Stradivarius Follow einer Story

inial_lekim Inial Lekim

Dentre as várias belezas que apreciou através da lente de sua câmera, nenhuma se comparava a Kakashi, a pele pálida, os cabelos prateados e seus olhos de lua. Ele era incomum, tão intenso e profundo quanto os sons de seu violino Stradivarius.


Fan-Fiction Anime/Manga Nicht für Kinder unter 13 Jahren. © Naruto e seus personagens pertencem ao Masashi Kishimoto, mas a Nori pertence a @Wathapanda e a @BooAlouca

#yaoi #Kakashi-Gai #naruto #universo-alternativo #DesafioMK #KakaGai #fns
Kurzgeschichte
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Olhos de lua

   

Fic escrita para o desafio do Mean Kunoichis, sendo meu tema escolhido "Você é um fotógrafo, e com certeza, aquele violinista cego, era a pessoa mais bela que você já tinha visto".

Não foi betada e nem será, por isso podem haver erros que passaram por mim.

Capa linda feitas pelas babys do AnimesDesign, eis o link - https://animesdesign-ad.blogspot.com.br/

Espero que gostem <3


***


   Grandes árvores floridas coloriam o ambiente, dando-lhe um aspecto encantador. O cheiro suave das flores espalhava-se com a brisa levemente fria daquele início de primavera e misturava-se ao cantar harmônico dos pássaros que voavam de galho em galho, como pontos multicoloridos enfeitando o céu, dando-lhe uma sensação de calma que a muito tempo não sentia. O estreito caminho feito de minúsculas pedrinhas que aparentavam brilhar sob os raios de luz que surgiam por entre as folhas das árvores, o fazia se recordar de uma antiga canção de ninar que seu pai lhe cantava as noites quando era criança. E aquela era apenas a entrada do bosque.

   Ele se afastou, pegando a máquina fotográfica de dentro de seu carro, ajustando o foco enquanto olhava para aquele caminho. Através da lenta da câmera, eram como pequenos diamantes brilhando a sua frente, convidando-o para entrar naquele espaço mágico.

   Nem mesmo toda a descrição detalhada que Genma lhe deu, após contar animadamente que havia encontrado o lugar perfeito para as novas fotos que Gai queria tirar, fazia jus a beleza que via a sua frente.

   Seguindo o caminho de pedras brilhantes, por detrás de sua lente, Gai fotografava cada mínimo e belo detalhe que conseguisse captar. As flores minúsculas que enfeitavam um pequeno arbusto à beira do caminho, um ninho de passarinhos no qual a mãe alimentava os filhotes, pequenos esquilos que subiam apressadamente pelo tronco das árvores e olhavam para ele com seus pequenos e redondos olhos curiosos.

   E ele pensou que talvez devesse levar Lee até lá. Sabia bem o quanto o filho adorava aqueles animaizinhos peludos e o quanto ficaria feliz de poder vê-los tão de perto. Talvez convidasse a Nori também. Seria bom que passassem um tempo juntos com Lee, especialmente para mostrar ao filho que tudo estava bem, mesmo após a separação. Para que ele visse que ambos os pais ainda eram amigos e estariam ali com ele em todos os momentos, mesmo que não houvesse mais qualquer relação romântica entre os dois.

   Ah sim, eles gostariam da ideia.

   Ao longe, risos infantis começaram a ser ouvidos em conjuntos com estridentes gritos alegres. E um sorriso surgiu em seu rosto, sentindo-se ser tocado pela alegria presente naquelas risadas.

   Caminhando em passos lentos, com os olhos atentos a qualquer mínimo detalhe que pudesse aparecer a sua volta, Gai chegou a uma pequena encruzilhada. Houve um momento de indecisão sobre o caminho a seguir.

