ruan_gabriel Ruan Gabriel

Era um dia quente de verão quando conheci Henrique. Laura e eu reparávamos nos caras gatos que andavam por toda parte no campus da universidade. Mas nenhum chamou tanto minha atenção quanto Henrique. Lá estava ele, no topo das escadarias do prédio de Engenharia. À época, seus cabelos castanhos ainda eram curtos. Ele vestia uma calça jeans e uma camisa anil aberta por cima da camiseta branca. Algo que não consegui identificar brilhava em seu peito. Eu não jamais imaginei que, anos depois, Henrique e eu estaríamos aguardando minha família para comemorar o Natal em nosso lar. Dezembro tornaria-se um mês importante para nós dois.


LGBT+ Nicht für Kinder unter 13 Jahren.

#completa #neve #natal #amizade #família #festejainks #lgbt #conto #romance #dezembro #vênus #gabriel #ruan
Kurzgeschichte
6
5.1k ABRUFE
Abgeschlossen
Lesezeit
AA Teilen

Capítulo Único

– Estrela dourada ou vermelha? – perguntou Henrique.

– Dourada – respondi. – Irá combinar com a árvore de Natal.

– Além do teu pai não te encher o saco. – Sorri. – Eu entendo o fanatismo dos héteros, sério! Mas o teu pai não consegue nem lidar com o fato de que é Natal? Tudo deveria ser vermelho.

– Fanatismo dos héteros, sério? Certeza que não é apenas a influência colorada e comunista na sua vida falando alto?

– Cuidado com o que você diz em voz alta neste país – brincou ele.

– Ninguém nos entenderia.

Henrique largou a embalagem com a estrela dourada dentro do carrinho de supermercado. Ele estava com um sorriso bobo no rosto, provavelmente pensando nesta primeira vez que realizaríamos a ceia de Natal em nosso novo apartamento. Ele empurrou o carrinho para próximo de mim e parou ao meu lado.

– Tudo sairá perfeito. – Henrique curvou-se um pouco e deu-me um beijo singelo. – Eu prometo.

Ele seguiu caminhando à minha frente, passos longos e calmos. Namorar um cara com 1,94 de altura era engraçado. Se eu com meus 1,79 já conseguia observar os outros de cima, ele deveria sentir-se no topo de todos. Lembro-me exatamente do dia em que o vi pela primeira vez.

Era um dia quente de verão e não havia nuvens no céu. Meu primeiro dia na universidade. Laura e eu chegamos mais cedo ao campus para explorar o local. Estávamos animados com nosso primeiro semestre na Publicidade e Propaganda. Após comprarmos pão de queijo e coca num bar, sentamos num banco abaixo de altas árvores. Laura e eu reparávamos nos caras gatos que andavam por toda parte, para aproveitar o tempo antes do primeiro período. Entretanto, nenhum chamou tanto minha atenção quanto Henrique. Lá estava ele, no topo das escadarias do prédio de Engenharia. À época, seus cabelos castanhos ainda eram curtos, recém cortados. Ele vestia uma calça jeans e uma camisa anil aberta por cima da camiseta branca. Algo que não consegui identificar brilhava em seu peito. Eu fixava ainda mais meu olhar em Henrique à medida que ele descia as escadas. Só acordei para a vida quando ele beijou a garota ruiva que o aguardava na calçada.


A neve recobria cada canto da Avenida Principal, da copa das árvores a finas camadas sobre os carros. Tudo ao nosso redor era iluminado pelos enfeites coloridos que davam brilho à paisagem. Estruturas metálicas no formato de renas, elfos, papais Noel e presentes de Natal espalhavam-se por todo lugar. Eu pude prestar atenção aos detalhes com Henrique ao volante. Seus olhos castanhos esverdeados tornavam-se ainda mais lindos com a alegria daquela noite fria.

Aumentei o aquecedor do carro.

– Até hoje eu me pergunto como tu embarcou na ideia maluca de morar comigo no exterior – disse Henrique.

– Maluca seria a ideia de permanecer longe de ti.

Ele deu um pequeno sorriso e soltou um grunhido baixo sem tirar os olhos da estrada. Flocos de neve caíam sobre o vidro, sendo jogados para o lado pelos limpadores de para-brisa. Henrique conhecia-me bem para saber as loucuras que já fiz com ele.


– Tá preparado? – perguntou Camila.

Não pensei duas vezes antes de tragar o narguilé. A fumaça entrando pela primeira vez nos meus pulmões foi uma das sensações mais esquisitas que senti na vida. Entre a tosse seca para expelir o ar, todos vibraram ao meu redor por ter passado pelo ritual de iniciação. Laura apenas puxou-me pelo braço e levou-me para tomar ar puro de verdade na área externa. Lembro-me de apenas ter assentido e levantei-me o mais rápido possível para segui-la.

Camila resolvera dar uma festa para os calouros da PP na sua casa. Laura certificara-me que não deveríamos ficar de fora se quiséssemos veemente abandonar a vida que nos prendia aos dramas adolescentes do Ensino Médio. Ser universitários nos abriria um mundo de possibilidades. E lá estávamos nós dois, com roupas de banho, entre inúmeros jovens adultos alterados pelo álcool, curtindo ao redor da enorme piscina.

– Oi, oi, mores! – exclamou Camila ao escorar-se à parede conosco. Ela segurava um cigarro de maconha. – Vocês querem fuma um?

Laura adorou a oferta, mas eu a recusei. Prometera a mim mesmo que jamais fumaria novamente. Fora uma mentira confortável por um bom tempo. Disse às garotas que iria pegar uma cerveja e voltei para dentro da casa. Passei por alguns colegas que me convidaram para jogar “Eu Nunca”. Agradeci e segui caminho para a cozinha. Ao chegar no cômodo, esbarrei com Denise e Marcos se pegando. Ri daqueles dois, que saíram apressados – provavelmente à procura de um quarto. Abri a geladeira para pegar uma garrafa.

– Tu pode pegar uma pra mim?

