khiltint Khil Tint

No inverno quente de Cabo Frio, Bernardo Baekhyun, um surfista popular da região e dono de um carisma único, acaba conhecendo Eduardo Kyungsoo, um estudante de arquitetura que não estava há muito tempo na cidade e que era o mais novo garçom da Donos do Sabor, lanchonete favorita do surfista. Com o evidente interesse de Bernardo, uma amizade, tão cheia de diferenças que se complementava, se inicia... e, junto dela, um sentimento que bagunçaria a mente e o coração de ambos.


Fanfiction Bands/Singers For over 18 only.

#baeksoo #brau #baekhyun #kyungsoo #surfau #slightcomedy #jongin #junmyeon #chanyeol #jongdae
1
701 VIEWS
In progress - New chapter Every 10 days
reading time
AA Share

Parte 1


Não havia lugar no mundo em que Bernardo mais amava estar do que no mar.

Era prazeroso sentir a água salgada envolvendo a pele enquanto tentava driblar as ondas, fosse a nado, fosse sobre a prancha, sentindo-se quase puro em seu momento de felicidade diária, que durava toda a manhã, por vezes não se importando em perder o horário e acabar saindo da praia quase no início da noite, cheio de fome. A definição de vida boa para ele era ali, na praia. O seu momento de paz.

Ter nascido e crescido em Cabo Frio foi uma benção para Bernardo Baekhyun que, desde pequeno, era apaixonado pelo surf. Passou a adolescência toda sobre as pranchas e, aos vinte e um anos — quase uma década depois —, continuava surfando por puro prazer, mesmo que tivesse aceitado ser instrutor numa escola que ficava na Praia do Forte, a praia que mais frequentava com os amigos.

Aquela sexta-feira não era diferente, estava um pouco distante da areia, remando enquanto olhava brevemente para trás e esperava o momento certo para subir na prancha e dropar a onda. Havia passado parte da manhã sozinho, nadando ou simplesmente jogado na areia, já que chegara cedo, mas tinha deixado sua prancha com Cauã Chanyeol — seu amigo e também instrutor da escola que trabalhava —, com quem havia marcado de encontrar junto de outros amigos para passarem um tempo juntos. Quando ele chegou, Bernardo finalmente pôde fazer o que tanto queria: surfar.

Contudo, aquele dia não estava para peixe, pelo menos não para um como Bernardo. E a culpa nem era das ondas, já que as sessões estavam boas e as ondas bem cavadas; o problema era que estava distraído demais para o próprio gosto, o que lhe fazia perder o timing de muitas manobras, tomando mais caldos do que um dia foi capaz. Um tanto frustrante aquele excesso de insucessos, aliás, porque era relativamente conhecido e muitas pessoas iam até ali vê-lo surfar. Baekhyun reconhecia que, além de um bom surfista e instrutor, era um rapaz bonito: o corpo de pele bronzeada era definido pelos exercícios físicos e pela prática constante do esporte; o rosto era bem desenhado e os cabelos queimados de sol davam um charme a mais, junto de sua simpatia natural. Entretanto, não foi ele que se definiu assim, disseram isso tantas vezes a ele que foi inevitável passar a acreditar… pelo menos simpático acreditava que era.

Daquela vez que prometeu ser sua última tentativa teve sorte, ou apenas vergonha na cara o suficiente para se concentrar no que fazia, conseguindo dropar a onda devidamente, ganhando velocidade para fazer um aéreo, uma de suas manobras favoritas, girando no ar como bem gostava de fazer. Aquela sessão foi gentil consigo e a aproveitou bastante para uma performance satisfatória após tantos erros, podendo ouvir pequenos aplausos assim que saiu do mar enquanto sustentava um sorriso largo no rosto por finalmente ter conseguido fazer o que queria desde que havia pego sua prancha e entrado na água.

Baekhyun era relativamente popular; não entendia muito bem o motivo dessa popularidade toda no início, já que não competia nem nada, contudo, passou a cogitar o fato de que ter uma loja online de materiais, roupas e acessórios relacionados a esportes radicais e de promover eventos na praia vez ou outra o tornou conhecido na região. Sempre que terminava suas sessões e pisava na areia da praia, era rodeado de pessoas, homens ou mulheres com diferentes intenções, e não foi diferente dessa vez. Não podia mentir, apreciava toda essa atenção e o fato de que seu estilo de vida era admirado por muitos lhe trazia uma sensação gostosa que não sabia explicar, mas que lhe deixava muito feliz.

― Até que enfim dropou uma onda sem tomar uma vacada, bro ― a voz divertida de Mateus Jongdae, seu amigo de longa data e parceiro no surf, se fez presente e Bernardo entendeu que era a deixa de se despedir da garota que estava gentilmente pedindo algumas aulas particulares, não sem pegar o número dela, óbvio. ― Nunca vi você cair tanto da pranchinha assim.

Voltou-se em direção à voz de Jongdae para saber que não só ele como seus outros amigos também se aproximavam. Cauã Chanyeol estava com um sorriso largo no rosto, provavelmente tinha rido da sua cara o equivalente a uma vida inteira. Idiota.

― Ah, cara, eu só estava distraído ― respondeu em um tom quase entediado pelos olhares de zombaria que todos os quatro possuíam. Nem Daniel e Juliana lhe pouparam dessa vez.

― Distraído com o que, porra? ― foi a vez de Chanyeol se manifestar, ainda rindo. Baekhyun olhou para o magricelo desengonçado (mesmo que ele se achasse O Galã) com uma das sobrancelhas arqueadas, meio desgostoso. O jeito dele de falar soava um tanto quanto debochado. ― Você parecia um iniciante ainda tentando dropar uma onda no tempo certo.

― Tsc… Com a merda da faculdade, né. A gente tá em época de prova e não peguei matérias muito simples nesse semestre. ― Bernardo começou a caminhar em direção às suas coisas, sentindo-se um tanto impaciente e ignorando os arrepios que o corpo queria dar cada vez que o vento atingia o tronco nu. Não estava exatamente quente naquele dia, mas insistia em não usar John ou qualquer tipo de segunda pele. ― A loja também deu uma queda nesse mês, então tô preocupado.

Sentia que estava em apuros, mesmo que não estivesse atrasado nas matérias e tivesse tirado todas as dúvidas que possuía com os professores. Por algum motivo que não entendia muito bem, estava inseguro com o seu desempenho, mesmo que suas notas nas primeiras avaliações tenham sido regulares ― o que, provavelmente, era o motivo de sua insegurança.

Mal alcançou onde havia deixado seus pertences junto dos de seus amigos e sentiu uma mão grande bagunçar seus cabelos. Ergueu o rosto e não evitou sorrir ao ver Daniel parado ali, tentando lhe consolar de alguma forma. Ele era seu veterano no curso de Medicina Veterinária e apenas se aproximaram depois de descobrirem que ambos gostavam de surfar. Niel era um rapaz tão alto quanto Cauã, a pele retinta quase brilhava ao sol, o corpo era forte e com umas gordurinhas aqui e ali — pois apesar de praticar esporte, ele comia feito uma draga e nunca negava uma cerveja, assim como Mateus — e trocava de penteado constantemente ― se fosse considerar o cabelo batidinho em comparação às tranças que ele usava no mês passado. Falava e gesticulava de um jeito tão bonito que, de início, Baekhyun não conseguiu evitar sentir-se atraído por ele e querer beijar os lábios fartos por dias consecutivos. Entretanto, foi gentilmente dispensado, já que Daniel tinha absolutamente zero interesse por outros rapazes e ele não seria uma exceção, mas ainda assim, mesmo após um ano de amizade e sem a atração que sentia antes, Bernardo ainda entendia o motivo de ter se interessado tanto por ele.

― Você vai se sair bem, vai por mim ― ele disse, com a voz meio cantada, de um jeito único de falar. Não era uma voz grave como a de Cauã, mas ainda era agradável aos ouvidos. ― Eu fiz exatamente como você, bro. Adiei a porra da biofísica e da bioquímica até bagunçar minha grade e não ter pra onde correr. Mas quando decidi fazer esses demônios, passei tranquilo.

― É… Você me disse. ― Bernardo riu sem graça, um tanto desconcertado, enquanto coçava a barriga. Os outros estavam tratando de arrumar as coisas para saírem da praia e decidiu fazer o mesmo. ― E tipo, eu não estou indo mal, mas é que ver a diferença de desempenho das outras matérias pra essas me deixa meio inseguro.

Daniel deu de ombros com uma expressão nítida de “é a vida, irmão”, antes de dizer: ― Às vezes, a única opção que você tem, é conseguir passar. Depois, com a prática, você vai entender melhor.

O que não era mentira, de qualquer forma. Foi assim com o surf para si, por que não poderia acontecer o mesmo com aquelas matérias que lhe aterrorizaram o semestre inteiro? Por isso, apenas sorriu e agradeceu, tentando sentir-se mais tranquilo porque tinha certeza de que conseguiria passar, pelo menos.

― Então, galera, já são mais de duas da tarde, e estou faminto ― Mateus voltou a falar enquanto socava uma toalha de praia mal dobrada na mochila. ― O que sugerem?

― A lanchonete do outro lado da rua ― Bernardo disse, sem pensar, porque era o melhor lugar do mundo para si na região. ― Não tem lugar melhor por aqui.

― Pois é, odeio concordar com o Dinho, mas ele tá certo ― Chanyeol concordou, fazendo Baekhyun revirar os olhos e ignorar a implicância do amigo. ― Aliás, você vai deixar a pranchinha comigo de novo?

― Pra você levar pra casa de novo? Não mesmo. ― Soltou um muxoxo, pegando suas coisas. ― Vamos fazer o seguinte: já que tenho que lavar a prancha, a gente pode tomar um chuveirão, que tal? Aí troca de roupa quem quiser e partiu lanchonete!

Foi consenso geral antes que os cinco se dirigissem em direção aos chuveiros para que pudessem tirar ― ou pelo menos tentar ― o máximo de sal e areia do corpo possível. Contudo, antes que Bernardo pudesse acompanhar os outros, Juliana se aproximou de si, com um sorriso manjado de quem queria alguma coisa. Eles mantinham a amizade de um jeito diferente, um jeito que deu certo até demais. Eram amigos há muito mais tempo, mas devido a uma brincadeira, a coisa coloriu e já estavam ficando ocasionalmente há quase um ano. Mas ainda eram amigos e não havia um sentimento romântico entre eles e sequer dava para saber qual era o mais desapegado.

― Vai ter aula hoje? ― ela perguntou enquanto andava do seu lado, um pouco atrasado em relação aos outros.

Juliana chamava a atenção tanto pela beleza, composta pelo rosto bem desenhado, cabelos cacheados e castanhos, corpo com curvas bem definidas e atraentes, quanto pela marra, que era evidente desde a forma como falava até sua postura e seu jeito de andar, que poderia intimidar pessoas mais introvertidas. Foi para ela que disse ser bissexual pela primeira vez, já que ela também era.

― Não. ― Baekhyun riu, como se fosse óbvio. ― Eu faço tudo pra não ter aulas nas sextas ou nas segundas. Por quê?

Ela se aproximou mais um pouco, olhando faceira.

― Se estiver muito estressado, passa lá em casa mais tarde… Tô sozinha esse final de semana ― disse, secando Bernardo de cima a baixo. “É. Faz algum tempo, já”, foi o que ele pensou. ― A gente bebe algo e eu te faço relaxar.

O rapaz mordeu o lábio inferior enquanto sentia o estômago afundar em certo prazer. Mas antes que pudesse dar alguma resposta, Juliana se afastou, adiantando os passos para que alcançasse os outros rapazes — que já estavam debaixo do chuveiro — e fazendo-o rir, pois ela já sabia que a resposta seria sim.

E o dia de Bernardo só melhorava.


🌴🌊🌴


A lanchonete Donos do Sabor poderia até ter um nome que soava prepotente, no entanto, Bernardo concordava com cada letra ali disposta para nomear o estabelecimento. Foi ali onde havia comido os melhores salgados de sua vida ― e os melhores sanduíches, tomado os melhores sucos, etc. Era seu lugar favorito na região depois da praia, sem dúvida alguma, já que era facilmente conquistado pelo estômago e soube que não teria mais volta desde a primeira mordida que dera na coxinha de frango com catupiry que vendiam. Passou a ir tão frequentemente, que se tornou amigo dos donos ― somado, é claro, ao fato de ser carismático e cara de pau o suficiente para conversar com todo mundo dali.

O local não era largo, mas tinha uma profundidade bacana e dava uma sensação de aconchego e família sem igual. Onde antes era colocado um banner que sempre tinham que trocar de ano em ano, agora havia um letreiro muito bonito, que se iluminava durante a noite, com dois personagens desenhados que lembravam muito o Sr. Pedro e a Sra. Flávia, donos do estabelecimento. As paredes possuíam, até a metade, um mármore cinza chumbo enquanto o chão era enfeitado de azulejos branco e azul, formando um quadriculado que não tinha muito a ver com o resto, mas era agradável. As mesas e cadeiras de madeira eram distribuídas de forma que não ficassem muito coladas umas com as outras e havia bancos altos de mesmo material em frente ao balcão. Em resumo, Baekhyun considerava o lugar bonito, limpo, em que se podia entrar, sentir-se em casa e, de quebra, comer um rango gostoso pra caramba.

Para a sorte dele, que havia se tornado ovolactovegetariano havia quase um ano, tinha suas opções “naturebas”, sem carne e com um ótimo sabor.

Foi pensando nisso que passou pela porta do estabelecimento todo animado após vestir uma camisa — a fim de respeitar o ambiente e não ficar com o peito desnudo por aí —, sendo seguido pelos amigos e já caçando um lugar para ficar, pois devido ao horário a lanchonete estava relativamente cheia. Como era conhecido, Bernardo sentiu necessidade de passar perto de algumas mesas para falar com uma galera que ficava no pico da praia e vez ou outra surfava com ele.

Entretanto, não demorou tanto naquilo, já que estava faminto e se dependesse de alguns ali, perderia o dia só papeando. Era extrovertido o suficiente para ser um tanto barulhento e sua presença, por mais estranho que isso ainda lhe parecesse, sempre causava um burburinho, o que logo fez com que a dona do restaurante aparecesse, com um sorriso gentil no rosto e o seu pouco tamanho.

― Dinho! ― Sra. Flávia chamou enquanto se aproximava, o que fez Bernardo cortar o assunto de vez com os rapazes que estavam tentando lhe convencer a organizar um luau, para que pudesse abraçar a mulher carinhosamente. ― Quanto tempo!