   A sua direita, uma pequena placa de madeira indicava ser o caminho em direção a uma área de convivência. Talvez fosse por isso que as risadas das crianças fossem mais altas naquela direção. Gai pensou em ir até lá, tirar algumas fotos do local para que Nori visse que se tratava de um lugar seguro para levar Lee, mas ele sabia que não conseguiria nenhuma das fotos que planejara tirar.

   A sua esquerda, a placa indicava ser uma trilha de pouco mais de quinze quilômetros. E ao mesmo tempo em que isso o atraia, também o deixava levemente receoso. Gai gostava de fotografar em trilhas, as centenas de fotos espalhadas por sua galeria não o deixavam mentir, mas, pelo que Genma lhe disse, essa trilha entrava bem mais floresta adentro, e logo começaria a escurecer. Tão aventureiro quanto Gai era, andar por uma trilha desconhecida durante a noite, não era uma atividade a qual tivesse grande apreço. Não, foram-se os anos nos quais se arriscaria nessa insana empreitada em busca de fotos cada vez mais impressionantes. Ele tinha um filho para quem voltar agora.

   Balançou a cabeça negativamente, enquanto um leve riso descrente escapava por seus lábios, devido a antigas lembranças que surgiram em sua mente.

   E então seus olhos focaram-se no caminho à sua frente. A continuação da estrada de pedras brilhantes. A placa, aparentando ser um pouco mais antiga que as outras duas, informava que a poucos quilômetros havia uma pequena cachoeira e alertava para os perigos de se entrar no lago formado por ela, com grandes letras garrafais que diziam “CUIDADO! RISCO DE AFOGAMENTO!”.

   Ajustando o foco de sua câmera, Gai se posicionou exatamente no centro no estreito caminho, registrando a imagem que tinha a sua frente. E então se pôs a andar novamente.

   Pouco a pouco, os barulhos de antes ficavam para trás, cobertos pelo silêncio que pesava entre as árvores que o cercava e, cada vez mais, surgia a sua frente pequenos animais. Uma ninhada de pequenos coelhos brancos, pulando despreocupados por entre os arbustos que ladeavam o caminho, foram capturados pela lente de sua câmera, dando-lhe uma bela imagem que possuía um certo ar acolhedor, uma sensação de calmaria.

   Pássaros. Diferentes tipos de pássaros que dificilmente encontrava com tanta facilidade, voavam tranquilamente de um lado para o outro, pousavam sobre os galhos das árvores canto suas melodias. Azuis, vermelhos, amarelos. Era como uma explosão de cores voando pelo céu. E cada um deles era registrado por sua câmera.

   Mas então algo mais chamou a atenção de Gai.

   Um som ao longe, que começara a surgir entre os sons típicos da floresta. Algo como uma melodia suave, lamentosa.

   Conforme se aproximava de seu destino, o som tornava-se cada vez mais alto, misturando-se ao som da cachoeira, como uma pequena e triste orquestra.

   Era uma melodia que, ao mesmo tempo em que o fazia sentir vontade de dar meia volta e ir embora, também parecia chamá-lo. Atraí-lo a cada nota. Um som que entrava por seus ouvidos e invadia sua alma, que o fazia se relembrar de seu passado, fazendo-o se sentir dominado por uma sensação de nostalgia.

   Talvez houvesse sido isso que o fez continuar a seguir em frente. Ou talvez houvesse sido apenas sua teimosia. Porque dentre as várias coisas que Gai sabia ser, curioso com certeza era uma delas e, naquele momento, o que ele mais queria saber, era o que estava causando aqueles sentimentos em si.

   E qual não foi a sua surpresa ao chegar ao final do caminho e ver, por detrás de sua lente, a pessoa mais bonita que já havia visto em sua vida.

Seu dedo apertou o botão da câmera antes que pudesse sequer pensar em não o fazer. Não que pensar fosse fazê-lo desistir de registrar aquele momento. Com a respiração suspensa, os olhos levemente arregalados e o nítido acelerar das batidas de seu coração, Gai não conseguia deixar de admirá-lo por detrás da câmera.

