vida melhores à minha mãe? – Danilo perguntou.

O rei acenou com a cabeça.

— Então eu aceito – o garoto afirmou com convicção.

— Muito bem! Amanhã cedo meus homens virão te buscar – o rei sorriu contente.

Não sei o motivo, mas eu também havia gostado da ideia, talvez assim finalmente fosse ter um amigo. 


Oito anos depois.

Corri para o bosque e me escondi atrás da fonte, ele estava me procurando a mais tempo do que o esperado, talvez eu finalmente tivesse o despistado. Vários anos já haviam se passado e ainda continuávamos com aquela brincadeira, muitos viam aquilo como tolice, mas para nós era a forma de manter nossa amizade intacta.

Cansada de correr, sentei no chão, encostando-me à pilastra e estiquei as pernas.

— Desistiu?

— Ah! – Pulei ao ser descoberta em meu "esconderijo" – Danilo! Você me assustou.

— Essa não era a intenção? – ele sorriu.

Danilo havia entrado na guarda real há cinco anos e em poucas horas seria nomeado general. Com apenas vinte e três anos de idade já havia conquistado inúmeras honras, muitos de seus companheiros estavam felizes por sua promoção, pois sabiam de seus grandiosos feitos, de suas inigualáveis habilidades e de que sem dúvida ele era merecedor. Mas claro que muitos veteranos o odiavam por isso, chegando a exigir que o rei elegesse outro cavaleiro com mais experiência, e quando foram ignorados, alguns chegaram a abandonar a guarda.

— Acho que está na hora de voltarmos. – Bati a poeira de meu vestido. – Ansioso?

— Na verdade não muito, já espera por isso – Danilo respondeu com falso desdém.

— Hunf! Convencido.

A noite caiu e o salão de festa foi iluminado pelas centenas de velas acesas sobre os castiçais, colorido pelas vestimentas brilhantes e elegantes da realeza.

E lá estava ele, em uma das poucas vezes que o via desprotegido de sua armadura e desempunhado de sua espada. A farda azul marinho adornada pelo ouro e a expressão séria que lhe dava um aspecto de imponência, certamente alguém que se devia respeitar, confiar ou temer.

Mas eu o via com outros olhos e isso já acontecia há algum tempo. Meu coração acelerava ao admirá-lo, seu cheiro aflorava-me a pele e seu toque queimava meu corpo. Eu já não era mais uma menina, meus sonhos tão pouco infantis, eu queria que ele visse a mulher que clamava dentro de mim, que soubesse de meus mais obscenos desejos.

— Alda – ouvi meu nome e despertei-me.

— Senhora Emília – cumprimentei-a educadamente.

— Queria que Leonel estivesse aqui, quase não consigo conter as lágrimas, Danilo está realmente incrível – a mulher pestanejou.

— Seja onde seu marido estiver, tenho certeza de que ele pode ver isso – segurei gentilmente as mãos de Emília.

— Minha jovem, – ela acariciou minhas bochechas – eu vejo como você olha para meu filho.

Eu corei ligeiramente.

— Não perca tempo plantada aqui, vá até ele – ela me deu um empurrãozinho nas costas.

Olhei-a incrédula, mas então sorri animada com o encorajamento. Ergui levemente a saia do vestido e aprecei-me para ir conversar com Danilo, mas assim que o avistei novamente ele já estava acompanhado. Era Eugenia, minha prima de primeiro grau, arrogante e pretensiosa como ninguém. Suas mãos, vaidosamente encobertas por luvas luxuosas, acariciavam os ombros do futuro general.

— Me sinto muito mais segura agora com você no comando – Eugenia sibilava – e está farda lhe cai muito bem.

— Obrigado, – Danilo fez um gesto com a cabeça – mas toda a guarda é merecedora.

— Claro, mas aposto que eles concordam comigo – ela sorriu e estreitou os olhos como uma cobra venenosa.

Danilo varria a multidão com os olhos como se procurasse por um refugio – Alda! – Assim que me viu, desvencilhou-se das garras de minha prima e veio ao meu encontro.

— Boa noite, Sir Danilo – cumprimentei-o dobrando levemente os joelhos, inclinando o queixo para o lado.

— Princesa – ele se curvou elegantemente.

Começamos a rir de nosso pequeno teatro, afinal não era assim que nos tratávamos, apenas fingíamos na frente dos outros, não queríamos que o rei ou qualquer outro influente soubesse que o mais jovem general tratava a princesa de forma tão informal. Apesar de não me importar, de preferir que me tratasse de forma simples, havia muitas pessoas que poderiam usar de artimanhas para nos prejudicar, assim como fizeram quando éramos pequenos.

