silvamaro Gabriel Amaro

120 anos após a Primeira Convergência, o mundo pós-apocalíptico se divide entre humanos e criaturas infernais, além de estar aflito com os primeiros sinais de que algo está mudando no planeta Abaddon. Nathan Mortimer, herdeiro do famoso caçador de recompensas William Mortimer, precisa lidar com promessas antigas de seu pai enquanto enfrenta os perigos inimagináveis de Abaddon. Nathan e seus companheiros serão capazes de impedir um plano que acabará com a humanidade de uma vez por todas? Parte do universo "Planeta Abaddon".


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Capítulo I - Velhas Promessas

ASSIM QUE ACORDOU, LEVANTOU-SE do chão do escritório e correu para o banheiro adjacente. Abriu a porta com pressa e vomitou no vaso sanitário de madeira; os olhos lacrimejaram e a ardência que subiu por seu esôfago era insuportável. Ao terminar o intenso processo, sentou-se no chão do banheiro e esfregou o rosto cansado com as mãos. Sua cabeça doía como se tivesse sofrido um acidente na madrugada anterior; entretanto, ele possuía total consciência de que o culpado por sua manhã fatídica era o álcool.

Vivia o dia de seu aniversário de 27 anos: 17 de março de 2020. A última madrugada fora propositalmente planejada para que bebesse uísque até que esquecesse daquele fato. Bebeu mais e mais enquanto revirava seu escritório, investigando contratos atuais. Por mais que possuísse residência fixa em um apartamento na Avenida Paraíso, bem próxima do escritório, fazia do prédio Mortimer uma casa improvisada com um sofá aconchegante em um quarto ao lado de sua sala. Com as finanças da empresa apertadas e seu estado mental cada vez mais deteriorado, só fazia sentido morar onde trabalhava.

Levantou-se do chão do banheiro e rastejou até a porta, erguendo o corpo e seguindo para seu escritório em passos lentos. Porra de ressaca. A cabeça dolorida tornava qualquer ação um soco pesado no rosto; esforçava-se para não cambalear, até que sentiu a cauda escapar da calça social e se fixar no batente da porta, auxiliando sua caminhada. Estaria sorrindo em reação ao raciocínio bondoso da parte demoníaca de seu corpo, mas a dor lacerante o impedia de escapar da apatia. Descobriu sua natureza obscura aos cinco anos, quando o membro cresceu desproporcionalmente e se tornou uma espécie de terceiro braço, mas sempre com vontade própria.

Seu pai, o único adulto que o criou, abominava quaisquer sinais de aspectos demoníacos. William Gideon Mortimer era o maior caçador de recompensas das Américas, mas, na realidade, só um homem obcecado por seu trabalho enquanto lidava com os traumas causados pela única mulher que amou. Nathaniel nunca conheceu sua mãe, portanto só possuía uma certeza sobre ela: eles foram abandonados pela mulher. A aversão da sociedade e de seu pai a qualquer elemento demoníaco provocou uma necessidade instintiva de esconder sua cauda perpetuamente.

Quando viajou por Abaddon com o homem, na década passada, descobriu que sua raça era chamada de daefin pelos demônios. Os híbridos nascidos de humanos e demônios eram totalmente rejeitados pelos habitantes originais da antiga Terra; porém, para os moradores mais recentes vindos do inferno, eram vistos com fascínio e despertavam sua pomposidade: se engrandeciam em tentativas de demonstrar toda superioridade dos daemon.

Antes que saísse, seu reflexo chamou sua atenção no espelho do banheiro: observou o longo cabelo escuro que ia até sua nuca, os olhos azuis avermelhados pelo cansaço, a pele ainda mais pálida após a madrugada de excessos. Respirou fundo e tentou escapar o olhar do espelho sem sucesso. Pareço um maldito cadáver. Sua cauda era longa, flexível e extremamente rápida; ela possuía ponta triangular e coloração avermelhada. Ele lavou o rosto com a água amena da pia e, após uma descarga no vaso sanitário, finalmente se retirou do banheiro; a cauda se escondeu em suas calças rapidamente.

