Mundo a descobrir Follow einer Story

alicealamo Alice Alamo

Há belezas que câmera nenhuma do mundo pode registrar, há experiências que só mesmo poderemos reviver em nossa memória, que só poderemos senti-las de novo em nosso coração. E é isso que as torna tão únicas, não é?


Lebensgeschichten Alles öffentlich.

#travel #theauthorscup
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Capítulo Único


O primeiro despertar ali foi diferente, e não só pela cama que o corpo ainda estranhava um pouco, mas pelo ar quente que o aquecedor central da casa nos providenciava. Tudo era diferente ali, e, sim, sei que já devia esperar por isso, afinal, não é todo dia que saímos de casa para descobrir o mundo sozinha.

A chance de intercâmbio me veio na hora certa, na única hora que me seria possível. Eram minhas últimas férias antes do vestibular, e eu sabia que não teria mais tempo depois que a faculdade começasse. Por isso, quando a chance de estudar por um mês no Canadá surgiu, eu a abracei com tanta força que o gosto daquela vitória ainda persistia em minha boca.

Meu primeiro intercâmbio. Meu primeiro voo de avião. Minha primeira viagem sem meus pais ao meu lado para resolver qualquer problema que surgisse, para ter alguém tomando conta de mim. Era excitante, mas, ao mesmo tempo, despertava um frio na barriga que o pouso do avião não conseguiu sanar.

Eu seria recebida na casa de uma família, ficaria meu mês todo com eles, e era apenas isso que me trazia certo alívio. Como o voo chegou apenas de madrugada, não pude ver muito da cidade onde ficaria, Toronto, nem mesmo falei muito com Anya, a dona da casa que me ofereceu uma caneca de chocolate quente antes de me apresentar ao meu quarto.

Ela havia me falado sobre o aquecedor, sobre as cobertas, e muitas outras coisas em inglês que o sono não me deixava compreender. E talvez fosse essa razão de eu acordar estranhando o quarto quente, como se não estivéssemos no auge do inverno no hemisfério norte.

Afastei as cobertas pesadas e conferi o relógio. Ainda era cedo, mas isso era bom, me daria tempo de me encontrar na casa e especialmente na cozinha antes de ter que descobrir como chegaria à minha escola. Minha mala ainda estava ao canto do quarto, meus olhos pesavam enquanto eu bocejava e tentava abrir o zíper emperrado.

A casa toda estava apagada e silenciosa e, por um momento, tive medo de que meu relógio estivesse com o fuso horário de São Paulo e ainda fosse duas ou três da manhã aqui.

— Já acordada?

A pergunta me fez olhar assustada para o fim do corredor. O sono ainda demorou a me deixar compreender o que havia sido dito em inglês, então apenas concordei com a cabeça sem saber o que responder na hora.

Esse era outro detalhe… a língua. Como era estranho estar num ambiente onde ninguém entende sua língua materna. É diferente, sabe? Quando queremos falar um outro idioma e estamos com amigos ou em casa, nós sabemos que, se não soubermos de algo, vamos falar na nossa língua e esse problema estará resolvido. Ali não. Não havia outra saída a não ser buscar no fundo da alma, ou nos dicionários que nunca abri, as palavras certas para que pudesse conversar com alguém.

Anya me sinalizou o banheiro da casa ao ver que eu ainda estava dormindo em pé. Ela parecia uma senhora gentil, com seus sessenta anos, cabelos grisalhos e encaracolados. Usava pantufas rosa, que arrastava um pouco ao andar até a cozinha e me prometer algo como “cookies”, “coffee”, e juro por Deus que não fazia ideia do que poderiam ser todas as outras comidas que ela listou tão energeticamente.

Lavei o rosto quatro ou cinco vezes até me sentir mais desperta. Pela janela do banheiro, eu podia ver um pouquinho da rua e, uau, nós nunca temos de fato a dimensão de como países e culturas podem ser diferentes até vermos com nossos próprios olhos. As casas eram muito parecidas, uma do ladinho da outra, sem portões ou cercas, apenas uma escadinha que levava direto à porta. O céu ainda estava nublado, escuro, e não dava para ver muita coisa, mas eu tinha certeza de que eu acabaria imitando meu pai enquanto andasse por aquelas ruas: celular na mão, fotos, fotos e muitas fotos.

Bem, me perdoem, viajante de primeira vez aqui, impossível conter a vontade de registrar cada segundo e não se impressionar com cada pequeno detalhe. Qual é! Até mesmo com o aquecedor eu estava admirada! Quem dirá quando saísse da casa e começasse a ver como a vida ali era.

