Esquadrão da Revisão Follow blog

embaixadabr Inkspired Brasil Os autores estão indecisos, escondidos, com medo: a Gramática os ameaça de todas as formas. É neste cenário caótico que um esquadrão se formou: soldados competentes em busca de justiça, recrutando mercenários para lutarem ao seu lado e, juntos, combaterem o Obscurantismo. Assim, o Esquadrão da Revisão ergue-se contra a tirania da Gramatica para submetê-la aos autores. Entender como funciona a gramática normativa é a base de qualquer escritor. Passar a ideia da cabeça para o papel de forma harmônica é a maior dificuldade de muitos literatos. Nós queremos, neste blog, mostrar a vocês que a gramática não é uma tirana; ela não passa de uma ferramenta que serve para ajudá-los. Juntem-se ao nosso esquadrão para desvendar os mistérios da Gramática e de suas normas.

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Ponto final e reticências

Olá, tudo bem?

Hoje vamos falar de duas pontuações fundamentais na língua portuguesa: o ponto final e as reticências, que temos que a todo momento aplicar em nossas frases, em nossas histórias, em nossas vidas. Talvez possa ter soado forte a última palavra, mas já pensaram se falássemos sem pontuações? Honestamente não consigo imaginar como os dramas das novelas seriam ou até mesmo nos filmes ou séries. Vou explicar logo mais porque são tão essenciais.

O ponto final representa a pausa máxima do seu contexto, da voz do seu personagem, ele delimita o final de um discurso e tem tipos de utilizações referentes às indicações de frases, que podem ser declarativas, imperativas, separações de períodos ou até mesmo na abreviação de palavras. O ponto final pode também afirmar ou negar a situação. Vamos para os exemplos:


Frases declarativas - constata um fato:

Mario Quintana foi até a praça declamar sonetos. (Afirmação)

Mario Quintana não foi até a praça declamar sonetos. (Negação)


Frases imperativas – Emite ordens, conselhos e pedidos:

Venha comprar esse livro. (Afirmativa)

Não venha discursar com essas palavras. (Negação)


Separação por períodos:

Ontem estava cansada. Hoje estou entusiasmada.

Não quero estudar matemática. A partir de agora lerei artigos de sociologia.


Poderíamos separar com vírgulas essas frases, mas elas não teriam a mesma ênfase emocional que o ponto final trouxe. Logo, o uso do ponto final pode ser usado como uma forma de enfatizar informações.

Também é importante falar que o ponto final deve ser usado sempre que uma frase ou parágrafo estiver completo. Às vezes, vemos frases realmente extensas e que não possuem um ponto sequer, no entanto elas não se tornam cansativas ou estranhas, pois são uma sequência lógica que precisa estar ligada. No entanto, algumas frases necessitam do ponto para ter maior sentido; e quando isso não acontece, na maioria dos casos o escritor acaba trocando erroneamente o ponto pela vírgula. Veja só um exemplo:


Ana Eliza sabia que poderia chegar tarde em casa se não esperasse pelo ônibus, até porque ele nunca tinha uma hora definida para passar naquele ponto, mas não conseguiu se segurar mais e foi de fininho atrás dele, precisava descobrir o que seu colega de trabalho fazia todos os dias dentro daquela loja de doces, ou então ia acabar enlouquecendo de curiosidade.


Leia com calma e atenção. De preferência, leia em voz alta. Se você se focar, vai perceber que a primeira frase na verdade não termina onde o ponto foi colocado. Em vez disso, ela termina em “e foi de fininho atrás dele”. Isso acontece porque essa primeira frase começa apresentando a situação da Ana Eliza e depois mostra a conclusão da curiosidade dela. Se terminarmos o parágrafo justamente em “e foi de fininho atrás dele”, já conseguimos ter uma boa ideia da situação geral dos personagens; isso porque a frase está completa em significado e tudo o mais e funciona muito bem sozinha.