Atravessou a curta passagem do escritório até a recepção. O local era muito espaçoso, com o piso de madeira adornado por tapetes deslumbrantes e as paredes abrigando obras de arte variadas. A modesta estátua de bronze de seu pai se erguia no centro do local, logo acima das letras que formavam “Mortimer”. Ele viu Molly Griswold, a fiel secretária da família, atrás do balcão. Ela ajeitou os óculos ao notá-lo e arregalou os olhos de leve; Nathaniel usava uma camiseta branca, calças sociais e meias, trajes nada normais para uma manhã de terça-feira. Eles riram quase ao mesmo tempo e ele se aproximou do balcão. Sua relação com a mulher de 30 anos era de irmandade desde pouco após a contratação dela, em 2010. Durante a busca pelo tesouro de Zunilod, não manteriam os negócios na América Alta sem a ajuda de Molly.

— Estamos sem uísque? — Ela arriscou um sorriso irônico e puxou um documento da gaveta do balcão. — Vamos checar a agenda do dia.

Seu cabelo caramelo era bem curto, enquanto os olhos verdes se beneficiavam de uma maquiagem um tanto discreta. Ao contrário de Nathan, que naquela altura precisava aceitar rugas de expressão precoces e sua barba falha, Molly era quase idêntica à garota inexperiente e tão firme que ele conheceu uma década atrás.

— Compro uma garrafa de presente para a senhorita depois — disse Nathan em um sorriso dolorido e improvisado. — Eu tenho uma agenda hoje?

— Temos sempre clientes interessados, Nathan. A dificuldade mais séria é decidir se aceitaremos ou não alguns tipos de clientela. — Molly pigarreou ao se referir aos Augúrios, um grupo de daemones que assediava a Mortimer buscando seus serviços.

— Papai não gostaria de saber que cogito fazer negócios com eles. — Ele desviou o olhar para uma foto antiga de seu pai atrás do balcão. Era um homem forte, de curto cabelo e caprichoso bigode castanho-escuro, olhos azuis e vestes luxuosas. — Preciso achar uma alternativa melhor.

— Eu concordo com você, mas isso precisa acontecer logo. — Ela deixou o queixo cair ao discutir o assunto delicado. — Quebraremos em breve. Você sabe disso.

As finanças da empresa que herdara de seu pai estavam caóticas. Os clientes mais tradicionais dos Mortimer haviam escolhido caçadores de recompensa mais experientes por não confiarem no potencial de Nathan; por outro lado, clientes novos ofereciam contratos suspeitos e que envergonhariam seu pai. Como Nathaniel salvaria a empresa que consumiu a vida inteira de seu pai sem decepcioná-lo no processo? Ele morreu. Você está livre agora. Por que continua pensando nele? Não era raro se flagrar imaginando o abandono completo da Mortimer e anos felizes se dedicando a qualquer outra atividade. Não conseguia compreender o que fazia com que se sentisse apegado à certeza de que seguiria os passos de seu pai, mas ali estava, dois anos após a morte do homem, fazendo precisamente o que ele planejara.

— Qual é a primeira reunião do dia? — Ele massageou as têmporas e buscou o pequeno estojo de cigarros no bolso da calça. — Por favor, eu preciso de algo interessante.

— Está com sorte — disse Molly entre um sorriso entusiasmado, virando o documento para que Nathan pudesse ler. — Elizabeth Rowena Fleming! Finalmente!

— Você realmente ignorou meus pedidos e permitiu um horário? — Nathaniel quis arrancar a própria cabeça com a ideia de negociar com a mulher. — Eu não quero me envolver com essa família.

— Nathan, eu sei que você odeia o pai dela, mas ela nunca nos fez mal. — Molly amoleceu sua expressão ao tentar convencê-lo de que aquilo era boa ideia. — Se for um contrato grande, pode mudar a realidade da empresa de uma só vez.

— Você já estava aqui na última vez em que aceitamos um contrato grande dos Fleming. — Ele sentiu a raiva queimar por trás do olhar que lançou à mulher. — Eu não achava que valia a pena na época e continuo sem achar agora.