Não demorei para descer para o café da manhã, minha mãe havia já mandado uma sutil mensagem na noite anterior pedindo (quase implorando) para que eu ao menos causasse uma boa impressão para Anya.

Ela sorriu para mim, já terminava de colocar as xícaras sobre a mesa que tinha tanta comida que até olhei para as escadas me perguntando quantas outras pessoas ainda desceriam. No fim, descobri que éramos só nós duas mesmo, e que ela não sabia o que eu comia e preferiu fazer de tudo um pouco. E ela levou isso ao pé da letra porque havia mesmo tudo.

Enquanto eu comia aquelas deliciosas torradas, ela me explicou um pouco sobre o metrô que eu deveria pegar para ir para a escola. Me avisou ainda que aquele dia faria frio e que era provável que começasse a nevar. Com a boca cheia e os olhos presos em cada pequena guloseima que minha mãe me mataria se soubesse que eu estava comendo no café da manhã, talvez eu tenha perdido uma ou outra explicação importante, daquelas que a gente não deve perder quando se está num país estrangeiro, sabe? O que justificava a minha cara de perdida diante do mapa do metrô.

Não podia ser difícil, eu também vinha de uma cidade grande, o máximo que podia acontecer era eu ir parar num lugar aleatório e ter que voltar, não é? Bastava usar o GPS para voltar, procurar no Google ou algo assim. Bem, não. Porque uma coisa muito importante que eu também não tinha prestado atenção era que para ter sinal no celular quando você viaja para o exterior, você precisa de um chip novo que funcione ali. E o meu não era um desses.

Levei três vezes o tempo necessário para chegar até a escola, conheci umas três linhas do metrô de Toronto e cheguei a rir quando percebi que com certeza havia passado em uma estação mais de uma vez (ou os nomes eram muito parecidos, não sei dizer). Com a sorte de ter achado uma alma caridosa no caminho, encontrei a estação certa a tempo.

Já estava claro quando saí do metrô e, mesmo atrasada, fiquei parada um tempo sorrindo sem motivo. Era minha primeira vista de Toronto. Me deixei estar num cantinho, quieta, observando as pessoas saírem apressadas do metrô, caminhando pela rua. O ar era gelado, mais do que eu estava acostumada. O sol estava no céu, mas era estranha a sensação de que ele era mais decorativo do que qualquer outra coisa. Estava frio, muito frio. E até isso me fazia rir.

Nunca havia sentido aquele frio, um vento gelado que atravessava minhas roupas como se elas fossem de papel, as mesmas roupas que me faziam passar calor no inverno de São Paulo! Cheguei a olhar duas vezes para minhas mãos para ter certeza de que estava de luvas porque era como se as tivesse mergulhado em um balde de gelo. O cachecol que eu não usava fazia falta, e continuar parada no mesmo lugar se tornou doloroso por mais que eu quisesse continuar a observar como os prédios eram diferentes, mais baixos, como as ruas eram mais largas, como as lojas de uma mesma calçada eram tão diferentes. Andei depressa, descobrindo que tênis de tecido, os únicos que lotavam minha mala, de nada me serviriam ali também.

Me apresentar na escola pode-se dizer que foi a parte mais fácil. Acho que Deus tinha se compadecido de mim e me colocado em uma sala onde a professora era canadense, mas filha de portugueses. Foi delicioso ouvir algo na minha própria língua quando já estava preparada a passar o mês todo longe dela.

O ritmo seria fácil de acompanhar. As aulas eram pela manhã, o que me dava uma tarde inteira para conhecer a cidade. Ou esse era o tolo pensamento de quem vinha de um país que não sabe o que é mesmo inverno. No primeiro dia, eu tive a chance de descobrir que às três e meia da tarde tudo estava fechado. Os pontos turísticos que eu havia pesquisado antes possuíam não apenas um horário de fechamento, mas dois, um para o verão e outro pro inverno, o que na minha cabeça só fez sentido quando percebi que o céu escuro já se instalava às quatro e meia.

Sem sinal de telefone e sem acesso à internet, preferi voltar para casa e, dessa vez, prestar atenção às explicações de Anya sobre como não passar frio.

Sabe… ela era uma senhora muito doce. Pela casa dela, havia fotos da esposa que estava viajando, dos filhos e dos dois netos. Descobri que tínhamos uma gata, que Anya tinha deixado no meu colo enquanto fazia nossa janta. A televisão estava ligada, e ela ria de como eu assistia tudo sem entender quase nada.

— O controle está do seu lado, menina - ela avisou com um sorriso desafiador. — Pode tirar do jornal. Escolha um filme.

— Será que tem um facinho que eu entenda pelo menos algumas falas? — Ri.

