tayfofanms Taynã Silva

Luhan odiava as sessões de terapia e só queria se manter longe das coisas que o fizeram precisar dela. Com uma proposta de trabalho em mãos para participar das gravações do filme baseado na história real do que acontecera dois anos antes, vê seu futuro começar a mudar. Mas é quando alguém some que as coisas voltam a piorar e a única saída parece ser uma suposta máquina do tempo, combinada com um soro azul vindo de um laboratório clandestino. Ao mesmo tempo, TaeHyung está preso em memórias e solidão. A voz de NamJoon parece não sair mais da sua cabeça e a casa onde cresceu nunca pareceu tão grande. Como um ato conspiratório do universo, um pacote do ex-militar chega às suas mãos intacto junto com um pedido de sigilo, deixando claro que o passado de NamJoon envolvia muito mais do que foi contado. "O nome dele é Suga". Essa fanfic também está sendo postada por mim no Spirit Fanfics e no Nyah! Fanfiction. É continuação de "Filhos do Sol", postada aqui anteriormente por mim.


Fan-Fiction Bands/Sänger Nur für über 18-Jährige.

#ficção-científica #shinee #bts #exo #continuação #Andrômeda #fanfic
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Prólogo


"Venha. Vamos nos perder nas curvas dos astros outra vez".


19 de Março de 2017, 20:02

Colorado – EUA


KyungSoo não pensou duas vezes antes de se mudar para o Colorado quando JongIn sugeriu o estado para passarem o resto de suas vidas depois de quase um ano vivendo na Califórnia. Um lugar mais afastado dos polos mais concentrados de pessoas parecia ser o sonho de consumo de JongIn, que sempre viveu rodeado de todo tipo de monitoria. KyungSoo também gostava, claro. Apesar do trato feito com o marido de não mais dar as caras na deep web ou sequer ser o hacker que era, ele gostava das pessoas do lugar, da certeza de que quase não haveria quem perguntasse sobre a Solis ou qualquer coisa do tipo. Já estava farto de tanta gente ligando a qualquer hora do dia querendo entrevistas, fotos ou até autógrafos por ter feito o que qualquer cidadão deveria fazer no seu lugar.

Mas JongIn mudou com o tempo e agora parecia que o ex-astronauta tinha fome de adrenalina. Ainda mais naqueles últimos meses, que se resumiam em todo tipo de trabalho relacionado à ciência ou sua história de vida. A América estava de olhos bem abertos agora, tanto que a política quase não tinha voz e as forças armadas tomaram o poder. Alguns cidadãos até diziam que isso melhorou o país e KyungSoo não tiraria a razão deles. Estavam vivendo felizes, o país estava ainda se reerguendo e todo tipo de documento confidencial parecia ter sido liberado na mídia como prova de que os militares não mentiam para o povo.

Ainda que, nisso, KyungSoo nunca confiou de fato. Mesmo que não pudesse se engajar em pesquisas, sabia que Chen e Suho também não engoliam esse discurso, mas, morando longe, quase não tinha contato com eles. Enquanto JongIn continuava viajando com frequência para suas palestras sobre a Missão Solis e tudo o que veio junto, às vezes de um estado para o outro como um tour. Para piorar, já fazia uns meses que as coisas vinham esfriando, embora ambos tentassem fingir que a relação continuava a mesma. Para KyungSoo, começava a não fazer mais sentido ter deixado tudo pra trás, até mesmo a vida de hacker que ele tanto sentia falta, para tentar ser normal.

Coisa que nunca acreditou ter sido.

E há quanto tempo mesmo eles não trocavam palavras sinceras? Foi pensando assim que KyungSoo decidiu dar um basta. Naquele dia, comemorariam dois anos de casados. Não que ele ligasse para esse tipo de coisa, pelo contrário, mas JongIn era o tipo romântico que fazia questão de lembrar de cada data comemorativa.

