O Muro da Reclusão Follow einer Story

luneler Lunéler Elias

Um enorme muro é construído para isolar as pessoas da crueldade do ser humano, ao menos daqueles que podem pagar para ter esse privilégio. Porém, um muro destas proporções não se ergue sozinho. Milhares de indigentes e miseráveis são explorados para tornar o sonho uma realidade, enquanto os tijolos do muro derramam o sangue da hipocrisia.


Science Fiction Gothic horror Nur für über 18-Jährige.

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O muro da reclusão

Em uma pequena cidade, no interior de um país qualquer, pessoas pareciam não existir. Era estranho entender como uma comunidade inteira havia chegado àquele estágio. A cidade fora planejada em 1930 por uma equipe de diversos profissionais. Engenheiros, sociólogos, políticos, militares, médicos, empresários, dentistas e religiosos eram alguns dos que compunham a comitiva.

Uma cidade planejada sempre é mais bem arquitetada do que as demais. De alguma forma, as pessoas pareciam absorver essa característica e se tornarem também metódicas, alinhadas, organizadas. Não por acaso...

Algumas empresas de segurança aproveitaram o ensejo da nova cidade para lucrar. Muitas câmeras de segurança, alarmes sonoros, infravermelho, sirenes, faróis, iluminação com tecnologia de ponta, todos os tipos de sensor de movimentos e sistemas de monitoramento pareciam ser suplantados por algo maior: um muro!

Sim! Um simples muro era mais que suficiente, perante o qual todos os outros dispositivos tornavam-se complementares. O muro era a essência, o muro era o que traria a verdadeira segurança. O chamaram de Grande Monumento, ou de Monumento de Deus, e ainda de Grande Cerco, além de diversos outros apelidos. Todos o reconheciam por sua robustez. Não estamos falando de um prédio luxuoso ou de uma grande obra faraônica esculpida em ouro, nem tampouco de um objeto sagrado e religioso... era simplesmente um muro!

Não havia necessariamente uma beleza – talvez para aqueles que nela buscassem certa paixão – era tão somente um muro, um grande muro. Milhares de toneladas de cimento, terra, pedra, aço e tantos outros materiais necessários à construção de um forte formavam o paredão. Sua estrutura de concreto armado, esqueletado com vigas de aço vulcanizado, revestida de muitos tijolos, pedras e ferro dimensionavam a grandiosidade do feito. Afinal, eram seis metros de espessura e mais de mil trezentos quilômetros de extensão, um tamanho um tanto quanto exagerado para a pequena cidade de Selét D’lite, que estava à beira de qualquer lugar... não importava.

A construção era deveras imponente, respeitável, mas isso não fazia dela menos morta e fria. Todo o esforço dispendido por centenas de trabalhadores, dispostos a dar o suor para erguer o muro de vinte metros de altura não faziam com que ele exprimisse cansaço, nem mesmo a angústia e o sofrimento, pois outro sentimento parecia escorrer dos tijolos.

Achei conveniente começar pelo muro, embora ele de fato não seja o protagonista desta história. O escolhi por um simples motivo: ele era o único que presenciava todos os moradores de Selét D’lite simultaneamente. Necessariamente devemos considera-lo como um personagem, já que está presente na maior parte deste segredo. O muro abrigava uma população relativamente pequena: trinta mil habitantes.

Sua construção veio de um idealista francês, que chegou sabe-se lá porque àquelas terras estrangeiras e resolveu por em prática o projeto de seus sonhos. Jean Joniet era um homem sábio e ambicioso o suficiente para não desistir enquanto a cidade não estivesse de pé. Mas o fundamento daquele sonho não era meramente material, sua plano abrangia algo muito mais relevante: a paz!

