mariliabordonaba Marília Bordonaba

Nilo está farto de seu casamento e decidiu dar um basta em sua história com Dora. O dia em que decide deixá-la, porém, o governo fora tomado por uma oposição autoritária e que decretou Lockdown. O que fazer agora que está enclausurado com uma esposa que odeia?


Memoir & Life Stories Not for children under 13.

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Eu vou embora

Já faz três anos que ganho o prêmio de funcionário mais pontual da empresa. Há três anos que chego exatamente às 07:48, sei disso porque minha folha de ponto registra esse mesmo horário todos os dias. Eu também poderia ser um forte candidato a ganhar o prêmio de funcionário mais dedicado a julgar minhas horas extras, mas definitivamente o Bento merece levar essa, até porque ele fica depois das 17 horas porque gosta de trabalhar, não para ficar mais tempo no trabalho como faço.

Faz três anos que eu trabalho 10 horas por dia, porque há três anos que meu casamento está no fundo do poço.

Eu não me lembro quando foi que soube que odiava minha mulher. Nunca me atrevi a dizer essas palavras em voz alta, porque sei que não seria compreendido, porque, sim, eu a odeio. Odeio suas manias, odeio seu jeito de conversar, odeio cada vício de linguagem. Eu poderia tê-la deixado três anos atrás, quando Josefina ainda tinha a intenção de me esperar, mas fui incapaz de pedir divórcio.

Não, Dora estava bem demais. Quem se divorcia de quem está bem demais?

Eu aguardei, dia após dia, um momento de fraqueza para que eu pudesse deixá-la. Aguardei algum falecimento na família, uma doença, uma demissão, quem sabe. Dora é tão irritante, que nem mesmo sua vida comete falhas. Eu a odeio e anseio pelo dia em que poderei dizer-lhe isso na cara.


...


A conversa animada de meus colegas em cima da mesa de Fabrício me pareceu inapropriada. Eles riam do perigo iminente da COVID-19. Gabriela garante que é uma forma de propagação de pânico para que se evite que a oposição se manifeste na rua, visto o acirramento político nos últimos dias. Eu aposto boa parte das minhas fichas de que ela está em negação, esse vírus ainda vai nos tirar o sossego, eu pressinto. Olha como ficou a China e agora a Itália... Somos a maior comunidade de descendentes de italianos fora da Itália, não somos? Anotem o que eu estou dizendo: vai ser em São Paulo onde tudo vai começar.

— Ai, ai. – Triana retornou a sua baia, que ficava ao lado da minha e puxou assunto – Eu num sei você, mas acho que o pessoal tá levando na brincadeira demais.

— O quê? – me fiz de desentendido.

— Esse Corona vírus. Eu não acho que seja tão tranquilo quanto estão fazendo parecer.

— É, eu também não brincaria com isso. – olhei para trás e eles seguiam entusiasmados com as teorias da conspiração – Você acha que vão nos liberar pro teletrabalho?

— Acho que tá muito cedo pra dizer.

Eu estava preocupado. Todos no serviço eram militantes favoráveis ao trabalho remoto, mas eu só conseguia pensar que trabalhar em casa me tiraria a única fuga do casamento que me restou. Confesso que minha maior preocupação com o agravamento da crise do Corona vírus era a de ser obrigado a fazer teletrabalho e ficar ainda mais enclausurado com Dora.

Mas não se falava de outra coisa. A cada hora uma nova notícia sobre o vírus, uma nova suspeita e um novo terror. Meus colegas seguiam desacreditando as informações, achavam-nas exageradas e diziam que tudo bem, pode até ser que esse vírus seja letal, mas não para nós, jovens; os idosos é que têm que se preocupar.

— E você é jovem agora, Fabrício? – Rizélia perguntou em voz alta, com o intuito de arrancar risadas de todos os presentes.

Por mais que trabalhar em uma repartição pública fosse muito mais clichê do que eu gosto de admitir, uma coisa é certa: prefiro mil vezes o clichê do meu trabalho ao clichê do meu casamento.

A hora de ir embora era a parte mais torturante do dia. Eu saía do serviço torcendo para encarar o pior engarrafamento da minha vida, mas a verdade é que não havia engarrafamento que me fizesse demorar mais que 45 minutos até chegar em casa.