Virei-me de costas. E lá estava eu, cara a cara com o garoto do topo da escadaria. Ele usava um calção de banho escuro com estampa de tubarão. Os pés estavam descalços, e todo o resto do corpo nu. Tinha um escapulário de ouro no pescoço. Alcancei-lhe a bebida.

– Valeu. – Ele retirou a tampa e bebeu um longo gole. – Olha os meus modos. – Ele limpou a boca com o braço e estendeu-me a mão. – Eu sou Henrique. E teu nome é...

– Vênus. – Eu apertei sua mão, e ele franziu o cenho. – Eu me chamo Vênus.

A reação das pessoas não era diferente da de Henrique ao ouvirem o meu nome pela primeira vez. Minha mãe era graduada em Filosofia e Doutora em Histórias Mitológicas. Nunca fora uma surpresa para meu pai que minha mãe nomearia seus filhos com nomes peculiares. Ela era fissurada por Afrodite, mas Vênus soava mais aceitável aos ouvidos das pessoas. Minha mãe já era desconstruída o bastante para não se importar tanto sobre gênero, apesar da convenção social ter meu nome como feminino. Ainda assim, eu era um garoto cis que amava seu “nome de mulher”.

– Diferenciado – disse Henrique. – E por acaso tu também nasceu da espuma do mar?

Não era sempre que alguém conhecia os deuses romanos. Não saberia dizer o porquê, mas aquilo me excitou. Henrique me excitava.

– Não. Mas meu aniversário é no início de dezembro. Tenho certeza que meus pais aproveitaram muito bem em Búzios o Carnaval de 98.

Henrique riu. Jamais esqueceria a primeira vez que vi aquele sorriso, os olhos cintilantes levemente fechados. Meus braços tremeram, e o coração bateu mais rápido: a garota ruiva adentrou a cozinha e envolveu a cintura de Henrique com seus braços. Ele a beijou, e eu sobrei ali com minha cerveja na mão.


Henrique e eu estávamos no elevador, subindo para nosso apartamento. Ele baforava o espelho com o hálito quente. Trazia consigo a maioria das compras enquanto eu carregava a estrela dourada e as chaves de casa. Com leveza, o elevador abriu em nosso andar.

Destranquei a porta, liguei os interruptores e adentramos nosso apartamento. Henrique levou as compras para a cozinha, e eu aguardei-o retornar. Reunidos novamente, retirei o enfeite natalino da embalagem e o coloquei no topo do pinheiro no canto sala. Ele estava decorado com bolas natalinas vermelhas e prateadas e adereços no formato de pinhas e sinos natalinos, e nossos presentes estavam organizados abaixo dos seus galhos. Henrique sorriu para mim quando acendi por completo os pisca-piscas da árvore e do cômodo. A sala iluminou-se ainda mais com as tonalidades douradas emitidas pelas luzes.

– Seus pais vão amar com toda a certeza. – Caminhei até ele e abracei-o. Henrique beijou minha bochecha. – Mas essa árvore poderia parecer ainda mais comunista.

– Tu não quis dizer “natalina”. – Rimos. – Sinto muito, lindo, mas o Natal ainda é capitalista.

Henrique abraçou-me cuidadosamente, pondo meu corpo contra o seu. Inclinamos nossos rostos na direção um do outro.

– Que horas temos que pegar seus pais amanhã, no aeroporto?

– Às 4:30 da tarde – respondi.

– Ok. – Ele me beijou. – Quer que eu faça chocolate-quente?

– Eu não ousaria recusar nossas noites regadas a chocolate-quente por nada – disse.

Henrique sorriu e beijou-me novamente.


O mundo às vezes me parecia um lugar tão pequeno. Ou talvez a minha vida fosse.

Eu cresci em um lar extremamente amoroso, estudei nas melhores escolas e entrei numa boa universidade. Tinha amigos com quem contar nos momentos tristes e aproveitar nos felizes. Laura sempre me dizia que eu tinha direito a reclamar de algo na minha vida. Porém, a verdade sempre seria que nada me incomodava. Isso mudou quando conheci Henrique e Júlia na cozinha àquela noite.

Júlia era uma garota risonha e refrescante. Era alta, tinha a pele bronzeada e os cabelos ruivos. Mesmo não sendo naturais, invejavam pelo quão bem eram cuidados. Seu feed do Instagram era organizado como o de ninguém que eu conhecia: a vitrine dos seus trabalhos como modelo. Nem por um segundo sequer questionei-me sobre o porquê de Henrique estar com ela. Ela era linda.

Era uma sexta-feira de julho quando Laura convidou-me para ir a uma festa. Eu aceitei de imediato. Não fora a nenhuma outra desde a pool party na casa da Camila. Meu primeiro semestre na PP tinha sido agitado para um início de curso. Além disso, Laura e Camila estavam ainda mais próximas. Minha amiga faria questão que eu saísse com elas.

Meu pai levara-me até a casa noturna. Antes que eu descesse do veículo, ele alertou-me sobre todos os cuidados que eu deveria ter ao estar num ambiente como aquele, cercado de jovens entorpecidos e de caráter questionável. Ele provavelmente não sabia a respeito das histórias que mamãe me contou sobre a juventude deles.

Laura e Camila estavam me aguardando na fila.

– Eu pensei que tu não ia chegar nunca! – exclamou Laura, abraçando-me fortemente.

– Eu não ia perder de rebolar a raba com vocês.

Não demorou muito para que entrássemos na festa. A música crescia quanto mais nos aproximávamos da concentração de jovens dançando no centro do lugar. As duas puxaram-me para junto dos outros. Eu mexia meu corpo por inteiro, indo para lá e para cá, descendo e subindo. Em meio àquela multidão, com as luzes iluminando-me constantemente, eu me senti infinito.

– Eu vou pegar uma bebida – disse ao ouvido de Laura.

– O quê?!

– Eu vou no bar! – exclamei.

– Tá!

