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Lembranças, ainda que vagas

Dizem que não nos lembramos de nada a nos acontecer, antes dos primeiros quatro anos de vida. Será verdade? Deve ser sim. Pois nasci em munícipio do interior mineiro, mas, as primeiras longínquas reminiscências que carrego comigo, vem da capital. E acho que já tinha algumas estradas.


O vizinho, seu Juarez, homem bravo, de poucas brincadeiras, dono da casa de aluguel. Parecia haver uma laje, onde subíamos para roubar pinha... na varanda, a brincadeira de roda cruel: “vai morrer primeiro, vai morrer primeiro, vai morrer primeiro”, gritávamos para a irmã mais velha, só porque havia nascido antes. Interessante a lógica infantil.


Na rua em frente, a coragem de participar da pelada de rua, com meninos bem maiores, e sair com o joelho sangrando, em prantos, mas feliz, pela coragem de jogar no precário calçamento de pedra. Tenho um monóculo onde apareço chutando uma bola marrom, com escudo do Flamengo, de meiões brancos, numa postura digna dos maiores craques futuros. Hoje, não me ocorre o fato à mente.


Meu padrinho era um homem velho. Na época, devia ter mais de cinquenta (!), e subia a rua inclinada, com uma camisa cor de laranja e sua careca cheirando a cigarro; mas, não consigo mais divisar sua face. Me recordo porém, das bombinhas de asma, feitas com vidro e borracha. Noites havia em que me punha a sibilar, no colo de minha mãe... maus momentos.


São as primeiras e poucas recordações, as quais ainda tenho. São nebulosas, custam a me atingir, logo se desvanecendo. Alguns anos à frente, talvez na conta das sete primaveras, pululam outras mais vívidas. O menino bom de bola do colégio de freiras, mas franzino e pequenino, que se escondia no banheiro, para não brigar na saída, com o valentão bem maior. Surpreendido pelo pai, na janela do quarto andar, magoado pelo castigo. Tendo pesadelos com os monstros japoneses da TV, ou perambulando sonâmbulo pelo apartamento, a falar do time de basquete da extinta Iugoslávia. Ou perdido na praia, a procurar o salva vidas, com a irmã mais nova. Incomodado com o calção do uniforme da escola, que “pinicava”. O consolo era encontrar a Rosa, ou a Consuelo, durante os ensaios da bandinha, ao tocar o reco-reco.


Interessado em contar quantos fusquinhas passavam. As ruas eram mais alegres, com carros de diferentes cores, azuis celestes, abóbora, amarelos, vermelhos, beges, grenás. As pessoas a andar nas ruas eram mais magras. Observava muito, enquanto vendia gibis na esquina.


Não possuímos uma única célula daquelas épocas passadas, e, no entanto, conservamos memórias do que fomos, do que fizemos. Isto por si só, já configura um milagre. Temos tantas vidas dentro de nós mesmos, e não as deixamos aflorar. Se recordar é viver, o que, então, representa o morrer? Não dar vazão à própria biografia? Não criar?


Cora Coralina dizia ter todas as idades... o que temos, senão nossa vida e nosso passado? O enredo e seus personagens estão criados. Basta dar voz... sim, nossa esquecida voz narrativa, a descrever um roteiro tão real e emocionante, capaz de sensibilizar até os críticos mais despeitados.


A vida é arte. Infelizmente, nem todos são capazes de assim a conceber.


O mundo carece de arte. Carece de vida. Carece de humanidade.


Brindemos à vida.



Nov. 15, 2021, 8:26 p.m. 2 Report Embed Follow story
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The End

Meet the author

Max Rocha Um Fantasma literário ou alguém que apenas gosta de escrever... me interesso por ficção histórica e científica, suspense, misticismo e mistério com um toque de humor. Às vezes enveredo pelo tom crítico e motivacional do cotidiano. Escrevo ouvindo música instrumental relacionada com o tema no Spotify, ao lado da Duda, minha cadela australiana de 5 anos. The Phantom (O Fantasma) foi criado por Lee Falk, em 1936.

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Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
Teus textos sempre me proporcionam experiências boas e viagens a lugares agradáveis da mente.
November 16, 2021, 12:47

  • Max Rocha Max Rocha
    Que bom Arnaldo, obrigado! November 16, 2021, 14:34
~