A Aposta do Templo Follow einer Story

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C Clark Carbonera


Depois de fazer uma aposta com seus amigos, Roger entrou num templo abandonado...ou pelo menos era o ele pensava. Obs: essa história faz parte do universo da novela chamada Black Pages: Antiquário, também publicada aqui na plataforma. Quem tiver interesse, pode dar uma olhadinha nela também!


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#demônios #youkai #português #literatura-brasileira #341 #343 #mitologia #japonês
Kurzgeschichte
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Capítulo único


Em frente às escadas de pedra que levavam ao templo japonês, construído há quase cento e trinta sete anos por um monge e empreendedor chamado Yushio Kazikawa, abandonado dentro de um bosque nas cercanias de uma cidade não muito grande, um grupo de crianças conversava. Ou melhor, fazia uma aposta.

– Vai. Duvido que você vá.

– Uh...

– Qualé, você vai falar pra ele ir...não é muito justo...

– Uai. Por que não?

– Ué, o pai dele é um esquisitão que mexe com coisas estranhas.

– Uh...meu pai não é esquisitão.

– É, sim, ele vê gente morta!

– Vê nada! Isso é um filme, idiota!

– Idiota é você! Bestão, aposto que você não sobe lá, nem por um saco de Ruffles.

– Um é pouco. Faço por três.

– Ah, aí não dá, só tenho um...

– Shhhhhiiiiiiuuuuu, vocês dois! Então, vai ou não vai, Roger?

– Uh...

– Se você for, eu te passo as respostas na próxima prova.

– Uh...

Roger encarou o menino raquítico de óculos quadrados e amarelos que o encarava com olhos iluminados, o semblante tenso, enquanto pensava em como convencer o outro a ir até o templo abandonado. De repente, como se uma lâmpada surgisse brilhante em sua cabeça, seu sorriso se alargou:

– E eu divido com você meu lanche por uma semana!

– Uma semana de lanche e as respostas da prova de ciências... – Ele olhou com risco calculado para o garoto loiro de cabelos curtos e uma franja minúscula que ele deixava para o alto com gel.

– Fechado.

– Eles cuspiram nas palmas das mãos e fecharam a aposta.

Roger ajeitou a mochila nas costas e observou o enorme e longo lance de escada de pedras antes de começar sua subida.

Em nenhum momento ele olhou para trás.

– Caraca, ele vai mesmo...

– Ele é louco.

– É esquisitão igual o pai.

– Seria maníaco se ele morresse...!

– Olha a boca, idiota!

– É, bestão! Bate na madeira. Se ele morrer agora, é culpa sua.

– Ai, mas não tem mesa nenhuma aqui...!

– Ah, tonto, a gente tá no meio dum bosque. O que não falta é madeira! Vai lá!

Um deles empurrou o outro para uma árvore, onde ele bateu com os nós dos dedos três vezes, rápida e nervosamente, antes de voltar para os outros dois amigos.

O trio viu a mochila vermelha de Roger desaparecer por entre as copas altas e cheias de folhas das árvores do bosque que bloqueavam a continuação da escada. Um deles sussurrou, espantado.

– Mas seria louco se ele não voltasse, né?

– Ééééééééé – disseram todos em uníssono.


Roger, por sua vez, subia os degraus de pedra com certo tédio. Enquanto andava, contava o número de degraus que estavam quebrados e pensava em como seus colegas de classe eram infantis. Não que ele próprio já tivesse passado para a adolescência ou algo assim, era só que, por conta do trabalho do pai, Roger aprendeu a não ter medo das coisas e situações que normalmente seus colegas tinham medo, ainda mais quando a mente sadia e criativa de cada um deles criava histórias mirabolantes e monstros assustadores por conta delas próprias. E o fato de Roger não ser igual aos seus colegas era simples, bem simples de fato: seu pai colecionava coisas velhas.

