Adsumus Follow einer Story

sparkoll Sparkoll M

Crianças do mundo inteiro se preparavam para aquela noite, com extravagantes fantasias e maquiagens, com o principal objetivo de brincar e receber guloseimas. Mas o que nem elas, nem seus prezados pais sabiam, é que naquele momento, eles não seriam as únicas almas naquelas ruas decoradas.


Thriller Nicht für Kinder unter 13 Jahren.

#terror #hallowink #295 #drama
Kurzgeschichte
5
4.8k ABRUFE
Abgeschlossen
Lesezeit
AA Teilen

De volta ao Lar



 

(Imagem: Castlewood jogo USPSA)



Vingança. Por todo o tempo que estive aqui, é a única coisa que eu penso. Estava em um campo morto, cercado por baixas montanhas, vagando cegamente em direção ao nada, sem nenhuma lembrança do porquê aquele sentimento tão ruim estar em meu peito, mas de repente, vi uma luz no alto e corri para ela, subindo aqueles montes. Tirava com minhas mãos o céu em minha frente, e cada vez mais via a claridade aumentar. Parecia tão certo o que fazer, não me importei com nada, apenas em sair daquela campina que parecia sugar tudo de mim.

Quando minha mão inteira alcançou o lado de fora, senti o vento entre meus dedos e tive uma sensação conhecida, mas não me recordava de onde. Continuei tirando o que me prendia até ficar até apenas minha cintura para baixo ficar debaixo da… terra? Meu céu era terra?

Olhei para cima, e vi o verdadeiro, estava dourado em um pôr do Sol, tão perfeito quanto um véu, com as estrelas o enfeitando e uma grande lua cheia já dava para ser vista, mesmo antes do anoitecer.

Mas foi quando virei a cabeça, que a minha sentença chegou. Era um cemitério.

Vários túmulos me rodeavam, e algumas pessoas estavam andando de maneira estranha mais a frente.

Foi como um baque, todas as minha memórias vieram à tona de uma só vez, e finalmente entendi do que, e de quem eu queria vingança. Desprendi o que faltava do meu corpo, deixando o lenço com qual fui enterrada para trás.

Quando olhei para meu corpo, ele estava em decomposição, e foi a pior visão da minha… Vida? Minhas pernas estavam em vários tons de verde e alguns roxos, o esqueleto já se mostrava em alguns lugares, como em minha costela, pernas e braços. Tinha medo de ir ver um espelho, afinal, passando a mão pelo meu corpo, ainda sentia a pele mais profundas em alguns pontos, que sabia que não era pela necrose.

Parei de olhar meu corpo com total desespero tentando me manter sã, mas uma voz surgiu atrás de mim, me deixando em estado de alerta.

— Olá querida, parece que não está muito bem, não é?

— Quem é você? — me virei para trás e falei com a voz mais alterada do que pretendia, vi que era um homem, vestia uma camisa social, mas com um sobretudo laranja — extremamente chamativo por sinal — e um short que aparentava ser de couro.

— Um amigo, muito prazer. Não me olhe assim, escolhi essa roupa especialmente para essa ocasião, não é incrível? Geralmente só me deixam usar uma túnica preta sem graça, nem dá pra mostrar meu belíssimo rosto com aquele capuz gigante…

Ele continuou falando tantas coisas aleatórias que meu cérebro (se é que eu ainda tinha um) parou em determinado momento.

— ... E então? Gostou de estar aqui em cima de novo? Sentir um pouco de ar puro para variar faz bem para a saúde e… — ele parou de falar quando começou a analisar meu corpo de cima a baixo.

— O que está acontecendo, e por que eu estou aqui? — Perguntei sem enrolações.

Eu estou morta. Fui condenada por algo que não fiz e o sentimento de vingança estava mais aflorado que nunca. Não tinha obrigação nenhuma de ser gentil com quem — aparentemente — me tirou do descanso eterno.

