Briget Evans - Corações selvagens (livro 1) Follow einer Story

sweetdrama Ana França

A mudança sempre nos faz sair da nossa zona de conforto e por isso a tememos e chegamos até a odiá-la. Mas às vezes ela é inevitável e no fim acaba sendo para o nosso melhor. A revoltada Katherine Lutor se vê obrigada a sair de NY e ir morar em Londres com a sua mãe, seu padrasto, sua meia irmã e a enteada de sua mãe. A ideia da mudança não lhe agrada em nada e tudo fica ainda pior quando ela descobre que será despachada para um colégio interno. A garota que sempre gostou de aprontar e era tachada de inconsequente por alguns de seus ex-colegas descobrirá que ser inconsequente mesmo é ficar perto de Ethan Tyler, o garoto por quem a maioria das alunas do Briget Evans School perdem o ar. Entre aulas, cafés e boa música, Kate descobrirá que a verdadeira amizade sempre prevalecerá. Descobrirá que dói se apaixonar, mas dói mais ainda dizer adeus a quem ama. Muitas coisas estão prestes a mudar. E Kate é só uma delas. Ethan, é outra. Mas há mais corações nessa história e todos eles descobriram que o amor existe e que as boas amizades são o que nos mantém vivos e esperançosos. Um internato, várias histórias. Mas a verdade é: o que será que vai acontecer quando dois corações partidos se encontrarem? "Tudo o que sei sobre amizade é graças a vocês"


Jugendliteratur Nur für über 18-Jährige. © Todos os direitos reservados a autora

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Adeus Nova York


Katherine Lutor

 

O gosto amargo do cigarro estava na minha boca enquanto Julian estava jogada na toalha ao meu lado. A loira estava com seus óculos escuros escondendo seus lindos olhos azuis, enquanto o sol se punha na nossa frente. O dia estava bonito. Estava bonito demais, mas acho que despedidas são sempre iguais. É como a morte. Eu estava encerrando um pedaço da minha vida, ou seja, esse pedaço estava morrendo, por tanto, todos os mortos tem o seu última dia bom então pela minha lógica maluca, esse era o meu último dia bom.

—O Jesse deveria estar aqui conosco... —Disse a loira dos dreeds fazendo com que eu saísse dos meus pensamentos.

—O Jesse esta em Orlando com a família dele. —Eu respondi sorrindo para a minha amiga.

—Ele poderia ter voltado para despedir. —Retrucou Julian.

Eu apenas revirei meus olhos.

—O Jesse já se despediu de mim, além do mais seria pior eu ter que me despedir de vocês dois ao mesmo tempo, pelo menos assim tenho uma desculpa caso queira voltar. —Eu respondi apagando o toco de cigarro que estava na minha mão.

Julian assentiu e tomou mais um gole da sua coca-cola zero. O vento começava a soprar mais gelado, mas eu não me importava. Ainda precisava ficar ali, no coração da Big Apple, no Central Park. Ainda precisava me despedir daquela cidade.

Era difícil já me imaginar morando em outra cidade, agora me imaginar morando em outro continente era quase coisa de gente louca. Aliás minha mãe era louca por estar me obrigando a mudar. Eu fui contra isso desde o começo, mas minha mãe nunca me ouvia. Tudo o que o marido maravilhoso dela propunha ela aceitava. Casou-se com ele, teve uma filha com ele e agora estávamos prestes a nos mudar para um continente diferente por ele.

Ah aquele inglês metido a besta me irritava. Aquele sotaque cretino me enlouquecia quase. Cada palavra que saia da boca dele me irritava. Talvez fosse implicância minha, mas não estava nem aí. Odiava Eliot, principalmente porque depois do nascimento de Sabrina ele queria ocupar o lugar de "pai" na minha vida e a última coisa que eu queria era um novo pai para me decepcionar tanto quanto o meu pai biológico. Aliás, se é que dava para chamar o homem que abandonou a mim e a minha mãe de pai. Ele era só meu progenitor, mais nada.  