Seus pais haviam sido brutalmente assassinados por uma quadrilha de assaltantes em Paris. Quando isso aconteceu, Jean tinha apenas dezesseis anos. A herança que a empresária e o engenheiro deixaram foi mais que suficiente para que ele pudesse terminar seus estudos, se formar em arquitetura e buscar seu tão solitário desejo. A morte hedionda dos pais incitou-lhe a revolta, a raiva, o ódio... mas toda essa carga de sentimentos saiu pela culatra, pois, ao invés de buscar justiça com as próprias mãos e ser massacrado pelo estado francês, ele resolveu enriquecer com seu próprio sofrimento. Começou buscando um isolamento sobrecomum na área rural, onde se dedicou integralmente ao trabalho e pode esquecer, ao menos temporariamente, a dor que carregava no coração.

A ideia era, a primeira vista, um pouco estranha. Mas com o progresso e seu amadurecimento emocional, Jean percebeu que tinha criado uma genial ideia. Todas as lágrimas de tristeza que ele derramara pareciam se tornar ouro naquelas pedras. Ele construiu uma casa e um muro ao seu redor. Com o tempo, a casa cresceu e o muro também até que se fechasse completamente o perímetro. Ele tomou o cuidado de cercar tudo o que fosse essencial: terras, águas, vegetação, solo firme, sol e chuva. Tinha acesso a animais e recursos de todo tipo. E então sentiu um sentimento extremamente confortante: segurança. A subsistência parecia ter sido seu objetivo final na vida.

Imagine só, um lugar onde sua preocupação praticamente se extingue. Você não tem que trabalhar se não quiser... Não existem trens lotados, trânsito, fumaça, barulho e agitação. O tempo marcha em cadência lenta e esmiúça momentos que ninguém é capaz de perceber na correria do dia-a-dia. Uma cidade grande não pode trazer essa tranquilidade. De repente você não liga mais para relógios, não consome comidas industrializadas repleta de conservantes e toxinas, nem come a carne do frango que cresceu com hormônio industrial. Suas peças de luxo como sapatos, terno e gravata, cordões de ouro, anéis e óculos de sol se tornam irrelevantes. Você passa a viver como um homem primitivo e feliz. Ah, claro, o mais importante, você jamais será roubado, atacado, violentado, injustiçado ou magoado, pois está sozinho.

Um dia, no entanto, Jean percebeu que só aquilo não o supriria. Notou que inevitavelmente precisava de convívio social. Era categoricamente impossível viver em isolamento completo. Obviamente, ele não teve de ser um náufrago em uma ilha ou um turista perdido na floresta amazônica para perceber que precisava de companhia. Alguns anos na solidão e bastante estudo sobre o assunto da depressão renderam-lhe a descoberta física de que não podia viver sozinho.

Contudo, Jean não queria deparar-se com a violenta realidade do ser humano metropolitano. Talvez alguns camponeses fizessem boa companhia, mas não, estes são muitos matutos. E então refletiu sobre o sofrimento alheio. Ora, quantas pessoas já não passaram pelo que ele havia passado com seus pais, ou situações igualmente crespas. Quantos cidadãos pelo mundo não buscam um lugar onde possam viver em paz, sem perigos, sem ameaças a suas famílias. Não estamos falando dos moradores de rua que são agredidos todos os dias por marginais, também não se trata daquela família de classe média que foi assassinada em casa. Não menciono aqui os miseráveis, os famintos, os doentes e necessitados. Estamos falando da mais alta classe, que basicamente se traduz em dinheiro, muito dinheiro. Famílias milionárias desejosas de se salvar dos perigos do mundo moderno. Pessoas que enriqueceram o suficiente para não precisarem mais trabalhar. Indivíduos dispostos a dar todo o seu dinheiro para usufruir de algo que eles não podem simplesmente comprar: a tranquilidade.

Não havia oásis, hotéis fazenda, praias desertas, pequenos municípios ou grandes retiros que pudessem abranger conforto e segurança tão bem quanto Selét D’lite. Uma ideia inovadora e próspera: proteger o homem do próprio homem e de sua ambição. Foi assim que Jean convocou os mais poderosos indivíduos do mundo para empreender a novidade. Não era uma tarefa simples, por se tratar de um projeto exclusivo, selecionado, apenas para aqueles cuja honra do convite alcançasse.

