navled Delvan Sales

Pequinópolis é o conto escolhido para apresentar o Universo Ocupantes. Aqui conheceremos o pequeno vilarejo que empresta seu nome à história. Acompanharemos Sabino, um forasteiro em um lugar que não é comum, onde vivem pessoas que, definitivamente, não são comuns. Mas e quanto a Sabino?


Thriller Nicht für Kinder unter 13 Jahren.

#suspense-mistério-sobrenatural
1
5.0k ABRUFE
Im Fortschritt - Neues Kapitel Alle 30 Tage
Lesezeit
AA Teilen

Forasteiro

Três de dezembro de 2017, outro dia quente no pequeno vilarejo Pequinópolis, situado no centro-oeste de Goiás. O lugar herdou esse nome em razão da elevada produção/consumo de pequis da região. Constantemente turistas de passagem confundem o nome do vilarejo com pequenópolis, erro corrigido pelos moradores, que esclarecem a situação, enquanto lhes vendem o pequeno fruto em seus mais variados tipos. Natural, em conserva, em pasta…


Neste fatídico dia, chegou à cidade Sabino. Homem rústico, por volta dos 35 anos, com 1,75 metro, sobrancelhas grossas e sotaque sulista. Vestia botas velhas, calça jeans semiapertada e uma camisa xadrez azul e preta. Veio só. Carregava consigo apenas uma mala e perguntara a boa parte do pessoal da vila onde conseguiria algum aposento para descansar por uns dias, pois estava de viagem, embora não tenha esclarecido para onde. Sabino usava um chapéu de couro marrom que sempre tirava ao cumprimentar as pessoas, depois colocava novamente no decurso das conversas.


Acabou chegando à porta de Dona Cida. Típica senhora do interior, Dona Cida tinha estatura baixa, cerca de 1,55 metro, rechonchuda com seus quase oitenta quilos, usava um vestido branco por detrás de um espalhafatoso avental azul-bebê, enfeitado por desenhos de flores vermelhas, verdes, azuis escuras e… pretas. O look era encerrado por uma crocs marrom que talvez originalmente tivesse outra cor, alterada pelo passar do tempo e da poeira dominante da vila. Tinha um longo cabelo preto liso, como o de uma índia, sempre preso. Dona Cida era dona de um pequeno cortiço, daí a chamarem de “dona”, embora este seja um título muito comum compartilhado pelas senhoras das cidades do interior. A senhora mostrou a Sabino um pequeno quarto, simples e barato. Sabino era indiferente a qualquer lugar que vira desde que chegou, então acabou ficando com o quarto.


O cortiço era composto por seis quitinetes germinadas, possuindo, cada, uma pequena cozinha-sala, um quarto e um banheiro. As paredes davam indício de terem sido brancas em algum momento, porém o marrom tingia-a, como tingia qualquer coisa que permanecesse por alí por pelo menos uma dezena de anos. Os tanques para lavar roupa eram compartilhados, bem como o quintal e os varais para estendê-las. Nos fundos do lote, já adentrando o mato, havia um poço artesiano tampado por um pedaço quadrado de ripa, improvisado como tampa. Ao lado do poço um balde de alumínio amarrado a um toco fincado ao chão com maestria completava o ambiente, que também era compartilhado entre todos os moradores. Dona Cida morava numa casa pequena, mas maior que as kits, mais à frente no mesmo lote.


Pouco antes de fechar negócio, Dona Cida perguntou a Sabino “Por que um homem novo como ocê quer morar na nossa vila?”


Sabino ajeitou seu chapéu de couro marrom, alinhando-o retilineamente ao seu nariz, puxou de seu bolso um cigarro paieiro, acendeu, deu um trago enquanto revirava seus olhos semiabertos para o céu, e, recuperando o fôlego, voltou-se para Dona Cida, então lhe respondeu “Gosto de pequis”.


Dona Cida franziu suas sobrancelhas desarrumadas e fitou Sabino. Incrédula com a resposta que recebera, insistiu no assunto “mas pequis tem em todo canto, moço, de onde ocê vem? Lá, por um acaso, num chega pequi não?”


Sabino, entendendo o jogo de Dona Cida, apagou seu paieiro com os dedos polegar e indicador da mão esquerda, enquanto o segurava com a direita, colocou o restante de volta na carteira e com um sorriso atravessado lhe disse “eu vim do Sul, Dona Cida, na verdade cheguei na sua cidade por um acaso, gostei do lugar e resolvi passar um tempo por aqui, agora, se a senhora me dá licença, vou me deitar um pouco pois estou cansado da viagem.” Sem dar tempo para Dona Cida retrucar, foi tirando seu chapéu numa espécie de ritual de despedida e tomou rumo para seu novo aposento.


Dona Cida ficou parada observando a cena. Sentiu-se levemente ofendida com a forma abrupta com que Sabino encerrou a conversa, mas ponderou que precisava do dinheiro que receberia de seu novo hóspede, então apenas disse, enquanto Sabino se distanciava “Pois passar bem então, moço, tô na casa da frente em caso de ocê precisar”. Sabino apenas acenou levantando seu braço esquerdo enquanto se aproximava da porta, dando a entender que ouviu o recado.