De repente, seu olhar que estava brincalhão e descontraído, se tornou mais sério. E só então eu percebi o foice que estava encostado na grande pedra que o homem se escorava. Ele andou lentamente, até ficar em minha frente.

— Florzinha… Eu sou a Morte.

Por um momento, agradeci por já estar morta, porque tinha certeza que iria cair dura no chão com essas palavras.

Com os segundos passando, ele percebeu que eu estava paralisada e não responderia sem um estímulo.

— Faz tempo que não acontece, mas irei explicar da melhor maneira possível. Sente-se, por favor. — Ele disse calmamente, quase com delicadeza. Ainda em um choque um pouco anormal, então fiz o que ele pediu e sentei na terra fofa, um pouco a frente da minha cova.

Eu não deveria estar surpresa, certo?

— Maria Antonieta de La Cruz, você teve uma morte bem injusta, não?- era uma pergunta retórica, e logo continuou a falar, no mesmo tom pacífico. — Desde o seu falecimento, 3 anos se passaram, mas os seus sentimentos não mudaram nada, e é por isso que está aqui em cima essa noite. Mas acho que devo começar a minha história, antes da sua.

— Mesmo antes do Sol nascer e esse planeta viver, eu já era quem sou. Ao contrário do que muitos pensam, eu nunca matei ninguém, nem nos tempos mais sombrios do mundo, eu nunca interrompi a vida de um ser. A minha única missão, durante toda a jornada, é fazer a travessia de almas, ou seja, do mundo dos vivos, para o mundo dos mortos. Estou indo muito rápido? — Ele parou abruptamente a história, meu deixando um pouco perdida por alguns instantes. Neguei com a cabeça, ele continuou.

Por um lado, fiquei feliz de saber que ele não interrompia a vida de ninguém, me fez sentir um pouco mais confortável.

— Continuando… Eu sempre percebi que no dia 31 de outubro, a travessia era incrivelmente mais fácil de se fazer. Isso quer dizer que a linha que separa o mundo vivo e morto, é mais fina nesse dia, desse mês. Poucos humanos, com uma mediunidade maior do que é natural, perceberam, e por isso, é uma data conhecida. Com o passar de centenas de anos, acabou se tornando uma comemoração capitalista, mas aqui e agora, estou te contando a verdade, do que chamam de “Halloween”. Entende?

Depois de uma longa pausa, eu assenti, concordando.

— Eu entendi a sua história e sobre essa separação. Mas o que a ver comigo? — perguntei de maneira mansa, sem forças para continuar respondendo de maneira mal-criada.

— Apenas eu, e apenas esse dia, posso quebrar essa linha, faz centenas de anos que não faço isso, mas o mundo é tão podre… Almas como a sua nunca vão poder descansar em paz, por causa de pessoas que ainda tem seus corações pulsantes e sangue correndo pelas veias. Sinto que há momentos, que preciso deixar de ser neutro, e esse é um deles. Veja em volta. Todos estão saindo, para recuperarem o que perderam, e terminarem o que começaram. — ele explicou, e olhou para algo atrás de mim, segui esse olhar e percebi que as pessoas que andavam com passos estranhos quando saí da minha sepultura, eram na verdade, os mortos que já estavam indo atrás do que queriam.

Era verdade. Eu não estava descansando, apenas me preparando para esse momento. Parecia ter passado apenas algumas horas de caminhada na pradaria, mas estava lá a três anos. Três malditos anos.

— Bom, a minha parte está feita. Faça o que quiser, como bem entender, mas uma dica florzinha: Volte antes do amanhecer. — A Morte voltou com o tom divertido e sentando em cima daquela grande pedra em posição lótus.

— O que acontece se eu não seguir esse conselho? — Perguntei hesitante, mesmo uma parte de mim já sabendo a resposta.