Baekhyun tinha aquele talento de fazer amizade com todo mundo, justamente pela sua falta de timidez e por ser muito falante. Com os donos do restaurante não foi muito diferente. Ainda no Ensino Médio, Bernardo sempre aparecia depois da escola para comer um lanche com seus colegas de sala. Era um ritual de sexta-feira o pessoal se reunir com seus trocados para juntar e pedir um lanche generoso, com refrigerante do bom, para substituir o almoço enquanto passavam a tarde ali. Isso quando não iam no domingo para comer o bauru carioca mais caro do menu, um misto de carne, frango e calabresa, junto de alguma fruta ao leite bem caprichado como bebida ― Bernardo costumava pedir de morango. Foi consequência acabar virando amigo dos donos e do filho mais novo deles, o Gabriel Jongin. Se tornou um sobrinho postiço, do tipo que é chamado para festas de família, e fez questão de que seus pais fossem próximos deles também.

― Fala aí, tia! ― Terminou o abraço apertado com um sorriso tão largo no rosto que deixava seus olhos já pequenos e caídos ainda mais diminutos. ― Eu sei… faz mais de um mês que não venho aqui. Desculpa, meu tempo apertou um pouquinho e ainda apertado por causa das provas…

― Eu sei, eu sei… não se preocupe quanto a vir aqui, querido. ― Sra. Flávia abanou a mão em frente ao rosto. ― Só que você pode me mandar mensagem, sabe? Eu tenho celular.

Baekhyun riu sem graça, coçando a lateral do rosto desajeitadamente. Ela tinha razão em lhe dar aquela leve puxada de orelha, porque tinha uma péssima mania de se comunicar mal quando estava distante. Se concentrava mais em uma ou outra rede social e deixava os aplicativos de mensagens instantâneas de lado, e justamente por isso não falava com sua tia há umas três semanas ― que foi a última vez em que trocaram mensagens para saber como as coisas estavam bem rapidamente.

― Desculpe de novo, tia. Eu vou me comunicar melhor com a senhora ― pediu com jeitinho, fazendo-a sorrir. De qualquer forma, Bernardo sabia que Flávia não estava realmente chateada, ela só queria mais contato daquele que era muito querido para si e não estava errada em exigir isso. Baekhyun se sentia feliz por saber que era tão importante, apesar de ter falhado com ela naquele ponto.

Logo ele percebeu que estava parado feito dois de paus no meio da lanchonete com sua tia e que a prancha começava a pesar em suas costas. Seus amigos já tinham se ajeitado em uma mesa ao lado, o que fez com que puxasse a tia pelo pulso educadamente ― e com toda a intimidade que os anos de amizade permitiam ―, apontando para os amigos, para que eles a cumprimentassem.

― Já conhece eles, né, tia? ― Bernardo questionou, depois que todos eles acenaram em cumprimento, preparado para apresentá-los, mas sendo interrompido pela mulher mais velha.

― Claro que conheço, garoto, não estou caduca ― Sra. Flávia respondeu, fazendo com que todos rissem baixinho da afobação quase aleatória de Baekhyun, mesmo que ele agisse daquele jeito com certa frequência. ― Vou sair para resolver algumas coisas. O Biel e o seu tio Pedro estão na cozinha, não vá embora sem falar com eles antes!

Despediu-se de sua tia com um sorriso largo no rosto antes de retirar a mochila que estava em suas costas para arranjar espaço na mesa de quatro lugares junto de seus amigos, pegando uma cadeira de uma mesa próxima e sentando-se ao lado de Juliana e de Cauã enquanto Mateus e Daniel ocupavam o canto, se espreguiçando sem se importar em parecer um folgado enquanto relaxava na cadeira.

― E aí, já pediram? ― questionou com a voz meio preguiçosa, contendo a vontade de bocejar, pois realmente se sentia preguiçoso naquele momento. Uma moleza que estaria em seu máximo após encher o estômago.

― Que nada, a gente estava te esperando ― Chanyeol respondeu, entregando o menu para Bernardo, que foi direto para a parte de comidas vegetarianas, onde percebeu ter itens novos no cardápio. ― Mas todo mundo aqui sabe o que quer e já chamamos o garçom. Só falta você se decidir.

Bernardo inclinou a cabeça levemente e franziu a testa, confuso. Desde quando Cauã chamava Gabriel de garçom daquela forma? Okay que eles tinham um abuso e outro, Chanyeol tinha essa mania de implicar com tudo e todos ― ele, na realidade, era bem infantil e ninguém da roda de amigos conseguia entender como aquele songomongo conseguia tantos contatos no Whatsapp ―, entretanto, no máximo o ouviu chamar Jongin de “calção melado”. Baekhyun preferia não se lembrar do final de semana que resultou naquele apelido maldoso, mas foi muito bem merecido o soco no peito que Cauã levou em troca. Vê-lo sem ar e fazendo um drama sem fim foi divertido até.

― Ué, eles agora têm garçom? ― resolveu questionar, meio desligado, e foi bem na hora que uma figura baixinha prostrou ao seu lado, com um caderninho em mãos e uma expressão agradável no rosto.

― O que vocês vão pedir? ― a voz grave e baixa atingiu os ouvidos de Bernardo, que se sentiu arrepiar levemente. Putz, que timbre gostoso.

Foi inevitável Baekhyun olhar para o rapaz de cima a baixo, permitindo que brotasse um sorrisinho torto em seu rosto, em uma expressão inconfundível de flerte.

Era de conhecimento geral o fato de Bernardo ser um… galinha. Muito galinha. Tinha a popularidade ao seu lado e, devido a isso, sua lista telefônica era extensa e era constantemente procurado, fosse por homens ou por mulheres. Até mesmo naquele momento na lanchonete sentia olhares sobre ele, deixando-o com sede de tanto que era secado por alguns e agradecendo mentalmente por ter seu espaço pessoal respeitado. Mas não se incomodava com aquilo, muito pelo contrário, era algo muito bem vindo para ele, que era inegavelmente safado.

Entretanto, ele tinha responsabilidade afetiva e nunca prometia nada a ninguém. Não era um rapaz romântico e, mesmo que fosse gentil e agradável com todos que saía ― pois não era de seu feitio ser babaca ―, nunca havia estado em um relacionamento sério em toda sua vida. Nunca havia sido apresentado aos pais de ninguém, nem mesmo comprado chocolates em datas especiais ou declarado seu amor e paixão. Nunca. E não porque fugia disso ou algo assim, mas porque jamais calhou de acontecer. Nunca ninguém pareceu incrível o suficiente para que seu coração falhasse uma batida ou o que quer que dissessem nos filmes românticos. Via alguém de interesse, flertava e, se desse certo, corria para o abraço. Por esse motivo que ele pulava camas mais do que poderia contar e, na real, não se importava muito com isso. Gostava do jeito que levava a vida, pois sempre era cuidadoso e responsável ao decidir sobre qualquer coisa.

Olhar para o garçom, naquele momento, deu a Bernardo um ar de algo novo. E, nossa, além da voz gostosa, ele era bonito pra caramba! O corpo parecia pequeno, porém, com a roupa que ele vestia mais o avental da lanchonete, não conseguia ver muita coisa. O rosto possuía um traço forte, atraente, de mandíbula marcada, sobrancelhas grossas, olhos grandes e uma boca carnuda tão bem desenhada… Nossa, que boca bonita.

Uau... fala aí, gatinho ― Baekhyun não conseguiu evitar em dizer em alto e bom som, fazendo com que os outros quatro parassem de falar gradativamente e, consequentemente, trouxesse a atenção do garçom para ele. ― Faz muito tempo que não vejo um belo tritão tão perto da praia assim… Você é novo por aqui?

O suspiro dado pelo garçom junto da leve mudança de expressão no rosto dele, já deixou Bernardo previamente avisado. Ficou observando o corpo do rapaz se tensionar enquanto ele olhava para os lados, parecendo muito tímido, como se procurasse uma oportunidade certa para fugir e ignorar a pergunta. Não a encontrou, no entanto, o que o deixou sem alternativas além de responder.

― Ahn… Se você é frequentador do estabelecimento e nunca me viu aqui antes, isso quer dizer que… ― Ele deu de ombros levemente e arqueou as sobrancelhas antes de prosseguir. ― Talvez eu não precise responder a uma pergunta tão óbvia.

Foram poucos segundos de silêncio até ouvir uma tentativa falha de Mateus e Daniel em prender o riso e logo depois veio a risada espalhafatosa de Cauã, onde o único som emitido era das palmas barulhentas que ele dava enquanto se escangalhava de rir.

― Porra, Dinho, tu não leva um passa-fora assim faz tempo ― Chanyeol ainda batia palma quando disse, mais alto do que Bernardo considerava justo para sua vergonha. Foi o suficiente para que Daniel começasse a gargalhar, também. ― Puta merda…

― Tritão, cara? Sério? ― Jongdae acabou dizendo, incontido e incentivado por Cauã. ― Que brega!

Juliana também não disfarçava a risada que dava, fazendo com que Baekhyun risse como a única opção viável no momento. Talvez tivesse soado realmente muito tosco, mas não conseguiu evitar. Mesmo meio envergonhado, não deixou de olhar novamente para o garçom enquanto passava a mão pelos cabelos um tanto quanto ressecados.

― Que foi? ― Direcionou o olhar para Cauã, tentando conter a própria risada. ― Eu não tenho culpa de ter ficado encantado o suficiente a ponto de pensar que a única coisa equiparável à beleza dele fosse um ser mitológico, ora.

O rapaz pigarreou e Bernardo reparou nas orelhas vermelhas dele, mesmo que a expressão dele fosse de alguém com zero interesse em suas cantadas furadas, nem um pouco impressionado com o seu flerte ruim.

― Você vai pedir, ou não? ― ele foi direto ao perguntar e Baekhyun decidiu ignorar os amigos que zoavam a sua tentativa tosca de dar em cima do rapaz.

Ainda sustentou uma breve conversa com ele, já que estava indeciso sobre as novas opções vegetarianas do menu e queria uma recomendação. No final, o garçom ainda foi gentil em listar os que mais gostava para Bernardo, que optou por um sanduíche, bolinhos de espinafre e suco de laranja. Os cinco amigos passaram boa parte da tarde entre conversas enquanto, vez ou outra, Baekhyun permitia que seus olhos fugissem para a figura baixinha, que andava de um lado para o outro na lanchonete, servindo os clientes. Ainda perdeu um tempinho numa breve conversa com Gabriel Jongin, que foi à mesa onde estava, aproveitando para chamá-lo para uma reunião no seu apartamento após o período de provas.

Foi apenas no momento em que estava prestes a sair da lanchonete, após a diminuição do movimento de clientes, que se atreveu a se aproximar do garçom novamente, que estava sentado em um dos bancos altos do balcão, rabiscando alguma coisa no bloquinho de notas.

― Ei, gatinho… Acho que comecei mal, mais cedo… ― Bernardo se adiantou em dizer, mas não abandonou o sorriso faceiro do rosto, tendo os olhos do rapaz sobre ele, quase entediado. ― Não acha melhor me passar o seu número pra gente conversar melhor…? ― tentou mais uma vez, rindo após receber apenas um arquear de sobrancelha como resposta. ― Posso, pelo menos, saber o seu nome?

Ele pareceu ponderar por uns instantes, assentindo logo após, aliviando a expressão sarcástica na face ― que apareceu nas duas tentativas de flerte de Baekhyun ― antes de responder:

― Eduardo. Meu nome é Eduardo ― disse, a voz grave mais uma vez atingindo Bernardo em cheio. ― E o seu?

― Eduardo… um nome bonito. Não esquecerei. ― Baekhyun alargou o sorriso e bagunçou os próprios cabelos levemente. Sentia um comichão engraçado na garganta, uma vontade de puxar assunto, de conhecê-lo melhor, no entanto, se conteve. ― Meu nome é Bernardo. Prazer em te conhecer, Eduardo. Espero poder te ver mais vezes.

― Se você vier aqui, você vai me ver sim ― ele respondeu e Baekhyun jurou ter visto a sombra de um sorriso no rosto dele.

Antes que se deixasse levar por aquela pequena impressão e pela sua vontade de saber mais dele, foi chamado pelos amigos, que estavam lhe esperando do lado de fora. Se despediu de Eduardo quase que timidamente, mesmo que apenas estivesse se contendo para não parecer tão interessado. Não era como se fosse adiantar depois de ser tão óbvio, então apenas seguiu seu dia, deixando para trás a figura quase marrenta do baixinho que lhe tomou a tarde. Tinha compromissos para a noite, e o convite de Juliana prometia um mec diferente daquela vez.

Mas, no fundo, ansiava para ver Eduardo novamente. E tinha certeza que isso aconteceria em uma outra situação. Só esperava ter mais sorte com ele na próxima vez.


🌴🌊🌴


― Certo, vamos fazer uma pausa.

O suspiro pesado que saiu dos lábios de Eduardo Kyungsoo denotava o grande cansaço que sentia diante dos estudos extras que, por força maior, estava sendo obrigado a fazer. Não acreditava ainda que havia ficado para a terceira avaliação em três das oito matérias que havia se proposto para aquele semestre. Se arrependimento matasse, já estaria enterrado a sete palmos desde a entrega dos trabalhos antes da segunda avaliação.

― Eu disse pra você que seria loucura pegar oito matérias ― Jonathan Junmyeon disse, com a voz cansada, tão arrependido quanto o seu melhor amigo. Era também colega de turma no curso de Arquitetura e Urbanismo e prometeu a Kyungsoo que estaria com ele no que desse e viesse. Tão bonito que chegava a ofender, com os fios negros arrumadinhos em um topete, corpo bem trabalhado na academia, voz delicada e agradável aos ouvidos. O seu defeito era ter um ar de riquinho metido a besta e ser um grandessíssimo sem vergonha. ― O pior é que fui louco de ir na sua pilha e peguei as oito matérias pra te acompanhar e agora quero apenas morrer.

Eduardo soltou um riso abafado, concordando com a cabeça. Talvez tivesse errado quando achou que o semestre passado seria o suficiente para que pudesse se adaptar à decisão dos pais de saírem da capital e se mudarem para o litoral, optando por Cabo Frio apenas porque era onde sua tia ― irmã de sua mãe ― morava. Para seus pais e sua irmã, a decisão de se mudarem para o litoral em busca de mais tranquilidade foi muito fácil e planejada, mas para Kyungsoo foi muito estressante, devido à transferência de unidade e ao novo ambiente, as novas pessoas que deveria conhecer, outros professores para lidar…

Sua sorte foi que Jonathan se aproximou e a cara de pau dele tornou a amizade mais fácil de acontecer, não demorando para se tornarem melhores amigos com a sensação de que se conheciam desde sempre. Foi ele que ajudou Eduardo a lidar com o primeiro semestre turbulento em Cabo Frio e que comprou a loucura dele de pegar oito matérias no semestre atual — sendo que os dois eram relativamente preguiçosos, apesar de inteligentes. Foi Junmyeon também que o incentivou a aceitar a proposta dos tios de trabalhar na lanchonete deles ― Kyungsoo teve que fingir que não foi uma tentativa do amigo de conseguir lanche gostoso gratuitamente.