Em seu pequeno quarto, Sabino sentou-se na cama de solteiro forrada com um fino pano azul claro e percebeu que dali, pela janela, dava para ver uma parte do mato do terreno baldio ao lado do lote onde residiria a partir de então.


Olhando pela janela enquanto divagava em devaneios percebeu um pequeno macaco no galho de uma Aroeira (Myracrodruon urundeuva), típica árvore retorcida do centro-oeste, onde o animalzinho pulava de um galho para o outro enquanto carregava algo numa das mãos que, julgou Sabino, ser um graveto. O macaquinho sumiu de vista por uns instantes e logo em seguida reapareceu trazendo consigo um filhote de coelho. Sabino achou a cena curiosa pois nunca antes presenciara um macaco brincar com um coelho. Repentinamente, porém, assustou-se ao ver que o pequeno macaco, com convicta violência, enfiou o graveto que parecia, agora, mais uma pequena porém pontiaguda estaca de madeira no pescoço do coelho filhote, que passou a se tremer e retorcer, soltando um grunhido agudo, como se gritasse por socorro. Sabino levantou-se abruptamente e pôs-se rente à janela o mais rápido pôde, fixou os olhos nos animais, que instintivamente lhe olharam de volta, o coelho como se pedisse por socorro em seus últimos segundos de vida, o macaco, como se quisesse mostrar para Sabino que naquele mato era ele quem mandava.


O pequeno e indefeso filhote de coelho enfim baixou sua cabeça, falecendo. Sabino passou a ser bombardeado por uma série de pensamentos irracionais desconexos do tipo: coelhos têm alma? Macacos comem coelhos? Macacos comem gente? Gente come macacos. E também come coelhos...


Num piscar de olhos, Sabino teve seus pensamentos interrompidos ao ver o macaco ter seu corpo lançado para trás pelo impacto de um pedra que atingiu com força e precisão sua cabeça. O sangue instantaneamente jorrou de seu cerebrozinho de macaco como água jorra de um cano com um pequeno furo. Ao ser atingido, o macaco instintivamente, em seu último ato em vida, puxou sua pequena ferramenta de combate do pescoço do coelho defunto, donde passou a jorrar sangue, como água jorra de um pequeno furo num balão cheio.


O sangue do macaco e o sangue do coelho uniram-se pintando o ar e o éter ao seu redor de vermelho, como num último recado para o mundo: vida é violência. Logo em seguida, caíram ambos do galho, coelho e macaco, caíram juntos e permaneceram juntos no chão, como se estivessem abraçados dormindo, como se o além lhes respondesse: morte é descanso. Num instante após a queda chegou ao local um menino por volta dos 13 anos, usando chinelo, bermuda jeans rasgada e uma camisa branca listrada com linhas horizontais médias vermelhas. Carregava numa das mãos um estilingue. Agachou-se perante os animais mortos com um olhar de contemplação, pegou ambos os bichos e pôs num saco de lixo preto que tirou do bolso traseiro do short. Ao levantar-se percebeu Sabino na janela, encarou-o fixamente, como se lhe mandasse um recado: presenciar é ser parte.


Sabino levantou-se da cama completamente suado, olhou em seu relógio de pulso e viu que eram 15h37. Sucessivamente os momentos que presenciara vieram à sua mente e, logo que recobrou o equilíbrio, correu até a janela para olhar a cena onde toda aquela violência ocorreu, mas não havia nada lá além da velha Aroeira cercada por mato. Sabino forçou a vista para o chão e viu um pequeno objeto pontiagudo rente ao da árvore. Seria um graveto?, Pensou. Seria uma estaca? Aquilo tudo foi real ou um sonho? Espera… Eu dormi?


Toc...toc...toc… Ecoou da porta de entrada/saída da pequena Kit. Toc...toc...toc… Sabino fitou a porta, toc...toc...toc… Ainda processando tudo que ocorreu, olhou novamente para o objeto distinto ao da Aroeira, mas não viu nada além de folhas e gravetos secos. Esfregou ambos os olhos com ambas as mãos toc...tOC...TOC… Olhou uma última vez para o chão, com mais atenção, mas novamente nada viu além da vegetação natural. “Eu podia jurar que havia algo no chão”, pensou. TOC...TOC...TOC… Sabino olhou novamente para a porta. TOC...TOC...TOC...

25. Januar 2020 23:17:08 1 Bericht Einbetten Follow einer Story
1
Fortsetzung folgt… Neues Kapitel Alle 30 Tage.

Über den Autor

Delvan Sales Um dia eu escrevi uma bio bem legal aqui, mas o site apagou do nada (True Story), então finja que esta é uma bio bem legal. E aproveite as histórias! :)

Kommentiere etwas

Post!
Rodrigo Borges Rodrigo Borges
Eu achei bem legal as duas formas que se pode observar Sabino nesse capítulo. Primeiro ele é seguro e dono do seu próprio espaço, mas logo depois se mostra baquiado diante à cena perto da Aroeira. Definitivamente, para mim, esse foi o gancho para se continuar a ler sobre Pequinópolis.
January 28, 2020, 19:56
~