Mea culpa, mea maxima culpa Follow story

ariane-munhoz Ariane Munhoz

Havia sangue em suas mãos. O sangue das milhares de pessoas que não tinha conseguido salvar em seu tempo. O sangue das milhares de pessoas que não salvaria ali. - Centred Mirai Trunks


Fanfiction Not for children under 13. © Não copie

#Trunks #Future Trunks #Mirai Trunks #Dragon Ball #DBZ
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Veni, vidi, vici

Havia sangue em suas mãos. O sangue das milhares de pessoas que não tinha conseguido salvar em seu tempo. O sangue das milhares de pessoas que não salvaria ali.

“As pessoas dizem que o inferno não tem fim. Que é o nosso pior pesadelo. A face da nossa escuridão. Mas seja o que for... seja lá como for... Digo que o inferno é vazio. E todos os demônios estão aqui.”

Nathan – OTH


Nas ruas, há sangue, dor e desespero para todos os lados. Para onde quer que se olhe, para onde quer que se caminhe, ele está estampado nos olhos das vítimas daquela guerra sem sentido, uma onda de violência sem fim que só poderia ser parada por guerreiros verdadeiramente poderosos que pudessem combater aquele mal.

Um dia, Trunks, nós vamos liquidar todos eles. Um dia você será forte o bastante para me ajudar com isso.

Gohan não podia estar mais errado a respeito disso.

Por isso agora estava morto. Como todas as outras pessoas do futuro em que ele vivia.

Até mesmo seus pais.

Até mesmo Goku.

X

Por muito tempo, ele cogitou a possibilidade de lutar contra os androides porque queria vingar seu mestre.

Gohan havia morrido para protegê-lo porque Trunks era fraco. E aquela morte, aquele desespero fez com que seu sangue Saiyajin aflorasse. Fez com que finalmente o Super Saiyajin dentro dele nascesse.

Mesmo assim não foi o bastante.

Ele continuou sendo o fraco, o que tem que ser protegido.

Isso custou a vida de metade de uma cidade durante sua fuga.

E a gargalhada dos androides 17 e 18 ainda ecoavam em seus piores pesadelos para relembrá-lo do seu fracasso junto com o sangue de todas aquelas pessoas que clamaram por ajuda.

Pessoas que ele havia falhado em salvar.

X

Você precisa impedir isso, Trunks.

Foram as palavras finais de sua mãe. Os androides haviam encontrado o esconderijo, o laboratório.

Você é o único capaz de viajar para o passado e impedir isso. Esse medicamento – Ela havia lhe entregado um frasco – pode salvar Goku da morte por aquela doença. Faça isso, Trunks, mude o nosso futuro. Seja um raio de esperança para nós.

Ele não queria ir sem ela, mas sua mãe havia projetado a máquina do tempo para uma única pessoa.

Ninguém nunca fez isso antes, querido. Viagens no tempo. Eu estou brincando demais com a sua vida. Brincando demais de ser Deus. Talvez esse seja o meu castigo. – Ela sorriu tocando seu rosto uma última vez. O perfume doce que desprendia da ponta dos dedos dela impregnou em sua face. – Você é um príncipe, Trunks. Agora vá e mude o mundo da maneira que você pode mudar.

Ele ainda foi capaz de ver os androides destruindo a porta que dava acesso ao laboratório. E o sangue da sua mãe respingou sobre o vidro da janela da máquina do tempo.

Ela ainda sorria e seus lábios se moveram.

Eu acredito em você, meu amor.

Trunks queria ter a mesma confiança em si mesmo e acreditar que tudo ficaria bem.

X

Ali, tudo era diferente. As cidades não estavam destruídas, mas o mal, ah, esse já impregnava o mundo.

Aquele alienígena – um tal de Freeza – se gabava buscando por vingança. Se gabava querendo matar Goku.

X

Se achando o poderoso, o invencível.

Mas se ele havia perdido para Goku uma vez, que chances ele tinha?