Pensando assim, acordou cedo. JongIn ressonava ao seu lado e a vontade de ficar na cama quase o venceu, afinal era raro JongIn estar dormindo depois das oito da manhã. Decidiu então cumprir o roteiro planejado e saiu de casa apressado para comprar um presente. É. Ele devia ter comprado antes. Voltou para casa antes das dez e teria ido direto para a cozinha preparar o café se a primeira coisa que viu, presa à porta da geladeira, não fosse um bilhete em letras garrafais:

“Vou na editora, volto à noite.

Te amo”.

“Atitude típica de Kim JongIn”, pensou KyungSoo e olhou para a caixa de presente embaixo do braço, se perguntando se ainda valia a pena.

Foi só mais tarde que KyungSoo resolveu dar mais uma chance. O amor não podia ter acabado assim, não é? Não em tão pouco tempo, não quando se tratava de JongIn. E foi com esse pensamento, essa tentativa de ser positivo, que o ex-hacker preparou tudo: a música e a bebida, a comida feita em casa que JongIn tanto presava, apesar de ele saber que não foi feito para cozinhar; e o presente.

Duas horas depois de tudo pronto, já com a playlist quase no fim, JongIn chegou apressado, derrubando as chaves depois de entrar e segurando com a boca o cartão de crédito. Olhou para KyungSoo e lançou um sorriso largo e nervoso, como se quisesse fingir não ter esquecido a data e ter comprado um presente de última hora.

— Soo! Eu juro que eu não esqueci, eu só... — disse ele ao tirar o cartão da boca.

— Não importa — KyungSoo se afastou, em direção à comida que já devia ter esfriado. Morria de fome por esperar tanto. — Como foi o trabalho?

— Trabalho? — JongIn pareceu não entender, ao colocar a caixa de presente na mesa e notar outra quase do mesmo tamanho.

— É. A editora. Você foi lá, não foi?

— Ah ‘tá! Fui sim. Tivemos uma reunião. Me pediram pra mudar umas coisas sobre a minha biografia, então vou ter que editar pra poder publicar.

— Como é que se muda uma biografia? — Quis saber, esperando que JongIn pisasse na bola.

— Tirar e acrescentar coisas, você sabe... Parece que não posso contar os detalhes do treinamento da Solis no livro, mas querem que eu fale de você.

— De mim? — KyungSoo lembrou-se dos inúmeros pedidos de entrevistas que contribuíram para que ele aceitasse se mudar da Califórnia e franziu o cenho. — Não vão parar de me encher o saco? — Sentou-se à mesa com o prato quase vazio.

— Você cozinhou? — Perguntou JongIn olhando para o prato alheio e só então notando o cheiro da comida, que ainda impregnava a casa, combinado com um leve odor de queimado. Típica comida de KyungSoo, mas ele amava cada detalhe. — Obrigado — Ao perceber o olhar do outro para que continuasse, prosseguiu: — Querem que eu conte como estamos, como você está.

— Em outras palavras, querem saber se estou trabalhando em outra investigação criminosa. — KyungSoo deu de ombros, um pouco irritado. Arriscou a primeira garfada, crente que aquilo faria mal depois.

— Nós não demos muitas notícias desde que nos mudamos pra cá e mesmo antes, você nunca quis dar uma entrevista. O que você fez pela Sol-

— O que eu fiz pela Solis é o que qualquer um no meu lugar deveria ter feito. Eu não sou uma celebridade, JongIn. Não gosto de paparazzi e holofotes.

— Você gosta de ficar no escuro usando o computador — Completou JongIn e só ao notar a expressão de descrença de KyungSoo que percebeu a burrada que havia dito. — Desculpa, desculpa. Não vou mais fazer isso — apressou-se em dizer, antes que o outro levantasse da mesa. — Não quero discutir, você está certo. Me desculpe.

KyungSoo engoliu a comida e tentou fingir não ter ouvido, considerando que não queria discutir logo quando deviam estar comemorando.

— Isso é pra mim? — JongIn perguntou, apontando para a caixa na mesa. KyungSoo assentiu, comendo em silêncio. Tirou dali um suéter de gola alta, do tipo que ele procurava há quase uma semana.