— Não é óbvio? Ficará presa no mundo dos vivos. Mas não poderá intervir em nada, como nessa noite, apenas ficar por aqui, observando a vida que você queria ter, mas não tem. — Ele respondeu simples.

Entendi aquilo como o fim da nossa conversa, comecei a caminhar para a entrada do cemitério, onde outras pessoas mortas estavam saindo aos poucos, e indo para todas as direções possíveis. Mas eu sabia para onde eu precisava ir.

***

Algumas coisas haviam mudado, mas as ruas continuavam as mesmas, assim como aquela grande casa. Era um tanto irônico ser tão próximo de um cemitério, e eu poderia rir, se ainda houvesse algum humor em mim.

A construção continuava a mesma, com as paredes brancas, com poucos tons de azul em algumas extremidades. As janelas do primeiro e segundo andar eram retangulares e grandes, dando um ar sofisticado, porém moderno. Era uma casa realmente bonita, combinada com o jardim decorado com algumas teias de aranha, abóboras e esqueletos espalhados pela grama.

Me aproximei lentamente da grande porta de madeira, e depois de hesitar por alguns segundos, eu bati. Quando ela se abriu, mostrou uma mulher muito bonita. Tinha cabelos loiros, não passando de seus ombros e grandes olhos azuis. Não estava fantasiada, apenas com um vestido preto e um avental por cima. Ela não parecia estar chocada com o meu estado de decomposição, afinal, apenas sorriu e estendeu 5 balas de caramelo para mim.

— Gostosuras ou travessuras? — Sua voz doce me alcançou.

Coloquei minha mão sobre a dela e a forcei entrar novamente dentro de casa, entrando junto e fechando a porta em seguida. Ela ficou alguns segundos sem reação, o que foi suficiente para prensa-la contra a parede.

— O que… O que é você? — Ela perguntou com dificuldade, já que uma das minhas mãos mortas, com ossos expostos, apertava sua garganta.

— Sou apenas alguém que quer descansar em paz. E eu não vou conseguir isso, se a pessoa que morava aqui três anos atrás, estiver viva. Onde ele está? — perguntei séria, o ódio era perceptível em cada palavra que saia de minha boca.

— Ele… Não está aqui. — Ela respondeu com ainda mais complicação. Me aproximei ainda mais, sabendo que ela estava mentindo. Eu não tinha tempo a perder, então afrouxei o aperto em seu pescoço e a joguei no chão de qualquer jeito.

Subi as escadas que eu conhecia bem, me causando calafrios — eu ainda sentia esse tipo coisa? Quando cheguei ao topo, virei à direita, seguindo os meus instintos de que ele estava no meu antigo quarto. Parei em frente a segunda porta e diferente de antes, não hesitei.

Abri o portal que me separava do meu pior pesadelo lentamente, o encontrando perto da janela, sentado em uma poltrona,tomando algo em um cálice. Ele ainda não tinha percebido minha presença, então sorrateiramente entrei no aposento.

Quando ele tomou consciência que não estava sozinho, já era tarde. Subi em cima de seu corpo, colocando minhas mãos necrosadas em sua garganta, exatamente como fiz com a mulher no andar abaixo. Olhei para os seus olhos, continuavam tão claros quanto antes, e agora assustados, não pareciam os mesmos que me apaixonei tão perdidamente tanto tempo atrás.

Sentia que nesse momento, estava chorando, mas não sentia nenhuma lágrima em meu rosto. Sabia que era porque a morte já estava em meu corpo há muito tempo, mas não conseguia simplesmente aceitar. Fechei os olhos, mas continuava apertando a carne que estava em minhas mãos. Até ouvir a voz estrangulada em minha frente.

— Maria? É você, meu amor? — ele continuava assustado, levando a mão até o meu rosto seco. Desgarrei de seu pescoço e fui para longe dele, sentindo o perigo iminente, assim como antes, sabia que o seu tom doce era apenas um presságio da dor.