Comecei a desviar pelos espaços abertos entre os corpos dançantes. Infelizmente, ainda acabei atingido pela bebida de uma garota. Logo, cheguei ao balcão e pedi um Atômica para a bartender – eu era apaixonado por drinks com gim. Fiquei curtindo a música enquanto minha bebida não ficava pronta. As luzes da festa permaneciam iluminando a todos, piscavam sem parar. Eu curti minha própria vibe até alguém pôr a mão sobre o meu ombro direito.

– Vênus – disse ao meu ouvido esquerdo.

Um calafrio percorreu meu corpo. Eu sabia a quem pertencia aquela voz. Virei-me e pressionei minhas costas contra o balcão – não era a primeira vez que nos encontrávamos assim. Foi difícil identificar todos os traços de Henrique no ambiente obscurecido pelas maquinas de fumaça.

– Vem comigo? – ele perguntou, estendendo-me sua mão. – Por favor.

Algo nele estava diferente. Apenas aceitei seu pedido.

Henrique conduziu-me para pagarmos nossas comandas e saímos da festa.


O dia da véspera de Natal estava ainda mais frio. O manto branco cobrindo o chão aumentara de volume por causa da breve tempestade na madrugada. Caminhões limpavam a neve pelas ruas, e as pessoas utilizavam pás para realizar o mesmo trabalho. Feixes solares atravessavam as nuvens e clareavam a tarde. Os pisca-piscas nas casas já não brilhavam como à noite.

Henrique e eu demoramos um pouco para chegar à estrada que levava ao aeroporto. A paisagem era nevada por todos os lados, exceto pelas cores dos carros que não estavam cobertos com gelo e o verde à mostra das plantas ao redor da rodovia. Henrique cantarolava a música de Frank Ocean tocada no rádio. Para alguém que não sentia frio como eu, ele estava bastante agasalhado. Será que para se proteger da temperatura ou das preocupações de meu pai sobre ficarmos doentes por causa da estação? Possivelmente as duas coisas. Ele usava um gorro azul marinho para aquecer as orelhas.

Aguardamos pelos meus pais na área de desembarque. Inúmeras pessoas iam e vinham por todos os lados. Sorrisos, abraços e choros eram cenas comuns. Afinal, aeroportos, rodoviárias e estações de trem ocupavam o espaço simbólico de encontros e desencontros, partidas e chegadas. Henrique comprou-nos café para nos aquecer à espera dos meus pais. Eu batia meu pé mais rápido conforme os minutos passavam. Eu não os via há seis meses.

Henrique era um excelente profissional. Ganhara uma promoção no trabalho há menos de um ano. Trabalhar com tecnologia dava-lhe estabilidade financeira. No contemporâneo, sua área era valorizada. Ele não pensara duas vezes antes de aceitar. O único entreve seria minha decisão entre acompanhá-lo ou manter-me no Brasil. Eu não suportaria ficar longe de Henrique. Porém, iria para longe de tantas outras pessoas que amava. Escolhas nunca foram fáceis.

E aqui estávamos nós – juntos – aguardando o grande reencontro. Meu coração disparou quando vi meu pai empurrando o carrinho do aeroporto com as malas dele e de minha mãe. Ela estava logo à frente dele. Eu não conseguia sequer imaginar a imensidão do sorrido em meu rosto ao revê-los. Corri para os braços de minha mãe. Seus longos cabelos negros ainda possuíam o mesmo cheiro de amêndoa da sua receita de shampoo caseiro. Meu pai uniu-se a nós dois. Ele tinha perdido um pouco mais de cabelo. Seria a idade ou a preocupação pelo seu garoto longe? Henrique parou próximo a nós. Parecia receoso.

– E tu tá esperando o que pra se juntar com a gente? – perguntou meu pai.

– Eu não abraço pessoas usando uniforme do Grêmio – respondeu Henrique.

– Não abraça gremista, mas transa com um?

– Mãe! – exclamei.

Meu pai revirou os olhos, e Henrique cedeu.

– Até que não é tão ruim assim – disse ele.

Ficamos parados ali por alguns minutos, sentindo o calor dos corpos uns dos outros. Pelas enormes janelas do aeroporto, eu vi a neve começar a cair de novo.


Henrique contara-me que ele e Júlia não estavam mais juntos.

Caminhávamos calados um ao lado do outro na noite escura. Somente o som da vida noturna e dos nossos passos sobre a calçada quebravam o silêncio entre nós. Pessoas divertiam-se bebendo, fumando e rindo alto pelas esquinas e em frente a bares. Henrique chutou uma garrafa de vidro vazia. Eu reparei nos seus olhos: estavam marejados, chamejados com a pouca iluminação dos postes.

Seguimos por algumas quadras até chegarmos a uma pequena praça deserta. O clima de julho era frio, porém àquela noite estava agradável. Eu levara comigo uma camisa jeans caso fosse necessário. Henrique e eu sentamos nos balanços do playground centralizado na praça. As correntes rangeram com nossos pesos.

A quietude permaneceu presente. Henrique finalmente falou quando comecei a me embalar:

– A Júlia terminou comigo faz duas semanas. – Ele olhou para o chão e chutou uma pedra.

– Eu sinto muito – disse. Mas não era a verdade.

– Mas não devia.

Eu me perguntei o porquê. Ele suspirou profundamente antes de prosseguir:

– As coisas já estavam estranhas entre a gente. A Júlia não era mais a mesma guria que eu conheci 5 anos atrás. E nem eu sou o mesmo Henrique de antes. – Ele olhou para mim. – Uma amiga me disse que ela estava na festa com outro cara, e eu queria ver isso com os meus próprio olhos. – Ele desviou o olhar de mim. – Tu deve me achar um escroto agora.

Don’t be hard on you.

Henrique sorriu com meu comentário bobo. Eu não soube o que dizer. A verdade era que eu, por um momento, achei ele mesmo um escroto.

– Me desculpe por estragar sua noite – disse ele. – Eu vi você lá e pensei... Eu não sei o que eu pensei.