Eu não sei explicar o porquê de ainda ser capaz de seguir com esse teatro, eu não sei como consigo chamá-la de "amor" tão casualmente, mesmo desejando, todo dia, que ela não acorde e me isente da responsabilidade de deixá-la.

— Eu fiz o frango que você adora.

Eu odeio o frango que ela faz. Odeio a forma como ela tenta esfregar na minha cara que é a mulher perfeita e que eu sou um lixo por odiá-la. Eu odeio a vida que levamos.

— Obrigado, amor.

— Como foi no trabalho?

— Ótimo. – respondi vagamente – E o seu?

— Um pouco tenso. Temos acompanhado o avanço do vírus e a gente acha que vamos ter que fechar a escola, pelo menos até que as coisas se normalizem.

— E você acha que tem necessidade de fazer isso tão cedo?

— Não é tão cedo quando já faz duas semanas que estamos temendo que isso se transforme numa Pandemia.

Eu não sei como que a Dora nunca desconfiou da minha falta de cuidado quando se trata da segurança dela. Eu gostaria muito que ela percebesse e se incomodasse com o meu desdém com a sua saúde ou com qualquer coisa que a envolva. Sim, sou covarde a esse ponto: gostaria muito que ela tomasse a iniciativa e me deixasse.

Sem muita troca de palavras, assistimos ao noticiário e acompanhávamos o avanço do vírus, bem como as pressões políticas que surgiam daí, já que o nosso Presidente não parecia interessado em adotar as recomendações da OMS. Não tenho dúvida de que as coisas sejam tão sérias quanto o jornal nos aponta, mas eu torcia do fundo da minha alma que as coisas não se agravassem a ponto de nos colocarem em quarentena. Eu não seria capaz de aguentar ficar em casa com Dora o dia inteiro, todos os dias.

Desinteressado por passar mais tempo com minha esposa, deixei-a sozinha na sala e fui dormir. Não sei calcular exatamente quanto tempo que eu durmo de costas para Dora, assim como não me lembro quando foi a última vez que fizemos sexo – provavelmente foi no Carnaval, quando ficamos bêbados –, mas se não causasse estranheza, eu já teria me mudado para o quarto de hóspedes há .

Eu não consegui pegar no sono.

Eu não podia seguir vivendo assim, simplesmente não podia. A pessoa que eu mais detesto nesse mundo não pode ser por quem jurei amor eterno naquele 9 de setembro. Eu não posso viver o resto dos meus dias infeliz dessa forma e enganando-a como se nada disso se passasse pela minha cabeça.

Pra mim chega. Chega!

Eu vou embora.

É isso, eu vou embora. Amanhã eu vou sentar com ela e dizer que preciso me divorciar. A nossa situação está insustentável e me enlouquece que ela aja naturalmente enquanto eu sinto vontade de rasgar a garganta dela com uma faca.

É isso, eu vou me divorciar da Dora!


...


Os sons da sirene e de pessoas discutindo na rua me fizeram acordar assustado, acreditando ter perdido a hora, mas ainda eram 6:12. Confuso, eu coçava os olhos sentado na beira da cama, tentando recobrar a consciência, enquanto Dora estava na janela, olhando o movimento atípico da rua em um horário como aquele.

— O que tá acontecendo? – perguntei.

— Eu não sei. As pessoas ficaram loucas! – Dora disse em seu drama habitual, fazendo com que minhas entranhas se contorcessem de raiva. Se não sabia, pra que falar desse jeito? Pra me espantar?

Ao pegar meu celular e ver que o grupo do trabalho estava com mais de 500 mensagens não lidas, soube que algo grave havia acontecido, já que somente eu acordava tão cedo. Pela velocidade que as mensagens chegavam, contudo, aparentemente ninguém ali dormiu. Pedi para que alguém resumisse o que estava acontecendo, já que eu não leria aquele mundo de mensagens. Gabriela respondeu:


Tomaram o governo, Nilo! E decretaram Lockdown!

June 3, 2020, 8:14 p.m. 0 Report Embed Follow story
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