Certo. Talvez “coisas velhas” não fosse o melhor termo para se usar, até Roger reconhecia isso, mas que os objetos que seu pai levava para casa eram velhos, isso não se podia negar. Ele deu de ombros mentalmente, imaginando seu pai lhe explicando pela milionésima vez sobre a importância de cada uma daquelas coisas empoeiradas e carcomidas.

Sua cabeça roçou de leve num galho de pinheiro novo, o que tirou-o do seu íntimo. Ao olhar ao redor, Roger percebeu que já não conseguia ouvir os três meninos lá embaixo. O bosque estava silencioso, o Sol brilhava pelas intermitências esverdeadas das árvores, dando um toque calmante ao ambiente. Uma movimentação rápida e instantânea surgiu por detrás de algumas samambaias e desapareceu.

Roger apertou a alça da mochila, observando com cautela a agitação das folhas rendadas que se acalmavam, e como nada pulou para cima dele, ele prosseguiu o caminho das escadas de pedra. Quando recomeçou a contar o número das que estavam quebradas, percebeu que tinha se esquecido de onde parara, mas isso não se tornou um problema para ele, até porque seus olhos notaram a cabeça de um animal de tamanha médio, escondido atrás de alguns galhos secos de uma trepadeira com flores mortas.

Ele se aproximou ao ver que não era um animal vivo, mas uma estátua da cor do bronze, suja e enegrecida. Aos olhos de Roger a estátua parecia ser a de um cachorro, ou urso, ou leão, talvez? Ele se questionava, achando aquilo meio engraçado e percebeu que do outro lado da escada havia outra estátua igual àquela.

Roger colocou a mãozinha no queixo pensativo. Resolveu por tirar os galhos secos que envolviam as duas estátuas antes de prosseguir. Depois disso, não demorou para que a criança avistasse o telhado característico do templo japonês.

A edificação podia ter sido muito bem tombada como patrimônio histórico municipal, mas ao que tudo indicava ninguém da cidade parecia interessado em se lembrar dos momentos majestosos que o templo possuía antigamente.

As paredes de madeira e portas de correr estavam apodrecidas e maltratadas pelas intempéries do tempo e no teto todo existiam buracos feitos pelos animais do bosque que buscavam abrigo vez ou outra.

Roger subiu os dois degraus do templo, que não ficava ao nível do solo, e se lembrou de repente que os japoneses tinham o hábito de tirar os sapatos quando entravam em casa. Ele tinha visto isso na tv com sua avó um dia. Abaixando-se, descalçou os sapatos e os colocou no chão de terra pisada ao lado da escadinha de dois degraus, e seguiu para dentro do templo.

Puxou a mochila para cima dos ombros novamente e abriu uma porta de correr que quase despencou em cima dele, e um corredor amplo e iluminado com a meia luz de fora se descortinou aos seus olhos, que se prenderam numa mesinha alta encostada na parede do corredor, acima dela, havia pendurada uma máscara branca com detalhes coloridos ao redor dos olhos, boca, bochechas e cabeça.

Roger olhou para os lados e mirou de novo a máscara. Era tão bonita. E se fosse limpa com aquele produto do seu pai, certamente que brilharia na estante de coisas velhas dele. Quem sabe, não conseguiriam um bom preço por ela e finalmente pudessem fazer uma viagem para o exterior todos juntos, ele, a vovó e o papai?

Sem pensar mais duas vezes, Roger se equilibrou nas pontas dos pés, apoiando o tronco na mesinha alta. Mas seus dedos apenas roçavam a máscara pendurada. Ele mordeu a ponta da língua, sentindo os dedos dos pés deslizarem no chão amadeirado por conta das meias que usava. Estava quase conseguindo tirar a máscara do prego que a sustentava, até que o som de passadas rápidas e serelepes surgiram correndo atrás dele, cruzando todo o corredor e desaparecendo nas sombras do interior do templo.

Roger soltou um grito, assustando-se com aquilo, ainda mais por não ter visto quem tinha passado correndo atrás dele e cruzado o corredor e soltou outro mais estridente quando a máscara pendurada na parede caiu ruidosamente ao seu lado, quebrando-se em cinco partes no chão.