Danilo e eu costumávamos cavalgar toda tarde, até alguém encher os ouvidos de meu pai dizendo que um plebeu não deveria ficar tão íntimo da princesa, ainda mais sendo um garoto. Claro que fiquei furiosa na época, mas acabei obedecendo para que a situação não piorasse, pois ainda podíamos nos ver pelos corredores do castelo.

E isso continuou por muitos anos, conversas sussurradas pelas paredes de pedra, cavalgadas nos pastos encobertos pela penumbra do amanhecer, caçadas inocentes pelos bosques floridos.

— Concede-me esta dança? – Danilo me estendeu a mão.

— Claro! Afinal a honra é minha esta noite.

Andamos até o centro do salão e outras duplas se juntaram a nós, formando um círculo. A música típica começou a tocar e os passos que aprendíamos desde pequenos fluíam no ritmo do fandango. Após uma volta, as duplas trocavam, agora era meu pai quem segurava minha mão.

— O que está achando querida?

— Acho que a pergunta deveria ser feita para o general Danilo – dois passos para a esquerda, dois passos para a direita.

— Não vejo necessidade – assim que giramos pude ver Eugenia novamente enroscada a Danilo.

Eles riam descaradamente. Não conseguia imaginar minha soberba prima dizendo algo que causasse tamanha graça. Foi então que nossos olhares se cruzaram e um sorriso maldoso formou-se em seus lábios. Aquela víbora estava aprontando algo. As duplas trocaram de novo, então voltei para Danilo, mas não conseguia encará-lo.

— O que foi? Não se sente bem? – ele pegou em meu queixo para me fazer olhá-lo.

— O que Eugenia disse de tão engaçado? – perguntei mais como se fosse uma acusação.

— Nada demais, só estávamos rindo de Baltasar – ele me encarou e sorriu de canto –. Por acaso está com ciúmes?

— E se eu estiver? – disse sem pensar. Meu rosto ferveu, não por vergonha, mas sim por raiva.

Parei de dançar e soltei-me de suas mãos. Precisava respirar ar fresco, e no momento vi vantagem em ter uma varanda tão grande por perto. Saí às pressas do salão e me debrucei sobre o parapeito, ali de cima era possível ver as ondas chocando-se contra o paredão, jogando salpicos de água no ar.

Esperei que Danilo viesse atrás de mim, um desejo muito mesquinho, eu sei, mas queria saber se meu sentimento era recíproco. Porém, quem apareceu foi meu pai, acariciando o topo de minha cabeça.

— Andei pensando...

— Uau! – debochei por estar nervosa. Rei Cícero me olhou torto, mas suspirou em tolerância.

— Você já tem idade mais que suficiente para se casar – ele disse.

— Dezoito anos presa em um castelo não me deram experiência suficiente para sobreviver a um casamento arranjado – eu disse com o queixo apoiado sobre as mãos.

— Sua mãe e eu fomos muito felizes – ele disse juntando as sobrancelhas.

— Não é isso que está escrito no diário dela, escondido no fundo do guarda-roupa – ele me olhou boquiaberto. – Estou brincando – ri em pensamento por saber que mais tarde ele iria procurar pelo tal diário.

— Certo – ele pigarreou. – Você sabe que Danilo é meu braço direito.

Isso me surpreendeu. Será que meu pai desconfiava de nossos sentimentos ou estava fazendo aquilo por pura comodidade?

— Mas ele é um plebeu... – comentei com certa dor. – O reino não o aceitaria como sucessor.

— Agora ele faz parte da mais alta patente e não é novidade que vem sendo agradado e reconhecido por muitos no reino e fora dele – o rei fez uma pausa. – E eu não entregaria minha preciosa filha a qualquer um.

— Papai... – eu o abracei.

Depois da cerimônia pude ver Danilo e meu pai conversando, até Eugenia se meter entre os dois chamando atenção com sua risada fanha. Eu finalmente pude sair daquele ninho de serpentes, corri até o cais, tirei os saltos que feriam meus dedos e mergulhei os pés no mar. A água salgada parecia acalmar tanto meus calos quando meu coração.

— Uma noite dessa não deveria ser desperdiçada dentro de um salão lotado – Danilo descalçou as botas e se sentou ao meu lado.

— Também deveríamos dedicar algum tempo à contemplação da lua e das constelações – mexi os pés provocando pequenas ondulações na água.

— Certamente. – Ele aproximou sua mão da minha, mas recolhi-a – O que te acontece?