E tudo levou à realidade atual, em que ambos estavam sentados na mesinha do quintal de seus tios, de frente para a tentadora e enorme piscina que eles tinham, um tanto quanto desesperados sobre o impacto que a reprovação de três matérias num único semestre poderia causar no CR.

― A gente aprende com os erros, né… ― Eduardo disse, sentindo-se um cadinho idiota, porque teve uma oportunidade de desistir da loucura no período de trancamento de matérias e, mesmo assim, persistiu. Agora estava com os olhos cansados e ardidos, leves enxaquecas, corpo rígido pelo estresse e inconformidade pelo seu fracasso na segunda avaliação e quase disposto a decepcionar seus pais, mesmo que aquilo lhe desesperasse ainda mais. ― Achei que pudesse levar numa boa como o Biel leva pegando oito matérias no semestre.

― Aí é que está, né, querido. ― Junmyeon acabou soltando uma risada quase sarcástica enquanto organizava as folhas que haviam deixado espalhadas sobre a mesa. Acima do sarcasmo, ele parecia estar indignado com a ingenuidade de Kyungsoo e com a própria, por ter achado que um preguiçoso como ele seria capaz de se sair bem e com saúde mental intacta num semestre em que pegou o dobro de matérias que costumava pegar, de cálculo ainda por cima. ― Gabriel não faz arquitetura.

― Você está querendo insinuar que gastronomia não é difícil, Jonathan? ― o tom indignado de Gabriel soou pela porta, onde dava para a cozinha da casa dele. Junmyeon chegou a dar um pulinho na cadeira de susto pelo tom irritadiço de Jongin, por pouco não derrubando os resumos que segurava.

Eduardo, ao presenciar aquilo, quase bateu a mão na própria testa, sabendo como o primo era tempestuoso e levava as coisas para o lado pessoal muito facilmente, mas não consertaria a burrada do amigo, estava cansado demais para lidar com picuinhas. O que achava meio absurdo era Junmyeon falar aquele tipo de coisa sendo que parecia ser meio a fim de Gabriel ― que nunca lhe deu pistas se, por um milagre, correspondia aos interesses de Jonathan. E bom, seu primo era um partido e tanto, porque quem não iria querer um rapaz alto, que cozinha bem, inteligente, organizado e muito bonito? E quando dizia bonito, ele era mesmo bonito, uma beleza que facilmente estaria numa dessas passarelas de Fashion Week da vida... Mas Gabriel preferiu a culinária e a via de forma quase artística, por isso se ofendia com qualquer menor insinuação de desvalorização da área.

A cara dele era de poucos amigos enquanto olhava para Junmyeon e segurava uma bandeja com sanduíches que havia prometido preparar para os dois ― já que somente eles estavam no sufoco e Gabriel estava aprovado com notas muito boas desde a segunda avaliação. Se Jonathan fosse inteligente o suficiente, teria que consertar essa situação logo. Eduardo não queria ficar sem comer seu sanduíche.

― Não foi isso que eu quis dizer! ― Jonathan respondeu rapidamente, com um tom quase indignado na voz. Ele largou as folhas sobre os livros ali empilhados e tirou o óculos que usava. ― Eu disse no sentido de serem cursos diferentes e que o Edu não pode se basear na sua rotina de estudos ― explicou, sendo encarado por Gabriel, que se aproximava com a bandeja e deixava os sanduíches sobre a mesa.

― Certo… Vou cair na tua dessa vez… ― Jongin resmungou antes de se sentar com eles. Eduardo achava-o meio sensível demais, ao mesmo tempo que achava que era um tática dele para fazer as coisas serem favoráveis para si mesmo. ― Se você me comprar um açaí.

Kyungsoo engoliu uma risada. Gabriel era esperto demais. E antes que Jonathan pudesse se indignar, Eduardo resolveu mudar de assunto, suspirando ruidosamente e batendo levemente na mesa antes de falar:

― Então, eu preciso te perguntar uma coisa, Biel ― adiantou-se, aguçando a curiosidade dos dois que estavam na mesa. ― Mas antes… Cadê a Sarah? ― questionou, sentindo falta da irmã, já que ela deveria estar ali para comer com eles.

― Foi comprar um refri pra gente ― Gabriel respondeu e relaxou na cadeira, abrindo as pernas mais do que Eduardo considerava educado. ― Desembucha.

― Certo… ― Kyungsoo assentiu lentamente, tamborilando com os dedos sobre a superfície áspera da madeira daquela mesa reformada e pintada de branco e ignorando o resmungo de Jonathan sobre ter que esperar ainda mais para comer o sanduíche. Enquanto isso, buscava uma maneira de abordar o assunto, contudo, percebeu que não havia outro jeito de perguntar. ― Você parece ser muito amigo daquele garoto… o Bernardo ― iniciou, ainda concentrado nos próprios dedos, mas percebendo que havia chamado a atenção dos dois. ― Quero um relatório completo.

Não queria parecer que estava interessado, pois não estava, no entanto não podia negar que estava curioso para saber mais dele. Bernardo era um homem bonito ― muito bonito ―, descolado e parecia sempre rodeado de gente, já que na própria lanchonete podia ver como as pessoas estavam sempre buscando pelo garoto, o tempo todo. Não era fofoqueiro o suficiente para procurar saber qual era o motivo para o constante interesse do pessoal através de conversas, mas… talvez não fizesse mal saber daquilo através de Jongin. Tudo o que não queria, porém, era ver a expressão maliciosa no rosto de Gabriel, como se realmente tivesse outras intenções na sua pergunta.

E acabou por ver exatamente a cara que não queria quando levantou o rosto diante do silêncio muito longo de seus amigos.

― Hm… Está interessado, é? ― Gabriel questionou, com um sorriso faceiro, o que fez Kyungsoo negar energicamente com a cabeça.

― Olha, não me surpreenderia o interesse, o Dinho é um pedaço de mau caminho mesmo… ― Jonathan comentou, tirando um pedacinho da folha de alface do próprio sanduíche para comer, já que todo mundo estava esperando pelo refrigerante e não queria comer sozinho.

― Eu não estou interessado, cacete! ― Eduardo ditou um tanto quanto irritado, jogando o corpo contra a cadeira. ― Mas vocês precisam entender que, depois de duas semanas com ele no meu pé, ganhei o direito de saber qual é a dele.

Okay, talvez fosse exagero de Kyungsoo, já que Bernardo não ficava no pé dele, pelo menos não exatamente. Contudo, a presença quase diária dele na lanchonete junto dos olhares e sorrisos que eram direcionados para ele, mesmo que não tivessem um tom de malícia, lhe intimidavam. Não no sentido ruim da palavra, só… se sentia um pouco tímido. Ele falava consigo às vezes, fazendo perguntas cotidianas que qualquer um faria, como “você está bem hoje?”, ou “o que você me sugere do cardápio?”. Entretanto, Eduardo percebia a intenção dele de simplesmente lhe ouvir falar mais do que “já decidiu o que vai pedir?”.

Nunca havia dado muita brecha para Bernardo e, por isso, nunca tinham tido conversas além dos breves diálogos entre garçom e cliente, mas o rapaz não parecia tão preocupado ou impaciente para que as coisas avançassem ― caso o Kyungsoo estivesse interessado também, claro. Isso deixava Eduardo com um sentimento estranho que não sabia como classificar no momento.

― Okay, então. ― Jongin deu de ombros, ainda com um sorriso que Eduardo considerava muito idiota no rosto, e logo prosseguiu. ― Hm… O nome dele é Bernardo Baekhyun, tem vinte e um, é filho de um casal de advogados bem conhecidos aqui na Região dos Lagos…

― Ah, então ele é um playboy? ― Kyungsoo arqueou a sobrancelha ao questionar, mas Gabriel negou com a cabeça enfaticamente antes que ele pudesse tirar qualquer conclusão precipitada.

― Não, Edu, qual é, porra? ― Estalou a língua contra o céu da boca, levemente indignado com o termo usado ao seu amigo, fazendo com que Eduardo ficasse meio desconcertado. Jonathan soltou uma risadinha de leve, dando graças a Deus ao ouvir os cachorros latindo, imaginando ser Sarah chegando. ― Ele é filho de gente rica, mas é muito parça, sério mesmo. Bernardo só é pop assim porque é free-surfer, tá ligado? O surf é estilo de vida pra ele, mas trabalha como instrutor na Onda do Forte e consegue organizar umas festinhas legais na praia ― disse, levantando por um momento para ajudar a prima com os copos enquanto Eduardo aproveitava para pegar uma cadeira para Sarah. ― Mas, tipo, o Dinho não depende do dinheiro dos pais, saca? Além de dar aula, ele tem uma loja online, paga a própria faculdade, mora sozinho, é massa com todo mundo, ajuda nos corres de uma galera… É um mano da hora, pô ― Gabriel concluiu, fazendo Kyungsoo quase revirar os olhos pela venda de peixe que fez do próprio amigo. ― E tá afinzão de tu.

Eduardo suspirou, ignorando ― ou ao menos tentando ignorar ― a última frase. Não que um homem interessado nele fosse algo que o incomodasse, até porque, para todos os efeitos, era bissexual até o último fio de cabelo. E poderia admitir ao menos para si mesmo que saber um pouco mais de Bernardo foi bem legal, mesmo que fosse mais justo adquirir aquelas informações da boca dele. Contudo, não era seu foco, pelo menos não por enquanto, ficar com alguém… ou acabar interessado num cara solto demais como Bernardo. Kyungsoo sabia que talvez estivesse sendo chato, mas não estava realmente apressado para conhecê-lo melhor ou algo do tipo. Possuía outras preocupações em mente no momento, infelizmente.

― Vocês estão falando de quem? Do surfista bonitinho que vive lá na lanchonete? ― Sarah indagou assim que se sentou na cadeira posta pelo irmão, fazendo uma careta pela mordida que Junmyeon deu no sanduíche. Ele parecia um trasgo comendo. ― Realmente… ele tá tão interessado que nem disfarça. Acho que você deveria investir, Dudu.

Sooyoung até podia ser, além de irmã cinco anos mais velha, a melhor amiga e maior confidente de Eduardo, mas tinha mania de incentivá-lo a se meter em roubadas. A sorte de Kyungsoo era que já estava calejado o suficiente para ponderar os empurrões que a irmã tentava dar e desviar deles quando possível ― geralmente sendo desenrolos de rapazes ou moças que ela arranjava para o irmão. Ela tinha um namorado que morava em São Paulo, o Pedro, que a visitava pelo menos duas vezes no mês ― e só não juntaram as escovas porque Sarah se negava a sair do Rio de Janeiro, por algum motivo. Tinha um espírito jovial, sempre bem humorada, inteligente e já trabalhava há algum tempo como tradutora. Estava com a vida feita, mas ainda se sentia confortável em morar com a família. Era uma mulher incrível, contudo, o defeito de empurrar caçambas pro irmão não morria.

Não que Kyungsoo estivesse afirmando que Bernardo era uma, claro.

― Eu não estou interessado, sério ― respondeu de boca cheia enquanto negava levemente com a cabeça. ― Tenho maiores problemas agora, como a faculdade.

― Isso não te impede de conhecer alguém e dar uns beijos na boca por aí, Edu ― Jonathan interviu, após dar longas goladas em seu refrigerante. ― Não estou te pressionando, nem nada. Mas assim como você conheceu a mim e o Ricardo na faculdade… não faz mal, sabe?

Eduardo decidiu não dizer nada, pois não queria mais pensar no assunto. Estudar os resumos das matérias que havia ficado para a última prova deveriam ocupar mais sua mente do que o interesse de Bernardo por ele. E, de qualquer forma, sabia que aquele assunto não seria enterrado tão facilmente. Era questão de tempo até que voltasse à superfície… e seria na lanchonete, com a presença do sorriso bonito e do olhar que quase lhe queimava a pele.

🌴🌊🌴


Para a tortura de Eduardo, os dias daquela semana passaram arrastados, quase parados. A sexta-feira também não estava sendo fácil, já que a ansiedade para o lançamento das notas não lhe deixava em paz — mesmo que tivesse a intuição de ter ido bem, queria ter certeza e somente a teria quando finalmente visse os resultados. Por isso, bufava a cada insistente pedido de Jonathan para que fosse a uma festa na praia no sábado.

Se soubesse que ele seria tão chato, não teria pedido ajuda para carregar as compras ao encontrá-lo no meio do caminho do mercado para a lanchonete… apesar de saber que teria que aturá-lo de qualquer forma, pois era caminho para a casa dele.

― É sério, Edu, vai ser bom ― Junmyeon voltou a falar e Kyungsoo revirou os olhos. ― O Gabriel vai, a Sarah também… Não é sempre que isso acontece fora de época, sabe? E vai te tirar do foco da ansiedade pelas notas.

― Porra, Jonny, você às vezes é chato pra cacete. ― Suspirou, vendo a lanchonete ao longe. Não aguentava andar muito com a solina lhe castigando, mesmo que o trecho tivesse muita sombra. ― Você sabe que eu não sou muito fã de praia, ainda mais de festas.

Contraditório, mas era verdade. O fato de ter ido morar ali ― não por uma escolha sua, valia dizer ― não o impedia de não gostar de praia, muito menos da muvuca que se formava lá. Se fosse somar com o Sol… sentia apenas uma imensa vontade de fugir.

― Mas, Edu, pensa bem ― Jonathan tentou argumentar, pois, mesmo que tivesse outros amigos para ir, gostaria muito que Eduardo estivesse lá consigo também. ― É na praia, vai ser um luau, ou seja, não vai ter sol castigando o lombo e, por ser um lugar aberto, vai ter espaço o suficiente pra você ficar em paz sem muita gente em cima. ― Parou em frente à lanchonete, bagunçando os fios escuros que, naquele dia, não estavam armados no típico topete que fazia. Colocou as sacolas no chão após Kyungsoo fazer o mesmo, apenas para sacudir a própria regata a fim de aliviar o calor que sentia na região do tronco. ― Sem contar que irão distribuir pulseiras, então só vai quem for convidado ou quem pagar pela pulseira, vai ser uma coisa limitada, sabe? É organizado e nunca vi brigas por lá…

― Tá bom, pô ― Eduardo interrompeu Jonathan, meio impaciente e louco para se livrar do calor que sentia. Estava suado, com a pele avermelhada e quente demais. Nem estava exatamente fazendo sol, mas o mormaço era a pior coisa do mundo para ele. Conseguia sentir o calor emanar em ondas infernais do asfalto e do cimento das calçadas. ― Eu vou pensar, tá legal? Até amanhã eu te dou a resposta.

Jonathan soltou um riso soprado, realmente achando graça da impaciência do Eduardo e sacando a do amigo, que provavelmente não iria e estava tentando estender a resposta até decidir negar o convite em cima da hora, mais uma vez.