Troquei os canais sem pressa. Até mesmo o tipo de programa que a televisão exibe varia de cada país. Havia muito daqueles shows de disputa, sabe? Competições entre cantores amadores por um prêmio final, dançarinos, essas coisas. E, por se tratar do Canadá, achei até mesmo alguns canais em francês. Acabei por deixar em um filme que eu já havia assistido em inglês mesmo (as legendas em português aqui entram como informação confidencial, ok?), e Anya colocou um prato gigante de sopa à minha frente.

Acho que em toda a minha estadia, nada foi tão reconfortante quanto aquela sopa quente enquanto Anya me explicava de novo onde ficavam as lojas caso eu precisasse de roupas mais quentes ou as melhores docerias já que ela com certeza havia visto como eu tinha gostado deles (desculpa, mãe, comida sempre me impede de causar uma boa impressão, mas me garantiu doces durante todos os trinta dias ali).

Acordei no dia seguinte um pouco mais familiarizada com o ambiente. Não tinha usado tantas cobertas como na primeira noite e parei em frente à minha mala como quem vai à guerra e precisa escolher suas armas.


Agente: eu.

Missão: não passar frio.

Primeira etapa: meia calça, calça legging escura, calça jeans, meia grossa. Tênis inútil que precisaria substituir.

Segunda etapa: blusa fina, blusa mais grossa, moletom, casaco.

Terceira etapa: luvas inúteis (nota mental de comprar novas), cachecol e nota mental para comprar um gorro ou um daqueles protetores quentinhos pro ouvido.

Quarta etapa: tentar andar sem cair com aquele tanto de roupa que tinha vestido.


Anya me esperava pro café da manhã. Ela não precisava mesmo acordar tão cedo, mas fazia questão de comer comigo, e eu gostava muito disso, não era acostumada a andar sozinha, muito menos a fazer minhas refeições sem conversar com alguém.

Levei já o dinheiro trocado para o metrô e para o novo chip que Anya tinha me dito que poderia comprar numa banca de jornal na esquina de nossa rua. Me despedi, segurei a maçaneta da porta e respirei fundo o ar quente e confortável da casa para manter meu peito quente antes de enfrentar os - 8 °C que a televisão anunciava.

- 8°C… Eu ria de nervoso segurando aquela porta enquanto Anya ria do meu medo.

Eu não fazia ideia do que era uma temperatura negativa e tinha quase congelado no dia anterior com 3°C. A temperatura mais baixa que tinha visto na minha cidade era o quê? Quinze? Temperaturas negativas para mim era coisa de filme, era uma realidade que eu nem sonhava que um dia ia conhecer! E, ao mesmo tempo em que estava ansiosa para abrir aquela porta e ver pela primeira vez a neve caindo, eu tinha certeza de que ia chorar a cada passo até o metrô porque… apesar de estar ali no Canadá em pleno inverno, eu não tinha escolhido viaja no inverno, ok? Até porque eu era a pessoa mais friorenta que conhecia! Dezoito graus e eu já to olhando em volta para achar meu casaco! Frio não é para mim definitivamente.

Mas lá estava eu…

— Compre um chocolate quente antes de entrar no metrô. — Anya riu e ajeitou meu cachecol. — E não pare para tirar fotos com essas luvas. Compre novas no caminho, ok? Tem umas que você não precisa nem tirar da mão para usar o telefone.

Eu assenti e agradeci antes de tomar coragem e abrir a porta.

Se existe tapa de seres invisíveis, eu levei vários e tive até que fechar os olhos e abaixar o rosto para me proteger. Céus, estava muito frio. Tão frio que minha vontade era de chorar e voltar pra dentro de casa porque, mesmo parecendo uma bolinha de tanta roupa, eu ainda sentia aquele vento gelado entrando pelas frestas do tecido e congelando tudo no caminho.

Mas, quando eu estava prestes a fechar a porta e desistir, eu senti no meu rosto algo além do gelado do vento. Abri os olhos e ergui a cabeça, a mão caindo da maçaneta, o cérebro optando por fingir que o frio não existia enquanto os pés eram atraídos para a rua.

Nevava.