— Não sei... – Pairei a mão sobre o peito.

— Alda... – Danilo segurou meu rosto entre suas mãos grandes e quentes.

Senti minhas pupilas dilatarem e meu coração encolher-se.

— Eu te amo Danilo... – As palavras deslizaram para fora de minha boca.

Ele soltou meu rosto e desviou o olhar. Será que eu havia interpretado tudo erroneamente?

— D-desculpe, eu não devia... – Ele calou meus lábios com o dedo indicador.

— Eu também Alda.

Lágrimas de felicidade inundaram meus olhos, por elas pude ver embaçado o sorriso largo de Danilo. Ele me beijou com paixão, enrolei os dedos em seus cabelos negros e extasiei-me com aquele sentimento.


Seis meses depois.

Desde minha festa de quinze anos nunca mais tinha visto tanta gente naquele castelo. Reis e rainhas, príncipes e princesas, condes e condessas de todos os cantos do continente, pessoas que eu jamais imaginei ver na vida e outras que eu esperava nunca ter conhecido. Da família de Danilo estavam presentes apenas sua mãe e alguns primos até pouco desconhecidos, mas que aparentavam serem pessoas humildes e de boa índole.

A festa havia começado às dez da manhã, com um reforçado café na casa de Emília, ao meio dia seguimos de carroças enfeitadas até a igreja matriz que havia sido decorada por narcisos de várias cores. Danilo estava ao pé do altar com seu traje perfeitamente passado, meu pai me acompanhou e me entregou ao noivo com lágrimas nos olhos, mas eu sabia que eram de pura felicidade.

— Sua mãe deve estar tão contente – Rei Cícero disse em meio aos soluços.

— Eu sei que está – beijei-lhe a bochecha.

Os convidados cobriram-nos de arroz e pétalas assim que saímos da catedral, era um costume divertido, apesar dos grãos pinicarem um pouco. Barracas haviam sido montadas no campo, várias mesas cobertas por comidas e bebidas, música tradicional e risos para onde se olhasse.

Por menor que fosse uma festa de casamento, uma coisa era certa sobre nossa cultura, sempre haveria muita, mas muita comida. A festa foi até a lua ultrapassar o meio do céu, eu já tinha perdido meus sapatos e minha tiara, o rei parecia a figura de um velho gordo largado bêbado em seu trono e Eugenia assanhava-se para todos os primos de meu marido.

— Será que Eugenia simpatizara com alguém hoje? – Dona Emília apareceu do meu lado com uma garrafa de vinho branco em mãos – Conde Vicente a segue com os olhos por onde quer que vá.

— Sinceramente, espero que ninguém tenha essa infelicidade – dei um último gole no vinho e estendi a taça vazia.

— Talvez ela se sinta solitária – Emília me serviu a bebida.

— Sim, uma víbora solitária. Espero que não se esgueire mais atrás de Danilo.

— Meu filho só tem olhos para você, minha nora querida – ela acariciou meu braço.

— É. Eu sei – Danilo dançava com os primos em uma roda de gritaria e agitação, vê-lo tão feliz fazia com que meus pensamentos ruins fossem levados para bem longe.

Ao amanhecer viajamos para a costa sul do país, passaríamos a lua de mel em um castelo de verão.


Um ano depois.

Danilo andava de um lado para o outro dentro do quarto, aquilo já estava me causando náusea. Há poucas semanas ele havia pedido ao Rei Cícero que o deixasse comandar uma expedição às terras do leste, mas novamente recebera um não absoluto como resposta.

Tanto o Exército quando a Marinha estavam cansados de irem sempre para os mesmo lugares, todos queria novas aventuras, desbravas terras desconhecidas ou arquipélagos misteriosos.

— Pare com isso Danilo, está me deixando tonta – pedi a meu esposo que se sentasse.

— Seu pai é um tolo por não querer expandir seus domínios – Danilo lançou-se de costas sobre a cama.

— Ele apenas tem medo de mandar seus homens para uma missão suicida – acariciei seu peito nu marcado por cicatrizes.

— Poderia enviar apenas alguns soldados para identificação... Meu sogro é fraco! – ele se levantou num solavanco.

— Não diga isso! Ele apenas quer o melhor para nosso povo – ofendi-me por meu pai.

— Claro, me perdoe – ele suspirou e beijou minha testa.

Mais tarde naquela noite, fui até a sacada para tomar um pouco de ar fresco, não me sentia bem. Pouco a frente pude avistar duas silhuetas camufladas nas sombras, a luz emitida pelo fogo bruxuleante das tochas nas paredes não era suficiente para iluminar os rostos dos indivíduos.