Jean não tinha um montante pequeno, mas os valores não chegavam nem perto de cobrir todo o custo do projeto. Muito tempo foi dispendido apenas para convencer grandes empresários e corporações multimilionárias a integrar a equipe. As maiores e mais renomadas empreiteiras trouxeram suas máquinas, a um custo altíssimo, para aquele lugar longínquo.

Anos a fio de pesquisa e investimento tornaram a ideia concreta. A tal cidade dos sonhos estava sendo construída. Não se soube dizer quanto tempo ao certo a obra levou, mas os boatos que tramitaram por anos entre aquela população e os levou a crer que não haviam sido menos de dez anos de construção.

Entre os problemas organizacionais que Jean teve de enfrentar estava a completa escassez de mão de obra. Um bocado de milionários e senhores de idade aposentados não quereriam juntar o lixo nas ruas da cidade, nem dirigirem ônibus, nem serem garçons, garagistas, guardas de trânsito, taxistas, vendedores ou qualquer outra profissão equiparável a estas. Eis que uma nova ideia surgiu para embalar os ricos no balanço da avareza e do desprezo... uma solução conveniente para o mundo capitalista. Por que não dar oportunidade aos miseráveis. Não aos pobres e necessitados, aos legitimamente miseráveis, aqueles que buscam na própria urina a forma de hidratar-se e comem pedras para encher a barriga. Aqueles aos quais a sociedade moderna não conseguiu estender os tentáculos e muito provavelmente nem sequer sabe de suas existências.

Os locais mais inóspitos e confinados foram alvo de coleta. Algumas pessoas da África Central, um bocado de asiáticos famintos, alguns povos isolados da Antártida e talvez alguns poucos indigentes dos países subdesenvolvidos... ninguém que a sociedade desse falta ou fosse reclamar. Aliás, eles não precisavam saber.

5. Mai 2019 16:24:13 3 Bericht Einbetten 121
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Karimy Karimy
Olá! Faço parte do sistema de Verificação do Inkspired e venho dizer que sua história está verificada. Apesar disso, gostaria de deixar aqui alguns apontamentos que poderão ser úteis para uma possível correção da história; pontos que já encontrei em outras histórias suas e que merecem um pouco de atenção: "considera-lo" em vez de "considerá-lo"; "por em prática" em vez de "pôr em prática"; "sua plano" em vez de "seu plano"; "pode esquecer" em vez de "pôde esquecer"; "Por que não dar oportunidade aos miseráveis." em vez de "Por que não dar oportunidade aos miseráveis?". São coisas pequenas, mas que, dependendo do contexto, podem mudar o significado de uma frase (principalmente o temporal, quando se trata de acentos em verbos). Espero ter ajudado.
8. Juli 2019 12:17:26

  • Lunéler Elias Lunéler Elias
    Olá. Obrigado pela verificação e pelos precisos apontamentos. Sou novo no Inkspired, então não sei bem como funciona o sistema de avaliação. De qualquer forma, obrigado pelo apoio. O autoaperfeiçoamento é muito importante na escrita e seu comentário vai me ajudar a corrigir alguns erros. Estou à disposição para o que precisar. 8. Juli 2019 18:26:47
  • Karimy Karimy
    Bom, o Sistema de Verificação existe para ajudar os leitores a encontrarem boas histórias no quesito ortografia e gramática; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores com relação a isso. A verificação, no entanto, não é obrigatória. Caso queira ver o que mais o Inkspired tem a oferecer aos escritores da plataforma, basta ir na parte de cima do site em "Escritores" e clicar em "Serviços de autopublicação". Agradeço pela compreensão; e saiba que poderá me procurar caso tenha alguma dúvida. 10. Juli 2019 09:40:26
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