Agora, já que descobrimos que devia ter um ponto depois de “e foi de fininho atrás dele”, também sabemos que deveriam existir duas frases nesse parágrafo em vez de uma só. E para tirar a prova de que isso está certo, vamos isolar a segunda frase para vermos se ela funciona bem sozinha ou se ela ficaria estranha, deformada ou inteligível separada da primeira:


Precisava descobrir o que seu colega de trabalho fazia todos os dias dentro daquela loja de doces, ou então ia acabar enlouquecendo de curiosidade.


Consegue perceber como a frase está completinha mesmo sem nada antes dela? A gente entende o que está sendo dito e consegue até imaginar a situação mesmo sem saber o que vem antes. Perceber isso mostra que a frase estava pontuada incorretamente, com o uso de vírgula para unir duas frases que deveriam estar separadas por ponto.

Eu sei, eu sei. Conseguir perceber essas coisas pode ser difícil, principalmente para quem está começando a fazer essa análise, mas aqui vai uma dica que vai te ajudar monstruosamente quanto a isso: leia. Isso mesmo! Leia muito, muito e muito. Quanto mais você ler, melhor vai ser para você conseguir perceber essas construções frasais — o começo e o fim de uma frase realmente. Mas é importante que você leia obras que foram bem revisadas e de confiança.

Outra coisa muito importante é sempre lembrar que, todas as vezes que o tópico frasal mudar, um novo parágrafo deve ser adicionado ao seu texto. O que é tópico frasal? Bom, é o assunto considerado principal dentro de um parágrafo/frase. Veja só um exemplo:


Marta acordou com as costas doendo demais. Resolveu ir até a farmácia antes de pegar o ônibus para o trabalho. E assim o fez, no entanto, ao chegar lá, percebeu que teria que fazer uma escolha: esperar na fila para pagar o remédio e perder o ônibus das 7h, ou ficar, comprar o remédio e chegar atrasada ao trabalho. Com um suspiro de derrota, ela escolheu deixar o remédio para depois e continuar com a dor até lá.

Infelizmente, a vida de Marta estava um caos naquele mês e ela já tinha ultrapassado todas as faltas e atrasos possíveis no trabalho. Se chegasse atrasada mais uma vez, certamente seria demitida. E não podia se dar ao luxo de perder o emprego com tantas contas a pagar.


Viu só como o assunto foco do primeiro parágrafo é diferente do assunto foco do segundo parágrafo? No primeiro, o narrador está explicando que Marta está com dor nas costas, mas que não vai comprar o remédio ou então chegará atrasada ao trabalho. Mas aí talvez você pense: caramba, mas ela vai ficar com dor só pra não chegar atrasada? Então, no segundo parágrafo, o narrador nos traz o segundo tópico frasal, que é sobre o fato de Marta não poder faltar ou se atrasar mais por já tê-lo feito demais naquele mês.

Se esses dois parágrafos estivessem unidos em um só, a história ficaria confusa, corrida e até mesmo a coesão externa do capítulo seria afetada. Então atenção sempre com isso, hein!


Abreviações:

Trata-se de uma forma corriqueira de usar o ponto, mas é importante saber utilizá-lo em abreviaturas e siglas. Aqui também se faz importante saber que, segundo Bechara, não se coloca ponto final adiante do ponto abreviativo, pois este tem dupla serventia.

Agora veja alguns exemplos do ponto sendo usado para abreviação:


D. Julieta (Abreviação de Dona)

D. Juan (Abreviação de Dom)

Sr. Pompeu (Abreviação de Senhor)

Sra. Tereza (Abreviação de Senhora)

Pg. (Abreviação de página)

O.N.U. (Sigla da Organização das Nações Unidas)


Reticências:

As reticências são utilizadas para marcar a interrupção de uma frase e a suspensão da melodia empregada na frase com o intuito de expressar a natureza emocional. Então temos muitos motivos para a partir de hoje fazer uso desta. E veja alguns exemplos de quando podemos usar:

  1. As reticências são usadas para indicar dúvidas ou hesitação de quem fala.
  2. Interrupção de uma frase gramaticalmente incompleta
  3. Ao fim de uma frase completa para prolongar a ideia.
  4. Para indicar supressão, ou seja, ausência de palavras.
  5. No início ou no meio de uma citação para indicar supressão de partes.