O vento esfriou mais ainda e a noite abraçou Nova York e nós decidimos ir embora. Vesti meu casaco e segurei minha bolsa. Julian jogou a sua lata de refrigerante fora na lixeira e nós começamos a caminhar para fora do Central Park.

O silêncio que se perpetuou entre nós até o carro de Julian era aconchegante. Julian era o tipo de pessoa que entendia a minha alma. Não precisávamos de palavras para nos entender, apenas olhares e a presença da outra. Definitivamente aquela menina era minha irmã de alma.

Os dreeds loiros estavam presos em um rabo. A maquiagem pesada sob os olhos azuis destacavam as suas orbes. Os braços estavam cobertos, escondendo as suas cicatrizes. A dor dela era legítima depois da morte de sua família. Pai, mãe e dois irmãos. Ela sobreviveu pois tinha dormido na minha casa e não estava no carro no dia do acidente. Depois disso ela passou a viver com uma tia que mais queria saber do seu dinheiro do que dela. Esmelda era uma víbora gananciosa, mas até que Julian completasse vinte e um e fosse independente para cuidar do seu patrimônio, Esmelda era quem cuidaria de tudo.

Das empresas de seu pai e do hospital de sua mãe.

Julian era uma boa garota, com uma vida muito difícil. Com a minha partida pedi que ela procurasse ajuda certa. Implorei quase e felizmente ela procurou. Estava indo a um psicólogo há cerca de um mês já. Porém as cicatrizes da sua dor sempre estaria ali, nos seus braços.

A música do rádio era tranquila e aquilo fez com que a minha mente viajasse para um tempo onde eu era feliz. Um tempo sem Eliot. Um tempo onde Axl Lutor ainda estava em minha vida. Vez ou outra eu ainda me perguntava porque ele foi embora e nunca mais voltou. Ele deveria odiar nós duas, eu e minha mãe.

Julian parou o carro na frente do nosso prédio. Entregou a chave ao manobrista e nós entramos. Na verdade nós morávamos em um hotel, mas era nossa casa. Eliot era sócio do tal hotel e Julian preferia pagar o hotel e ter um lugar só para si do que ter que morar com Esmelda. A mansão Cassidy ficava toda disponível para "tiadrasta" enquanto a empresa de cosméticos de seu falecido pai pagava o quarto de hotel para Julian.

Um dos sócios dessa tal empresa de cosméticos era Eliot, por isso que conseguiram que Julian ficasse no hotel com um custo muito baixo.

Nós cumprimentamos Daniel, um dos copeiros mais velhos do hotel e como de costume ele nos deu um bombom. Ele era uma das melhores coisas que tinham naquele lugar. O seu sorriso entre a barba branca me dava a imagem de um avô que nunca tive.

Nós entramos então no elevador e seguimos para o penúltimo andar. Julian era mais alta do que eu, por isso tinha a mania de colocar seus braços sob meus ombros e eu, deixava. A porta do elevador se abriu e então nós nos despedimos. Ela iria para o quarto dela e eu teria que enfrentar minha mãe e Eliot.

Entrei no nosso quarto e dei de cara com Eliot assistindo televisão.

Ele estava sentado em uma mesa e mexia em seu notebook também. Sabrina, minha pequena irmãzinha, estava em um bebê conforto ao seu lado.

—Onde está minha mãe? —Questionei fechando a porta.

—Está no banho. —Respondeu meu padrasto com aquele maldito sotaque britânico.

—Vou pro meu quarto então.

Ele não falou mais nada. Abri a porta lateral do quarto deles e fui para o meu. Eu tinha um aposento só para mim, o que era ótimo. Pelo menos eu tinha meu espaço. Olhei para as três caixas que tinham as minhas coisas e sorri de forma cansada. Eu não tinha muito. Nunca tive. Minha mãe sempre batalhou muito para que nós tivéssemos uma vida no mínimo digna. Quando ela conheceu Eliot que as coisas melhoraram, eu não era o tipo que desprezava dinheiro, mas preferia me manter na minha. O dinheiro de Eliot é dele. Eu não sou sua filha.