Coisa de turista, eu sei, parar para ver neve como se fosse algo extraordinário e único. É, eu sei. Mas não ligava nem um pouco para quem me via embasbacada no meio da calçada, atrapalhando o caminho, admirada com os pequenos flocos que caíam lentamente do céu. E o céu… nossa, o céu… Se me perguntassem quantas cores o céu podia ter, eu responderia primeiro azul, me lembraria dos dias ensolarados na praia quando o céu está tão limpo que o azul se destaca e brilha aos olhos; responderia também laranja, vermelho, cores que me remetessem ao amanhecer ou ao entardecer, quando os raios do sol parecem tinta, espalhadas a esmo por algum artista e seu pincel. Se me lembrasse na hora, ainda falaria cinza, de quando as nuvens ficam carregadas e escuras antes de um temporal. Mas eu nunca responderia branco, pelo menos não aquele branco! Nenhum tempo nublado consegue chegar perto do branco de um céu quando neva. é lindo… é como se o céu fosse mesmo infinito, como se os flocos caíssem de um lugar tão distante que não se consegue nem mesmo imaginar.

Andei por aquelas ruas com o tênis escorregando, com a calçada parecendo o caminho desenhado por uma criança, sabe? Apenas um caminho bonitinho a seguir, com neve de alguns centímetros de cada lado.

Parei para comprar o chip do celular, as mãos para fora do bolso já porque era impossível não desejar registrar aquilo. Coisa de turista de novo, eu sei, neve no Canadá deveria ser como a chuva em São Paulo, algo tão comum e corriqueiro que eu via que ninguém parava para prestar atenção como eu fazia. As pessoas estavam agasalhadas, entravam logo em estabelecimentos e deixavam a rua apenas para os carros e os limpadores de neve que iam e vinham com certa frequência.

Comprei o chip e o ativei ali mesmo. As fotos se acumularam no celular, minhas mãos tremiam tanto que eu tive que fotografar a mesma coisas várias e várias vezes. E o que é a câmera de um celular, não é mesmo? Não dava para registrar o que eu via, não da forma como queria mostrar, não da forma como eu estava vendo. Foi a primeira vez que notei que havia no mundo certas belezas que nunca conseguiríamos registrar, que aquela experiência ficaria muito mais segura e verídica na minha memória, no meu coração, do que em qualquer vídeo ou foto no qual eu tentasse registrá-la.

Dizer que eu não sentia frio era mentira, sentia, mas, qual é, quem se importava com o frio naquele momento?! Eu estava vendo neve, e era tão lindo que os ponteiros do relógio não me apressavam, que os olhares das pessoas não me constrangiam, que eu nem mesmo pensei na minha roupa antes de molhá-la ao me jogar no chão e rir ao tentar fazer um daqueles anjos de neve.

Se me perguntassem alguma coisa, se Anya estivesse ali comigo e me quisesse saber o que eu estava sentindo, me faltaria vocabulário, me faltariam palavras para explicar em inglês tudo aquilo que parecia transbordar em mim. Se nem na minha língua eu achava uma forma de descrever aquela felicidade, quem diria em inglês com meu limitado conhecimento.

Fui para o metrô sorrindo, rindo, com a roupa molhada, as mãos congelando e as fotos tremidas, mas satisfeita. Meu coração batia tão rápido que era engraçado e assustador, era uma felicidade verdadeira e pura, que ficou comigo o dia todo. Mesmo quando meu celular molhou, mesmo quando paguei caro demais nas luvas novas e num casaco decente, mesmo quando descobri que sapatos molhados pela neve podiam quase congelar de verdade meus pés, mesmo com tudo isso, eu voltei para casa realizada.

— O que acha de pizza hoje? — Anya me perguntou, contente por eu estar tão animada naquela noite.

— Eu amo pizza — respondi, sentada perto da janela, vendo a neve cair à noite, com as luzes dos faróis do carro fazendo os pequenos flocos brilharem. Apaixonada como nunca tinha estado por nada nem ninguém... — Eu amo a neve, Anya.

Ela riu, do jeito que nossas vós riem quando acham bobo a nossa reação imatura.

— E que ame mesmo, porque você ainda tem vinte e oito dias com ela aqui .

— Vinte e oito dias de neve e felicidade - respondi.

— Vinte e oito dias de frio, querida.

Dei de ombros e sorri.

— Frio a gente resolve com roupas quentinhas e sua sopa maravilhosa. Por isso aqui — Apontei para a janela. — eu nem ligo pro frio… são coisas assim que fazem a viagem valer a pena, sabe? Eu nem sabia que sonhava tanto em conhecer neve até começar a nevar e eu perder total noção do mundo ao meu redor, Anya.

— O mundo é grande, você ainda vai poder ver muita coisa e se admirar com todas elas.

— É, o mundo é mesmo muito grande…

Mas, pelo menos, eu ainda tinha mais 28 dias para conhecer mais um pouquinho dele.

25. Mai 2019 18:48:59 0 Bericht Einbetten 0
Das Ende

Über den Autor

Alice Alamo 23 anos, escritora de tudo aquilo em que puder me arriscar <3

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