— Eu não acredito… É você mesma, está aqui e — ele deu uma pausa, olhando para o meu corpo em decomposição. — Meu Deus, eu senti tanto a sua falta.

Ele se aproximava cada vez mais, mostrando o elegante grisalho do seu cabelo, os olhos tão claros como a luz e uma roupa simples, mas que dava uma certa esbelteza, enquanto eu continuava travada, escorada na parede. Mais uma vez, sentia que chorava, mas apenas os soluços saiam de mim.

Quando ele se aproximou de mais, uma corrente desceu pelo o meu corpo, me fazendo lembrar de um dos nossos momentos juntos.


Estava terminando de me arrumar em frente ao espelho, precisando colocar um pouco mais de maquiagem na região dos olhos, para disfarçar o roxo que estava bastante chamativo.

Quando terminei e sai do meu quarto, desci as escadas e o encontrei na cozinha, tomando um café enquanto lia um jornal. Me aproximei, dando um beijo delicado em seu rosto, e sorrindo para ele em seguida.

Ele devolveu o beijo em minha mão e sorriu ternamente.

— Está pronta meu anjo? — ele perguntou-me, enquanto levantava e colocava a caneca na pia.

— Estou sim. Vamos? — Ele assentiu e me guiou até porta. Estava feliz por ele estar se esforçando para me agradar depois do que aconteceu. Na rua, andávamos lado a lado, de mãos dadas e trocando sorrisos

“Somos um casal perfeito” pensei comigo mesma, sentindo gratidão e ternura por ter Santiago Garcia como namorado, era como um sonho que se realizava… Quase todos os dias.

Meus pensamentos dignos de um livro de romance foram interrompidos quando chegamos à cafeteria que tomaríamos café da manhã.

Logo depois de pedirmos nossa comida, começamos a conversar sobre diversos assuntos, incluindo o livro que ele escrevia desde o começo do ano. Até que um homem se aproximou de nós.

—Maria? — ele perguntou e se aproximou um pouco incerto. Meu sorriso aumentou, ao reconhecer o homem com que eu trabalhei meses atrás.

—Castiel! Que surpresa te encontrar aqui! — falei animada e levantei para abraçá-lo

— conhece meu namorado, Santiago? — olhei para o outro lado da mesa, e encontrei meu companheiro com uma cara fechada e irritada, totalmente diferente de antes. Senti uma fisgada em meu peito, já sabendo como terminaríamos o dia que começou tão bem.

— Foi um prazer te reencontrar, o pessoal da empresa sente sua falta, Mari. — ele falou rápido, sentindo a aura negra que vinha do homem sentado à mesa.

Continuamos o café, mas não parecia mais ser como no início da manhã. Terminamos em silêncio, fomos para casa em silêncio e continuamos a tarde em silêncio. E isso estava me matando.

Já estava de noite quando tentei abrir a boca para falar alguma coisa, durante o jantar.

— Amor? Você está bem? Está tão… Quieto. Sabe, se tiver alguma coisa te incomodando eu posso ten- — minha fala foi cortada com um soco que ele deu na mesa de jantar. Meus olhos se arregalaram e me encolhi na cadeira à frente. De novo.

— Quem era aquele cara? — ele perguntou, olhando pra mim com uma raiva absoluta já conhecida.

— O… Castiel era um colega do meu antigo trabalho…

— Colega? Parecia que vocês eram bem próximos. BEM ÍNTIMOS NÃO É? — ele se levantou, foi até mim e começou a gritar muito perto do meu rosto. Fiquei ainda mais amedrontada.

— Eu… — não conseguia mais formar uma frase, mas nem precisei, senti uma dor forte em meu rosto.

Meu corpo estava no chão. Novamente.

Senti mais dor. Em meu rosto, costelas e pernas.

Tanta dor. Eu estava com muita dor.


Voltei a realidade quando nossos corpos se encontraram, com ele tentando me abraçar.