Exemplos de reticências:


"Estou certo, disse ele, piscando o olho, que dentro de um ano a vocação eclesiástica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. Há de dar um padre de mão-cheia.Também, se não vier em um ano..."

(Machado de Assis)


Nessa frase de Machado de Assis, podemos perceber que o autor queria fazer uma citação incompleta, soltando no ar o que poderia vir a acontecer depois.


‘’Tão bom morrer de amor! E continuar vivendo...’’

(Mario Quintana)


Os poetas também utilizam das reticências para enfatizar sentimentos bruscos, como percebemos na frase acima, e que também não houve continuidade, apenas a força da expressão.


‘’Quando descobriu que não podia se mexer, o dragão pareceu confuso. Ele ergueu a cabeça e observou a sujeira. Finalmente entendeu que estava enterrado. O pescoço se esticou uma vez, duas... e o centro da cratera estourou.’’

(Rick Riordan)

Nesse caso percebemos que o autor quis dar continuidade a frase, mas com um certo suspense, como se fosse uma surpresa o que viria a acontecer.


Na escrita e língua falada temos exemplos sutis como:


1. ‘’ vamos lanchar amanhã?

- Vamos… Não... Pois vamos.’’

2. Não quero bolo... porque já comi demais.

3.Não vou correr...


Nesses exemplos vemos que podemos realçar o mistério (1), indicar a continuação de uma frase (2), ou pode simplesmente não haver um motivo (3).

Agora, aqui vem uma dica muito importante: tome cuidado na hora de usar as reticências em seus textos.

Apesar de ser um ótimo recurso para insinuar timidez, incerteza, suspense, etc., as reticências fazem uma “pausa” acontecer na mente do leitor, o que, de certa forma, interrompe o ritmo da leitura, e isso pode ser bastante ruim se acontecer muitas vezes, pois torna o texto cansativo e arrastado. Além disso, reticências demais podem causar poluição visual no texto.

📑

Conseguiram perceber como as reticências e o ponto final são muito importantes? Acredito que sim, hein, porque a cada dia o Esquadrão da Revisão se empenha mais para mais dicas e aprendemos e reaprendemos tudo isso juntos.

‘’A repetição é a chave para o aprendizado.’’ Anne with an E

Texto por Ruana Aretha Beckman e Karimy

July 27, 2021, midnight 0 Report Embed 0
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Anacoluto e silepse

Olá, amigo leitor e escritor! Tudo bem?

Então, querido amigo, mais um dia de sintaxe, mas não se cansem, está bem? Pois precisamos entender a nossa linguagem para sermos mais independentes quanto à nossa própria escrita sem depender de correções extras. Vamos estruturar melhor as nossas frases para oferecer mais expressividade aos nossos textos. Então mãos à obra para uma pequena explanação sobre o nosso tema de hoje.

O que é o anacoluto?

O anacoluto é conhecido por “interromper’’ a estrutura sintática da frase, ou seja, ele pode alterar a sequência lógica por meio de uma pausa no discurso ou frase. Mas o anacoluto pode também enfatizar uma ideia. Ele pode ser muitas vezes encontrado em linguagens literárias, musicais e pode ser utilizado em linguagens coloquiais, no entanto é importante ter cuidado com o uso dele, pois ele pode causar falhas na coesão textual.

Exemplos:

Essa sua cara, seu jeito de olhar me incomoda.

Crianças, como são difíceis de lidar.

Eu, porque sou pura, sou tachada de chata.

Perceba que em todas as frases o termo inicial fica “solto’’ e sem apresentar relação sintática com os outros termos. Veja só:

Essa sua cara: sem função sintática

seu jeito de olhar: sujeito

me: objeto direto

incomoda: verbo transitivo direto

Veja agora o trecho abaixo, do autor Machado de Assis, no seu livro Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).