Olhei para o céu na esperança de encontrar alguma estrela. Porém, ele estava nublado.

– Eu nem acredito que tu lembrou de mim.

– Difícil esquecer o cara que se chama Vênus. Você encanta a todos por onde passa. – Meu rosto começou a pegar fogo. – Não se sinta envergonhado com o que eu disse.

– Deve ser minha influência de deusa do amor sobre ti. – Ele riu.

– E o que isso significa? – perguntou.

– Eu não sei. Talvez algo que possamos descobrir algum dia.

Henrique fitou-me por alguns instantes. Escutávamos apenas o som das correntes de metal suportando nossos pesos e dos insetos pelas árvores e arbustos. Ele levantou-se do balanço e pegou seu celular. A luz de um poste próximo começou a piscar sobre nós. Henrique permanecia lindo sob aquela fraca iluminação.

– Tá a fim de ir lá pra casa? Conhecer um Henrique diferente desse que tá bêbado e sozinho e te trouxe pra um lugar vazio e escuro? – perguntou ele. – Não quero estragar ainda mais sua noite. E talvez consiga mostrar que não sou tão esquisito assim.

Aquele convite significava alguma coisa? E aquilo que ele disse antes para mim? Era estúpido eu imaginar que rolaria alguma coisa entre nós? Desculpa, Henrique, mas três coisas eram certas: 1) ele referenciou New Rules da Dua Lipa; 2) eu gostava de caras esquisitos; e 3) valeu a pena abandonar meu Atômica no balcão do bar para ir na casa dele àquela noite.


Meus pais estavam famintos com a longa viagem. Decidimos realizar um dos maiores sonhos da minha mãe, então paramos numa Waffle House para comer. O restaurante não estava muito movimentado. Sentamos em uma das mesas com assentos estofados. Henrique e eu de frente para os meus pais.

– A magia do Natal não é tão... mágica como eu esperava por aqui – disse minha mãe.

Os funcionários do estabelecimento realmente não se esforçaram para fazer uma decoração à altura do resto da cidade. Algumas velhas meias vermelhas natalinas estavam penduradas pelas paredes. Nossa mesa, assim como as outras, possuía um pequenino elfo de gesso – ele estava com um dos braços quebrados. Mesmo o pinheiro não revigorava o lugar: além de mal enfeitado, estava localizado num canto mal iluminado. Havia ainda uma guirlanda cafona no caixa.

Fizemos os pedidos à garçonete. Não demorou muito para que nossa comida chegasse. Minha mãe optou pelo tradicional waffle com mel e café latte, e meu pai acompanhou-a. Ela deliciava-se com o aroma doce do seu prato, e ele sujou o canto da boca com chantily já na primeira garfada. Eu pedi rosquinhas de chocolate polvilhadas e um chá de amora. Henrique disse que não estava com fome. Mas eu sabia que ele não resistiria e as comeria comigo. Fiquei observando meus pais por alguns instantes, pois há muito tempo não fazia uma refeição na companhia deles. Eu tinha saudades de momentos assim. No dia em que Henrique e eu fomos embora do Brasil, as lágrimas de minha mãe e o olhar triste de meu pai na minha partida quase fizeram-me ficar. Mas agora estávamos ali, reunidos novamente.

– Eu amo vocês – disse eu, olhando para eles.

Subitamente, eles pararam de comer após meu anúncio. Os dois entreolharam-se por alguns segundos e sorriram um para o outro. Minha mãe estendeu seu braço para fazer carinho na minha mão. Os olhos dela pareciam cheios de vida.

– Nós também te amamos, querido. Muito!

– Sua mãe e eu estamos tão orgulhosos de você – disse meu pai. – De ti também, Henrique. Estamos muito orgulhosos de vocês dois.

Meus olhos encheram-se de lágrimas. Eu com certeza não conseguiria disfarçar o bobo sorriso em meu rosto. Henrique passou o braço esquerdo ao redor da minha cintura e apertou-a carinhosamente.

– Você é puramente amor, Vênus – disse ele, baixinho ao meu ouvido, e beijou-me no pescoço. – Você é nosso amor.

O clima de inverno não seria páreo para causar-me frio: meu coração estava aquecido com tanto amor que eu tinha por aquelas pessoas, e elas, por mim.


Nada acontecera entre Henrique e eu àquela noite. Nada sexual, eu diria. A verdade era que aquele momento fora a primeira aproximação da amizade que logo surgiria entre nós dois. Ficamos conversando durante horas, até percebermos a vida crepuscular pela janela do quarto. Ele preparou-nos salgados assados de frango e carne para comermos enquanto bebíamos vodca com energético. Henrique morava sozinho desde que iniciara a graduação em Engenharia de Software. Seu pai não se importava muito com ele desde que sua mãe falecera há 4 anos. Ele bancava tudo que o filho desejasse, mas Henrique não ganhava o que mais queria: amor.

Adormeci na cama de Henrique ouvindo o canto dos pássaros. Acordei horas depois com meu celular vibrando abaixo do meu corpo. Era meu pai me ligando. Inúmeras chamas perdidas dele e de minha mãe, além de 34 mensagens de Laura querendo saber o que tinha acontecido comigo e se eu estava bem. “Merda”, pensei. Atendi a ligação seguinte.

Nem meia hora se passou, e meu pai já estava à minha espera em frente ao edifício onde Henrique morava. Tive que ouvir os sermões dele durante o caminho inteiro. Eu sabia que ele não estava errado ao dizer que quase matei ele e minha mãe de preocupação. Afinal, passara a noite na casa de um “desconhecido” sem avisá-los.

Quando chegamos em casa, meus pais e eu tivemos uma longa conversa sobre confiança e meu falho senso de autopreservação. Eu concordava com tudo que diziam. No fim das contas, era isso que garotos bonitos faziam comigo. Eles encerraram proibindo-me de ir a festas com prazo indeterminado – mas nem eles acreditavam que conseguiriam ser rígidos comigo por muito tempo.