— É pra levar pra viagem — explicou KyungSoo sem olhar pra ele. — Já que aqui raramente faz frio...

— É lindo! — Disse, erguendo a o suéter cor creme de lã pesada — Mas não acha que vão dar em cima de mim nas palestras se eu usar ele? Porque você sabe como meus músculos ficam aparentes com esse tipo de roupa e... — Finalmente aquele sorriso brincalhão surgiu nos lábios de JongIn. Aquele sorriso que sempre fazia KyungSoo esquecer o que estava pensando e soltar uma risadinha.

— É melhor você usar isso aí! E quero foto de você usando na palestra, senão é capaz da imprensa cair em cima e começar a divulgar que eu não cuido de você.

JongIn caiu na gargalhada.

— Mas sabe... Acho que hoje vamos ficar acordados a noite toda — disse ele com um meio sorriso e só depois KyungSoo entendeu.

— Tarado!

— Até parece que não quer a mesma coisa. Além do mais, só quero passar mais tempo com você, . Vou viajar em poucos dias, quero aproveitar você o máximo que eu puder.

— Como se não fosse me ver de novo quando voltar — KyungSoo riu.

— Nunca se sabe — disse JongIn baixinho, abrindo a geladeira. Parecia procurar por algo, remexendo tudo, enquanto o mal pressentimento começava a tomar forma de um aperto no peito de KyungSoo. — Você comeu a última fatia de bolo que eu guardei? — Perguntou quase em tom de súplica e o ex-hacker apenas forçou um sorriso.


◈◇◈

20 de Março de 2017, 15:18

Colorado - EUA


— Ah, qual é! — Berrou BaekHyun do sofá. — Ele é o cara mais sensato que eu conheço!

— Esse cara não é o Chanyeol? — Perguntou KyungSoo, enquanto preparava seu Ramyeon¹ oficial. Era bom comer porcarias de vez em quando e já fazia tempo que não preparava sua especialidade, também conhecida como a-única-coisa-que-o-Soo-sabe-cozinhar. — Só ‘tô dizendo que nada tá fazendo sentido ultimamente. No começo, eram as mil maravilhas, mas hoje ele sai cedo, chega tarde, não diz onde vai e nem onde estava. Ontem ele até esqueceu o aniversário de casamento e você sabe como o Kai faz o tipo que se importa com essas frescuras.

— Hum... — BaekHyun saltou do sofá com uma mão no queixo e se aproximou da porta da cozinha. — Talvez ele tenha outro.

— O que? — Questionou KyungSoo e, por deslize, colocou tempero demais na panela.

— Você sabe... Outra pessoa. O Kai sempre gostou de aventuras, você sabe disso também. — KyungSoo ficou em silêncio. Isso também não fazia sentido. — Acho que temos uma missão.

— Do que ‘tá falando?

— Descobrir se o JongIn tá com outra pessoa, !

— Não acho que ele esteja me traindo.

— Isso é o que veremos. Eu posso facilmente bolar alguma coisa pra você colocar nas coisas dele. Uma escuta, câmera, qualquer coisa que quiser! Só precisa me autorizar.

— Eu não vou fazer uma besteira dessas!

— Tudo bem, então, cara. Fica com a dúvida se tem chifres ou não aí.

— Ele não ‘tá me traindo! — Berrou KyungSoo e desligou o fogo. — Só... Só acho que tem algo a mais que ele não ‘tá contando. Ontem ele pareceu mais preocupado que o normal, mas ele não fala comigo.

— Cara, vocês mudaram muito nesses anos...

KyungSoo suspirou.

— Ele nem parece a mesma pessoa...

— E o que vai fazer? — Perguntou BaekHyun e se aproximou da panela. O cheiro estava bom e de repente valeu muito a pena ter dirigido até ali.

— Vou ficar na minha, por enquanto. Não acho que seja nada grave, talvez eu só esteja preocupado à toa.

— Como se seu radar pra problemas já tivesse falhado... — Comentou baixinho. — Quando ele volta de viagem mesmo?