E a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o voo desde o Ilisso às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, —a imaginação dessa senhoratambém voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil”.

O escritor inicia com a frase “E a imaginação dela’’, que é interrompido por uma divagação, e depois retorna com a frase “a imaginação dessa senhora’’, do qual assume o que teria chamado atenção anteriormente. Percebemos que tanto a primeira frase quanto a segunda ficam desconectadas, perdem sua função sintática, mas ganham destaques.

Agora vamos entender mais um pouco sobre a silepse, vamos assustar novamente os neurônios, pois iremos continuar.

O que é a silepse?

A silepse refere-se à concordância da ideia e não do termo utilizado na frase, ou seja, ela não obedece às regras de concordância gramatical, e sim a uma concordância ideológica.

A silepse também depende do campo de atuação gramatical e pode ser classificada. Veja exemplos no quadro de como podem ocorrer:



Então, vamos aos exemplos por classificação:

Silepse de gênero:

Ribeirão Preto é encantadora!

A concordância é feita com a palavra cidade (encantadora), que tem o gênero feminino e que está subentendida, em vez de ser feita com o nome da cidade (Ribeirão Preto), que é masculino.

Vossa santidade está atento para os problemas atuais da igreja.

A concordância é feita com o gênero do emissor e não com a locução pronominal.

A gente está cansado, precisando de feriado.

A concordância é feita com o gênero do emissor e não com a locução pronominal “a gente”.

Silepse de número:

A procissão saiu. Andaram por todas as ruas da cidade de Belém.

Aqui, o substantivo é “procissão” — singular —, no entanto a concordância é feita no plural (andaram).

A manada de elefantes corria por todos os lados contra os caçadores.

A concordância é feita com “a manada” em vez de com “elefantes”.

A maioria dos gatos gostam de sachê de salmão.

A concordância é feita com a palavra no plural de “gatos” e não com “a maioria”.

Silepse de pessoa:

Todos os brasileiros estamos ansiosos pela chegada das vacinas.

A concordância é feita com “nós” e não com “os”.

Todos preferimos viajar de navio.

A concordância é feita com “nós” e não com “todos”.

Abaixo mais alguns exemplos de silepses presentes na nossa literatura brasileira:

“Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.” (Olavo Bilac – silepse de gênero)

“O casal de patos nada disse, (…). Mas espadanaram, ruflaram e voaram embora.” (Guimarães Rosa – silepse de número)

“Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins públicos.” (Machado de Assis – silepse de pessoa).

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Isso é tudo por hoje, pessoal!

Lembre-se que a gramática é nossa aliada para engrandecer os nossos textos. Como diria Fernando Pessoa: “A minha pátria é a língua portuguesa’’.

Texto por Ruana Aretha Beckman

Revisão por Karimy

July 20, 2021, midnight 0 Report Embed 0
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Assíndeto e polissíndeto

Olá turma, tudo bem?

Vamos continuar na nossa aventura com as figuras de sintaxe?

Lembre-se que precisamos desvendar a língua portuguesa, afinal, ela precisa estar sempre bem apresentável a nossos queridos leitores. Não vamos nos deixar abater por erros de sintaxe, pode ser complicado por vezes, mas quando entendemos, ela se dissolve na mente, como um tablete de vitamina C.

Oh, língua portuguesa, nos nutra com sua sabedoria hein!

Neste momento iremos iniciar nossa meditação de conhecimento, então, neurônios, apresentem-se ao trabalho!

O que é o assíndeto?

É uma figura de sintaxe caracterizada pela ausência de síndeto, mas o que é síndeto?

É uma conjunção coordenativa utilizada para unir orações coordenadas, ou seja, o assíndeto conjunções/conectivos nos períodos compostos. Apesar disso, ele pode ser utilizado para enfatizar termos na oração.

E se você não se lembra dessa conjunção, corre nos textos anteriores para conferir, viu!