Liguei para Laura depois que meus pais me dispensaram. Ela xingou-me horrores por tê-las abandonado e exagerou de propósito sobre o fato de que eu poderia ter morrido ao sair sozinho com um estranho – se é que poderíamos chamar Henrique disso. Conhecíamos ele apesar de não sermos próximos. Ela fizera-me prometer que jamais faria algo assim de novo. Afirmei que aquilo não se repetiria. Eu odiava vigorosamente fazer promessas.

Àquela noite, eu já estava deitado em minha cama quando Henrique começou a me seguir no Instagram. Ele perguntou se não me causara muito problemas. Menti para que ele não se sentisse responsável pelo ocorrido – ainda que também fosse, éramos cúmplices. Seguimos conversando noite adentro. Em uma semana, passamos a nos falar pelo WhatsApp. A frequência entre nossos diálogos iam crescendo conforme os dias se passavam. Marcávamos de sair um com o outro e nos encontrávamos pelo campus depois que as férias acabaram. Os meses se passaram. Henrique estava aproveitando a vida de solteiro em muito tempo, e eu tinha feito um novo amigo. Eu não sabia ao certo o que tudo aquilo significava – ou mesmo o que eu sentia por Henrique.

Camila organizara outra grande festa em sua casa para comemorar o encerramento do segundo semestre, e como sempre, Laura e eu não perderíamos por nada: 1) porque meus pais já haviam me liberado do castigo no início de agosto; e 2) porque eu completaria 19 anos no domingo daquele final de semana. Sempre me questionei se Laura não pedira a Camila fizesse a festa naquele sábado por causa de mim.

Quando chegamos, a música já estava alta pela propriedade. Muitas pessoas estavam se divertindo na piscina, se refrescando do intenso calor que fazia. Eu vestia um calção de banho salmão e uma regata branca com a frase “Don’t Kill My Vibe!”, e Laura, um maiô preto. Ela usava também com um chapéu branco e óculos escuros. Nem ousei questionar o porquê daquilo tudo. Henrique disse-me que viria. Eu questionava-me se ele sabia que Júlia também viria à festa.

Laura e Camila ficaram dançando com os outros na sala enquanto eu fora até a cozinha pegar uma cerveja. Foi cômico esbarrar novamente com Marcos e Denise pegando-se no cômodo. Eles saíram apressados quando me viram. Ri com a ideia de que eles ainda não tinham encontrado um quarto sequer naquela imensa casa. Peguei minha cerveja e olhei meu celular para ver se Henrique não tinha me enviado mensagens. Nenhuma notificação dele. Eu ainda não o tinha visto àquela noite. Júlia estava lá Talvez ele soubesse, mas não estivesse pronto para reencontrá-la. Eu estava errado.

Voltei para a sala, e Laura e Camila não estavam mais lá. Fiquei um tempo sentado num dos sofás, ouvindo Diego já bêbado chorando sobre os três foras que levara das garotas do Jornalismo. Disse para ele não desistir, que ele era um cara legal. Levantei-me e fui para rua procurar qualquer um dos meus amigos. Passei pela mesa onde alguns colegas jogavam beer pong e furtei um dos copos com cerveja gelada do jogo, e o pessoal protestou. Eu ri muito com aquilo. Escorei-me num pilar próximo e assisti a todos se divertindo. Nenhum sinal de Laura nem Camila. Mas eu havia encontrado Henrique: ele estava ao lado da piscina, conversando com Júlia. Ela envolvia-o com seus braços ao redor do pescoço dele, elevando-se um pouco para cima com seus pés. Seu corpo estava colado com o de Henrique, e ele tocava as costas nuas de Júlia. Virei todo o líquido de uma só vez e pensei em atirar o copo furtado no chão. Ninguém parecia se importar muito com a sujeira, e àquela altura, eu já não estava tomando as melhores decisões. Acabei por jogá-lo no grande cesto de lixo perto de mim.


– É melhor acomodarmos vocês antes, mãe – disse eu. – Podemos fazer isso mais tarde.

– Não há necessidade, querido.

– Mas, mãe...

– Não, Vênus! Eu quero agora!

Meu pai concordou com minha mãe. Henrique abraçou-me por trás.

– Esse é o espírito, Annie! – Ele aproximou o rosto do meu ouvido. – Eu te prometi que teríamos um natal inesquecível, Vênus – disse ele, baixinho. – Deixa que eu cuido de tudo enquanto você passa um tempo com a sua mãe.

Eu estava vencido. Eram três contra um. Relutante, cedi aos caprichos de minha mãe.

Meu pai e Henrique largaram-nos próximos a uma pequena área comercial com diversos tipos de estabelecimentos, que ficava a duas quadras de casa, e seguiram caminho. Por sorte, minha mãe ouvira-me sobre como se vestir para o clima frio do inverno no hemisfério norte. Ela usava botas e roupas de lã, além de um gorro de tricô. Vê-la assim era engraçado. Eu tinha certeza que ela estaria andando nua com meu pai em alguma comunidade naturista caso estivessem no Brasil.

Minha mãe e eu estramos em algumas lojas para olhar as mercadorias, pois ela queria comprar lembrancinhas para todos os familiares e amigos do Brasil e também presentes para Henrique e eu. Disse-lhe que não era necessário naquele momento, que teríamos mais tempo nos dias que sucederiam o Natal. Mas ela afirmou que queria agora. Eu já havia esquecido o quanto ela era teimosa. Em um antiquário, minha mãe encantou-se com uma rena de uns 30 centímetros de altura que tinha uma pequena lâmpada vermelha no lugar do nariz.

Minha mãe quase caiu no chão ao afundar o pé num buraco tapado pela neve ao sair da loja. Eu não me contive. Paramos numa cafeteria, a qual eu frequentava com Henrique, para compramos bebidas quentes. Ela e eu pedimos dois grandes copos de chocolate-quente com marshmallows e biscoitos de gengibre. Em pouco tempo, a atendente trouxe-nos nosso lanche.

– Tu e o Henrique parecem estar muito bem – disse minha mãe.