Dei um grito alto e agudo, o fazendo se soltar de mim. Corri em direção oposta do quarto, ficando perto da minha antiga cama.

Eu havia recuperado a memória assim que percebi que estava em um cemitério, mas agora, nessa casa, com esse homem, tudo parece ainda mais fresco dentro de mim.

Cada soco, tapa, chute, vários golpes de martelos e facas. Lembrava como eram os seus sorrisos tão ternos e calorosos, e de como seus olhos escureciam cada vez que se sentia traído por mim. Sentia vontade de socar minha própria cara agora.

“Como pude ser tão burra?” pensei comigo mesma, enquanto olhava o homem em minha frente. Sentia um nojo tão grande que não cabia dentro de mim.

— Você… Me matava todos os dias. A cada dia que eu passava perto de você, a minha alma morria aos poucos. Até que um dia, o meu corpo simplesmente não aguentou mais. Me matou de todas as maneiras possíveis, feliz? É o mesmo que está fazendo com a mulher que está jogada no andar de baixo? — cuspi as palavras em seu rosto, de uma maneira que nunca tive coragem de fazer quando era viva.

— Eu nunca quis… Você sabe, eu te amava… Te amo! Eu te amo com todas as minhas forças, e nunca superei a sua morte. — ele continuou falando, gesticulando e tentando se aproximar de mim.

Lembrei que quando estava perto de morrer, guardei uma lâmina debaixo da cama, entre o colchão e o esqueleto de madeira. Comecei a tatear disfarçadamente, fingindo prestar atenção ao falso monólogo à minha frente. Até que achei. Era fria e comprida, como eu me lembrava. A peguei e levantei de onde estava sentada. Garcia achou que tinha me convencido com aquele discurso, mas já estava morta, e o meu corpo não era a única coisa fria em mim.

Novamente, foi tudo muito rápido para dizer com exatidão. Eu pulei em cima do seu corpo, o derrubando e comecei perfurar sua garganta repetidamente com a lâmina, ele tentava se soltar, era maior e mais forte que eu,  mas cada vez que tentava, mais fundo e extenso o corte ia contra a sua pele.

Até que ele parou de resistir. Tinha muito sangue em nossa volta, e continuava aumentando a cada segundo, mas eu não me importava, pois estava acontecendo. Ele estava agonizando, e tudo o que eu fiz foi sair de cima dele, sentar em minha antiga cama e observar seus olhos pararem.

Prestei atenção em cada detalhe de sua morte, me satisfazendo com cada gemido e expressão de dor, até nada mais de vida restar daquele corpo. Eu soube o exato momento em que ele morreu, e assim que aconteceu, saí do quarto e fechei a porta. Desci as escadas com certa lentidão e encontrei alguém.

— Morte..? — perguntei, chamando atenção do “homem” à minha frente.

— Oh, olá querida, percebi que já fez o que queria. — ele se virou para mim, me deixando ter uma visão limitada da mulher que estava no chão por todo esse tempo.

— É… Ele está no segundo quarto à direita, lá em cima… — falei um pouco distraída — O que… Ela tem? — perguntei, me referindo a desconhecida.

— Ela..? Bom, quando você a jogou no chão, ela bateu muito forte com a cabeça no chão e rompeu um aneurisma que tinha no seu cérebro, acabou morrendo às onze e quarenta e sete desta noite.

Olhei com um pouco de pena para o cadáver, pensando em como ela iria lidar, já que quem causou a sua morte fui eu.

A Morte, percebendo meu olhar sobre o corpo, tomou ar e disse em alto e bom som.

venerunt ad me¹.

Um livro apareceu em suas mãos, era grosso, tinha a capa preta e aparentava ser a coisa mais velha do mundo.