O coração de Roger deu uma batida apertado ao ver aquilo, sentindo como se sua tão almejada viagem ao exterior com a família tivesse ficado a muitos quilômetros de distância. Seus olhos começaram a encher d’água e enquanto tentava secá-los, vergonhosamente, ele não notou inúmeras partículas que se elevavam da máscara quebrada e se juntavam, aglutinavam, expandiam-se, separavam-se, giravam ao redor dela como um leve tornado de luz.

Sentindo uma estranha pressão ao seu lado, Roger tirou as mãos dos olhos e abriu os lábios, pronto para um enorme e berroso grito ao ver aquele vento de luz e brilho rodar em volta da máscara quebrada. Estava prestes a se levantar e sair correndo dali de meias mesmo, quando uma criança, aparentemente da sua idade, surgiu das luzes e dos brilhos da máscara.

Roger se encolheu e depois se aproximou da criança. Será que estava viva? Será que estava morta? Será que era coisa da sua imaginação? Roger tocou de leve no ombro da criança que estava toda encolhida em si mesma, como um gato faria se estivesse com muito frio.

Depois de um longo gemido, um rosto surgiu por entre as vestes vermelhas e brancas da criança, um rosto de olhos claros e sonolentos, um rosto de dentinhos afiados, um rosto de nariz fino, um rosto de menino-criança. E o que surpreendeu ainda mais Roger, foi notar que, bem em cima da cabeça de cabelos brancos do menino, existiam duas orelhas de gato meio gordinhas e fofas, brancas como seus cabelos.

– Uaaaaau! Orelhas! – Roger foi logo apertando as orelhas brancas do menino que estava ainda meio abobalhado de sono, mas foi logo desperto com as mãos frias de Roger tocando suas orelhinhas.

Roger soltava risadas enquanto apertava as orelhas do menino, que também começou a rir baixinho conforme as cócegas lhe desciam pelo couro cabeludo e estendeu suas mãos para apertar as orelhas do outro, mas ao perceber que Roger não tinha orelhas como as suas ele arregalou os olhos claros impressionados.

– Onde estão as suas?

– Estão aqui, ó – ele afastou os cabelos pretos de cima das suas orelhas e mostrou-as ao outro que fez uma careta.

– Elas são estranhas...e não têm pelos!

Roger sentou-se nas pernas cruzadas e segurou seus pés, deixando as costas eretas.

– Elas são normais, as suas é que são estranhas. Quem é você?

O menino olhou os movimentos que Roger fizera para se sentar e os copiou cerimoniosamente, o que fez Roger perceber que a parte branca das vestes do outro que ele achava ser roupa, eram na verdade uma extensão longa, peluda e muito mais fofa do menino. Ele sentiu seu queixo cair. Estava estupefato demais para qualquer comentário.

Enquanto o longo e espesso rabo do menino se agitava de um lado para outro atrás dele, ele ergueu as costas e ficou de frente para Roger.

– Eu sou um youkai. Um demônio. E você? – ele espichou o pescoço para frente, dando duas fungadinhas com o nariz fino. – Tem cheiro de humano!

– Um de-...demônio? Você?

Roger estranhou aquela palavra, observando com olhos franzidos, analisando cada parte do outro, ele não encontrou nada que o fizesse parecer um demônio.

– Você não parece um demônio...

– Ah, mas eu sou!

O menino sorriu abertamente, o que fez Roger ver seus dentinhos afiados e brilhantes. Mas não foi isso exatamente que fez Roger se arrepiar.

Quando o menino se afastou um pouco para trás, sentou-se sobre os joelhos, curvou a cabeça até o chão e disse numa voz quase mecânica:

– Meu nome é Renshin. Você me despertou. É meu grande mestre agora e mestre do templo. Quais são suas ordens?

Foi aí que Roger sentiu que havia cometido um grave erro.




29. Juni 2018 14:34:58 0 Bericht Einbetten 1
Das Ende

Über den Autor

C Clark Carbonera “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

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