Estávamos sentado em um banco de madeira no lado de fora da cafeteria, sob um toldo que nos protegia da neve. Diferentemente da Waffle House, aquele pequeno centro local estava bem enfeitado para o Natal. Luzes piscavam por todos os lados, e músicas natalinas ecoavam por toda parte. À nossa frente, um trenó puxado por estátuas de renas enfeitava a paisagem. Um papai Noel rechonchudo de metal estava sentado nele, acompanhado de alguns elfos abastecendo seu grande saco com presentes. Henrique com certeza zoaria daquilo: o bom velhinho escravizando pessoas para que elas trabalhassem incansavelmente para ele. E a troco de quê? Para sustentar sua sociedade capitalista e patriarcal que lhe concedia seus privilégios de homem branco.

– Henrique tem amado o trabalho. – disse eu, e soprei minha bebida antes de tomá-la um pouco. – Mas eu já cansei dessa minha vida de gay bela, recatada e do lar. Eu preciso de um emprego!

Minha mãe riu.

– Nada ainda, querido?

– Tenho feito alguns jobs pequenos e procurado algumas agências. Mas nada ainda. – Mordi um dos biscoitos de gengibre. – E como tu e o papai estão?

– Pelo amor de Gaia, Vênus! Papai? Você é um homem de 25 anos.

– Eu não acredito que tu acabou de dizer isso, mamãe.

Eu a fitei, incrédulo. Ambos acabamos numa deliciosa gargalhada. Era bom tê-la por perto.

– Seu pai e eu estamos bem. Só sentimos muito a sua falta, querido. – Ela contemplava o trenó natalino coberto de neve. – Mas eu tenho uma ótima notícia! Roberto e eu adotamos duas gatas. – Ela pegou o celular e me mostrou as duas filhotes. – Essa é a Ártemis e aquela é Atena.

– Elas são lindas, mãe.

– Oh! Tive uma ideia! – Em um sobressalto, ela saiu correndo para junto do papai Noel rechonchudo. – Vênus, tira uma foto minha!

Todos os presentes na cafeteria olharam-me assustados. Levantei-me o mais rápido possível e tirei a foto de minha mãe. Ela deu um saldo de cima do trenó e caiu com as mãos no chão. Quando me virei para retornar para a área coberta, senti o impacto da neve nas minhas costas.

– Uhul! – exclamou minha mãe. – Acertei na mosca!

Ela pulava desengonçada de um lado para o outro, rodopiando sobre a neve, com os braços elevados em comemoração. Abaixei-me e revidei com outra bola de neve, que acertou minha mãe na cabeça. Ela ficaria irritada com aquilo? Torci para que não a tivesse machucado. Não demorou muito para que crianças fugissem do cuidado dos seus pais para juntarem-se a nós. Adultos também começaram a chegar. Minha mãe e eu iniciáramos uma guerra de bolas de neve generalizada em meio àquele centro comercial. Ela e eu caímos um ao lado do outro no chão após darmos nossas mãos. Ficamos parados encarando o céu já escuro, com enormes sorrisos em nossos rostos. Ela começou a movimentar os braços e as pernas, criando seu anjo de neve. Eu fiz o mesmo. Alguns olhares que julgavam ainda estavam sobre nós. Mas nós não nos importávamos. Minha mãe e eu só queríamos aproveitar aquele momento na companhia um do outro. Poderiam nos chamar de loucos e errados não estariam.


Eu voltara para o sofá onde estivera conversando com Diego. No final, ele conseguiu ficar com uma das garotas do Jornal. Era bom saber que alguns estavam aproveitando bem a festa. Enquanto isso, nenhum sinal de Laura e Camila. Decidi comer alguns doces para aproveitar o tempo. Caminhei até a mesa abastecida com copos, doces e salgados, que estava num dos cantos da sala, e me servi. Quis um local sossegado para comer. Agora, era eu quem estava bêbado e sozinho. Saí pela porta que levava à piscina e dei meia volta na casa de Camila. Cheguei no jardim e me perguntei por que não tinha simplesmente utilizado a porta de entrada – eu realmente não estava tomando as melhores decisões. Sentei-me num banco branco ornamentado com círculos no centro de um roseiral. Tinha um chafariz com a estátua de cupido jorrando água. “Meu filho, tu tá muito cafona”, pensei.

Finalmente em paz, longe da barulheira da festa, aconcheguei-me no assento para olhar as estrelas. Poderia mergulhar nos meus pensamentos e aproveitar aqueles deliciosos doces enquanto bebia o drink secreto feito pela Camila. Era o que eu achava.

– Eu posso me sentar contigo?

Henrique parou diante de mim. Ele usava uma bermuda azul clara até os joelhos e uma camisa floreada escura aberta. O escapulário de ouro permanecia no centro do seu peito à mostra.

– Claro.

Eu permaneci em silêncio. Ele fitara-me por poucos segundos e depois desviara o olhar para outras direções. Eu poderia dizer que aquilo era como um dejá vu, mas já tinha acontecido antes. Mais uma vez estávamos calados entre o barulho dos insetos à noite. A diferença era o som da água saindo da fonte.

– Tá fazendo o quê? – ele perguntou.

– Comendo, bebendo, procurando constelações pelo céu.

– Já se encontrou lá em cima?

Dei-lhe um pequeno sorriso.

– Eu estava te procurando – disse ele.

– Eu te vi mais cedo com a Júlia – falei.

– Bom, eu estava te procurando até que esbarrei com a Júlia.

– Achei que tu não viria já que ela estaria aqui. – Bebi um gole do meu drink. Henrique riu e pegou um dos meus doces sem a minha permissão.

– Mas eu vim porque tu estaria aqui. – Olhamos um para o outro, e ele piscou para mim. Depois, riu novamente. – Ela me pediu mais uma chance, disse que queria voltar.

– E o que tu disse pra ela?

– Que o que tivemos foi lindo – disse ele. – Mas que eu já tô em outra.