   O tom alaranjado da luz do pôr do sol refletido nos fios do cabelo prateado, deixando-os com um diferente aspecto iluminado. A máscara escura que cobria parte de seu rosto pálido, e dava-lhe um certo ar de mistério que parecia encantá-lo cada vez mais. Uma das mãos que se movia de forma rítmica, arrastando o arco pelas cordas do violino, enquanto que com a outra o dedilhava da forma exata para produzir o som que o levara até ali.

   Mas Gai não se aproximou.

  Perdido em sua admiração, faltou-lhe coragem para sair do canto no qual estava. Mas nenhuma outra foto daquele homem foi tirada. Nem mesmo da adorável paisagem a sua volta, dos animais que ainda passavam por ali apesar da presença de ambos, do lago de águas cristalinas ou a cachoeira que tanto o interessava.

   Ainda sim, Gai continuou ali. Observando cada mínima mudança no tom da luz sobre a pele daquele que admirava ao longe. Até que o tom alaranjado se tornasse vermelho, e o vermelho rapidamente se escurecesse no típico tom azul da noite. E a luz pálida da lua os banhasse com seu tom prateado.

   Os olhos ainda se mantinham fechados, e Gai lutava contra o estranho desejo de pedir-lhe para abri-los. E foi no exato momento em que deu seu primeiro passo à frente, mais próximo daquele estranho encantador, que um incomodo e estridente barulho se fez presente, sobrepujando a melodia estabelecida a tanto tempo.

   As mãos pararam de se mover, ficando suspensas por um momento. E foi então que os olhos que Gai tanto desejava ver se abriram.

   E os olhos excessivamente claros, como pequenas réplicas da lua, o deixaram levemente chocado. O olhar fixo e desfocado prendeu-se em sua direção e, mais uma vez, sentiu-se incapaz de respirar.

Era como se ele o olhasse e através de si.

   O violino foi colocado lenta e cuidadosamente dentro de um estojo de madeira impecavelmente polido, aos pés de seu violinista. Uma das mãos tatearam pelos bolsos de sua calça até retirar um pequeno celular, e então o irritante barulho cessou.

  Gai observava seus movimentos com mais atenção, sem fazer qualquer barulho, tendo agora o medo de assustar o belo homem.

   E então ele se foi.

   Com uma longa bengala vermelha em uma de suas mãos e o estojo do violino em outra, ele entrou por entre as árvores e, subitamente, desapareceu no verde da floresta, deixando Gai maravilhado para trás.

   Pelos minutos seguintes, seus pés não se moveram, como se estivessem grudados na grama abaixo deles. E outra vez um barulho o despertou, mas dessa vez ele reconheceria aquele som em qualquer lugar. A voz alegre, alta e cheia de animação de Lee dizendo "Tem ligação, papai! Tem ligação!".

   E ele nunca conseguiria deixar de sorrir diante daquelas palavras. Isso, é claro, até ver o nome na tela de seu celular.

   FullPistola.

   E dessa vez seu coração quase parou ao perceber que horas eram.

   ᅳ Está atrasado! ᅳ Foi a primeira coisa que Nori lhe disse ao atender o telefone. Para seu alívio, ela não parecia estar brava. ᅳ Lee está perguntando por você sem parar, ele não quer ir dormir até que você chegue para colocá-lo na cama. ᅳ Nori parecia cansada, e Gai se sentiu mal por ter se esquecido do horário, sabendo que ela estava lidando com um caso extremamente complicado nas últimas semanas.

   E foi como se o momento mágico de antes se quebrasse, e ele passou a andar em passos rápidos pelo caminho de volta.

   ᅳ Me desculpe, Nori ᅳ respondeu, esperando que ela não ficasse chateada com ele. ᅳ Já estou voltando. Diga a Lee que logo chegarei aí.

   Dessa vez a paisagem a sua volta não o distraiu e a câmera ficou suspensa em seu peito. E talvez tenha sido por isso que ele chegou tão rapidamente em seu carro.