— Mas a sobrevivência disto aqui não dependia do contrato de Archibald. — A fúria foi imediatamente aplacada pela assertividade de Molly. — Prefere confiar em Elizabeth ou nos Augúrios?

— Merda. — Ele acendeu o cigarro com o isqueiro de bronze herdado de seu pai. — Vou arrumar meu escritório enquanto a princesa não chega.

Se despediram com um aceno discreto de cabeças e ele retornou ao escritório. A situação era desastrosa: sua embriaguez da madrugada resultou em dois vasos de plantas quebrados e muitos papéis desorganizados. Mesmo com a dor de cabeça piorando a cada movimento, se pôs ao trabalho de imediato; passou longa meia hora recolhendo cacos de porcelana e guardando a papelada na ordem correta. Seu pensamento vagava entre tentar imaginar o que seu pai faria em situação similar, o que a herdeira dos Fleming poderia pedir e, principalmente, se o momento que esperaram por dez anos havia chegado.

No ano em que Archibald Fleming os procurou em busca de auxílio, em 2010, passaram por pesadelos e situações extremas na América Baixa para encontrarem o tesouro de Zunilod: a profecia que anunciava a futura chegada de uma nova era em Abaddon; um período de ainda mais escuridão e domínio infernal. Dez anos depois, seu pai estava morto e Fleming tentava emplacar a candidatura ousada de sua filha, Elizabeth, à presidência da América Alta. Sua reeleição em 2010 não foi suficiente para sua sede por poder.

Reconhecia as dívidas de seu pai com a família Fleming e não poderia desconsiderar a promessa feita por William após descobrir a Profecia dos Ossos, mas qual seria o preço a se pagar? Realmente precisava se dispor a arriscar a própria vida por promessas realizadas por seu pai a homens egoístas? Eu sei que você me obrigaria a assinar qualquer contrato de merda que ela me oferecer, mas não venderei nossa alma novamente. Duvidava que seu pai entenderia seu posicionamento; entretanto, não havia muito o que se fazer. Ele não estava e nunca mais estaria ali para guiá-lo novamente.

Uma campainha curta e aguda soou em sua mesa e ele soube que Elizabeth estava prestes a adentrar o escritório. Agarrou o sobretudo preto que repousava na poltrona de convidados e cobriu o topo da cabeça com seu escuro chapéu elegante. Sentou-se na cadeira atrás da mesa, respirou fundo e aguardou pela temida chegada de Fleming. Quando ela abriu sua porta e entrou, ele viu uma mulher de aproximadamente 32 anos, cabelo longo e loiro, sorriso contagiante estampado no rosto de traços delicados e olhos azuis atentos. Elizabeth vestia um terno feminino e exibia um longo revólver dourado em um coldre exposto na cintura. Sua figura era inegavelmente intimidante. Os mesmos olhos de serpente.

— Bom dia, senhor Mortimer — disse Elizabeth. Ela farejou o ar furtivamente, mas não conseguiu suprimir um misto de choque e divertimento em sua expressão. — Aroma agradável de uísque. Gostei do seu escritório.

— Bom dia, senhora Fleming. — Ele retirou o terceiro cigarro dos lábios e a encarou entre a fumaça. — O escritório provavelmente também gostou da senhora. Sente-se, por favor.

Ela ofereceu um sorriso cordial às palavras descontraídas de Nathan e se sentou na poltrona, os olhos reviraram o escritório rapidamente; ela parecia buscar sinais de como deveria aproximar assuntos delicados para ele.

— Há uma década, meu pai disse ao seu pai que eram íntimos o suficiente para que Archibald pudesse pular a bajulação e ir direto ao ponto. — O sorriso amargo apareceu pela primeira vez. — Eu farei diferente. Vou deixar que invente todo tipo de bajulação pois nada me convencerá a trabalhar com sua família novamente.

Para sua surpresa, a resposta de Elizabeth começou com um genuíno sorriso.

— Eu esperava certo grau de agressividade ao negociar com o senhor. — Elizabeth ergueu os dedos da mão direita na direção dele e, após uma careta de curiosidade, Nathan ofereceu o cigarro à candidata; ela tragou a fumaça e continuou. — Estou ciente de que meu pai cometeu um grave erro ao enviá-los para a América Baixa sem os devidos avisos e informações pertinentes.