― Certo… Mas pense com carinho, tá legal? Se você for, prometo que vai ser divertido! ― Junmyeon pediu com certo carinho, se dando por vencido daquela vez. Afastou os cabelos suados da testa e apontou para atrás de si com o polegar. ― Tenho que ir pra casa, prometi pro meu pai que ajudaria ele no jantar hoje… Eu vou te mandar mensagem mais tarde, okay?

― Valeu pela força, cara ― Eduardo disse, erguendo as sacolas. ― Mas manda zap assim que chegar, pra eu saber que você chegou bem, falou?

Eles se despediram com um sorriso e Kyungsoo ainda ficou olhando por um tempo o amigo se afastar, pegando o celular brevemente para checar as mensagens antes de entrar. Apesar de sua resposta ser uma forma de se desviar da insistência do melhor amigo para ir à festa, Eduardo estava realmente considerando o convite de Jonathan. Aquela semana havia sido estressante, se preocupou tanto a ponto de sentir que seu cabelo estava caindo mais que o normal ― e ele já caía bastante ―, deixando-o com medo de uma possível calvície por estresse. Por essa razão, achava que merecia dar uma espairecida depois de ter se esforçado tanto para passar nas três cadeiras que faltavam, embora não bebesse com frequência, não achava ruim ficar bêbado de vez em quando.

Com um suspiro, pegou as bolsas de compra que continha alguns temperos e ervas que os tios haviam pedido para a lanchonete, e entrou, sentindo-se aliviado pelo ar condicionado, pelo pouco movimento, pensando que seria bom lavar logo o rosto e se refrescar um pouco. Só não esperava ver Bernardo ali, meio distraído com o celular e sem a companhia dos amigos.

Não que tivesse sentido saudades dele, mas durante aquela semana ele não havia aparecido por ali e Eduardo achou estranha a ausência de um cliente que costumava aparecer quase todos os dias na lanchonete durante o horário de almoço. Ele parecia diferente, de alguma forma, vestindo bermuda jeans ao invés das bermudas de tactel que ele sempre usava e com os cabelos penteados, mesmo que ainda desbotados pelo sol, diferente dos dias comuns em que pareciam bagunçados e ressecados. Vê-lo depois de dias foi uma surpresa estranha e um pouco sem sentido, já que ele era cliente fixo e poderia aparecer no dia e na hora que bem entendesse.

Pelo local estar praticamente vazio, a presença de Eduardo inevitavelmente chamou a atenção, o que o deixou meio desconcertado. E pior ainda foi ver Bernardo abrir um sorriso ao tirar os olhos do celular e focá-los em si... Kyungsoo se sentiu na obrigação de cumprimentá-lo com um acenar de cabeça antes de passar direto para trocar de roupa e voltar a atender, já que quem estava fazendo isso era Gabriel enquanto estava fora comprando o que foi pedido.

― Mano, ele é realmente afinzasso de tu. ― Jongin entrou no quartinho do segundo andar, meio risonho e parecendo animado demais para o gosto de Eduardo, que secava os curtos fios de cabelo enquanto caçava o uniforme da lanchonete e o avental para vestir e poder descer. Não resistiu e precisou tomar uma ducha rápida na água gelada e bem pedida no banheiro daquele cômodo que usava para guardar suas coisas e tomar banho antes de ir para a faculdade. ― 'Tava preocupado achando que você não viria hoje e tudo.

― Pelo amor de Deus, Biel… ― Kyungsoo resmungou, passando desodorante e terminando de se arrumar rapidamente para descer, pois estava ali em cima há uns dez minutos. Iria continuar sua fala, mas Gabriel lhe interrompeu.

― Ah, porra, Eduardo, pega leve com o cara, vai… Já te falei que ele é um cara tranquilo. ― Jongin tirou o boné e bagunçou os cabelos, voltando a colocar o acessório logo após e sentando em um dos banquinhos dispostos ali enquanto Kyungsoo amarrava os tênis. ― Dinho queria que você atendesse ele porque gosta de conversar com você. Seria uma boa, aproveita que a lanchonete tá vazia hoje, como esteve por toda semana.

― Você sabe o motivo dessa baixa? ― questionou Eduardo, preferindo não dizer nada sobre Bernardo naquele momento. Não estava negando o pedido que Gabriel lhe fizera e o primo sabia bem disso.

― Hm, acontece às vezes ― Jongin respondeu, dando de ombros. ― Aproveita, porque nos próximos dias pode encher mais que o normal.

― De boa, a gente dá conta. ― Sorriu para o primo, colocando o avental e se encaminhando para a porta. ― Vamos, você devia estar lá embaixo ajudando.

― Eu sei, só vim conversar contigo mesmo. ― Riu baixinho, trotando pelas escadas com o pisar forte que possuía e fazendo Eduardo se perguntar se era mesmo necessário tanta força assim para descer as escadas. ― Vou pra cozinha ajudar o velho e mamãe está no caixa. Qualquer coisa me chama!

Eduardo assentiu e foi para a frente da lanchonete, pegando o caderno de anotações e a caneta sobre o caixa antes de seguir com seu trabalho. Observou que duas mesas tinham pratos sujos a serem retirados, mas só havia outras duas mesas ocupadas, além da que Bernardo estava, ou seja, tinha tempo e por isso seguiu até o rapaz que esperava ser atendido. Ele voltou a sorrir quando lhe viu.

― Já decidiu o que vai pedir? ― Kyungsoo fez a abordagem padrão, por pura conveniência, já que sabia que o diálogo não terminaria ali, tanto que o surfista se inclinou na cadeira, virando levemente o corpo em sua direção.

― Olá, gatinho. ― Baekhyun sorriu ainda mais largo ao cumprimentá-lo, se sentindo realmente feliz em ver Eduardo naquele dia. ― Sabe, eu estava com a semana muito cheia e não consegui vir na minha lanchonete favorita, mas hoje acabei ouvindo seu canto e inevitavelmente fui atraído para cá. Incrível, não?

Kyungsoo engasgou uma risada, negando com a cabeça levemente. Achava absurdo como Bernardo conseguia fazer aquele tipo de cantada sem a cara entortar de vergonha, nem que fosse um pouquinho.

― Vai mesmo insistir nessa de me comparar com um tritão? Tsc ― Eduardo estalou a língua contra o céu da boca, ainda tentando prender o riso, dividido entre achar cômico e sentir uma leve timidez. ― Dizem que sereias e tritões atraem homens com seu canto e os arrastam para o fundo das águas, matando-os afogados. Ou devoram os pobres coitados. Não sei se é bom ser comparado com isso…

― Olha… ― Bernardo apoiou o rosto na mão direita e encarou Eduardo de baixo, com um ar de flerte e um tanto engraçado. ― Eu não me importaria de ser arrastado pro fundo e nem de ser devorado por você, não mesmo.

― Ah, pelo amor de Deus, Bernardo! ― Kyungsoo não conseguiu segurar a risada, sentindo as orelhas e o rosto esquentarem pelo leve constrangimento que o duplo sentido da fala lhe causou. ― Anda, anda, pede alguma coisa.

Baekhyun também ria, divertido, enquanto admirava o sorriso bonito de Eduardo e em como ele ficava fofo todo envergonhado. Sentia tanta vontade de se aproximar e de conhecê-lo, mas ao mesmo tempo não queria ser inconveniente, então apelava ao seu senso de humor nada original. Tirar um sorriso divertido dele diante de vários outros irônicos que já recebeu era um grande prêmio. Aquela boca era o que mais lhe atraía, não tinha dúvidas sobre isso.

― O que me sugere hoje? ― Bernardo perguntou, olhando para o menu e sabendo o que tinha lá, pois naquelas duas semanas havia experimentado todo o cardápio vegetariano oferecido pela lanchonete.

― Hm… Doce ou salgado? ― Kyungsoo questionou, olhando para a mesma parte do menu que Baekhyun olhava.

― Pode ser os dois ― respondeu, voltando a olhar para Eduardo e dando de ombros. ― Hoje eu quero o lanche e a sobremesa.

― Hm… Deixa eu pensar… ― Kyungsoo olhou para o alto e franziu as sobrancelhas enquanto batucava com a caneta no caderno, genuinamente disposto a encontrar uma boa combinação de lanche e Bernardo o achou terrivelmente atraente pela milésima e incansável vez. ― Tem um quiche de brócolis muito gostoso que minha tia fez, junto de uma salada vai ficar top e… posso pedir pra fazerem bananas empanadas com recheio de doce de leite e sorvete de creme pra sobremesa.

― Caraca, Eduardo, que sugestão massa. ― Baekhyun sorriu mais uma vez, sentindo o estômago dar cambalhotas só de se imaginar comendo tudo o que foi sugerido. ― Agiliza lá pra mim, gatinho?

Kyungsoo apenas assentiu, anotando o pedido e levando para Jongin, pedindo para que ele montasse o prato enquanto retirava os pratos sujos e limpava as mesas. Tentava ignorar sempre que Bernardo cismava em lhe chamar de “gatinho”, pois ficava um tanto tímido. Não se achava feio, mas se considerava um garoto comum e ser olhado e elogiado por alguém com tanta constância era um pouco estranho para ele.

Os diálogos entre eles sempre terminavam daquele jeito: sem questões pessoais, sem aparente interesse por parte de Eduardo, que era compensado pelo evidente interesse por parte de Bernardo. Inclusive, ele até tentava fazer Kyungsoo sentar-se à mesa, mas sempre falhava, pois mesmo em dias vazios como aquele, Eduardo se comprometia em cumprir sua função na lanchonete dos tios; atendendo, limpando ou ajudando na organização dos alimentos nas estufas. Só não fazia nada na cozinha — além de lavar louça — porque ainda estava aprendendo e não queria arriscar estragar nada ali.

Por esse motivo, Bernardo só voltou a abordar Eduardo novamente após pagar a conta e falar com Gabriel e seus tios, como sempre fazia, só para soltar mais alguma cantada tosca e ganhar um arquear de sobrancelhas ou uma resposta atravessada de Kyungsoo. Ele parecia se divertir bastante com a situação toda vez, o que deveria irritar Eduardo, mas não se ofendia porque, no fundo, achava graça das tentativas bobas de Baekhyun em flertar com ele. Dessa vez, antes que o surfista dissesse qualquer coisa, Kyungsoo decidiu iniciar o diálogo, depois de ouvir Gabriel pedir insistentemente por isso enquanto estava na cozinha.

― E então? Aproveitou bem a comida? ― Eduardo indagou com a voz grave e contida, soando gentil e fazendo com que Bernardo tentasse ao máximo não se arrepiar por culpa do timbre extremamente bonito.

― Sim, a sugestão foi ótima e a comida daqui é maravilhosa. ― Baekhyun sorriu largo e se apoiou no balcão, sentando-se no banco ao lado de Kyungsoo. A lanchonete estava vazia e passava um pouco das quatro da tarde. ― Não é a toa que é meu lugar favorito pra comer na Praia do Forte.

― Agradeço pela preferência ― Eduardo disse, fazendo Bernardo sorrir faceiro.

― Como se eu não fosse preferir um lugar que tenha um garçom bonitão que nem você pra me atender, né… ― O olhar de cima a baixo que Baekhyun lhe deu quase deixou Eduardo constrangido mais uma vez, mas ele somente suspirou pesadamente e coçou a nuca, sem saber o que dizer.

― Não podia faltar essa pra fechar o dia, né? ― acabou soltando, o que fez Bernardo rir baixinho. Pela expressão que Eduardo fazia, Baekhyun sentia que só faltava um pouco para ser xingado mesmo e o pior de tudo era que realmente gostava de vê-lo aparentemente impaciente diante de suas tentativas de flertar com ele. Confessava que era meio implicante mesmo.

― Mas sério, eu vim aqui pra outro papo. ― Endireitou-se no banco, chamando a atenção de Eduardo. ― Então… é que vai ter um luau amanhã aqui na praia…

― Hm. Tô sabendo, meu amigo comentou comigo ― Eduardo se adiantou em dizer, já imaginando um convite por parte de Bernardo.

― Pois é… Sou eu quem está organizando ― Baekhyun revelou, fazendo Kyungsoo arquear as sobrancelhas em entendimento e se lembrar do que Gabriel havia lhe dito no domingo anterior. ― Vai começar umas cinco horas da tarde e vai ser para um número limitado de pessoas porque não gosto de lugar muito cheio e nem de confusão. Eu convidei algumas pessoas, mas vim aqui pra saber se você, por acaso, não quer aparecer por lá...

Eduardo suspirou, desviando os olhos da encarada fixa e cheia de expectativa de Bernardo. Que porra, por que de repente estava tão sem graça para recusar o convite? Talvez fosse o jeitinho meigo que ele falava na tentativa de lhe convencer… de qualquer forma, decidiu ser sincero.

― Olha… eu não sou tão chegado em praia e nem tenho dinheiro pra comprar a pulseira, Bernardo... ― Eduardo respondeu em um tom de lamento, porque não queria recusar tão diretamente o convite.

― Sobre a pulseira, não se preocupe ― Bernardo se adiantou e tirou do bolso dianteiro uma pulseira que possuía uma faixa dourada e muito bonitinha. Ela tinha aqueles sistemas de vetar, que só daria para tirar ao cortá-la. ― Eu trouxe uma vip pra você. O camarote vai ficar mais o pessoal convidado mesmo, com bebida e comida liberada. ― Entregou a pulseira para Eduardo, que a pegou, bastante surpreso com o nível do convite. ― E sobre a praia, muitos amigos meus só pisam na praia por causa dessas festas, acho que rola abrir uma exceção, não?

― Tudo bem, eu… vou pensar, pode ser? ― Kyungsoo suspirou, olhando mais uma vez para a pulseira e guardando-a no bolso da frente de sua bermuda. Bernardo riu, assentindo.

― Pensa com carinho, hm? Vai ser ótimo te ver por lá ― disse com um sorriso, já em tom de despedida enquanto se levantava do banco. ― Bateu meu ponto, Edu, preciso ralar. Se puder, brota mesmo por lá, prometo que não vai se arrepender! ― Baekhyun bagunçou os cabelos e Kyungsoo apenas concordou com a cabeça, vendo o surfista acenar antes de virar as costas e caminhar em direção à saída.

A pulseira parecia lhe espetar e Eduardo estava pronto para entrar em uma batalha interna sobre ir ou não naquele luau, quando viu Bernardo dar meia volta, se aproximando novamente com as mãos nos bolsos da bermuda, parecendo um pouco acanhado.