Abri a porta do meu banheiro e me despi. Abri o chuveiro e deixei que a água morna me encharcasse e me tranquilizasse um pouco. Eu esperei que as lágrimas viessem, mas como sempre, elas não vieram. A agonia e a dor ficaram só no peito.

Desde o dia que meu pai não voltou mais para casa eu não chorava. Não queria dizer que eu não sentia, mas as lágrimas nunca vinham.

Passei mais tempo que o necessário debaixo do chuveiro. Quando meus dedos estavam enrugados a mais e dez minutos eu decidi sair. Me enxuguei com uma toalha e coloquei um roupão. Penteei meus longos cabelos negros e então passei a mão sob o espelho do banheiro o desembaçando.

Os meus olhos azuis eram iguais aos dele. As sardas. Os lábios. O nariz empinado. Eu era uma cópia dele. Eu vivia tentar ignorar as semelhanças, mas às vezes era impossível, como naquele momento.

Respirei fundo e voltei par ao meu quarto. Coloquei uma calcinha preta, uma camiseta do Gun's and Roses e um short de flanela. Estava tão exausta dos últimos dias. As olheiras estavam enormes já.

Passei a última semana toda a base de café e cigarros basicamente. Minha mãe ficava furiosa, como chefe de cozinha que era, mas eu estava tão pra baixo que não queria comer nada. Além do mais estava tão ocupada indo em festas de despedidas que faziam para mim que era mais divertido beber e fumar do que comer tortas de frango que minha mãe fazia.

Eram oito da noite. Eu deitei minha cabeça no travesseiro e capotei. Estava exausta. Meu corpo simplesmente desligou.

***

Acordei no dia seguinte com minha me chamando.

—Kate, levante-se, precisamos ir. —Ela disse sentando-se ao meu lado na cama. —O nosso voo é as onze horas da manhã, são oito agora.

Suspirei e resmunguei contra o travesseiro. A encarei por poucos segundos e então me sentei na minha cama.

—Estou acordada. —Declarei.

Os olhos castanhos de Rosely Barnes, ou melhor, Bulgav, me encaram por alguns longos segundos antes que ela se levantasse da minha cama.

­—Vai ser melhor para nós isso, Kate... —Ela disse pela milésima vez naquele último mês, antes de me deixar em paz no meu quarto.

Eu joguei as cobertas para o lado e fui até o banheiro. Lavei meu rosto e olhei meu reflexo. Eu estava um caco, precisava de muita maquiagem para esconder essas olheiras.

Fiz minha higiene matinal e depois voltei para o meu quarto. Peguei uma calça de moletom cinza, uma blusa regata preta básica, um moletom cropped cinza dos Yankees* (time de basebol nova-iorquino) e meus tênis da adidas.

Deixei meu cabelo solto e coloquei uma toca preta escrita "bad hair day". Então fui para a parte mais difícil, esconder as olheiras. Peguei meu kit de maquiagem e passei uma base no meu rosto, depois o pó e então passei um pouco de rímel nos olhos. O básico do básico.

Eu caminhei até a minha bolsa e peguei meu celular. Eram nove horas já. Daqui a pouco minha mãe viria me chamar para podermos ir para o aeroporto. A minha carteira de cigarro estava ali entre meus pertences, a minha vontade era pegar um cigarro naquele instante e deixar que a nicotina acalmasse a minha ansiedade, mas não poderia fazer isso. Se minha mãe me visse fumando surtaria.

Peguei aquela carteira e a levei até o banheiro. Com dor no coração rasguei os cinco últimos cigarros e os joguei na privada, dando descarga em seguida. A caixinha eu joguei no lixo.