— É óbvio que vocês estão cientes. — Nathan riu com a resposta de Elizabeth e a observou tragando outra vez. — Eu não quero saber o óbvio, Fleming. Quero que paguem pelo que fizeram.

— Estamos pagando. Jothan e sua família recebem todo auxílio necessário. Os senhores receberam todo auxílio necessário. — Sua postura tranquila inicial se desgastava pouco a pouco enquanto Nathan se satisfazia por afetá-la com suas acusações. — Não foram abandonados.

— Chama uma maleta lotada de dinheiro de reparação? — Nathan aceitou o cigarro e puxou o máximo de fumaça possível; sentia as veias do pescoço saltarem e as mãos quase se fecharem. — Um milhão de talões não compensam o que eu vivi naquela maldita floresta.

— Está acontecendo, Nathaniel. — A súbita afirmação de Elizabeth fez Nathan esquecer sua fúria no mesmo instante. — A Era de Abaddon acabará. Você conhece a profecia.

— Eu não sou meu pai. — Ele se levantou e ignorou o tremor das pernas. — Não é problema meu.

— Ele fez uma promessa! — A mulher também se levantou e esticou uma foto emoldurada para Nathan. — Olhe.

Mesmo desconfiado de qualquer truque dos Fleming, aceitou a foto e encarou a imagem por poucos segundos. Era uma clássica fotografia da família Fleming; o pai, Archibald Fleming, atual presidente da América Alta, era o mais destacado na imagem, de pé atrás do sofá que os abrigava. Rosamund Fleming estava sentada ao lado de seus três filhos: Thaddeus, Elizabeth e Agatha. O rapaz mais velho era o mais similar ao pai, tanto na aparência quanto no comportamento, enquanto Elizabeth portava-se como a ovelha negra da família e Agatha se preocupava apenas em aproveitar sua infância. A proximidade de suas famílias permitia que Nathan conhecesse os Fleming em seu íntimo.

— Eu conheço sua família. O que você quer que eu diga? — Ele jogou a fotografia na mesa e encarou a visitante indesejada.

— Quero que você me diga que vai encontrar a Agatha.

A revelação de Elizabeth fez Nathaniel buscar a cadeira e sentar-se outra vez; sentia dificuldade em respirar e estava cada vez mais confiante de que o momento anunciado realmente se aproximava. A Profecia dos Ossos pregava que, no futuro, o desaparecimento de um herdeiro da “Estrela do Ocidente” anunciaria o processo que causaria uma mudança no estado do mundo. Nathan odiava a ideia de trabalhar para os Fleming outra vez, e por mais que ele não soubesse se conseguiria permitir que uma criança inocente fosse afetada pelos esquemas perversos de homens e deuses, não estava disposto a se envolver. Não, não, não posso. Agatha era uma doce menina de 12 anos; estava feliz e falante em todas as vezes em que se encontraram. Como esse mundo horrível consegue ser tão injusto?

— Quando ela foi vista pela última vez? — Após um longo suspiro, ele voltou a olhar a mulher. — Não prometo nada, mas preciso de detalhes.

— Uma semana atrás, na Nova África — respondeu ela entre hesitações constantes. — É estranho, eu sei, mas é a informação mais concreta por enquanto. Ela desapareceu há 15 dias, evaporou de sua cama durante a madrugada e não abandonou rastros.

— Encontraram enxofre no quarto dela? — Nathan abriu a primeira gaveta da mesa e recuperou Destino dali; era o velho e confiável revólver de seu pai, possuía uma elegante empunhadura de marfim e marcações de metal, além da luneta para maior alcance.

— Como você sabe?

Daemones. — Ele se levantou e suspirou. — Quanto você me paga?

— Senhor Mortimer, eu não contei tudo. — Ela o interrompeu e ele arqueou as sobrancelhas enquanto a encarava. — Ela foi vista no continente africano com Izzuth. Meu pai disse que você e ela têm alguma história?