X

Em seu futuro, nenhuma. Os androides o espanariam como poeira acumulada em suas botas. E quando ele lançou aquela quantidade absurda de energia sobre si, Trunks pensou em como seria fácil esmagá-lo.

Como um inseto.

Como os androides costumavam fazer.

X

Então ele entendeu.

Como era ser o poderoso. Como era poder aniquilar alguém tão facilmente. Freeza, manchando suas mãos com aquele sangue pegajoso e viscoso.

Sangrando.

Nada diferente de um humano. Nada diferente das milhares de pessoas que Trunks havia deixado para trás.

X

E então veio o pai.

Tão cheio de pompa, tão cheio de si. Tão confiante com aquele sorriso presunçoso até o momento em que Trunks o arrancou.

Não, não, por favor não. Não me mate! Eu te dou um dos meus planetas! O meu Sistema inteiro! Porfavorporfavorporfavor!

Como todas aquelas pessoas implorando por sua vida.

Trunks só conseguia enxergar o sangue e ouvir as gargalhadas ecoando em seus ouvidos.

Então o matou. Por vingança a todas as pessoas que não havia podido salvar. E mataria quantos outros fossem necessários vendo os rostos de 17 e 18 no lugar deles.

Aqueles que jamais poderia matar.

X

Mas talvez Goku pudesse.

Ele era forte, tão forte quanto sua mãe e seu mestre pareciam fazer nas histórias que lhe contavam.

Ele foi o primeiro Super Saiyajin, Trunks.

Gohan lhe dissera.

O mais poderoso.

Quando ele parou seus golpes com um único dedo, Trunks acreditou nas palavras de seu mestre.

E pensou que talvez com aquele medicamento, Goku pudesse impedir que os androides destruíssem seu futuro.

Que manchassem com sangue o seu lar.

X

Ele sempre achou que a mãe o amasse.

Goku.

Que embora tivesse ficado com seu pai – e ele tivesse morrido – era Goku quem ela realmente amava. Pelos olhos saudosos, pela maneira como falava dele.

Mas quando o viu pela primeira vez – Vegeta – e a maneira como sua mãe olhava para ele, Trunks teve certeza do quanto estava errado.

Ela o amava.

Tão intensamente que chegava a doer.

X

O seu pai. Aquele era o seu pai.

O Príncipe dos Saiyajins, o herdeiro de uma raça de guerreiros que deveria ser imbatível, mas que agora estava praticamente extinta. Exceto por ele e Goku, toda a linhagem pura havia sido destruída.

Mas ainda assim, seu pai agia como se tivesse um reino para governar.

Trunks nunca esqueceria o olhar de desprezo de Vegeta para ele. A inveja.

E naquele momento desejou nunca tê-lo conhecido. Desejou que Vegeta nunca soubesse quem ele era e que deixasse sua mãe livre.

Que tolo ele era. Mal sabia ele o amor que um dia o pai teria por ele.

Um amor que Goku somente poderia sonhar em compreender como pai.

X

E então havia ele, o seu mestre.

Não seu mestre verdadeiramente, mas quem se tornaria um dia.

Son Gohan.

Trunks não podia evitar o olhar saudoso para ele, o desejo de estar por perto e de abraça-lo.

A pessoa que havia cuidado dele durante toda sua vida.

O único que havia se importado com Trunks naquele mundo de terror, ódio e sangue.

O único que amara verdadeiramente, de todo seu coração.

X

Os androides que vieram não eram 17 e 18.

19 e 20 era como se denominavam, superiores a qualquer outro androide que pudesse ter vindo antes deles.

Trunks não acreditava nisso apesar de seu poder para absorver Chi.

E foi seu pai, cheio daquele orgulho e daquela presunção – transformado pelo ódio – que o destruiu.

Como um Super Saiyajin.

Como o príncipe que era.

Não, pensou Trunks quando o viu caminhando, a aura dourada em torno de seu corpo como um manto glorioso.

Não como um príncipe, mas como um rei.