Voltei ao quarto e peguei minha bolsa e o livro que estava lendo: O morro dos ventos uivantes, de Emily Bronte. Era um clássico inglês e eu era apaixonada por aquele livro. As relações humanas podem ser conturbadas e Emily Bronte deixou isso bem claro nesse livro.

Peguei meu violão também. Claro que Eliot queria que eu despachasse o instrumento, mas eu  não faria isso. Não mesmo. Eu o levaria comigo!

Caminhei até a porta e a abri. Dei uma última olhada para o meu quarto e então saí.

No corredor passei pelo quarto de Julian. Bati na porta e não demorou para que uma loira sonolenta atendesse a porta apenas de camiseta e calcinha.

—Kate, já vai?

—Vou daqui uns vinte minutos. —A respondi.

Ela sorriu fraco e me abraçou. Ouvi quando ela começou a chorar e me senti mal por não consegui fazer o mesmo. A abracei forte e depositei um beijo em sua bochecha.

­—Eu amo você, Julian, não se esqueça disso! Não faça nenhuma besteira. —Eu pedi segurando as suas mãos.

—Eu também te amo, Kate! —Ela suspirou tentando conter as lágrimas. —Boa viagem, minha irmã. Me avise assim que chegar em Londres.

—Pode deixar, eu aviso.

Nós nos abraçamos uma última vez então eu desci até o saguão do hotel. Minha mãe estava com Sabrina no colo enquanto Eliot estava ao seu lado sorrindo para a menina.

—Vamos? —Perguntei ao chegar perto deles.

—Vamos. —Respondeu Eliot pegando Sabrina para que minha mãe pudesse me abraçar.

—Obrigada por vir comigo.

—Só vamos logo. —Eu a respondi com certa frieza, claro que eu me arrependi no segundo seguinte ao ver a expressão entristecida de minha mãe. —Mãe, não está sendo fácil para mim, mas... Se isso é o melhor para você, eu estou do seu lado.

—Katherine, você é minha filha, eu amo você e me importo com você. Sei que não pude te dar tudo sempre, mas eu estou me esforçando. —Ela disse com lágrimas nos olhos. —Eliot acredita em mim e por isso estamos indo a Londres. Nós vamos ser felizes minha filha. —Ela concluiu com uma lágrima escorrendo pelo seu rosto.

Eu apenas assenti e segurei em sua mão, caminhando para fora do hotel.

***

Chegamos no aeroporto uma hora antes do embarque. Fizemos o check in e despachamos as bagagens. Passamos pela polícia federal e então fomos para a sala de embarque, esperar para entrarmos no avião. Eliot comprou café para nós. Pensei em recusar, mas minha dor de cabeça estava começando então era melhor comer algo.

Tomei um café puro, sem açúcar, sem nada. Comi um pedaço de torta salgada e comprei ainda uma barra de chocolate para poder comer durante a viagem. Voltei e me sentei ao lado da minha mãe, até que o nosso portão liberasse o embarque.

Esperei com meu livro em mãos. Estava tão entretida com o orgulho de Catherine e a raiva vingativa de Heathcliff que mal notei quando me chamaram. Nós três nos levantamos e Eliot levou Sabrina. Entramos no avião e eu fiquei na janela. Mamãe ao meu lado e Eliot ao lado dela.

Coloquei meus fones de ouvido e coloquei o cinto de segurança. Encostei a minha cabeça na janela e deixei que a voz rouca de Ozzy Osbourne cantando In my life, dos Beatles, me possuísse. A minha mente estava em paz desde o começo daquela história de mudança. Era como se a briga tivesse acabado e a guerra tivesse tido um vencedor. Não que eu tivesse vencido, não, eu tinha perdido, estava indo para Londres, como mamãe e Eliot queriam, mas ela estava feliz e naquele só aquilo me bastou.

Eu vi Nova York ficando pequena lá em baixo e de repente eu só via nuvens. Suspirei e fechei meus olhos. Eu tinha um pouco de paz.

20. November 2018 16:00:30 0 Bericht Einbetten 1
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