— Eu conjurei esse livro para te mostrar uma coisa. — ele o abriu em uma página específica — Essa mulher, se chamava Bella Montgomery, nasceu em 15 de maio às seis e trinta e um da manhã. Passou uma infância feliz em Nova York, e se mudou para a Espanha para acompanhar os negócios na empresa da mãe e blá blá blá. Tem uma porção de coisas inúteis aqui, mas o que você precisa saber é que o sujeito lá em cima já bateu tanto na cabeça dessa coitada que esse trequinho na cabeça dela já iria romper daqui duas semanas. — ele terminou de falar, fechou o livro e ele se dissipou. — Você. Não. Fez. Nada.

Ele terminou pausadamente. Me sentia culpada por tê-la tratado tão… Mal no nosso primeiro e último encontro, e principalmente por não ter chegado antes dela sofrer.

— O seu papel acabou senhorita. Está quase amanhecendo, deveria seguir a minha dica de mais cedo, não? Ainda tenho muito trabalho ao redor do mundo. — Ele virou para mim e sorriu com certa gentileza, e subiu as escadas, desaparecendo da minha vista.

Sabia que ele estava certo, e também sabia que não voltaríamos a nos ver, então simplesmente comecei a vagar pelas ruas de Madrid, voltando para onde seria o meu lar pro resto da eternidade. Porém…

Vi que uma mulher andava a minha frente, parecendo ir na mesma direção que eu. Vestia um vestido preto, com o laço de um avental branco amarrado em suas costas.

Suspirei fundo, desafiando a lógica quando meu pulmões mortos se encheram de ar, tomei coragem, e comecei a andar ao seu lado. Ficamos assim por um bom tempo, até chegarmos ao portão do cemitério e ela se virar para mim.

— Como você o conheceu? — perguntou delicadamente, e mesmo que seus olhos fundos e pele extremamente pálida parecessem hostis ao resto do mundo, de alguma maneira, sabia que ela não me machucaria (nem acho que isso seja possível afinal).

Suspirei mais uma vez e comecei a falar com ela.

— Santiago Garcia era o escritor mais famoso de Madrid, era uma honra ele ter se interessado por uma jornalista simplória como eu. Ele tinha 34 anos e eu 21, tinha acabado de começar com o novo emprego, e quando nos conhecemos em um entrevista, foi impossível não me sentir atraída por aquela figura tão elegante e que parecia perfeita.

Nos encontramos todos os dias, durante semanas, que logo viraram meses e anos. Já basicamente morávamos juntos, mas quando fiz a mudança definitiva, foi quando as coisas mudaram. — a essa altura, já caminhávamos em direção às minha sepultura, andando lentamente, observando as poucas pessoas que passavam por ali. — Brigávamos muito pouco, mas com o estresse da mudança e o seu novo livro sendo cobrado pelo mundo, as discussões aumentaram significativamente. Tinha dias que nem conseguíamos olhar um para o outro, e foi em um desses dias, que o primeiro tapa foi dado. — minha garganta se fechou um pouco, dificultando a continuação, até que senti a mão da mulher loira em meu ombro, me encorajando a dar continuidade.

— O choque foi grande, quis me mudar imediatamente, mas ele foi tão… Bom. Pediu desculpas de joelhos, me comprou tudo que eu queria e mais, me tratava como uma rainha. Resolvi perdoar, afinal, quem nunca se exaltou um pouco? Falou e fez mais do que devia?

—Mas não foi um episódio único, e eu não sei quando que se tornou algo frequente. Os tapas viraram socos, que viraram chutes, e viravam facadas. Cada desentendimento era um novo machucado no meu corpo. Parei de trabalhar porque ele tinha ciúmes dos colegas de trabalho, tranquei a faculdade por-que ele dizia que eu não dava atenção para ele. Até a única coisa na minha vida ser exclusivamente voltado à Santigo. — e foi quando cheguei em meu limite, não aguentando mais relembrar de forma tão viva, a minha vida tão morta.