Mas antes de irmos para os exemplos, o que é o polissíndeto?

É uma figura de sintaxe caracterizada pela repetição de conectivos. O uso do polissíndeto também possibilita a criação de coordenadas sindéticas, orações que podem estar ligadas através de conjunções coordenativas, estas podem ser classificadas em aditivas, adversativas, conclusivas e explicativas. Para saber mais sobre essas conjunções, há nos outros textos anteriores do nosso esquadrão da revisão que não deixa passar em branco para engrandecer ainda mais o nosso conhecimento. Aquela piscadela!

Exemplos de assíndetos e polissíndetos abaixo:

Vou acordar cedo, vou tomar banho, vou fazer o café. (1)

Ele é amável, estranho, risonho, sinistro. (2)

Percebam que as frases não possuem conectivos, há vírgulas no lugar deles e essa é uma característica do assíndeto.

Agora, que tal transformar essas frases em frases possíndetas?

Veja só:

Vou acordar cedo ou vou tomar banho ou vou fazer o café. (1)

Ele é amável e estranho e risonho e sinistro. (2)

Observem que agora possuem conectivos (‘ou’ e o ‘e’ ) e eles estão repetidos, como que para fomentar um ritmo na frase. Os conectivos mais utilizados para expressar os polissíndetos são “ou”, “e” e “nem” — e estas conjunções são coordenadas coordenativas.

Então simplificando: assíndeto é caracterizado pela omissão das conjunções, enquanto que o polissíndeto é marcado pela repetição das conjunções.

Exemplos na literatura brasileira:

A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar.” (Cecília Meireles). – Assíndeto.

Luciana, inquieta, subia à janela da cozinha, sondava os arredores, bradava com desespero, até ouvia duas notas estridentes, localizava o fugitivo, saía de casa como (…)” (Graciliano Ramos). – Assíndeto.

Vão chegando as burguesinhas pobres e as crianças das burguesinhas ricas e as mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.” (Manuel Bandeira) – Polissíndeto.

Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.” (Fernando Pessoa) – Polissíndeto.

📖

Aprendeu um pouco mais de sintaxe hoje? Porque estou compreendo mais a cada dia, junto com vocês.

Isso é tudo por hoje, pessoal! O Esquadrão da Revisão em mais uma saga da língua portuguesa. Vamos correr atrás das letras, não fugiremos delas!


Texto por Ruana Aretha Beckman

Revisão por Karimy

July 13, 2021, midnight 0 Report Embed 0
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Anástrofe e Prolepse

Olá pessoal, tudo bem?

Não se assustem com os nomes um tanto esquisitos que podem aparecer por aqui, hein. Parece nome de xarope, mas não é de tomar, é para entender sobre essas nossas figuras de sintaxe. Ah... a nossa língua não cansa de nos fazer surpresas. Juntos somos mais, cabeças unidas jamais serão vencidas, não é mesmo?!

Bom, então vamos iniciar com nossas perguntas: o que é uma anástrofe?

É uma figura de sintaxe, ou seja, ela aumenta a expressividade da mensagem. A anástrofe se refere a uma inversão leve na ordem natural das palavras em uma frase, essa inversão geralmente acontece em razão da antecipação de uma palavra que complementa outra palavra, podendo ser palavras correlativas. Há autores que defendem que a anástrofe ocorre devido a inversão entre o sujeito e o predicado.

Dica: para entender mais sobre sujeito e predicado, não se esqueça dos nossos outros textos. Aquela piscadela a você!

Por que utilizar anástrofes nos meus textos?

A utilização dessa figura de sintaxe proporciona realçar uma palavra ou ideia, assim como criar um efeito surpresa na frase. Na poesia, esta figura de sintaxe é muitas vezes utilizada para cumprir as exigências do verso quando se referem à métrica e às rimas.

Vamos aos exemplos:

Ao cachorro o dono deu ração.

O que seria o mais simples a ser abordado nessa frase, “O dono deu ração ao cachorro’’.