— Ele viaja daqui dois dias e só volta depois de um mês.

— Hum... Boa sorte. Se mudar de ideia e quiser meu equipamento, só me avise com antecedência. O comandante anda viciado em gravar gameplays.


◈◇◈

22 de Março de 2017, 10:24

Casa de Allan, Houston – Texas


Minseok percorreu o trajeto até a casa de Allan aflito como nunca esteve. Segurava o volante com o resultado do exame na mão suada, ensaiando mentalmente seu discurso de “eu sou seu filho”. Mas nada parecia apropriado o suficiente para representar tudo o que sentia naquele momento, e a ânsia de tirar do peito tudo aquilo que sentira desde que descobriu a identidade de seu pai, parecia corroê-lo por dentro a ponto de causar azia.

Foi com YiXing que dividiu a incerteza daqueles últimos dias, desde que tomou a decisão de contar sua história e sobre a possibilidade de Allan ser seu pai. O chinês o reconhecera como irmão mesmo antes do resultado do exame de DNA e, mesmo que não tivesse aberto o envelope ainda, sabia que o resultado seria positivo. Allan foi o único homem com quem sua mãe realmente deixou de usar camisinha, mesmo sendo uma prostituta de boate.

YiXing o encorajou a ir em frente e deu total apoio. Saía da casa do pai sempre que Minseok precisava ter uma conversa séria com seu velho, coisa de pai e filho. E Allan também dividia com ele as incertezas sobre sua paternidade e a felicidade de saber que talvez tivesse outro filho. A carta que a mãe de Minseok deixou antes de morrer contava tudo, assim como tantas outras que ela ensaiou em enviar ao longo dos anos, mas deixou guardadas numa caixa. Então Allan propôs o exame para ter certeza.

E agora, Minseok controlava a respiração à frente da porta do seu provável pai, certo de que gaguejaria assim que o visse. Mas foi Allan que falou primeiro, quando, através da janela, o viu parado à porta antes mesmo de bater.

— Esse é o resultado? — Allan parecia mais nervoso que o próprio possível filho, que assentiu. — Entre.

Minseok entrou, limpando o suor das mãos na calça. Engoliu em seco, olhando em volta. Era a terceira vez que entrava ali e sempre parecia a primeira.

Allan passou por ele e se sentou numa mesa pequena, onde gostava de fazer suas anotações. Ligou a luminária e colocou os óculos. A visão não era mais lá essas coisas. Minseok estendeu o envelope com as mãos trêmulas e Allan o pegou da mesma maneira.

— Seja qual for o resultado, eu ficaria imensamente feliz se você fosse meu filho — Minseok sorriu sem jeito e olhou para os próprios pés. — Você é um bom homem, sua mãe com certeza te criou melhor do que eu, com certeza, faria — tomou um gole do copo d’água deixado estrategicamente na mesa.

— O senhor também é um bom homem. Eu devia ter contato quando soube que você é Alfred Martin, mas foi difícil processar que você não estava morto.

Allan não respondeu. Ajeitou os óculos e abriu o envelope lacrado, retirando de dentro um papel dobrado. Leu em silêncio e Minseok estranhou quando ele começou a fazer careta. Se aproximou um pouco na tentativa de ler o resultado, se questionando se teria sido negativo. Então, Allan começou a dar indícios de que algo estava muito errado. Seu rosto ficou vermelho com as veias das têmporas saltadas. Amassou o papel ao segurá-lo com força e, com a outra mão, apertou o peito, amarrotando a camisa.

Era um ataque cardíaco.


◈◇◈

10:42


Para Yixing, o som do celular tocando era seguido pelo frio na barriga naqueles últimos dias. Primeiro, foi Minseok ligando bêbado para falar com urgência sobre seu passado. Depois, foi seu pai, querendo saber se ele sabia. Agora, era Minseok de novo, provavelmente para contar como foi o encontro com seu pai.