Henrique arrastou-se para mais perto de mim no banco. Meu coração começou a bater mais rápido, e minha respiração aumentou. Uma energia percorria meu corpo. Henrique me excitava. Ele olhou para o céu.

– Tu já sabia se gostava de caras antes de ficar com um?

Henrique pôs a mão sobre o banco, próxima à minha.

– Tive mais certeza depois que fiquei pela primeira vez com um.

Com meu dedo mindinho, encostei na mão de Henrique. Ele olhou para elas com o toque e pôs a dele sobre a minha. Eu não conseguia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Henrique e eu nos viramos de frente um para o outro. Rapidamente, aproximamos nossos rostos. Eu esperei para ver se ele hesitaria. Mas, não. Henrique continuou. Acelerávamos nosso primeiro beijo aos poucos. Eu atirei os doces e o drink para o chão e subi para o colo de Henrique. Massageei seu pescoço enquanto ele puxava-me para mais perto dele, com suas mãos entrando por dentro da minha regata.

– Certeza que já não gostava de caras antes de ficar com um? – perguntei quando paramos momentaneamente.

Aqueles lindos olhos castanhos esverdeados me enlouqueciam. Ele parecia contente enquanto fazia carinho em minhas costas. Eu massageava sua bochecha direita com meu polegar.

– Tu me encantou desde o primeiro momento em que te vi, Vênus – disse ele, e ajeitou minha franja.

– E eu já disse que é minha influência da deusa sobre ti. – Ele riu.

Permanecemos nos beijando por cerca de meia hora – mas não poderia afirmar isso – antes de retornar para junto dos outros. A única certeza era que Henrique e eu estávamos em perfeita sintonia. O perfume das rosas intensificava-se ao nosso redor no calor daquela noite de dezembro.


Henrique e meu pai buscaram-nos de carro perto das 8:30 da noite. Eles nos questionaram o porquê de estarmos cobertos de neve. Minha mãe e eu não conseguíamos conter as risadas bobas que surgiam de vez em quando. Eles permaneceram sem entender nada durante o curto caminho até o prédio onde morávamos.

A neve já havia derretido em nossas roupas com o ambiente aquecido do edifício. Meus pais abraçavam um ao outro, e Henrique a mim. Ele esfregava suas mãos em meus braços para que eu não sentisse frio. Ainda que não funcionasse – eu não parava de bater o queixo –, era fofo da parte dele.

Chegamos ao nosso andar. Henrique entregou-me as chaves, e eu abri a porta.

– Surpresa!

Quase morri de susto quando acendi nossos interruptores. As lágrimas escorreram pelo meu rosto instantaneamente. Eu não consegui acreditar que elas estavam ali. Laura correu até mim e pulou no meu colo. Ela enchera-me de beijos na bochecha. Camila veio logo depois, não tão elétrica quando minha melhor amiga. Laura pegara-me pela mão e puxara-me para dentro do apartamento. Meus pais vinham logo atrás de mim. Mais presentes haviam sido adicionados abaixo de nossa árvore.

Minha mãe e eu tomamos um banho quente e vestimos roupas secas. Todos aguardavam-nos à mesa, exceto Henrique. “Então este é meu milagre de Natal?”, pensei. Eu permanecia perplexo.

– Fiz cenoura enrolada no bacon! – exclamou Laura.

– Vocês sabem que eu amo cenoura enrolada no bacon! – Peguei uma porção com a mão para provar. – Por Gaia! Estão deliciosas.

– Espero que tu goste do trabalho que fizemos – disse Camila.

A mesa estava linda com uma toalha vermelha. Grandes velas brancas com laços dourados espalhavam-se sobre ela. Frutas, legumes e verduras estavam organizados em lindas louças brancas de vidro, circulares e quadradas. Perguntei-me como conseguiram preparar toda aquela variedade de comida para nossa ceia de Natal em tão pouco tempo. Faltava apenas uma coisa. Henrique entrou na sala de jantar carregando o peru assado numa grande travessa de madeira, a qual ele pôs no centro da mesa.

Celebramos aquela ocasião entre conversas, risos e recordação de memórias.

A meia-noite se aproximava. Eu estava parado em pé ao lado da janela da sala de estar, segurando uma taça do drink secreto de Camila – ela jamais me passara a receita. Permanecia nevando lá fora. Minha mãe falava comigo sobre nossa ida ao Brasil para o Réveillon. Henrique conversava com Laura e Camila em frente à lareira. Ele piscou para mim. Meu pai chamara minha mãe para a cozinha. Então, Henrique levantou-se e caminhou até mim.

– Tu me enganou direitinho – disse eu ao abraçá-lo.

– Não foi assim tão difícil. – Revirei os olhos. – Espero que tenha gostado da surpresa.

– O melhor presente que eu poderia desejar.

Antes que pudéssemos nos beijar, meus pais retornaram com taças de vidro e duas champanhes. Quando bateu meia-noite, meu pai estourou uma delas, e todos brindamos.

Henrique e eu envolvemo-nos um com o outro novamente.

– Onde estávamos mesmo? – perguntei, e ele sorriu.

– Feliz Natal, Vênus. – Ele segurou-me pela cintura. Pus meus braços ao redor do seu pescoço

– Feliz Natal, Henrique.

Nos beijamos calorosamente enquanto os sinos badalavam pela cidade naquela noite fria de dezembro.