Na ponta dos pés fui pelo corredor até poder ouvir a conversa sussurrada. Sei que tal atitude era uma grande falta de educação, mas minha curiosidade era maior ainda.

— Estou cansado de receber ordens de alguém tão fraco e tolo! – queixava-se o homem. – Ele não enxerga que estamos desperdiçando um enorme potencial?!

— Ficou assim depois de se casar com minha tia, pior ainda depois que ela faleceu e então ele teve de criar sozinho aquela pirralha – disse a mulher gesticulando exageradamente.

— Nem me fale, não aguento mais fingir esse casamento – o homem suspirou e apoiou a mão sobre o cabo da espada embainhada.

— Não se preocupe meu querido, logo daremos um jeito nisso – a mulher se inclinou sobre o tórax do homem e o beijou.

Quem eram eles? E sobre quem estavam falando?

Espremi-me contra a parede e estiquei o pescoço para tentar ver melhor, mas quando estava preste a enxergar suas faces ouvi os passos dos guardas que estavam fazendo a ronda. Corri ligeiro para meu quarto e me embolei nas cobertas. Algum cavaleiro estava infeliz com seu trabalho e sua amante estava tramando alguma coisa. Eu precisava contar ao rei antes que uma tragédia acontecesse.

Logo de manhazinha fui até a cozinha do castelo para preparar algo para meu pai, queria fazer um agrado antes de incomodá-lo novamente com insatisfação de seus soldados.

— Alda? – minha prima estava sentada sobre a bancada, deu um pulo e quase se engasgou com um brioche. – O que faz aqui tão cedo?

— Provavelmente o mesmo que você – respondi pegando uma bandeja de prata e alguns talheres.

— Com certeza não... – Ela murmurou.

— Quero fazer um belo café da manhã para meu pai, ele parece estar com a cabeça muito cheia – peguei vários pães, doces, salgados, frutas e café.

— Hm... Aqui – Eugenia me deu um copo de suco de laranja. – Acabei de fazer, leve para o titio.

— Obrigada – olhei-a meio ressabiada, mas concordei em levar a bebida.

Eugenia deu um sorriso largo e continuou a empanturrar-se com os doces. Levei a bandeja com cuidado para não derramar nada, pedi que um dos guardas abrisse a porta do quarto de meu pai e depois a fechei com o pé.

— Bom dia vossa majestade – coloquei o banquete sobre a cômoda.

— Alda, minha menina. – Rei Cícero me deu um beijo na testa. – O que é isso? Danilo vai ficar com inveja.

Ri de seu comentário.

— É apenas um mimo para meu querido pai – estendi-lhe o copo de suco. – Até Eugenia ajudou.

— Isso é raro, tenho que aproveitar – ele riu e pegou um pão doce. – O que você quer me falar?

— Hm... – Vê-lo tão sorridente me deixava com dó de contar-lhe sobre o rumor. – Nada não, apenas aproveite seu café, precisamos de um líder forte e saudável.

Ele riu e continuou a comer, virou o copo de suco e em poucos segundos asfixiou. As veias de seu pescoço começaram a inchar e seu rosto a tomar uma coloração azulada

— Pai! – abri a porta e gritei para que os guardas ajudassem – Socorro! Preciso de um médico!

Algumas das servas que passavam por ali correram a procura do médico. Infelizmente ele chegara tarde demais, meu pai já estava coberto pela própria baba espumosa, com os olhos saltados e a pele roxa.

— Não... Danilo... Danilo! – corri pelo castelo atrás de meu marido, precisava saber se ele estava bem, não podia perder mais ninguém.

Saí abrindo as portas com supetões até encontrá-lo na biblioteca. Ele estava bem, mas não estava sozinho. Eugenia sorria maliciosamente enquanto balançava um frasco com um resquício de líquido verde. Pisquei centenas de vezes antes de me dar conta. Eram eles quem eu tinha ouvido na noite passada, não conseguia acreditar que tinham planejado o assassinato do Rei.

— Como... Como você pode? – olhei para Danilo tentando encontrar algum sinal de inocência, mas tudo que vi em seus olhos foi um chama ardente de triunfo.

Dei-lhe as costas e corri novamente, tranquei-me no primeiro cômodo que encontrei e despenquei sobre o chão. Minha cabeça latejava, minha garganta parecia se fechar e meu coração doía tanto que eu queria arrancá-lo do peito.

Há quanto tempo eles tinham um caso? Será que tudo não havia passado de uma farsa? Talvez sim, pois Danilo nunca de fato havia dito que me amava, era sempre "eu também" ou "sinto o mesmo"... Nunca um "eu te amo".