Achava que tudo estava certo porque conhecia bem o velho. Era um homem dedicado a ele e, quando tivesse certeza de que Minseok era seu filho legítimo, com certeza ficaria muito feliz, já que havia se mostrado um bom homem desde toda a confusão da Solis e Allan não lhe poupava elogios. Mas quando finalmente atendeu o telefone, não sem antes bater a perna na mesa de centro da sala, a voz de Minseok denunciava o desespero:

YiXing! Me ajuda! — Berrou com a voz embargada e fungou.

— Xiumin? — Questionou pelo apelido que ele mesmo colocou desde que se aproximaram. — O que aconteceu?

O Allan, ele... Ai meu Deus, eu não sei o que fazer.

— O que aconteceu, Xiumin?! O resultado foi negati-

Ele teve um ataque, eu não... Eu não sei o que fazer, ele tá...

— Droga!

Ele leu o resultado e passou mal, teve um ataque cardíaco. Eu chamei o resgate, mas não chegaram ainda, eu... Eu acho que ele morreu. — E desabou em lágrimas como se não houvesse amanhã.

YiXing ficou em choque, olhando para o nada no seu escritório. Seu pai morrer significava que o principal pilar de sua existência tinha ruído e agora, ele se via sem saber o que fazer, pela primeira vez em tantos anos.

— Escuta... — disse YiXing em voz baixa, tentando se organizar. Então ouviu o som da sirene de uma ambulância ao fundo do outro lado da linha. — Não conte a ninguém sobre a verdadeira identidade dele. Ninguém mesmo, entendeu?

Tá bem, mas-

— Eu ‘tô indo pra’í. — E desligou o telefone, já saindo porta afora.


◈◇◈

11:15


Ao virar a esquina, YiXing já podia ver a dimensão do que havia acontecido através do para-brisa em movimento. Havia duas viaturas de polícia, uma ambulância com as luzes ainda acesas e uma van do IML² estacionada à frente da casa mais discreta daquele bairro pacato. Dois homens e uma mulher saltaram da van e YiXing teve pouco tempo para estacionar o carro fora do perímetro interditado da rua. Respirou fundo ao se aproximar. Era como uma cena de crime, só que na sua casa e com seu pai como vítima.

Um policial se aproximou de Minseok, que esperava de lado abraçado ao próprio corpo, e YiXing não sabia dizer o que se passava pela sua cabeça, uma vez que nunca pensou poder vê-lo tão abatido.

— Eu sou da família, meu pai é Allan McLean — foi o que precisou dizer para a um policial de jaqueta azul, próximo ao perímetro, para que o deixasse passar por baixo da fita. O oficial indicou outra pessoa com um gesto de mão e YiXing se dirigiu a ela antes de entrar na casa.

— Sr. YiXing? — Perguntou a mulher indicada. O cabelo loiro esvoaçava ao vento gelado daquele dia chuvoso. Ele apenas assentiu, tinha um nó na garganta. — O Sr. Kim Minseok está conversando com outro oficial, podemos conversar um instante?

— Meu pai, ele... — quis perguntar, mas as palavras entalaram quando ele viu dois homens com o uniforme do IML saírem pela porta da frente da casa. O volume do saco preto acima da maca articulada denunciava o corpo e YiXing teve certeza absoluta de que nunca mais esqueceria aquela cena, como nunca esqueceu a morte da Mei.

— Sinto muito, Sr. YiXing — disse a mulher o tocando no ombro num gesto de empatia.

Mas ele não conteve as lágrimas. Uma coisa era imaginar, outra era ter certeza.

Morto. Seu pai estava morto e nada mais o traria de volta. Não queria culpar Minseok, mas talvez... Se ele não tivesse contado... Afastou esse pensamento. Apesar de YiXing ter sido colocado na turbulência, tinha certeza que Minseok estava se sentindo muito mais culpado que ele e, quando viu os olhos inchados do recém descoberto irmão ao sair da casa, tomou consciência de que ele deveria ser o pilar para sustentá-lo.

Até porque, agora só tinham um ao outro.