― O que foi? ― perguntou Kyungsoo, confuso, pensando que talvez ele pudesse ter perdido alguma coisa, mas Baekhyun só negou com a cabeça antes de falar:

― Estava pensando se diria ou não isso, mas… posso te confessar uma coisa? ― O riso aparentemente nervoso de Bernardo atiçou a curiosidade de Eduardo que, ansioso como era, sentiu-se igualmente nervoso sem nem mesmo saber o porquê. Sem dizer uma palavra, incentivou Baekhyun a continuar com um aceno positivo. ― Essa semana foi um inferno de tão estressante. Eu falei na zoeira naquela hora, mas realmente parei aqui por acaso, estava caminhando pela praia e não pude curtir o mar porque, não sei se você sabe, mas sou surfista e dei o azar da minha prancha favorita precisar de manutenção enquanto as outras estão com os meus amigos e… ― Bernardo se interrompeu ao perceber que estava tagarelando com os olhos grandes de Eduardo fixos nele, parecendo um pouco curioso, porém provavelmente surpreso por aquela espécie de desabafo. E foram breves segundos de silêncio antes de Baekhyun rir, balançando a cabeça negativamente. ― Desculpe. Só queria dizer que, apesar de breves, eu realmente gosto dos nossos papos, gosto de conversar com você. E… fiquei muito feliz de te ver hoje, Edu. Me fez bem falar com você.

Bernardo foi embora dando um tchau animado e prendendo o riso na garganta, deixando para trás um Eduardo meio perdido, que tentava processar o jeitinho fofo com que Baekhyun proferiu aquelas palavras, inevitavelmente indo e voltando na sua mente.

O resultado daquilo foi um Eduardo emburrado pelo resto do dia. Bernardo não tinha o direito de tentar lhe amolecer daquele jeito.


🌴🌊🌴


Apesar de ser cabeça dura em muitos momentos, Eduardo Kyungsoo sabia ceder em muitos outros; ainda mais se estivesse na tortura e no horror de um sábado atipicamente tedioso, de horas arrastadas e tristemente solitárias.

Kyungsoo passou o dia inteiro sozinho em casa, com uma irritação muito provavelmente causada pela ansiedade devido às notas que ainda não tinham sido lançadas ― mesmo que ele tentasse afirmar que o sentimento angustiante fosse aleatório. Não conseguiu se concentrar nos livros que queria ler, as músicas de seus artistas favoritos foram relaxantes apenas nos primeiros trinta minutos e a única coisa que havia pensado em fazer para matar o tempo foi comer ― o que fez com que ele tentasse cozinhar algo minimamente comestível e sua única saída foi pegar o arroz e feijão prontos na geladeira e fazer um mexido com uns três ovos e muita farinha, um bate-entope fenomenal. Ficou meio salgado, mas ele lançou para dentro mesmo assim.

O fato é que isso o levou para aquele momento em que olhava no espelho e se perguntava mil vezes se estava com um visual minimamente aceitável para ir àquele luau, já que nunca havia ido em um. Não era muito chegado em festas, preferia curtir um boteco com cerveja gelada e música ao vivo, mas sentiu-se no direito de se divertir em uma ― o que consistia em beber até ficar mole o suficiente para ir para cara ziguezagueando a rua e confiando no ditado de que bêbado perdia tudo, menos o caminho de casa. Sarah tinha ido para a casa de uma amiga e iria para a festa de lá, logo não tinha quem lhe ajudasse com aquilo. Então, o que deveria vestir? Deveria usar branco como nas festas de ano novo das novelas? Se fosse essa a regra, estaria em apuros, pois não tinha roupa branca. Pelo menos não sem mil estampas coloridas e aleatórias.

De qualquer forma, tanto fazia, pois não iria trocar sua polo preta e sua bermuda cargo cinza chumbo por nada, mesmo que tivesse a leve impressão de que estava parecendo mal vestido. Ou hétero demais ― Jonathan tinha mania de falar que seu jeito de se vestir era muito hétero e Eduardo tinha noção de que aquilo era bem ruim. Na realidade, Junmyeon tinha aquela mania de ofender gratuitamente sem perceber que estava ofendendo, e ter decidido ir ao luau em cima da hora resultou em um belo exemplo. “Só não dê uma de paulista lá, pelo amor de Deus”, como se Kyungsoo não fosse carioca o suficiente para ter os pés marcados pelas correias grossas de seus chinelos, já que era isso que usava o tempo todo, exceto quando ia trabalhar.

Não demorou mais que quarenta minutos até se encontrar caminhando pela orla da Praia do Forte, com Jonathan e Gabriel presos ao seu encalço. Precisariam atravessar a praia toda para que chegassem ao luau e Junmyeon estava meio estressado porque não queria ser o primeiro a chegar. Exagero dele, porque para Eduardo estar lá no máximo às cinco e meia era o ideal. Não tinha a intenção de passar a noite toda lá e ainda poderiam aproveitar bem a comida e a bebida.

— Eu sabia que o Dinho ia te dar uma pulseira. — Jonathan riu, muito mais animado com o fato do que o próprio Kyungsoo. Ele estava arrumado de um jeito que Eduardo julgava bonito, mas que nunca pensou em se vestir: uma bermuda jeans colada ao corpo e uma camisa florida, bem Agostinho Carrara, mas muito bonita. — Não esqueceu dela, não, né?

— Eu não sou idiota, Jonny. — Kyungsoo revirou os olhos e tirou a carteira do bolso, surpreendendo Junmyeon ao pegar a pulseira com a faixa dourada. — Ela tá aqui.

— Porra — Jongin xingou antes que Jonathan pudesse fazê-lo, pegando pulseira da mão do Kyungsoo para olhar melhor. — Nem eu que sou amigo ganhei o camarote assim tão fácil. Tô devendo àquele corno uns dois litrão de Brahma.

— Eu que deveria estar indignado, né, Biel. — Parando na frente dos dois, Junmyeon apontou para si mesmo energicamente. — Sou o único aqui que não tem camarote e pagou pela pulseira de fato. O litrão você ainda bebe e geralmente ele desembolsa no rango, né.

— Relaxa, vai, Jonny. — Eduardo suspirou e desviou do amigo que dramatizava de forma exagerada, voltando a andar calmamente. — A gente veio junto e o justo é continuar junto… a não ser que arranjem alguém, claro.

Já era possível ver ao longe o lugar que seria o luau: uma tenda bem grande e outras menores eram tudo que Kyungsoo conseguia enxergar daquela distância. O local parecia bem iluminado e a música já podia ser ouvida mesmo que estivessem relativamente distantes. Não estavam tão longe, claro, talvez restasse uns cinco minutos de caminhada no ritmo que andavam, mas era suficientemente alto para uma festa.

Jonathan foi cantarolando o caminho todo até chegarem ao luau e Kyungsoo percebeu que o local estava fechado com uma espécie de cerca de madeira e com seguranças, o que surpreendeu um pouco, pois pensou por um momento que uma festa na praia poderia ter muitos penetras, por ser num lugar aberto. Logo os três entraram no local e Eduardo se sentiu incomodado com seus chinelos afundando na areia enquanto tentava se ajustar e parecer o mais discreto possível na festa. Tinha muita gente, mais do que pensou que teria e as tendas eram bem maiores do havia pensado e isso fazia com que ele se sentisse perdido.

Gabriel conhecia muito bem esse desconforto de Kyungsoo e por isso não se importou quando ele enganchou o dedo no cós de seu bermudão, tentando não se perder no meio daquela gente ― mesmo que não estivesse lá tão cheio. Sabia que não demoraria muito para que Eduardo se sentisse mais tranquilo, esquecesse um pouco da multidão e curtisse a festa em seu ápice.

Já com a clássica estratégia de conseguir bebidas gratuitamente para o único desafortunado sem a pulseira dourada, os rapazes pararam em frente ao toldo do camarote. O combinado era que tanto Eduardo quanto Gabriel fossem dentro do local pegar as bebidas e curtissem junto de Jonathan, revezando a vez de ir ao bar que foi montado ali dentro. Kyungsoo notou que talvez os Vips realmente eram apenas convidados importantes ou o ingresso era caro demais, pois o espaço era grande, mas não tinha muita gente, pelo menos não por enquanto.

Foi nesse momento antes de se dirigir ao bar que Eduardo viu Bernardo — em um grupo grande, rindo de alguma coisa que ele não fazia ideia —, muito bem vestido, por sinal. Quer dizer, ele estava simples, com uma bermuda de surfista azul ciano com estampa florida e uma camisa social branca de mangas dobradas até os cotovelos, com a gola bagunçada e os primeiros botões abertos. Duas peças que nada tinham a ver, mas que vestiam muito bem.

Até poderia soar um momento bonito, quase romântico, de Bernardo com um sorriso brilhante no rosto, se divertindo com os amigos, se não fosse pela trilha sonora interpretada pela voz de chapado de Pk cantando “Quando a vontade bater”. Não que Kyungsoo não gostasse da música, mas era inegável que ela quebrava qualquer clima de cena bonita, pelo menos na sua mente.

Apesar do funk que tocava e do volume da música impossibilitar de ouvir a uma distância considerável, dava para conversar normalmente se falasse um pouco mais alto, o que para Kyungsoo era bom. Então, decidido a ser o primeiro a pegar as bebidas, Eduardo virou-se na direção de Gabriel e Jonathan, chamando a atenção deles e questionando sobre o que eles iriam beber.

— O que você vai beber? — Jongin questionou de volta, sem se preocupar em responder o primo.

— Ué, a única coisa que eu bebo. — Kyungsoo deu de ombros, como se fosse óbvio a sua bebida alcoólica favorita. — Cerveja.

Junmyeon fez uma careta diante da resposta, já que não gostava do sabor amargo da bebida, enquanto Jongin ergueu as sobrancelhas, considerando uma boa opção para si.

— Eu vou querer o mesmo que você, então — Gabriel disse após uns segundos, e virou para Jonathan. — E quanto a você, Jonny?

— Será que eles fazem gummy aqui...? — questionou ao mesmo tempo em que Kyungsoo e Jongin deram de ombros, impacientes. — Doce. Algo que seja doce.

Eduardo revirou os olhos, seguindo para dentro do camarote, com o braço levantado a fim de mostrar ao segurança a pulseira dourada e foi direto ao bar. O bom de terem chegado no início da festa era que não havia uma longa fila para pegar bebidas no camarote ― o que Kyungsoo esperava que não se formasse em nenhum momento ao longo da festa ― e por isso não demorou tanto para se escorar na bancada, pedindo o que queria e tendo um pequeno problema com o barman, que não queria lhe dar as três bebidas, alegando que ele não podia beber fora do camarote.

Eduardo não viu sentido nenhum naquilo e concluiu que o problema do barman era com ele, o que lhe fez cogitar descer e pedir para Gabriel subir com ele para ver se aquele cara chato cederia; ou até mesmo parecer babaca ao dizer que era convidado especial do organizador da festa, no entanto, não precisou fazer nada disso. Antes que se afastasse para seguir seu plano, sentiu uma mão pesar em seu ombro e, quando voltou o olhar para quem lhe abraçava lateralmente, viu Bernardo ali, todo sorridente, mas com uma clara expressão confusa no rosto.

― Estamos com algum problema aqui? ― Baekhyun indagou enquanto olhava para Kyungsoo e para o barman, apoiando o seu copo na bancada. Foi só então que Eduardo percebeu que, além de bem vestido, Bernardo estava muito cheiroso e com os cabelos bagunçados de um jeito bonito.

― Eu preciso pegar as bebidas para o Gabriel e o Jonathan, mas ele disse que não posso tirar nada do camarote, preciso beber aqui. E o Jonathan não tem a pulseira pra subir ― Eduardo respondeu, um tanto sem graça por estar praticamente denunciando o barman, que apenas fazia o seu trabalho.

― Certo… Vamo resolver isso, então? ― Baekhyun deu mais um sorriso antes de se afastar de Kyungsoo, apalpando o bolso da bermuda que usava e tirando de lá uma pulseira do camarote, entregando a ele. ― Dê isso ao seu amigo e chama eles pra cá. E Luíz... ― voltou-se ao barman, soltando uma risadinha ― Prepara a bebida deles e deixe reservado, sim? Ele é meu convidado especial e quero um bom atendimento. Se estiver muito estressado, pode beber algo do bar, ‘cê sabe que pode.

Enquanto se deixava levar por Bernardo, afastando-se do bar, Eduardo tentava disfarçar sua ligeira timidez diante do termo “convidado especial” utilizado pelo outro. A risada de Bernardo lhe despertou ao mesmo tempo que sentia a mão dele pousar novamente em seu ombro.

― O que foi? ― quis saber, olhando diretamente para Baekhyun, que estava tão perto quanto antes. Não sabia muito bem se era por causa da bebida, mas ele parecia solto o suficiente para colar o corpo dele no seu naquele meio abraço. O perfume erval dele tomava seu olfato, parecendo abafar o amadeirado que ele mesmo usava.

― Nada, só estou feliz porque você realmente veio… ― Bernardo respondeu sem titubear, visivelmente animado com o fato.

― Bom… ― Kyungsoo deu de ombros, como se não fosse nada demais, mesmo que no fundo estivesse se sentindo um pouco nervoso sem motivo. ― Eu disse que iria pensar e você me pediu pra pensar com carinho, não foi? Então… aqui estou.

― Verdade, verdade. ― Baekhyun assentiu com um sorriso tão brilhante que poderia até irritar Kyungsoo porque era bem contagiante. ― E o que você está achando? Está gostando? ― perguntou com interesse, parando antes de descer do camarote.

― Tô gostando, de verdade. ― Eduardo não conseguiu resistir e acabou sorrindo, desviando os olhos e voltando a filmar o cenário. ― Por enquanto tá bem tranquilo.

― Ainda vai encher bastante, mas geralmente as festas que promovo são bem tranquilas, sem brigas ou ânimos exaltados ― Bernardo comentou e fixou a atenção totalmente em Kyungsoo, secando-o indiscretamente ao olhá-lo de cima a baixo. Antes que Eduardo pudesse se sentir desconcertado, Baekhyun parou e sacou o celular. ― E a playlist, tá curtindo? Quer pedir alguma música em específico? Posso pedir ao DJ…

― Ahn… Não acho que as músicas que escuto combinem com a festa, cara ― respondeu timidamente enquanto continuavam o caminho, descendo os cinco degraus da escada do camarote. Eduardo era o cara do indie rock, R&B e MPB, e seu ecletismo musical morria ali. ― Acho melhor não.

― Tsc, fala ― Bernardo insistiu. ― Aqui não tem gênero musical certo. ― E assim que disse isso, terminou o funk 150bpm que tocava e começou “Quero ser feliz também” do Natiruts. ― Viu?

Cedendo, Kyungsoo acabou por dizer algumas músicas que gostava e Baekhyun prontamente anotou tudo em seu celular, se afastando após dizer um “Já volto” no pé de seu ouvido. Encontrou-se novamente com Gabriel e Jonathan, entregando a pulseira para o amigo e quase ficando cego com o sorriso que ele deu enquanto falava sobre agradecer Bernardo com um beijão — fazendo Eduardo revirar os olhos quando ele pediu desculpas, dizendo que não queria ser talarica.

O que importava para Kyungsoo era que agora poderiam os três irem para o camarote, curtir a festa juntos. E era bem interessante como o local foi montado, pois possuía um espaço específico para guardar os chinelos e uns bancos de bambu para sentarem caso quisessem. Não demorou muito para que Baekhyun se juntasse aos três e engatasse uma conversa com Gabriel — já que eram próximos o suficiente para se considerarem quase irmãos —, mesmo que os olhos dele não se desgrudassem de Eduardo, que ficou tímido até se adaptar às secadas que Bernardo tanto lhe dava.