Depois de esgotar-me as lágrimas e o corpo tornar-se dormente, respirei fundo e abri os olhos. Um sentimento amargo brotou de meu interior e então um ar frio preencheu a saleta e algo surgiu diante de mim. Uma forma oval abriu-se no espaço a poucos metros da porta e um espectro de luz verde transpassou pelo portal. A entidade usava uma armadura envelhecida e uma névoa negra contornava seu corpo translucido. Ergui a cabeça e vi as três lanças que atravessavam seu peito.

Muito mais do que um conto ou uma lenda, agora o espirito da vingança pairava diante de meus olhos incrédulos.

— Me ajude, por favor... – supliquei.

Kalista tirou uma lança enegrecida do peito e a apoutou para mim.

— Alma pura – disse ela inclinando a ponta da lança sobre meu ventre.

Arregalei os olhos e pousei as mãos sobre meu abdômen. Senti um pulsar fraco, como o de um pequeno coração. Eu estava grávida.

O espirito continuou a me olhar impassível, eu deveria tomar uma decisão. Mas o que fazer? Eu não iria conseguir viver sabendo que os assassinos de meu pai seguiriam impunes pelo resto de suas vidas miseráveis. E aquela criança? Seria criada sobre mentiras e traições.

Sem precisar dizer uma só palavra Kalista largou a lança no chão, eu a peguei e direcionei a ponta para meu coração.

— Eu me juramento a vingança, – proferi em voz alta – com meu sangue e... – parei e senti o pulsar em minha barriga – nossas almas.

Com um golpe rápido finquei a lança em meu peito, a dor lancinante percorreu minha carne em milésimos, mas não era maior do que aquela que eu tinha sentido pela traição de minha própria família. Kalista assistiu sem expressão enquanto a vida esvaia-se de meu corpo e uma poça de sangue se formava sob ele. Meu cadáver jazia-se no chão, sentia-me leve como uma pluma. Olhei para o espectro e pude ver um filete de luz nos unindo.

— Sua causa é nossa causa – Kalista empunhou uma de suas lanças espectrais. – Morte a todos os traidores.

Agora ligadas, eu podia sentir toda a raiva e ódio que um dia tomaram conta do coração daquela criatura. Seus olhos se estreitaram e ela seguiu em frente, não caminhava de forma normal, dava pequenos saltos, como se flutuasse.

Primeiro encontramos Eugenia, encantando-se com sua própria imagem refletida em um espelho adornado de ouro, assim que viu o espectro atrás de si, jogou-se da cadeira e correu para a janela.

— Conheça sua própria tolice – a lança da vingança perfurou o corpo tremulo de minha prima, que rapidamente caiu oco sobre o tapete.

Seguimos em frente, agora pelo rastro impuro da alma de meu esposo. Eu o conhecia há tantos anos, como nunca tinha desconfiado de seus desejos sombrios? Não queria que nada disso tivesse acontecido, seria melhor se tivesse ficado presa no castelo anos atrás.

Atravessamos o grande salão e lá o vimos, sentado no trono sem nem esperar que o corpo de meu pai esfriasse. Danilo sorria macabramente enquanto rodava a coroa real em sua espada.

— Nossas lanças o encontraram – Kalista lançou o bastão metálico que acertou o braço direito de Danilo, o desempunhando da lamina comprida.

— Meu deus – ele arregalou os olhos e cambaleou sobre as pernas. – Não. Por favor, não!

— Não há misericórdia em nós – o espírito vingativo sacou outra de suas armas. – Assim acaba sua traição.

A lança atravessou-lhe o peito com tanta força que se pode ouvir o som do metal partindo os ossos de suas costelas. O sangue saltou por sua boca, manchando as vestes de tecido fino, quando seu corpo finalmente despencou-se frio, senti minha vingança completa. Mas apesar daquilo, ainda desejava que as almas podres de Danilo e Eugenia sofressem eternamente.

Kalista virou-se para mim e suas lanças ressurgiram encrustadas em seu tórax.

— Agora, como uma, percorreremos o caminho da vingança – um portal se abriu e eu a segui, adentrando na escuridão.

Minha nova missão havia começado, eu seria a ruína dos traidores. Eu seria Kalista, a Lança da Vingança.

May 29, 2018, 4:24 p.m. 0 Report Embed 0
The End

Meet the author

Paloma Machado A mente necessita de livros como uma espada precisa de uma pedra de amolar para manter-se afiada.

Comment something

Post!
No comments yet. Be the first to say something!
~