X

Vivos.

Os androides estavam vivos.

Trunks queria destruí-los, acabar com eles antes que fossem despertos.

Mas seu pai, o teimoso príncipe, não queria escutar.

E quando soube que estavam despertos, quando desejou fugir ele o olhou com desprezo.

Covarde.

Trunks não era covarde. Era um sobrevivente. Com mais sangue nas mãos do que gostaria de lembrar.

X

Certa vez, lembrou ele, uma menininha pediu por sua ajuda. Seus pais haviam morrido, vítimas de um ataque desenfreado dos androides.

Trunks e Gohan a levaram para um grupo de sobreviventes e foi a primeira vez que se sentiu bem, como se de fato tivesse feito alguma coisa.

Meses depois, o local onde ela estava foi destruído.

Como se eles soubessem de cada movimento seu.

Como se fizessem de tudo para desgraçá-lo.

X

Ele não se surpreendeu ao ver 17 matar seu próprio criador. Não se surpreendeu ao ver a cabeça de Gero rolando em sua direção ou quando 17 a esmagou como um inseto

(Como ele havia esmagado Freeza)

e olhou para ele.

Por um momento, Trunks sentiu como se 17 o reconhecesse.

Apesar da viagem temporal.

Apesar de todos os anos.

X

Mais um.

Mais um androide, um tal de 16.

Um sobre o qual Trunks não sabia nada.

Ele tentou destruí-lo.

E seu pai o chamou de tolo quando ele falhou.

X

Quantas vezes mais falharia?

X

Quanto sangue dessa época também estaria em suas mãos?

Ele não sabia dizer.

X

Em algumas noites, ele acorda dos pesadelos gritando.

Nesses sonhos, vê sua mãe, o rosto ensanguentado, a chacina que os androides fizeram. Às vezes vê o próprio pai, Gohan, as pessoas com quem realmente se importava caírem um a um na sua frente, o sangue cobrindo seu corpo sem que possa fazer nada.

Muitas vezes ele ainda sente que não pode. Que nunca será capaz de fazê-lo.

X

Porque é um inútil, como seu pai costumava dizer.

X

A doença ataca Goku como o esperado, tudo porque, a cada transformação como Super Saiyajin, seu coração se torna mais e mais fraco. Com os medicamentos, Trunks só pode torcer para ele melhorar.

Mas seu pai não aceita esperar.

Ele não aceita depender de Kakaroto.

Ele nunca aceita depender de ninguém.

X

Mas, de alguma forma, quando ele olha pra sua mãe, Trunks tem a impressão de ter o vislumbre de algo que não sabe explicar.

Sempre que ela vai com o bebê Trunks nos braços até a nave para levar algo para Vegeta comer, Trunks tem a impressão de ver seu pai querer se aproximar.

Mas ele não se aproxima.

Ele só a despreza.

Trunks não entende por quê.

X

Seu pai acha que é o mais poderoso, mas ele não é.

Quando a androide 18 começa a ficar em vantagem, Trunks intervém na luta.

E sua espada se quebra.

X

Sua herança.

A espada que havia herdado de seu mestre.

Quebrada.

Como o próprio Trunks estava.

Ele desconfiava que nenhum dos dois tinha conserto.

X

Quando o 17 entra na batalha, Trunks vê como estava errado.

Eles não tinham nenhuma chance.

Nem mesmo com Goku.

X

Suas esperanças começam a esmaecer. Como eles podem vencer tamanho poder?

X

Mal sabe ele que o pior mal está por vir.

X

A outra máquina do tempo, a outra na qual ele não veio, esse é o verdadeiro mal. E ele tem um nome: Cell.

X

As pessoas começam a sumir. Uma a uma, deixando apenas as peças de roupa para trás. Um pesadelo. Um pesadelo com o Ki de Goku e dos outros guerreiros Z.

X

Quando Goku desperta, a esperança volta a aparecer de forma singela para Trunks. A chance de um novo treinamento, a luz de uma vitória que pode surgir.