21. Dezember 2019 15:52:36 9 Bericht Einbetten 7
Das Ende

Über den Autor

Kommentiere etwas

Post!
Ariel Ganassim Ariel Ganassim
Hey, uau. Eu não esperava nada disso. Estou muito surpreso. Quer dizer, você fez um elogio fabuloso e inestimável à felicidade, para ler sorrindo. Não consigo destacar nenhum acontecimento negativo que não tenha sido contornado na vida de Vênus. Ele ganhou um verdadeiro príncipe encantado na pessoa do Henrique. Seu conto celebra um relacionamento gay de forma natural e cativante. A ambientação também foi muito favorável. As passagens no exterior, vivendo o Natal, proporcionaram um ar gracioso. Além disso, a vida universitária, pouco explorada por nosso imaginário, recebeu um tratamento bastante realista. Apesar de saber o fim dos dois, juntos, deu para torcer por eles a cada flashback. Fiquei chocado com o primeiro beijo, totalmente desmedido, cheio de entrega. Achei tudo de muito bom gosto e gostei do tom utilizado. Precisamos de mais história assim. Um abraço!
March 17, 2020, 03:02
Billy Who Billy Who
Olá Ruan, como foi participar do desafio? Esperamos que tenha gostado. É muito interessante esse traçado linear que se mostra o quanto os fins justificam os meios, literalmente, na sua história. O caminho seguido por um casal que está no começo da sua jornada e enfim, o presente. A história é muito viva e os personagens, apaixonantes. O nome do personagem principal e a razão por trás dele, trás uma riqueza muito significativa. É, sem dúvidas, uma história interessante e o modo abordado também, juntando com a forma que você escreve envolve o leitor e deixa uma sensação muito gostosa de ler, torna ainda melhor. Os personagens têm um desenvolvimento significativo, embora não acredito realmente que eles sejam retratados exatamente como “minorias” apenas por serem um casal gay, já que são dois jovens universitários de classe média, como citado pelo personagem principal sobre ele mesmo, que teve bom estudos, pais amorosos e compreensivos, amigos da mesma forma e no fim uma normatização de suas relações pessoais – como deveria ser na verdade – focando exclusivamente no desenrolar de seu romance. É interessante, porém, retratar essas pessoas justamente com essa “normatização” e incluí-las em uma história de amor bonita, bem desenvolvida e rica como você fez, é um ponto de vista muito válido, onde o mundo é bonito e com “final” feliz. Parabéns pela história, você escreve muito bem. Abraços da equipe.
January 31, 2020, 22:16
MiRz Rz MiRz Rz
Olá, eu sou a MiRz do Sistema de Verificação do Inkspired e venho te parabenizar pela Verificação da sua história. O que mais me chamou a atenção na história inicialmente foi o título. Achei que fosse algo relacionado à astrologia, mas daí cheguei na parte do nome do personagem e eu amei! Achei diferente, legal e criativo. Conforme eu fui lendo, fui me apaixonando tanto pela história! Normalmente não ligo muito para os temas natalinos, mas eu tiro o chapéu para essa. Eu amei o Vênus, amei a mãe dele e eu amei que ele tenha uma relação saudável com os pais, algo tão difícil de se ver. Parabéns mesmo pela obra!
January 27, 2020, 00:16
Lorem K Morais Lorem K Morais
Depois de sofrer lendo o conto anterior, encontrei a cura da tristeza aqui. Sem falar que você escreve muito bem <3 Parabéns pelo trabalho e desejo toda a sorte no concurso
January 15, 2020, 20:06

  • Ruan Gabriel Ruan Gabriel
    Cores da Despedida??? Também deixou meu corações em pedacinhos 😭 Porém! Fico muito feliz que você veio de um conto com uma pegada mais triste para este que possui leveza e muito amor 💕 Suas palavras me causaram imensa comoção, pois estou num dia tristonho hahaha Obrigado 😊 January 15, 2020, 23:19
Netuno Chase Netuno Chase
Aí cara, eu sempre admirei o fato de grandes escritores passarem para gente a sensação dos personagens, sempre gostei de ler por isso; o que eu não tenho na vida real, consigo nas histórias. E aqui foi exatamente isso, eu senti todo o amor, fraternidade, união e cumplicidade dos personagens, e cara, ESSA MÃE DO VÊNUS É EU SE EU TIVER UM FILHO! Amo mitologia (inclusive preciso estudar mais sobre) e meu nome Netuno tem a ver com Poseidon (meu favorito só por causa do Percy hehehe) ... Mas enfim, olha, você realmente tem potencial pra ser um grande escritor, e droga, me sinto iludida acreditando que o amor é possível hahahaha. Brincadeiras a parte, tu merece toda sorte de elogios por esse belo trabalho, boa sorte no desafio!
January 14, 2020, 23:10

  • Ruan Gabriel Ruan Gabriel
    Fico lisonjeado e um pouquinho bobo com o comentário 😂💘 Como diria Clarisse, sou um amador. Porém, meu objetivo implícito é fazer as pessoas acreditarem no amor. Obrigado pelo feedback e pela força com o desafio ♥️ Ps.: Annie é uma das (senão a) personagens mais fantásticas que já criei. Todos a adoram. January 14, 2020, 23:25
Verônica Ashcar Verônica Ashcar
Olá, tudo bem?  Mano eu tenho tanta coisa para falar dessa história, que nem sei por onde começar, mas vamos lá de todo jeito. Bom eu senti aquela sensação gostosa de natal, desde o começo, e me deu maior vontade de dar uma de Elza e ir brincar na neve.  Gente a mãe do Vênus é a minha meta como mulher um dia, só que com 50 gatos e nenhum filho, mas se eu tivesse um filho o chamaria de Eris, por causa da deusa da discórdia. Hahaha. Quase lá!! Eu amei essa família, o pai um fofo, usando camisa do Grêmio, hahaha bem, morta.  Gente o Henrique e o Vênus me trouxe essa sensação gostosa de que amor pode existir, obrigada.  Adorei a forma como você conduz a história, sem pressas, com tantos detalhes e fora a ortografia que é uma delícia. Muito obrigada por escrever essa delícia e trazer esse quentinho misturando amor e essa sensação de natal em janeiro. Boa sorte no desafio! 
January 10, 2020, 12:03

  • Ruan Gabriel Ruan Gabriel
    Ahhhhhh Fantástico receber um retorno desses ✨ Foi um dos contos mais calorosos que já escrevi. A dinâmica entre a família, o casal que se ama, a mãe e o pai alternativos, tudo. Fico feliz que tenha gostado! Muito obrigado ♥️ January 13, 2020, 17:33
~

Verwandte Stories