Kyungsoo se divertiu bastante nas poucas horas que se passaram, surpreendendo-se com a diversidade de músicas que tocava e em como as pessoas pareciam curtir muito cada música, assim como também se admirou ao perceber que as músicas que indicou realmente foram tocadas, novamente ficando sem jeito ao ver como Baekhyun pareceu gostar de cada uma delas.

Entretanto, por mais que estivesse contente e entrosado na conversa; por mais que o álcool lhe ajudasse a relaxar, Eduardo não conseguia evitar o desconforto pelo excesso de pessoas quando percebeu que estavam quase presos num canto assim que o camarote realmente encheu. Não conseguia imaginar a quantidade de gente que estava na parte de baixo e, embora estivessem na praia, a lotação aumentou a temperatura, o que lhe fazia querer ignorar o corpo fora do padrão e arrancar a polo que vestia.

No momento em que Bernardo foi chamado por um rapaz baixinho com cara de cantor de pagode ― porque sempre associava aquele cavanhaque que o cara usava ao Alexandre Pires ―, Eduardo resolveu chamar a atenção de Jonathan e Gabriel para avisar que iria dar uma volta, pois precisava respirar um pouco. O primo logo entendeu ao passo que Junmyeon se preocupou em saber se ele estava bem, o que fez Kyungsoo explicar que ali estava quente e cheio demais para seu gosto e que logo voltaria.

Driblar as pessoas não foi fácil porque se o camarote estava cheio, a área comum estava muito mais, mas logo se encontrou do lado de fora, sentindo a areia nos pés descalços e respirando fundo o ar gelado que vinha do mar. Alívio foi a primeira coisa que sentiu enquanto se afastava, a fim de se apoiar numa pedra próxima dali.

Distante o suficiente para que a música soasse mais baixa e a brisa marítima lhe atingisse sem impedimentos, Eduardo ouviu um “hey” gritado e viu Bernardo se aproximar com um balde de alumínio na mão. Ele era insistente, mas incrivelmente aquilo não incomodava Kyungsoo, pois Baekhyun mais parecia um filhotinho de cachorro que se embolava nas pernas do dono na tentativa de ganhar algum mimo. Por isso, apenas se escorou na pedra enquanto esperava ele se aproximar, rindo da comparação que fizera.

― O que é isso? ― foi a primeira coisa que perguntou ao ver o balde com gelo e cerveja apoiado em um dos braços de Bernardo. Havia copos plásticos na mão livre dele e Eduardo já sabia a resposta, mas queria ouvi-lo dizer.

― Gabriel me disse que você iria dar uma volta e ficar aqui por um tempo, então não quis te deixar de bico seco ― Baekhyun respondeu com um sorriso leve no rosto, oferecendo os copos para Kyungsoo, que não recusou. Após encher os copos com uma Brahma puro malte quase congelada, Bernardo voltou a falar. ― Por que saiu de lá? Não está mais gostando?

― Não, não é isso. ― Eduardo riu sem graça, dando um gole na cerveja em seguida. ― É que encheu muito e eu estava me sentindo meio sufocado…

― Hm… Agorafobia? ― questionou em um tom preocupado e Kyungsoo negou.

― Não chega a ser isso, é só… como eu posso explicar? ― Bagunçou os cabelos levemente enquanto buscava a melhor forma de dizer, observando Baekhyun prestar total atenção a ele e ficando um pouco sem jeito. ― Fico incomodado quando eu estou em um lugar em que não tenho mobilidade. Mas nunca tive alguma crise de ansiedade por causa disso ou coisas assim.

― Entendi… Bom, lugares lotados num geral são realmente incômodos mesmo ― Bernardo concordou e se aproximou alguns passos para se apoiar lateralmente na pedra, encarando Eduardo mais de perto. ― Você só não se sente na obrigação de ficar ali.

― Isso. ― Kyungsoo sorriu por ser compreendido, pegando a lata aberta no balde para servi-los quando Baekhyun deu uma golada na cerveja e esvaziou o copo quase totalmente. ― Por isso me distanciei um pouco da bagunça e vim curtir um pouco a brisa da praia.

― Saquei, saquei. ― Bernardo assentiu levemente com a cabeça, virando-se para Eduardo de repente. ― Mas se eu estiver te atrapalhando…

― Tsc. ― Kyungsoo revirou os olhos e empurrou Baekhyun suavemente, quase sorrindo. ― Você não me atrapalha, deixa disso.

― Bom saber. ― Bernardo sorriu, se atrevendo a encostar o corpo no de Eduardo e roçando os braços antes de arranhar a lombar dele por cima da camisa; o que fez Kyungsoo se conter ao máximo para não arrepiar. ― Assim posso continuar te admirando de pertinho antes de você resolver pular na água e voltar pra casa.

― De novo, Bernardo? ― Eduardo deu uma gargalhada, contagiando o surfista a rir junto consigo. Não conseguia mais esconder a graça que via sempre que Baekhyun fazia aquela comparação. ― Você realmente não vai deixar esse assunto de tritão pra lá, né? ― indagou, recebendo um aceno negativo de Bernardo.

― Não… ― Riu baixinho e logo se adiantou, enquanto pegava mais uma latinha do balde. ― Mas se você não gosta, eu paro.

― Não é isso, só acho… engraçado. ― Kyungsoo sorriu levemente, virando a cerveja que já esquentava para dentro da boca, permitindo que Baekhyun enchesse seu copo mais uma vez. ― Mas não ruim. Eu gosto até.

Ficaram em silêncio por um tempo, confortáveis onde estavam, apenas bebendo enquanto ouviam alguma música da Iza ao fundo. Eduardo se ocupava em buscar estrelas no céu, sentindo o corpo meio dormente por causa do álcool, mas longe de estar bêbado de fato. Enquanto isso, Bernardo se dividia entre encarar a festa lotada à distância e observar sem pressa o perfil de Kyungsoo, a mandíbula angulosa, as pintas no pescoço… parecendo ainda mais atraente para a cabeça que era tomada aos poucos pela ebriedade.

― Posso… fazer um comentário? ― Bernardo quebrou o silêncio, ainda encarando Eduardo, que o olhou interessado. ― Sem querer ser abusado, mas já sendo.

― Hm… diz aí ― incentivou, contendo o sorriso tímido que queria dar pela forma que era encarado. ― Sou todo ouvidos.

― Você é… ― Baekhyun pareceu hesitar, respirando fundo e desviando os olhos momentaneamente. ― Você é muito legal ― disse, causando uma risada alta em Kyungsoo.

― Tenho, assim… uma leve desconfiança de que não era isso que você ia me dizer. ― Eduardo ainda ria e, pela primeira vez, percebeu um ar de timidez em Bernardo, que acabou rindo também. ― Não me deixa curioso, vai…

― Eu só ia dizer… ― Bernardo pausou, olhando para Eduardo da cabeça aos pés e soltando um suspiro como se estivesse se dando por vencido antes de voltar a aproximar o corpo e prosseguir — que você é gostoso pra caralho, Edu. Tipo, muito mesmo — falou seriamente, numa intensidade que fez Kyungsoo rir de nervoso enquanto sentia um leve arrepio subir sua espinha. — E cheiroso demais, lindo também… Seus olhos, seu pescoço, sua boca, você inteiro é uma coisa que… nossa — balbuciou quase indignado, bagunçando os cabelos. — Sem falar na sua voz que é uma delícia também… É injusto, sabe? — Baekhyun terminou seu monólogo, dando um gole generoso na sua cerveja.

Após isso, estendeu-se mais um momento de silêncio entre os dois porque Eduardo não sabia exatamente o que dizer. Parecia mais um desabafo de Bernardo, que incrivelmente parecia mais sóbrio do que bêbado, mesmo que a voz dele vez ou outra se embolasse de um jeito bonitinho e que ele estivesse com um sorriso meio bobo na cara, denunciando sua leve embriaguez. Não que de repente pensasse diferente a respeito de Baekhyun, mas Kyungsoo estava surpreso, pois nunca ninguém havia lhe elogiado daquele jeito.

E não conseguiria nunca negar ou tentar esconder que havia gostado e muito daquele excesso de sinceridade de Baekhyun, mesmo que ficasse sem jeito toda vez que ele era assim, sincero demais... O que causava sentimentos conflitantes em Kyungsoo, já que não queria se dobrar fácil demais para um cara que aparentemente tinha qualquer um na mão ao mesmo tempo que gostava do jeito dele e da atenção que recebia ― embora algo lhe dissesse que provavelmente era o mesmo tratamento que Baekhyun dava a qualquer pessoa que se sentia interessado.

Não que fosse santo ou algo do tipo porque Eduardo era o famoso come-quieto, tinha suas ficadas sempre discretas e, quando realmente se esforçava, ninguém ficava sabendo com quem tinha ficado. Porém com ele sempre foi mais difícil e nunca tinha saído com alguém no nível de Bernardo: bonito pra caramba.

Depois de longos minutos processando aquela enxurrada de elogios, diante da tranquilidade de Bernardo, Eduardo percebeu que ele não estava esperando resposta alguma, que só queria mostrar, da forma mais explícita possível, o interesse que possuía e que já era bem claro. Só restou para ele soltar um riso abafado e virar para o surfista, chamando a atenção dele.

― Então… você gosta da minha voz? ― Kyungsoo questionou com certo interesse e Baekhyun assentiu, não parecendo tímido como inicialmente.

― Poxa, fico fraco só de imaginar você rindo no pé do meu ouvido ou sussurrando alguma besteirinha ― respondeu sem vergonha, fazendo Eduardo soltar uma gargalhada.

― Hm… bom saber ― brincou, causando risos enquanto percebia que as latas cheias no balde estavam acabando. Ambos esvaziavam seus copos muito rápido. ― Eu também te acho muito bonito. E muito, muito cheiroso — decidiu dizer, como quem não queria nada.

― Mesmo? ― Bernardo o olhou com um sorriso torto no rosto, pegando mais uma latinha. ― Acho que está faltando mais um elogio aí…

― Qual? O gostoso? ― Eduardo indagou e observou Bernardo acenar positivamente, atiçado para ser correspondido naquele ponto também. ― Quanto a essa parte… eu vou pensar no seu caso.

― Qual é, pô, que vacilo! ― Baekhyun exclamou indignado, fazendo Eduardo cair na gargalhada e ele próprio esquecer rapidamente da zoação inicial. No fundo, Bernardo não ligava muito para qualquer elogio que fosse receber, desde que Eduardo continuasse com aquele sorriso bonito no rosto. — Olha que não sou de se jogar fora, hein… — zoou, erguendo as sobrancelhas sugestivamente e ganhando um revirar de olhos em resposta.

― Mas eu não disse o contrário disso ― Kyungsoo respondeu a zoação com um ar despretensioso, resolvendo se sentar na areia e se encostar na pedra, bebendo a cerveja calmamente enquanto pensava que não deixava de ser verdade o que disse. Baekhyun parecia surpreso com sua resposta. ― E também ouvi falarem de você por aí.

― Ah, é? ― Bernardo imitou as ações de Eduardo e também sentou-se na areia, soltando uma risadinha divertida e ajeitando o balde entre as pernas. As pernas e braços de ambos se roçavam de um jeito gostoso, mas eles não falaram nada sobre. ― E o que você ouviu, hm?

― Hm… Ouvi coisas, oras. ― Kyungsoo deu de ombros, olhando um tanto desconfiado para Baekhyun e sentindo o corpo esquentar por culpa da cerveja… e das secadas que ele lhe dava indiscretamente. ― Não preciso dizer se você já sabe delas.

― Eu até posso saber… mas adoraria ouvir da tua boca. ― Bernardo mordeu o lábio inferior antes de sorrir faceiro, alisando a própria barriga por cima da camisa, com um ar preguiçoso. Kyungsoo admitia que aquele jeitinho de Baekhyun o deixava mais bonito do que o normal. ― Receber um elogio seu é ótimo. Ainda mais nessa voz maravilhosa que você tem…

Foi gostoso para Eduardo ouvir o tom arrastado e ébrio de Bernardo tão de pertinho quando ele se achegou mais e encostou o rosto em seu ombro, mesmo que fosse inevitável sentir o corpo tensionar e o estômago ferver numa mistura de álcool e nervosismo a cada lufada de ar que Baekhyun soltava e atingia o seu pescoço.

― Eu vou pensar no seu caso ― Eduardo repetiu baixinho, já que Bernardo estava perto o suficiente para ouvir. Tomou um longo gole da cerveja a fim de relaxar, permitindo se inclinar para ajeitar a cabeça dele em seu ombro. A risadinha de Baekhyun fez a pele de Kyungsoo se arrepiar levemente.

― Hm… E vai pensar com o mesmo carinho que te fez aceitar o meu convite? ― Bernardo perguntou em tom de flerte enquanto fixava o olhar nas pintas que conseguia enxergar no pescoço de Eduardo à meia luz.

Kyungsoo deu uma risada soprada diante da jogada de Baekhyun e, ao perceber que não conseguiria formular uma resposta a tempo de deixá-lo desconcertado, decidiu ficar quieto, encostando a cabeça na pedra e fechando os olhos. Estar tão consciente do próprio corpo era um pouco estranho para Eduardo e provavelmente era por culpa do nervosismo que lhe atingiu ao tê-lo tão perto, mas sentia cada leve toque de Bernardo, mesmo sobre a camisa onde o rosto dele se apoiava e os dedos passeavam preguiçosamente.

De uma maneira estranha, Baekhyun não quebrou o silêncio e, se não fosse pelas pontas dos dedos circulando levemente a lombar de Kyungsoo antes de se direcionarem até a cintura e apertarem levemente, poderia até pensar que ele estava dormindo. Então Bernardo afastou o rosto do ombro de Eduardo, apenas para acariciá-lo com a ponta do nariz de um jeito carinhoso e preguiçoso — embriagado pelo perfume e atraído pelos pontinhos escuros espalhados pela pele — e fechar calmamente a distância até que estivesse com o rosto enterrado no pescoço dele, sentindo o frescor da fragrância se desprender mais intensamente na região sensível.

E, nossa, só de tê-lo tão próximo Eduardo podia sentir o coração socar o peito e pulsar nos ouvidos enquanto o estômago dava voltas tamanho o nervosismo que sentia. Mesmo que mínimo, o contato era tão bom que a pele de Kyungsoo se arrepiou e seus lábios se entreabriram em um suspiro contido enquanto franzia as sobrancelhas e mantinha os olhos fechados, a fim de se concentrar em cada roçar do nariz e dos lábios macios de Baekhyun em seu pescoço.