A mão gentil que estava em meu ombro foi substituída por um abraço,o que me surpreendeu, mas não neguei. Nem sabia que duas pessoas frias poderiam trocar algum tipo de calor. Ficamos nessa posição por um tempo, até nos separarmos e ela olhar tristemente para a minha cova.

— Sei que não me conhece, mas me deixa cuidar de você… Por favor. — ela me observou com pesar, e sabia que naquele momento, nunca poderia negar qualquer coisa a aquela doce cadáver.

Estiquei a minha mão em direção aos seus cabelos e os coloquei detrás da orelha. Juntei o resto de coragem que havia em mim e coloquei a minha mão sobre a dela, e o gesto foi retribuído quase que imediatamente, e assim, nós duas nos ajeitamos no pequeno espaço de terra, assistindo o nascer do Sol de fortes tons que se desencadeou em nossa frente.


***


Meu corpo dói, e minha cabeça está tonta, mas sinto que preciso abrir logo os olhos, porque a claridade me incomoda.

— Acorde Bela Adormecida — Ouço uma voz melodiosa perto de mim, o que foi um incentivo a mais para abrir os olhos e encontrar um par de safiras me observando. Dou um pequeno sorriso ao perceber que ela era bem bonita, principalmente em contraste com o cenário.

Estamos em um belo campo, com a grama verde brilhantes, o céu tão azul que parece ser um lago, só que no alto de nós, mas Bella é a mais interessante de se observar do que campos. É a melhor visão que eu poderia ter, mas ela logo se levantou, mostrando um vestido branco com diversas flores vermelhas e azuis bordadas. Ela estendeu a mão a mim, que não tardo a aceitar e me levantar. Percebo que, diferente dela, não estou de vestido bordado, e sim com uma calça jeans clara, com uma blusa bege, um pouco curta bem larga. Nós duas estamos descalças.

— Vamos apostar corrida? Até o campo das flores? — ela perguntou tão animada, que não me deixou escolha senão topar o desafio.

1…

2…

E… 3!

Disparamos em direção às flores, para todo o sempre. 

Finalmente eu vou viver uma eternidade de maneira plena, no meu próprio paraíso.





¹: "venha até mim" em latim.