Nathaniel se preocupava com a possibilidade de o coração escapar pela boca; as pernas fragilizadas nunca conseguiriam permanecer de pé. Ele se apoiou na mesa e respirou fundo. Sempre temera um possível reencontro com o ser que o gerou; entretanto, confessava que parte de sua curiosidade inerente ansiava por mais informações sobre ela. Quando se viu sozinho, desamparado e abandonado ao planeta cruel que conhecia seu sobrenome tão bem, a ideia de se reconectar com alguém que participou de sua geração não parecia tão ruim. Poderia mesmo perdoar a deserção de Izzuth? Qualquer um que esperaria um abraço materno seria um tolo. Preciso mostrá-la que sobrevivi apesar dela. Ele tentava se acalmar ao pensar que, se precisasse enfrentar a infelicidade de vê-la, pelo menos estaria provando que não precisou de sua presença para florescer. Mas ele havia mesmo florescido? Ela não precisará saber de detalhes.

— Quando posso partir?

— Partiremos juntos. — Ela sorriu e ajudou Nathan a se recompor com uma pegada firme em seu ombro. — Vou entrar em contato com Jothan após sair daqui e o convidarei também.

— Jothan concordará com isso? E sua campanha? — Totalmente recuperado do nervosismo causado pelas notícias, Nathaniel guardou Destino no bolso do sobretudo.

— Ele também participou da promessa de William. — Elizabeth não parecia confortável discutindo o segundo assunto mencionado por ele. — Thaddeus assumirá a campanha. É o único jeito.

— Eu sei que não nos conhecemos tão bem, mas essa candidatura não é um sonho para você? — Ele buscou o quarto cigarro no estojo de bolso. — Posso encontrá-la sozinho.

— Ela precisa de mim, Nathaniel — respondeu Elizabeth. — Não sou como eles. Não vou permanecer aqui, sorrindo e acenando enquanto o senhor arrisca sua vida para achá-la. Prometi a mim mesma que não cometeria os mesmos erros de meu pai.

— Muito bem. — Nathan acendeu seu cigarro enquanto apontava para a mesa com o dedo da mão oposta. — Contrato.

Elizabeth buscou um documento no interior do blazer e deslizou o papel pela mesa de madeira. Ele passou os olhos pelo conteúdo do contrato e quase se engasgou ao ler o valor oferecido pela mulher.

— Vinte milhões de talões? — Nathaniel riu com a absurdidade do número. — Eu devia usar a missão anterior como parâmetro de perigo?

— Novamente: eu não sou como eles. — Ela ofereceu sua caneta-tinteiro, assim como seu pai havia feito há tanto tempo. — Não insultaria sua inteligência supondo que nossa jornada será fácil. Nada mais justo do que uma recompensa à altura.

Ainda com o peito sobrecarregado pela sensação de déjà-vu ao olhar o documento, Nathaniel assinou ao fim da folha e esperou Elizabeth fazer o mesmo. Respiraram fundo juntos logo antes de ele guardar o papel no bolso do sobretudo.

— Arrume sua mala com...

— Roupas frescas, mantimentos duráveis e água potável — completou Elizabeth. — Nada disso é novo para mim.

Antes que ele pudesse investigar o passado misterioso da mulher, a porta de seu escritório se escancarou e um homem de meia-idade os encarou; ele vestia um ostensivo terno vermelho e escondia o topo da cabeça com uma cartola vinho. Sua pele bronzeada emitia uma energia peculiar que não era visível para Nathaniel, mas era completamente perceptível. Nathan estreitou os olhos e agarrou Destino no bolso do sobretudo instantaneamente, o invasor alternou o olhar entre ele e Elizabeth. Por trás do homem, Molly corria na direção do escritório entre berros exasperados.

— Ele simplesmente invadiu o prédio! — gritou a secretária de fora da sala.

— Posso ajudá-lo, senhor? — Nathan mantinha a mão firme no revólver.

— Está cometendo um erro, garoto. — Ele parecia prestes a rosnar na direção de Fleming, sua atenção fixa na mulher. — Os Augúrios oferecem o dobro. É o momento de atender ao chamado de sua natureza.