Será tão errado assim desejar que outra pessoa tome seu fardo em seu lugar?

X

Mesmo assim, Trunks treina com todas as suas forças.

E pensa em todas as vezes em que falhou.

Em todas as desgraças que traçaram a sua vida.

Mas principalmente no sangue de sua mãe e no sorriso dela ao morrer.

Eu acredito em você.

Isso desperta sua ira.

O seu verdadeiro poder.

X

Orgulho.

Orgulho tolo e bobo.

Se Vegeta não tivesse se intrometido, 18 teria fugido. Se Vegeta não o tivesse impedido, Cell não teria se tornado tão poderoso.

E talvez não houvesse ainda mais sangue cobrindo as mãos de Trunks. Afogando-o em desespero e culpa.

Culpa essa que deveria ser de seu pai.

X

Apesar disso, quando Cell tenta matar Vegeta, algo explode em seu peito. É uma sensação que Trunks não sabe explicar. E ele usa todas as suas forças. Todas as forças que prometeu não usar para lutar com Cell.

Para proteger seu pai.

X

Seu pai.

Quando ele achou que seria capaz de proferir essas palavras assim?

X

E mesmo assim, mesmo com tamanho poder, ele fracassa novamente. E é a piedade de Cell que o deixa viver.

X

Uma competição. Um torneio de Artes Marciais. É naquele momento que Trunks compreende. O orgulho de Cell, ele herdou de seu próprio pai. Do sangue nobre dos Saiyajins.

X

E embora todos acreditem na força de Goku, é Gohan quem brilha no torneio. Como pode, Goku mandar seu próprio filho para morrer? Trunks não compreende. Não até vê-lo em ação.

X

Seu mestre. Batalhando com todo seu ser. Seu mestre, ainda que jovem, mais poderoso do que ele talvez jamais fosse.

Mais poderoso que o próprio Goku.

X

É naquele momento que Trunks se dá conta que aquele orgulho, é a fraqueza de todos. Até mesmo de Gohan. E ele não sabe como as coisas acontecem, mas simplesmente acontecem.

X

O golpe o atinge em cheio. Ele sente o calor se espalhando em seu peito. E a escuridão o abraça.

Por um momento, apenas o vazio. E Trunks acha que, depois de tanto falhar, isso é tudo o que ele merece. Mesmo que deseje encontrar sua mãe, seu mestre e todas as pessoas com quem ele falhou.

X

Vazio. Frio. Um oceano sem fim.

A morte era assim?

X

Não desista.

Continue lutando.

Você é forte.

X

Ele não era.

X

Você é. Eu não o ensinei a ser fraco. Levante.

X

Quando seus olhos se abrem, seu pai é a primeira pessoa que Trunks vê. E apesar de tudo, de negar aquele sentimento, Trunks o abraça.

E Vegeta o abraça de volta.

X

É a única vez.

A única vez em que seu pai demonstra afeto por ele.

Nunca mais faça isso outra vez. Jure pelo seu sangue Saiyajin.

E ele jura.

Quando se separam, Vegeta não olha pra trás.

Nem Trunks espera que ele o faça.

X

É difícil despedir-se de todos. É difícil retornar ao futuro. Mas Trunks sabe o que deve fazer.

Agora ele sabe.

E o sangue nunca mais manchará suas mãos novamente.

Ao menos não pela culpa.

Nunca mais.

N/A:


Essa fic, que é totalmente centrada no Mirai Trunks, conta, com detalhes, o que eu acho que passou na cabeça dele. Pode ser que muitas pessoas não vejam dessa maneira, mas eu penso que por todo o sofrimento e culpa que ele carregou, essa era a visão dele. Enfim. Espero que gostem!

March 1, 2018, 9:27 p.m. 0 Report Embed 3
The End

Meet the author

Ariane Munhoz Dona de mim, escritora, louca dos pássaros, veterinária e mãe dos Inuzuka. Já ouviram a palavra Shiba hoje?

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