6. November 2018 22:11:30 5 Bericht Einbetten 8
Das Ende

Über den Autor

Kommentiere etwas

Post!
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, tudo bem? Como foi participar do desafio? Nos conte! :) Que história boa e real. Homens como o Santiago exitem aos montes, acham que a mulher é sua propriedade. Sempre começa da mesma forma que você narrou, a saia tá curta, você não pode trabalhar, não pode ter amigos, tem que viver única e exclusiva para mim. Ai vem tudo que só de mencionar nos dá asco. A história foi narrada com uma naturalidade tão única, Maria acordar do que era para ser seu sono eterno, A morte (que morte) aparecer e lógico ela ir atrás de vingança. Qualquer pessoa no mundo que estivesse na mesma situação de Maria faria o mesmo. Até mesmo para livrar-se de mais um estorvo e que estava fazendo o mesmo com a outra. No uso da imagem conseguimos notar em toda a narrativa ela, o tema de halloween toda essa sacada de usar a data festiva, para explicar a travessia das pessoas que morreram, foi genial. Talvez não tanto original, já que a cultura pop nos revelas várias obras com a mesma temática, mas uma ideia muito boa e um ótimo uso do tema no geral, a imagem e o Halloween em si. Não tem muito erros ortográficos a serem apontados, a narrativa é fluida e gostosa. E saber que a Maria teve um final feliz, foi gratificante. Parabéns pela história!
27. Dezember 2018 18:46:11
Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
Achei interessante a sua premissa. Não gosto de zumbis porque normalmente, no cenário atual, ela não aborda a magia, mas sim a tecnologia - uma questão mais voltada ao biológico, como armas químicas e experimentos para reviver os mortos. Ou doenças. Não gosto dessa ideia. Também não curto a ideia de que eles não tenham consciência. Todos esses fatores que aqui NÃO se apresentam foi o que me cativaram. A violência doméstica foi REAL ao ponto de me fazer sentir raiva, muita, muita raiva. O fim de Santiago foi merecido - e poderia ter sido pior. Adorei sua morte, ela é diferente do costumeiro e eu gosto muito disso. A reconheci como um homem simpático e de sorrisos fáceis, até belo. Essa ideia de que a morte pode ser bela é fenomenal. Foi um bom conto, principalmente por ser narrado por um zumbi. E o final feliz foi certamente inesperado! Parabéns por ter entrado no top!
21. November 2018 12:32:25
Zen Jacob Zen Jacob
Eu adoro histórias envolvendo zumbis/morto-vivos e essa aqui não me decepcionou. O fato de você ter explorado essa questão do rancor da personagem, o fato de ela ter sentimentos apesar de estar morta e não só correr atrás de vingança me fez pensar muito em "In The Flesh" (uma das minhas séries favoritas, diga-se de passagem). Acho que o bom desse tipo de história é justamente a parte de apontar problemas sociais e o fato de você usar o Halloween para permitir que uma vítima de violência doméstica tivesse o direito de retorno para com o agressor é muito significativo pra mim. A figura da morte ser um sujeito excêntrico criou um contraste interessante e ele se preocupar em retirar o peso da morte da moça dos ombros da Maria tornou o personagem bem legal - tipo, sério, ele poderia nem se importar, mas escolheu ser gentil. Isso realmente é algo raro, me fez lembrar da Morte de Sandman e como ela sempre dá importância pra todos os seres vivos. Fico feliz que no final a Maria tenha conseguido o pedaço de paraíso dela, acho que foi merecido depois de todo o sofrimento pelo qual ela passou. Por fim, o título da história, foi bem impactante: "estamos presentes". Por mais que tentemos enterrar o passado junto com os nossos mortos, achando que com isso vamos nos livrar também dos nossos erros e rancores, apenas estamos dando voltas em círculos sem sair do lugar. Ainda que ignoremos os problemas que se desenrolam bem diante dos nossos olhos, eles vão permanecer lá até que uma atitude seja tomada. Parabéns pela história, gostei muito da reflexão que você fez sobre a morte e a violência, e a superação disso. =)
12. November 2018 18:50:15
BC Bruno Coutinho
Na minha opinião, este texto é bastante original e bem escrito, no geral. A questão em outras histórias de zombies é que logicamente eles eram descritos como providos de pensamento e raciocínio, quanto mais de sentimentos. Você deu a volta a essa situação e apresentou uma senhora que, embora a maior parte do tempo se mantenha "morta" por dentro, em várias situações extravasa de emoção, que permite uma caracterização maior e uma trama mais complexa. Gostei bastante da figura da morte, da sua maneira de ser e estar extravagante. Considerando tudo isto, achei, no final, uma boa história.
12. November 2018 05:59:17
Sr.  Artie Sr. Artie
Eu simplesmente adorei essa história aaaaaaa Exatamente tudo sobre ela me encantou: o enredo, a personagem principal, a morte (amei a forma como você a retratou aqui, me lembrou A Menina Que Roubava Livros), a sua narrativa e principalmente esse final lindo e doce que destoa de todo o restante da história. Para mim, não existe defeitos. Sua história é um verdadeiro conto de terror, o qual apenas instiga o leitor a ler mais e mais. Enquanto eu não cheguei ao final da história, eu não consegui parar a leitura. A forma como você ia soltando as informações aos poucos ao passo que ia criando o enredo, foi um das razões de manter a leitura tão interessante e convidativa. A outra é o desejo que o leitor tem para que Maria consiga a sua vingança, muito antes de saber o porquê ela deseja e contra quem é´a vingança. Enfim. eu adorei, parabéns!
11. November 2018 23:07:36
~