Elizabeth sacou a arma do coldre da cintura e a mirou na cabeça do visitante. Outro daefin, é claro. Ainda mais aflito com a escalada da tensão no escritório, Nathan puxou Destino do sobretudo, mas não o apontou para o ser diante dele.

— É um híbrido — anunciou ela logo antes de engatilhar o revólver. — Como vocês sabem do contrato?

— Nosso dever é saber de tudo que acontece em Abaddon. — O homem não parecia afetado pela ameaça crescente de Elizabeth. — Ela precisará de você, Mortimer.

Nathaniel precisou controlar a trêmula mão armada. Elizabeth sem dúvidas deduziria que o homem falava de sua irmã desaparecida, mas seu tom de voz e sua expressão séria denunciava uma outra interpretação a Nathan: ele se referia à sua mãe. Recebia um convite direto da organização secreta mais influente dos daemones para os auxiliar em uma missão desconhecida como se estivessem satisfeitos em ignorar 27 anos de abandono por parte de Izzuth. Os punhos de Nathaniel se apertaram e ele esmagou o cigarro na mão esquerda.

— Vá embora — disse ele entre o ranger dos dentes. — Não estou interessado.

— A polícia está vindo! — Molly continuava alarmada na recepção.

— O que sabe de minha irmã, imundo? — Elizabeth se aproximou do homem com a arma erguida. — Vocês fizeram isso?

— É o destino. — Ele exibiu seus dentes amarelados e apodrecidos ao sorrir para Nathaniel; se aproximava da arma de Elizabeth mesmo sem olhá-la. — Arkarad, revertere!

O brado súbito do invasor fez a mulher apertar o gatilho e disparar contra sua cabeça, mas ele desapareceu em uma explosão mínima de fumaça e enxofre; era o método de teletransporte dos daemones. Não posso deixá-la desconfiar de nada. Nada surpresa com a fuga do ser, Elizabeth se aproximou de onde ele estava e examinou o enxofre deixado para trás.

— Ele falou em latim. Você sabe quem é Arkarad? — Com uma das sobrancelhas erguidas, ela esperou a resposta de Nathan.

— Não faço ideia. — Ele guardou Destino no sobretudo e suspirou ao observar o enxofre. Eu sou Arkarad. Não ouvira o nome dado a ele pelos daemones por uma década, mas a pronúncia ainda o arrepiava da cabeça aos pés. — O perigo começou antes de sairmos da América.

— O que aconteceu? — Molly adentrou o escritório e olhou em volta para achar o invasor. — Onde ele está? Isso foi um disparo?

— Um pombo-correio dos Augúrios. Nossa querida Elizabeth tentou assassiná-lo, mas ele escapou. — Nathan se encaminhou até a saída da sala e ofereceu o contrato à Molly. — Problema resolvido.

Após ler o conteúdo do documento, sua amiga demorou quinze segundos para vencer sua expressão boquiaberta e o olhar com visível preocupação.

— Quanto tempo?

— Talvez para sempre. — Ele deu de ombros e o trio abandonou o escritório. — Não há como saber quando voltaremos, mas o contrato diz que o pagamento será integralmente adiantado.

— Irei ao banco logo após a visita na casa de Jothan — disse Elizabeth.

— Esplêndido. — Nathaniel tocou o contrato nas mãos de sua secretária duas vezes com as pontas dos dedos. — Se certifique de que nossa empresa sobreviverá.

— Nathan...

— Eu fiz o que era necessário fazer, Molly. — Ele apertou os ombros da amiga de leve e suspirou. — Espero retornar o mais breve possível para presenteá-la com a garrafa que prometi.

Fingindo não notar a tristeza no rosto de Molly, puxou o quinto cigarro do estojo quase vazio enquanto acompanhava Elizabeth Fleming até a saída do prédio. Desejou aos céus que aquele o acalmasse mais do que os anteriores.

A sensação de que estava prestes a cometer o mesmo erro pela segunda vez esmagava seu peito centímetro por centímetro.

Nov. 7, 2020, 2:31 a.m. 0 Report Embed Follow story
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