navled Delvan Sales

PESSOAS SÃO ESTRANHAS é uma série de minicontos focados em diálogos aleatórios em situações mundanas. Embarque nessas viagens comigo e todos esses personagens!


Lebensgeschichten Alles öffentlich.
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Mudanças

Rubens olhava para uma poça d´água em frente ao bar em que acabara de gentilmente ser convidado a sair. Reparou que o reflexo do letreiro do bar na poça lembrava uma cena de um filme cyberpunk que assistiu dias atrás. Ainda podia ouvir de fundo a música que tocava no bar. Uma baladinha oitentista com uma pegada meio melancólica.


🎶"Nós podemos ser melhores...

do que fomos tempos atrás

mas essa vontade do novo

não apaga o que não ficou

atrás com o tempo..."🎶


- Foda-se o tempo! - Exclamou Rubens e logo após arremessou contra um automóvel aleatório estacionado na frente do bar uma tampa de garrava que encontrou em seu bolso. Queria ter arremessado seu celular, mas não estava suficientemente alcoolizado para isso. Então sentou na calçada e ficou fitando a poça d´água, pensando que ainda era sexta e que talvez pudesse fazer algo útil durante o final de semana.


- O que está fazendo aqui fora? - Perguntou um homem que acabara de chegar . - normalmente bebemos dentro do bar, e não na calçada, olhando pro nada com cada de melancólico.


Rubens olhou para o homem, mas não o reconheceu. - Desculpa, você me conhece? - disse, analisando o intruso. Tinha aparência de militar, por volta de 30 anos, usava calça jeans, uma jaqueta verde e um boné preto e vermelho com a aba entortada.


- Conhecer é relativo. - Respondeu o homem, e então entrou no bar.


Rubens apenas ficou observando-o entrar. Pegou seu celular, abriu o Tinder e ficou passando umas fotos sem ler descrições ou ver mais do que duas fotos de qualquer pessoa. Após alguns segundos percebeu que estava no modo automático e sequer conseguia lembrar do rosto ou nome de qualquer das pessoas que acabara de visualizar. Suspirou, fechou o Tinder e abriu o Twitter, rolou a timeline por alguns segundos até perceber que não havia nada ali que quisesse realmente ver. Resolveu guardar o celular.


Um gato cinza passou correndo em sua frente, pisou na poça d´água, que se agitou com leves ondas. Parou logo após a poça e encarou-lhe por alguns segundos, então repentinamente continuou a correr. Rubens percebeu uma movimentação atrás de si e virou-se, quando se deparou novamente com o homem de antes. - Me chamo Carlos. - Disse o homem, enquanto sentava-se ao lado de Rubens e lhe entregava uma das duas cervejas que carregava nas mãos.


Surpreso com a volta de Carlos, Rubens perguntou - Por que voltou aqui? Também foi convidado a se retirar?


Carlos fez silêncio por alguns instantes, raciocinando que Rubens falara isso porque ele próprio havia sido convidado a se retirar do bar. Então disse - Não, só achei meio quente lá dentro. Lembrei de você aqui fora e resolvi trazer essas cervejas pra nós bebermos.


- Como sabia que eu ainda estaria aqui? Indagou Rubens.


- Eu não sabia. - Redarguiu Carlos.


Rubens abriu a cerveja que recebeu e procurou encontrar o gato, mas ele já havia ido embora. Pôs a mão em um de seus bolsos e puxou um pacotinho de amendoim, abriu e ofereceu a Carlos.


- Amendoim? Perguntou Carlos, meio incrédulo.


- Pega aí, é bom com cerveja. - Respondeu Rubens, estendendo o pacote para Carlos, que pegou um e provou com o gole de cerveja.


- Você está certo. É bom mesmo. - Disse Carlos, enquanto pegava mais dois.


- Sim. Um ex amigo me "viciou" nisso. - Comentou Rubens.


- Ex?


- Sim.


- Por que?


-As pessoas são estranhas.


- É, não dá pra entender.


- É...


Ambos passaram cerca de um minuto em silêncio, apenas comendo amendoins e bebendo cerveja, enquanto olhavam para a poça d´água iluminada pelo letreiro do bar.


- Eu tenho um ex amigo também. - Comentou Carlos.


- Ex?


- Sim.


- Por que?


- Eu sou uma dessas pessoas estranhas.


-Todos somos...


É...


Carlos pegou no bolso de sua jaqueta verde uma carteira de cigarro, acendeu um e ofereceu, com um gesto, para Rubens, que negou. - Eu tô parando de fumar, cara. Valeu.


- Faz bem. Um dia eu paro também.


- Por que não para hoje?


- Talvez eu pare. Depende.


- Depende do que?


- Se eu morrer hoje eu paro de fumar hoje.


- Ah, entendi. Você é das piadas...


- Só quando falo sobre algum assunto sério no qual sei que estou errado, mas não quero falar sobre. É uma boa maneira de mudar o foco.


- É?


- É.


- Vou testar qualquer dia desses.


- Por que estava sentado aqui na frende desse bar quando cheguei? Indagou Carlos, enquanto soltava a fumaça de seu cigarro pra cima e olhava para ela dissipando-se e desaparecendo.


- Bom, eu fui convidado a me retirar...


- Eu sei disso. Não quis saber como veio parar aqui, mas por que estava aqui.


- Como assim?


- Considerando que este não é o único bar da cidade...


- Ah! Bom... Na verdade eu não sei. Tanto faz eu estar aqui ou em outro lugar.


- Entendi. Como você acabou ficando assim?


- Assim como?


- Afásico.


- Só sei que nada sei, né...


- É. Me perco quando tento saber algo também.


- Talvez a vida seja sobre perder. Então tudo bem.


- Por quê?


- Tava pensando sobre as coisas que perdi. Eu me mudei muito nos últimos anos. Acho que faz uns quatro anos que me mudo pelo menos uma vez por ano, todos os lugares acabam virando só uma versão diferente de um conceito.


- Que seria...


- Morar, viver, sobreviver, existir, sei lá. Dentro de um mínimo de condições aceitáveis, tanto faz a casa.


- Saquei. Mas isso não explica por que talvez a vida seja sobre perder.


- Ah. Uhm... Nessas mudanças eu acabei perdendo tanta coisa... Como se em troca da vivência cada uma das casas ficasse com algo meu, que eu não percebi que deixei lá durante a mudança, e eu nem estou falando de coisas materiais.


- Eu meio que entendo isso, mas só me mudei duas vezes. Uma na infância e outro há uns cinco anos.


- Quando você pensa em como a vida era nessas outras casas, meio que parece que era outra pessoa vivendo outra vida, né?


- Bom... Agora que você falou faz um pouco de sentido.


Repentinamente o gato cinza voltou correndo com algo na boca, estava meio escuro, mas pelo formato parecia ser uma sacola, talvez com restos de comida dentro. Parou e encarou Rubens e Carlos. Os dois encararam de volta o gato.

5. Dezember 2019 00:51:40 3 Bericht Einbetten Follow einer Story
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Fortsetzung folgt… Neues Kapitel Alle 30 Tage.

Über den Autor

Delvan Sales Um dia eu escrevi uma bio bem legal aqui, mas o site apagou do nada (True Story), então finja que esta é uma bio bem legal. E aproveite as histórias! :)

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Rodrigo Borges Rodrigo Borges
Gostei bastante do diálogo quando o amendoim foi aberto. Bela escrita! Ah, realmente, cerveja com amendoim é muito bom.
December 05, 2019, 21:29

  • Delvan Sales Delvan Sales
    Obrigado, cara. Realmente é muito bom! December 05, 2019, 21:46
~