Nesse meio tempo, a mente de Bernardo explodia em imagens criadas de ele mesmo explorando a pele cheirosa com a boca e a língua da forma mais ousada possível, sentindo seu desejo por Eduardo crescer mais um pouquinho enquanto fazia desenhos aleatórios na pele do pescoço dele com a ponta do nariz e dedilhava levemente a cintura, sentindo a ansiedade lhe arranhar as costelas e congelar o estômago.

Parecia tão natural estar ali que Baekhyun não conseguia se impedir de continuar, perdendo a noção do tempo e do espaço em volta, ainda mais quando Kyungsoo tombou levemente a cabeça, deixando o pescoço mais acessível a ele após se acostumar com os arrepios causados pelas carícias.

Foi com muito custo que Bernardo abandonou o pescoço de Eduardo, impedindo-se de beijar a pele convidativa e seguindo com a ponta do nariz pela linha da mandíbula até chegar ao queixo e se afastar um pouco, com a sensação de ter estado em outra realidade. Kyungsoo instantaneamente sentiu falta do toque. A pele queimava nos rastros que Baekhyun deixou nela, o coração parecia dar cambalhotas e o corpo parecia totalmente embriagado mesmo que o álcool tivesse evaporado com o nervosismo que havia lhe tomado.

Eduardo ergueu os olhos, sentindo o coração se acelerar ainda mais ao perceber a proximidade em que estavam. Bernardo estava tão perto que só precisava de um movimento para que colasse a boca na dele… Entretanto, os dois permaneceram em silêncio, parados, com as bocas quase coladas, pedindo por um beijo que Baekhyun não conseguia esconder que queria muito dar em Kyungsoo enquanto reparava em cada traço da boca bonita. Mas, como num estalo ― que, na realidade, foi o início escandaloso de “Evoluiu” de Kevin o Chris e do coro animado que acompanhava a música no luau ―, ambos pareceram perceber o que estava acontecendo e se afastaram com piscadas desajeitadas, mãos no cabelo e na nuca, e pigarreios exagerados.

― Essa música não fica velha nunca, né? ― Bernardo foi o primeiro a falar alguma coisa, a voz soando rouca e nervosa, visivelmente sem jeito com o clima desconcertante que se instalou entre os dois, quase desesperado para a conversa voltar a fluir. Ele pigarreou mais uma vez antes de abrir mais uma latinha e tomar direto dela.

― Aparentemente uma relíquia do funk ― Eduardo concordou, sentindo o rosto pegando fogo e sentimentos conflitantes lhe tomando quando na verdade não queria pensar em nada. Resolveu fazer o mesmo que o surfista e pegou uma latinha para beber também. ― Aliás, o tempo tá bem gostoso, né? Tá fresquinho por aqui.

― Bom… É o que se espera, né. ― Baekhyun deu de ombros, chamando a atenção de Kyungsoo. ― Estamos numa praia à noite, afinal.

Eles se entreolharam e houve um breve momento de silêncio antes de não resistirem e caírem na gargalhada, permitindo finalmente que o desconcerto de ambos passasse por meio de risadas e pelo entendimento de que aquele clima não combinava com eles.

Após a tensão ter sido dissipada, Bernardo se sentiu menos apreensivo ― mas não menos tentado ― enquanto Eduardo concluía que havia sido uma simples e pura provocação por parte dele, se perguntando onde estava com a cabeça para cair no flerte daquela forma tão facilmente.

― Porra, Dinho... ― Eduardo xingou, engolindo o riso para virar o conteúdo da lata na boca em grandes goladas e sentindo uma queimação chata, agora por culpa do álcool fermentado que castigava o estômago vazio. ― Você é foda, viu.

― Eu não vou pedir desculpas. ― Ainda rindo, Bernardo apertou a latinha um pouco mais entre os dedos antes de tomar a metade do conteúdo, sentindo-se um pouco tonto quando parou, sabendo que ficaria bêbado de vez quando levantasse. Espiou pelo canto de olho e percebeu que Eduardo ainda estava sem jeito, o que o fez sorrir de leve. ― Quer voltar pra festa?

― Hm… ― Kyungsoo olhou para o local abarrotado de gente, fazendo uma careta de desagrado e negando com a cabeça. ― Não… Está mais lotado que antes e eu estou desencorajado.

― Posso chamar os meninos para cá, então ― Baekhyun propôs, pensando que seria bom voltar ao local e pegar mais bebida, mesmo que soubesse que não precisava mais.

― Nah, deixa os moleques curtirem lá… ― Eduardo sorriu para Bernardo e se permitiu relaxar ainda mais o corpo, deixando sua perna cair sobre a dele. ― Eu tô de boa.

― Tudo bem, então. ― Observando os movimentos de Kyungsoo, Baekhyun sorriu pequeno, gostando de vê-lo aparentemente tranquilo daquela forma. ― Posso ficar mais um pouquinho com você…?

Ao ouvir a pergunta cautelosa, Eduardo encarou Bernardo longamente antes de desviar os olhos para a noite estrelada, curtindo a brisa fresca e enxergando as ondas um pouco mais calmas. Desejava ouvir o som do mar que estava sendo abafado pela música que tocava na festa, mesmo que estivesse preguiçoso demais para se levantar e se aproximar da água.

Kyungsoo concluiu que não tinha motivos para negá-lo, não quando era Baekhyun quem estava tornando a sua noite menos solitária, por mais que gostasse de ficar sozinho e ainda estivesse sem jeito devido as impressões dos toques dele persistirem na sua pele. Estava tendo um bom momento, algo que estava precisando há muito tempo, e prolongá-lo não iria fazer mal. Por isso voltou a encarar Bernardo antes de aquiescer.

― Não vejo problema nenhum ― Eduardo disse, terminando de beber sua latinha e pegando a última do balde enquanto novamente tomava consciência da proximidade dos corpos, a cabeça de Baekhyun voltando a encostar em seu ombro após ouvir sua resposta. ― Pode ficar.

― Então eu fico. ― Bernardo sorriu, inevitavelmente feliz.


🌴🌊🌴


O horário de saída da faculdade era quase sempre confuso, com muitas pessoas passando para lá e para cá, esbarrando umas nas outras sem se importar, apressadas para irem para casa ― ou para algum lugar divertido, considerando o fato de que era sexta-feira à noite. E no meio daquele formigueiro que se formou na portaria da instituição, Bernardo se colocava na ponta dos pés, tentando enxergar pelo menos um de seus amigos, já que Mateus havia lhe chamado para ir na lanchonete que havia por perto e se sentiu muito tentado a ir, mesmo que estivesse se sentindo cansado logo na segunda semana de aula após as férias.

Baekhyun sabia que parte de seu cansaço vinha da última semana de férias que passou na casa de seus pais, a pedido do irmão mais velho. Sempre havia uma pequena carga de estresse com a quebra da sua rotina de ir ao mar quase todas as manhãs para ficar na casa dos pais vendo canais infantis na TV com seu sobrinho ou cuidando dos cachorros do pai. Não era ruim, mas Bernardo considerava uma rotina muito parada.

Mesmo assim, amava passar um tempo com a família e estava até mesmo convencendo seu irmão mais velho, Fernando, a deixar Luquinhas aprender surf com ele — faltando apenas o aval da cunhada para que isso acontecesse e sabia que conseguiria, já que Carolina tinha muito interesse pelo esporte e só não havia aprendido pela falta de tempo. Seu sobrinho tinha apenas 3 anos, mas ele e Baekhyun eram como unha e carne, e Luquinhas já estava numa ótima idade para começar a se familiarizar com a água e aprender a nadar aos poucos... Algo que Bernardo estava ansioso para ver, mesmo sabendo que isso deixaria seu pai de cabelos em pé ― se ele, por acaso, não fosse careca.

Isso tudo porque Baekhyun era destacado demais da família, quase como a ovelha negra, que optou por ser médico veterinário em vez de advogado, como todo mundo ali. Seu pai ainda pegava no seu pé com dedicação, mesmo mostrando-se irredutível quanto às suas decisões. Sua mãe também tentava gentilmente convencê-lo a mudar de curso na faculdade quando nunca cogitou a possibilidade. Era o principal motivo de Bernardo dificilmente visitá-los, geralmente só ia a pedido de Fernando que, ao contrário dos pais, apoiava o irmão mais novo a seguir sua vida como queria.

Por um lado, Bernardo compreendia muito os progenitores ― eles planejaram uma vida para cada filho e ver um deles seguindo um caminho muito discrepante podia ser frustrante. Por outro lado, Baekhyun não se preocupava em fazê-los entender que filhos eram indivíduos com pensamentos, sonhos, ideologias e decisões independentes. Sabia que em algum momento seus pais iriam perceber como era feliz e bem sucedido daquela maneira, mesmo que aquela insistência fosse incômoda para Bernardo.

Apesar de tudo isso, havia algo que estava deixando Baekhyun realmente contente: suas conversas constantes com Eduardo pelo Whatsapp.

Desde a festa em que ficaram conversando até a alta madrugada e se despediram com a troca de números de telefone, os dois conversavam quase todos os dias durante a noite, já que Kyungsoo ainda trabalhava na lanchonete e não usava o celular durante aquele período. No início era Bernardo quem o chamava, puxando assuntos aleatórios e sempre tendo muita coisa para dizer enquanto Eduardo só mandava respostas curtas, embora nunca o ignorasse de fato. Demorou uma semana até que Kyungsoo se soltasse o suficiente para que até enviasse áudios soltando uma variedade interessante de palavrões para xingar um cliente que havia lhe destratado ― o que fez Bernardo rir bastante, obviamente.

E mesmo que tivessem se visto apenas uma vez após o luau, alcançaram uma proximidade muito grande, a ponto de se considerarem amigos ― pelo menos era isso que Baekhyun sentia depois de iniciar o final de semana reclamando da reclamação de seu pai sobre um jogo do Fla x Flu e terminar comentando sobre as bandas brasileiras de indie rock que Eduardo havia recomendado enquanto ele prometia dar uma chance para Maneva, a banda de reggae favorita de Bernardo.

Poderia até ser uma preocupação para Baekhyun o fato de ter Kyungsoo tão constantemente em seus pensamentos, mas ele estava tão empolgado com uma amizade nova, cheia de distinções entre gostos e também muitas semelhanças prazerosas, que nem havia parado para pensar profundamente sobre isso. Bernardo sempre se deixava levar pela sua animação quando conhecia alguém que lhe interessava muito ― e isso era meio difícil de acontecer, mas Eduardo tinha um jeito tão único aos olhos de Baekhyun, que ele apenas queria conhecê-lo mais e mais.

Foi graças a Kyungsoo que sua semana na casa de seus pais foi mais tranquila do que o habitual, com o humor e aleatoriedades que agradavam muito a Baekhyun.

Bernardo estava tão absorto pelos próprios pensamentos que levou um susto ao sentir um par de mãos pesarem em seus ombros ao mesmo tempo em que teve a impressão de ter visto Eduardo próximo da barraca de tapioca que ficava ao lado da saída da faculdade. Estava pensando tanto em Eduardo assim ao ponto de vê-lo em todos os lugares?

― Não precisa ficar na ponta dos pés assim, eu te ajudo a enxergar, tampinha. ― Baekhyun ouviu a voz de Daniel atrás dele e revirou os olhos pela zoação.

― Cauã me ajudaria mais ― devolveu, fazendo o amigo rir baixinho ao passo em que ele se colocava ao seu lado. ― Você não viu o Mateus por ali pela saída? Ele falou que ia se encontrar comigo pra gente comer um lanche e nada ― Bernardo reclamou, bufando impaciente enquanto voltava a ficar na ponta dos pés.

― Bro… não vi ― Daniel respondeu, enfiando as mãos nos bolsos da calça jeans e ajudando-o a procurar com os olhos. ― Será que ele não esbarrou com a Ju por aí, não?

― Pô, se ele me largou pra ficar atrás da Juliana vai ser um vacilo do caralho ― Baekhyun xingou, mas acabou rindo, porque não era algo difícil de acontecer quando se tratava da paixão não superada de Mateus pela garota. ― Eu tô cansado hoje, queria meter o pé.

Apesar de querer deixar o amigo pra lá e ir embora, Bernardo não era vacilão como Mateus e por isso decidiu mandar uma mensagem e esperar mais um pouco enquanto vasculhava com os olhos aquele amontoado de gente uma última vez.

― Sei que o semestre começou porradão pra gente, mano ― Daniel começou, colocando a mão no ombro de Bernardo e dando leves tapinhas. ― E ‘cê tá com estresse acumulado de casa. Se pá é melhor ralar o peito mesmo.

― É, pois é… ― lamentou, soltando um muxoxo baixinho. ― Teu falou que iria brotar aqui, mas agora tá bancando de furão, pô.

Sem que pudesse controlar, Baekhyun voltou a olhar para a barraquinha de tapioca só para confirmar se aquele cara muito parecido com Eduardo ainda estava lá e o viu de costas para ele, parado na lateral da barraca. Não queria pagar o mico de se aproximar e não ser quem pensava, mas a postura, a largura dos ombros e até mesmo o cabelo raspado nas laterais com o topetinho comportado de Kyungsoo estava naquele cara. Sua confirmação definitiva veio quando Jonathan, o amigo de Eduardo, chegou perto do rapaz e começou uma conversa animada. Aquele só podia ser Eduardo, a não ser que ele tivesse um irmão gêmeo ou algo assim, foi o que pensou antes de se virar novamente para Daniel.

― Mano, eu vou indo… Se você vir o Mateus, fala pra ele que vou passar na lanchonete antes de ir pra casa ― Bernardo informou ao amigo, que assentiu em concordância.

― De boa, bro. Vou ficar por aqui mais um pouco, tô esperando uma pessoa também ― comentou Daniel enquanto se despedia de Baekhyun com um aperto de mãos. ― Se ele passar pelo barzinho, passo o recado pra ele.

Bernardo se afastou depois de responder um “valeu” baixinho, caminhando em direção à barraca onde viu Eduardo ainda conversando com Jonathan. Não conseguia negar que estava empolgado, já que fazia longos dias que não o via pessoalmente, graças ao tempo que lhe faltava em todo início de semestre. Após se aproximar um pouco e ver como Kyungsoo estava entretido numa pequena discussão com o amigo dele, Baekhyun hesitou em abordá-lo por não querer atrapalhá-los, mas logo Jonathan o viu e sorriu largo, acenando e chamando a atenção de Eduardo para atrás dele.

― Fala aí, Bernardo! ― Junmyeon foi o primeiro a cumprimentar Bernardo, que sorriu e se aproximou mais, apoiando uma mão no ombro de Eduardo.

― Qual é, Jonny, de boa? ― Baekhyun respondeu, apertando o braço de Jonathan amigavelmente e se virando para Kyungsoo logo após, terminando de enlaçar os ombros dele em um meio abraço. ― Oi, Edu, tudo bom?