Vestiu sua carranca de pedra e passou a fazer as coisas no automático. Já era de praxe para ele agir dessa forma, um péssimo hábito herdado da NASA quando ainda era criança. Conversou sobre o pai e sua origem, já que não se tinha certeza sobre quem realmente era o homem, porém sempre dando informações sobre sua falsa identidade: Allan McLean. Quando finalmente terminou de fornecer as informações necessárias e saber o que aconteceu pelo olhar dos investigadores, viu Minseok perder o controle sobre o choro ao se encontrarem com o olhar.

Mas quando se aproximaram um do outro, YiXing foi a razão e Minseok a emoção. Nunca havia pensado em vê-lo daquela maneira e isso o pegou de surpresa. Chorou como se não houvesse amanhã, e YiXing o tomou nos braços na tentativa de consolá-lo, se perguntando quanto mais lágrimas ele ainda teria e quanto teria que segurar as suas próprias. Minseok não tinha culpa, mas ele também não sabia o que fazer em seguida.

— Eu matei meu pai — disse Minseok ao parar de chorar, ainda preso nos braços do irmão adotivo.

— Não, não. — YiXing se desvencilhou do abraço e segurou Minseok, para que ele o olhasse nos olhos. — Você não tem culpa. O pai já tinha problemas de saúd-

— Se eu não tivesse contado, ele estaria vivo agora!

YiXing engoliu em seco. Ele tinha razão, no fim das contas, mesmo que ele não quisesse assumir para si mesmo.

E ali, parados, Minseok perdeu o controle ao menos umas três vezes. Assistiram à movimentação, aguardando o momento de poder entrar na casa, até que a garoa se transformou em chuva e tiveram que se abrigar no carro de YiXing, estacionado de qualquer jeito, todo torto ao lado da guia.

Ficaram em silêncio até que um policial se aproximou do carro e bateu no vidro da janela. Ele segurava um guarda-chuva e mesmo assim se molhava, tentando proteger algo dentro do casaco. Minseok abriu a porta.

— Aqui estão seus documentos — disse o oficial para Minseok, lhe estendendo a carteira de motorista e o passaporte, que ele levava para todo lugar. O agente os pegou quase em câmera lenta e o homem continuou, com o bafo de cigarro e bala de hortelã: — Você será convocado pra depor sobre o ocorrido, então fique por perto. Não está autorizado a sair do estado até que tudo esteja esclarecido. Você foi o último a vê-lo, então tem muito a dizer.

Minseok ficou olhando o policial correr até o outro lado da rua na chuva, onde estava a viatura. Pouco se importou com o fato de já ter contado ao menos duas vezes o que aconteceu, excluindo sempre a verdadeira identidade do pai. Por sorte, até mesmo o exame de DNA foi feito com o nome de Allan, então não havia problemas em saberem ser filho dele.

— Parece que o nosso pai não vai ter seu desejo cumprido — comentou YiXing, se aproximando e olhando para o grupo de jornalistas atrás da faixa amarela.

— Hum? — questionou Minseok sem entender.

— Nosso pai nunca gostou de holofotes e um dos seus desejos era que ninguém soubesse quando ele morresse. Mas olha só esses ratos da imprensa, entupindo a rua, gritando por respostas em meio ao evento mais chocante do ano.

Minseok achou estranho, no início, mas no minuto seguinte entendeu os motivos que o pai provavelmente tinha para não querer se expor, e não era apenas pelo seu passado sob um outro nome. Allan só queria ter paz, depois de tudo o que aconteceu.

— Você assinou a papelada? — perguntou Minseok.

— Sim. Em nome de Allan McLean.

Depois de um tempo, quando YiXing finalmente ligou o carro e o para-brisa começou a funcionar, arriscou a última pergunta:

— O que fazemos agora?

— Sobrevivemos — disse YiXing e arrancou.




GLOSSÁRIO:


Ramyeon¹: miojo típico coreano.

IML²: Instituto Médico Legal, onde se fazem exames de corpo de delito e autópsias.

6. März 2020 00:01:35 0 Bericht Einbetten Follow einer Story
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