Para todos os alunos a professora mandou lições.

Refazendo a frase: “A professora mandou lições para todos os alunos’’.

“Errado, deve ser!

Mais uma vez refazendo a nossa frase: “Deve ser errado!’’

Como dissemos anteriormente, os poetas utilizam com muita frequência essa figura de sintaxe, então vamos para outros exemplos:

"Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste -
Assimse Portugal formou."

Trecho do poeta e escritor brasileiro Fernando Pessoa, retirado do texto “Mensagem’’, no livro "Os castelos".

Nesta poesia há uma clara exigência de versificação que possivelmente motivou a antecipação da palavraPortugal , pois na verdade a ordem esperada seria ‘’Assim se formou Portugal’’.

Dica: quando tiverem dúvidas a respeito dessa figura, apenas refaçam a frase para ficar melhor filtrado na mente.

“À espada em tuas mãos achada

Teu olhar desce.’’

Trecho do livro “Os castelos’’, no texto “O conde D.Henrique’’, por Fernando Pessoa.

Percebam que neste exemplo vemos antecipações, e a ordem natural seria: “Teu olhar desce à espada em tuas mãos achada’’.

Vamos então para a nossa outra figura de sintaxe, a prolepse. Então, o que é?

Refere-se ao termo de uma oração que precede outra — isso se chama antecipação. A prolepse é a resposta antecipada a uma objeção que designa umafiguraretórica que consiste na antecipação gramatical, tudo isso como forma de realçar a frase.

Por que utilizar essa figura de sintaxe no seu texto?

Através dessa figura, o narrador pode alterar ou distorcer a ordem temporal dos acontecimentos, pois ela altera a ordem sequencial dos acontecimentos, podendo então antecipar o que ainda nem ocorreu ou fazendo entender que virá a ocorrer. Autores como Machado de Assis utilizam bastante.

Na obra deMachado de Assis, emMemórias Póstumas de Brás Cubas, é narrado o episódio do funeral do personagem Brás Cubas logo no primeiro capítulo, sendo relatado sobre a história da vida dele desde a infância:

"Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de minha cova (...). Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias(...)."

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capítulo I, 1981.

A prolepse manifesta-se por entre as expressões verbais e adverbiais e tem como função causar suspense, manipular as expectativas do leitor por meio de pequenos fatos que podem antecipar o desfecho ou não.

Criar atmosfera de mistério é poder, caro leitor e escritor.

Podemos também ver um exemplo do autor José Saramago em “Todos os nomes’’, (1998), como ele realça o que aconteceu com o personagem dele e ao mesmo tempo antecipa o acontecimento:

“E estas calças, veja em que estado deixou estas calças…’’

Como diferenciar essas figuras de sintaxe? Porque parecem um pouco semelhantes, não é mesmo?

A prolepse nada mais é que a antecipação de uma oração que explane um acontecimento:

Vermelhos, os pássaros eram.

Percebam que houve uma antecipação da cor do pássaro.

Outro exemplo:

Com a minha indecisão, o que faço?

Quando poderia ser: “O que faço com a minha indecisão?’’. Observem que o acontecimento precede a frase.

Enquanto que a anástrofe inverte a ordem, mas de forma que o acontecimento fique para depois da ênfase dada anteriormente ao que a frase queria dizer:

Passarinhos, desisti de ter.

O que seria: Desisti de ter passarinhos.

Perceba que a ação “desistir” é frisada depois.

Outro exemplo:

Que faço eu com essa indecisão minha?

O correto seria: “O que eu faço com essa minha indecisão?”

Ufa, agora podemos respirar, foi difícil, mas é compreensivo, não é verdade? Tivemos muitos exemplos, e agora é com você, querido escritor e leitor. Lembre-se, o português é complexo, mas pode se tornar divertido quando compreendido.

Por hoje é tudo, pessoal!


Texto por Ruana Aretha Beckman

Revisão por Karimy

July 6, 2021, midnight 0 Report Embed 0
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