Um Querido Toque Follow einer Story

C
C Clark Carbonera


Uma visita inesperada, ou talvez bem esperada por alguns, aparece ao lado da cama de um hospital. Qual será sua intenção?


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Kurzgeschichte
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Capítulo único


Num quarto de hospital, numa cama grande e de lençóis brancos, uma mulher se encontrava deitada. Os aparelhos ao redor dela soltavam zumbidos e chiados e como um coral eletrônico e robótico, vários bips eram cantados. Uma voz distante e singular chamava pela mulher.

O corpo dela, não tão pequeno quanto julgariam outros, era pesado, tão pesado quanto suas pestanas. A mulher ouvia a voz distante, mas se sentia tão, tão pesada, seu corpo era tão, mas tão estranho para ela, que lhe parecia estar se esfarelando com o cantar das máquinas e aparelhos do hospital. A voz a chamava continuamente, cada vez mais clara, mais nítida se fosse possível a nitidez como característica de um som.

Na última chamada, a mulher abriu os olhos lentamente, pesadamente, os pensamentos melados não aceitavam trabalhar para formar um raciocínio claro. Virando a cabeça para o lado, a mulher viu uma jovem, ou quicá um jovem, em pé, observando-a com um sorriso sincero, seus olhos transpassavam uma calma ímpar, suas fartas vestes claras cobriam seu corpo de tal maneira que não davam chances para se aperceber se era um corpo feminino ou masculino, posto que isso não era deveras importante.

– Olá, querida.

A mulher respirou uma vez, sentindo um peso incômodo no peito, a garganta raspando com a secura do ar. A jovem ou o jovem se aproximou e pousou a mão no esterno da enferma. O peso sumiu e a garganta ficou mais liberta. A mulher olhou surpresa e confusa para a pessoa.

– Quem é você? Um médico, uma enfermeira?

– Se você quiser que eu seja um médico ou uma enfermeira, eu assim posso ser.

A senhora pensou um pouco, sentando com dificuldade na cama, para logo ser acudida pela pessoa assistente. Ela agradeceu a ajuda, mas sentiu insegurança ao segurar a mão do outro. Depois de alguns segundos estudando o sorriso e a calmaria do ajudante, resolveu perguntar.

– Veio para me levar, não?

– Sim, é claro. Achou que prosseguiria sem companhia?

– Ora, não, não. Mas não achava que fosse assim, dessa forma tão, tão, tão...corriqueira, talvez?

A pessoa ao lado pendeu a cabeça e juntou as sobrancelhas não compreendendo o que a outra queria dizer com aquilo.

– Entenda, achei que quando isso fosse acontecer, que me surgiria uma carta lilás, com meu nome nela e uma...uma data!

– Uma carta lilás? Por que eu haveria de lhe entregar uma carta lilás?

A senhora da cama, balbuciou algo incompreensível com a sua falta de jeito, sendo-lhe apenas audível o seguinte:

– Apenas li algo assim numa história estranha de um escritor português...

– Oh, entendo.

Alguns segundos mais de silêncio, não fosse o coral de zumbidos e bips do quarto.

– Pois então, é agora, agora mesmo?

– Sim, agora mesmo – a pessoa estendeu a mão de dedos longos e finos, mas novamente a enferma olhou-a com suspeita. Não, eu erro, não era suspeição que havia em seus olhos de retina velha, era tristeza.

– Achava que seria alguém que eu conhecia que viesse me buscar... Serafino, minha irmã Cármen, ou a querida amiga Aurora.

– Se esse é caso, posso ser cada uma dessas pessoas.

– Como assim?

A questão surpresa que assaltava os pensamentos lentos da mulher, certamente está nos olhos do leitor desse conto. Mas era nada surpreendente aquilo ser falado por aquela pessoa que estendia a mão à outra.

Sem que fosse necessário um passo para trás ou gestual típico dos mágicos de rua ou de palco mais farto, a pessoa que antes não era nem jovem mulher ou jovem homem, transformou-se em Serafino, o marido amado e muito amado da mulher, que fez um “ó” com a boca de lábios finos e colocou as mãos espalmadas nas bochechas magras e de pele manchada.

– Serafino! Ó, meu Serafino! Meu querido, querido, amado!

Serafino, então, também sorriu abertamente, tal qual a jovem mulher ou jovem homem havia feito, e abraçou-a com firmeza e amor.

Lágrimas molhavam as vestes claras que o marido vestia, as quais prontamente foram secadas pelos dedos tão saudosos do esposo. Entre lágrimas e risadas, ela falou, conversou, desconversou, lembrou, sonhou todas as coisas que costumava falar, conversar, desconversar, lembrar, sonhar com o marido.

Ele balançava a cabeça, concordando com tudo, como sempre fez, sorria vez e outra ao ouvir o falatório da mulher que diziam coisas engraçadas, como velhas piadas ou antigas situações cômicas que aconteceram com ambos.

Depois do que pareceram horas de reencontro de almas que há muitos anos não se viam, pois que assim o era em verdade, a mulher se emudeceu e encarou Serafino com olhos sábios, aqueles olhos que só os velhos têm.

– Você deve me achar uma tola, mas não sou não.

Serafino levantou-se da cama onde estivera sentado por todo o tempo de conversa e segurou as mãos em frente ao corpo, solícito.

– Nunca achei você tola, de forma alguma.

– Nhé, sei – ela deu de ombros, ajeitando o lençol. – Fez isso, porque pedi, porque precisava. Precisava ver meu Serafino, tão belo...tão amado...tão querido...precisava disso, você vê.

– Pois que sei.

Mais alguns segundos de silêncio.

– Gostaria que eu fosse Aurora ou Cármen agora?

A mulher olhou-o como se fosse dizer um “sim” desesperado, mas refreou a vontade, achando que Serafino lhe tirava uma.

– Não. Não preciso. Já entendi. Se quer que eu vá com você, vou-me.

– Ótimo, fico muito feliz em ouvir isso! – e de fato a jovem mulher ou jovem homem que era agora Serafino parecia genuinamente feliz com a resposta da mulher.

Ela levantou-se da cama com dificuldade, aceitou a mão estendida e ficou de pé. Olhando na face da pessoa, pesar misturado com alívio, a mulher viu que Serafino desaparecera, era apenas a jovem mulher ou jovem homem.

– O lugar para que vamos, é onde estão meus queridos, meus estimados?

Ambos saíram do hospital e seguiram viagem.

– Sim, querida, pois que minhas mãos só a estes tocam.


5. Juni 2018 19:24:53 0 Bericht Einbetten 0
Das Ende

Über den Autor

C Clark Carbonera “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

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