― Oi, Dinho… ― Eduardo deu um sorriso breve e envolveu a cintura de Bernardo brevemente, devolvendo o meio abraço e revirando os olhos para o sorrisinho sugestivo de Junmyeon, que adorava provocá-lo sobre sua proximidade com Baekhyun. ― Já sabe, Jonny, amanhã na minha casa para terminarmos o trabalho, ouviu?

― Vai me deixar ficar sozinho com o Ricardo um pouco? ― Jonathan questionou, fazendo Eduardo olhá-lo com indignação estampada no rosto.

Ricardo era colega de turma, quase amigo, de ambos e era bem bonito, sendo esse e mais o fato dele estar descobrindo “novos mundos” os motivos para Junmyeon estar se arrastando para ele.

― Pelo amor de Deus, Jonathan, toma vergonha nessa tua cara, porra ― Kyungsoo disse irritado, fazendo Junmyeon se encolher um pouco e Bernardo rir baixinho diante da situação. ― Não é pra ficar investindo em cara hétero, não me decepcione assim.

― Falso hétero, Edu, falso hétero, já disse. ― Jonathan suspirou meio aborrecido, olhando para trás dos dois e logo voltando a sorrir. ― Tá bom, amanhã eu tô lá, okay? Não irei me atrasar.

― Ele tá aqui atrás, né, seu filho da mãe? ― Eduardo perguntou, estreitando os olhos enquanto o amigo já se afastava e cantarolava um “tchau” sem ao menos lhe responder. ― Mas é uma anta… ― comentou baixinho e claramente indignado, o que fez Bernardo rir enquanto começava a rir também.

― Ele tá apaixonado? ― Baekhyun perguntou por curiosidade e viu Kyungsoo negar com a cabeça.

― Que nada, ele só quer dar uma bimbada mesmo e a cabeça de baixo não pensa, né ― Eduardo ripostou, afastando-se brevemente de Bernardo, que estava muito confortável naquele meio abraço e quase soltou um som de desaprovação pelo afastamento. ― Mas fala aí, como tu ‘tá? Faz um tempo que ‘cê não aparece lá na lanchonete… Tá atolado ainda?

― Eu te falei… parece que fiquei meses distante da correria e estou com dificuldades de me reorganizar ― Baekhyun lamentou enquanto bagunçava os cabelos, encarando Kyungsoo e perdendo a conta de quantas vezes pensou sobre o quanto ele era bonito aos seus olhos. Acreditava que Eduardo já estava até se acostumado a ser encarado daquela forma. ― Mas já, já eu volto a te perturbar.

― Hm… então deixa pra lá ― Eduardo resolveu implicar e riu quando Bernardo soltou um som indignado e o chamou de vacilão. ― Mas sério… espero que você se adapte. Não é legal ver sua cara de cansado, não combina com você.

― Vou usar esse sábado pra me desagregar no mar, rapá, vou aparecer novinho em folha, ‘cê vai ver ― Baekhyun rebateu com um tom otimista e animado na voz enquanto ajeitava as alças da mochila, fazendo Kyungsoo rir brevemente e desviar o olhar do dele. Foi naquele breve silêncio que Bernardo viu a oportunidade de ficar mais tempo conversando com Eduardo e, despretensiosamente, perguntar: ― Mas e aí, você ‘tá com muita pressa pra ir pra casa?

― Hm? Não exatamente… ― Kyungsoo respondeu distraído, enfiando as mãos no bolso da bermuda e voltando a olhar para Baekhyun com uma expressão meio avoada. ― Por quê?

― Tem uma lanchonete aqui perto, que fecha um pouco mais tarde… ― Bernardo disse ao esticar o braço na direção em que ficava o estabelecimento e lançou o convite. ― Não quer ir comigo? A gente conversa mais um pouco… eu pago o lanche.

Como muitas outras vezes, Eduardo encarou Bernardo de um jeito que ele não conseguiu decifrar. Parecia considerar a ideia, mas ao mesmo tempo parecia incisivo, como se quisesse ler Baekhyun de alguma maneira. Não era incômodo, porém sempre deixava o surfista curioso em saber o que se passava na cabeça de Kyungsoo.

― Confesso que prefiro que você pague minha volta pra casa depois do que o lanche… ― Eduardo finalmente respondeu baixinho, causando riso em Bernardo, que voltou a jogar o braço sobre um de seus ombros.

― Isso a gente resolve depois, relaxa. ― Baekhyun sorriu, fazendo Kyungsoo olhá-lo desconfiado, mesmo que parecesse prestes a rir. ― Tá comigo, tá com Deus!

Caminharam tranquilamente até a lanchonete, mantendo um silêncio confortável após Eduardo reclamar do braço pesado de Bernardo em seus ombros, fazendo-o rir baixinho e murmurar um pedido de desculpas. Aquela lanchonete era muito conhecida entre os estudantes daquela faculdade ― era a mais próxima e com as melhores opções de lanche, mesmo que o preço não fosse tão em conta. Baekhyun gostava dela, mas não era como a Donos do Sabor, por motivos óbvios.

Os dois chegaram no local relativamente cheio, escolheram uma mesa no fundo e Bernardo se dirigiu ao balcão para ver as opções vegetarianas que havia no estabelecimento, o que foi um problema já que nenhum salgado parecia ter queijo. Por fim, Eduardo resolveu o problema sugerindo uma porção grande de batata frita para os dois só com catupiry e cheddar e dois milk shakes. O sorriso de Baekhyun ao voltar para a mesa entregava a ansiedade para comer o que havia pedido enquanto conversava com Kyungsoo.

― Mas e aí ― Bernardo falou animado, chamando a atenção de Eduardo, que cutucava com a unha o menu plastificado que estava sobre a mesa. ― Eu nem sabia que você estudava aqui na UVA…

― Pois é… nem eu sabia que você estudava aqui ― Kyungsoo rebateu com um sorriso, cruzando os braços e se inclinando sobre a mesa. ― Acho que coisas que fazemos no dia a dia nunca foi tópico das nossas conversas.

Baekhyun concordou com o que ele disse. Realmente, ficavam tão ocupados falando de gostos em comum e reclamando sobre aleatoriedades que perguntas mais padronizadas sobre faculdade, trabalho ou qualquer coisa do tipo nunca haviam sido levantadas.

― E o que você estuda aqui? ― Bernardo perguntou, muito interessado em saber mais sobre Eduardo. ― Eu nunca esbarrei em você por aqui desde que te conheci, então provavelmente você deve ser do outro bloco.

― Provavelmente sou sim... eu faço Arquitetura e Urbanismo ― Kyungsoo respondeu e sorriu largo quando Baekhyun fez uma expressão mista de entendimento e surpresa. ― E a gente já deve ter se esbarrado, só nunca prestamos atenção um no outro ― alegou, fazendo Bernardo negar com a cabeça enfaticamente.

― Não mesmo. Eu teria me lembrado se um homem bonito que nem você tivesse cruzado meu caminho. ― Bernardo sorriu de um jeito bonitinho demais para Eduardo, que revirou os olhos e chutou sua canela de leve, fazendo-o rir. ― E nem sei porque fiquei surpreso, esse curso combina com você. Arquitetura ou Hotelaria, no caso.

Kyungsoo o olhou confuso por um momento antes de finalmente entender, não conseguindo segurar o próprio riso, mesmo que quisesse parecer irritado.

― Eu entendi o que você quis dizer, viu ― Eduardo declarou, ainda rindo e fazendo sinalzinho com a mão de que iria ter volta enquanto Bernardo o olhava admirado. ― Mas… e você? Faz qual curso?

― Medicina veterinária ― Baekhyun respondeu distraidamente, encarando o balcão onde o cara terminava de preparar os milk shakes que haviam pedido e só voltando a olhar para Kyungsoo ao ouvir um “uau” vindo dele. ― Surpreso?

― Sim. ― Eduardo assentiu, parecendo exageradamente surpreso. ― Não pensei que você fosse tão inteligente.

― Ei! ― Bernardo exclamou antes de gargalhar, sentindo-se indignado, mas achando graça de quão implicante Kyungsoo conseguia ser, já que era um lado dele que gostava bastante. ― Sua vingança veio cedo demais, viu.

― Não poderia deixar essa oportunidade pra trás. ― Eduardo deu de ombros, se divertindo com a pequena revolta do outro.

Quando o lanche chegou à mesa, os dois engataram em uma conversa sobre seus cursos e suas perspectivas de futuro. Eduardo reclamou de um professor em que sentia a antipatia ser recíproca e que parecia lhe perseguir por todo o lugar ― quando na verdade o homem era apenas o coordenador de seu curso e era comum ele rondar pelo bloco onde lecionava e administrava. Já Bernardo contou ansioso sobre as matérias que havia pego, se empolgando demais e acabando por entregar uma pequena aula de genética e evolução — interrompendo-se longos minutos depois ao perceber que Kyungsoo lhe olhava como se estivesse atrás de uma tela com uma logo do Telecurso 2000 em algum dos cantos.

Baekhyun achou fofo quando ele negou com a cabeça e apenas o incentivou a continuar, pois apesar de não entender muito bem, a forma como o surfista contava o que sabia deixava tudo muito interessante.

E, caramba, por mais que tivesse admitido até mesmo para o próprio Eduardo, Bernardo notava constantemente como era agradável conversar com ele, e saber que tinha alguém que gostava de lhe ouvir com tanta paciência fazia com que inevitavelmente tivesse uma recíproca vontade de ouvir e conhecer mais sobre o que Kyungsoo gostava, fazia e queria em sua vida.

Na realidade, tudo entre eles parecia muito sincronizado, muito recíproco... menos a vontade que Baekhyun tinha de pegar Kyungsoo de jeito. Porque, sim, sentia vontade de beijá-lo toda vez que olhava para aquela boca bonita e bem desenhada, toda vez que ele falava, sorria ou até mesmo quando só ficava parado, distraído, torcendo o nariz em uma mania que ele tinha de querer coçá-lo sem encostar as mãos no rosto.

Bernardo o conhecia há um mês e já deveria ter se acostumado com a beleza de Eduardo, com o jeitinho reservado dele quando estava no meio de muita gente, na lanchonete quando ficava todo concentrado em anotar e entregar os pedidos. Semanas iriam e viriam e Baekhyun sentia que não iria superar tão cedo aquela vontade que tinha de ficar com Kyungsoo porque ele sabia do seu interesse, mas… mesmo que nunca tivesse lhe dito com todas as letras, Baekhyun também sabia que não iria rolar nunca. Via essa possibilidade se distanciar cada vez mais ao passo que ficavam mais amigos.

No fim das contas, estava tudo bem para Bernardo, porque estava conseguindo exatamente o que queria: se aproximar de Eduardo.

― Aliás… domingo 'cê vai ter algum compromisso? ― perguntou Baekhyun, catando as batatas que haviam sobrado e jogando-as na boca. Sorriu ao ver Kyungsoo inclinar a cabeça levemente para cima, confuso.

― Hm… acho que não… ― Eduardo respondeu enquanto meneava a cabeça. ― Só sábado mesmo que o Jonny vai lá em casa ajeitar um trabalho. Por que a pergunta?

― Não quer brotar na minha casa pra jogar video game, trocar umas ideias ou ver algum filme? ― Bernardo convidou ao terminar de beber o milk shake, se jogando contra a cadeira de plástico. ― Tenho um pc gamer e um notebook, mas tenho um PS4 e uma TV bem legal na sala também.

― Hm… interessante. ― Apoiando o queixo em uma das mãos, Kyungsoo parecia cogitar a ideia. Fazia um tempo que não jogava, pois não tinha bom equipamento para isso. ― E quem mais vai?

― Bom, por enquanto eu só chamei você mesmo. ― Baekhyun não conseguiu segurar a risada sem graça, dando de ombros. ― Eu acabei de ter a ideia. Mas se você não quiser ir só e chamar alguém…

― Não, não. ― Eduardo riu e balançou a mão em frente ao rosto, tentando tranquilizar Bernardo, que parecia preocupado em deixá-lo desconfortável com o convite. ― Por mim pode ser, faz muitos anos que não jogo nada além de jogos mobile… é só me dizer o horário que apareço por lá.

― Domingo é dia vazio, Edu, tu pode acordar e ir pra minha casa, se você quiser. ― Baekhyun se animou e sorriu largo, contagiando Kyungsoo rapidamente. ― Amanhã posso comprar um monte de porcaria, um pack de Brahma ou de Bud e a gente passa o dia engordando, conversando e se entretendo, que tal? Aí mais a noite você vai pra casa.

Novamente Eduardo ficou em silêncio, encarando Bernardo enquanto parecia pesar os prós e contras do convite, mesmo que na verdade estivesse tentando lembrar se havia algo que precisava adiantar na faculdade. Para Baekhyun não tinha contras nenhum: iria beber e comer enquanto conversava e jogava. Era disso que precisava para iniciar bem o seu semestre.

― Negar fica ainda mais difícil se esse pack da Brahma for puro malte... ― Kyungsoo sugeriu com interesse, o que fez Baekhyun jogar os braços para o alto e balançar os ombros mais uma vez.

― Você quem manda ― Bernardo respondeu em um tom brincalhão, mesmo que estivesse dizendo a verdade. ― O que cê quiser, eu fecho pra ti.

― Olha, rapá, vai ficar me dando liberdade assim, depois não reclama, viu? ― Eduardo riu baixinho, se espreguiçando sobre a cadeira e sentindo o corpo amolecer. O cansaço da semana atingindo após aquela batata toda que havia comido. ― Combinado, então.

― Certo… Então eu vou ali pagar a conta ― Baekhyun informou ao se levantar, tirando a carteira do bolso. ― Vai chamando o Uber aí, que eu preciso levar o tritão de volta ao mar.

Ouvindo a voz de timbre gostoso praguejar com o seu nome, Bernardo só conseguiu rir e perceber que havia até mesmo esquecido do quão exausto estava e de como só queria ir para casa descansar, graças às conversas animadas que teve naquelas poucas horas. Não era de se admirar, no fim das contas, que Baekhyun se sentisse ainda mais atraído por Kyungsoo.

E, ao sentir os joelhos se roçarem no banco de trás do carro enquanto conversavam baixinho, Bernardo sequer cogitou a ideia de evitar aquela reviravolta estomacal que sentia por causa de Eduardo... Deixaria as coisas irem e virem sem medir a força, tais como as ondas no mar.


June 2, 2021, 12:31 a.m. 1 Report Embed Follow story
1
Read next chapter Parte 2

Comment something

Post!
Fran Rodrigues Fran Rodrigues
O bullying com os paulistas meu EU VI VIU, aliás eu deixo vc me bater o qnt quiser pela demora de engatar na leitura. Tão gostosinho de ler meu pai que AAAA EU TÔ APAIXONADA NELES EXTREMAMENTE AFETADA É isso senhora estou que nem o Bernardo com o Edu na história, boiola boiola.
June 03, 2021, 21:26
~

Are you enjoying the reading?

Hey! There are still 1 chapters left on this story.
To continue reading, please sign up or log in. For free!