   Ele olhou para trás uma única vez, ignorando o desejo crescente de voltar aquele lugar. Mas Lee precisava dele e Nori precisava descansar. E então ele entrou no carro e se foi, tentando não pensar em nada além do que o esperava ao chegar em casa.

***

   E Lee o esperava.

   Mal parou em frente a porta, já conseguia ouvir os pés pequeninos saltitando no assoalho, e poderia até imaginá-lo olhando fixamente para porta.

   Mesmo que soubesse que Nori não se incomodaria de vê-lo entrar em sua casa, bateu na porta do apartamento porque sabia bem o quanto Lee gostava de abrir a porta para as pessoas, para mostrar o quanto ele já estava ficando grande e alcançava as maçanetas sozinho.

   Não deu sequer o tempo de dar uma terceira batida. Lee abriu a porta e se jogou em seus braços, felizmente seus reflexos rápidos impediram que o filho caísse diretamente no chão.

   Nori logo apareceu a frente deles, com os cabelos levemente bagunçados, usando uma enorme blusa totalmente desbotada que lhe cobria as coxas.

   ᅳ Sinto muito pela demora, eu acabei me distraindo. ᅳ Gai ajeitou Lee em seus braços, sentindo-o passar os finos braços por seu pescoço e pousar a cabeça em seu ombro.

   Nori sorriu, cruzando os braços e encostando-se na parede.

   ᅳ Isso não é algo tão surpreendente, você sabe. Eu ficaria impressionada se você não se distraísse.

   Gai sentiu suas bochechas queimarem, envergonhado pelas vezes em que se distraiu por horas enquanto fotografava e Nori precisava fazê-lo se lembrar de que haviam outras coisas que precisavam de sua atenção. Assim como aconteceu essa noite.

   ᅳ Nori ᅳ reclamou envergonhando, o que a fez rir ainda mais.

   ᅳ Tudo bem, tudo bem… ᅳ Ela se aproximou, acariciando os cabelos de Lee, que parecia lutar para manter os olhos abertos. ᅳ Leve-o para casa. Ele pensa que pode nos enganar, mas está caindo de sono.

   Gai passou um braço pelas costas de Lee, levantando-o um pouco mais para deixá-lo confortável.

   ᅳ Você também deveria ir dormir ᅳ mencionou.

   Nori passou os dedos pelos cabelos curtos e desviou os olhos dos seus.

   ᅳ Eu sei ᅳ concordou, enquanto revirava os olhos pensando em tantas outras vezes em que Gai lhe dizia a mesma coisa. ᅳ Estou revisando alguns documentos e logo que terminar vou tentar dormir um pouco. ᅳ Gai conhecia aquele olhar meio distante em seu rosto, e sabia que muito provavelmente Nori passaria a noite em claro presa ao trabalho outra vez.

   Gai pensou em protestar, mas o brilho ameaçador nos olhos de Nori o fizeram mudar de ideia. Ela parecia tão preocupada com esse novo caso, que seria melhor apenas passar por ali pela manhã para ao menos fazê-la ter uma refeição decente.

   Assim, deixando Nori voltar para seus papéis, Gai se dirigiu para porta em frente e entrou em seu apartamento.

   Ele se lembrou de como foi estranho a princípio, logo que se separaram, morando um em frente ao outro. Mas então eles entraram em um tipo de rotina agradável para ambos, sem contar que Lee ainda conseguia conviver com os pais da mesma forma que antes.

   Passando pelos brinquedos espalhados pela casa, Gai chegou ao quarto de Lee. Ele colocou o filho em sua cama, fazendo-o abrir os olhos e remexer-se tentando voltar para seu colo. Então ele deitou-se ao seu lado, tendo os grandes e brilhantes olhos escuros de Lee atentos sobre ele.

   ᅳ Papai, me conta uma história ᅳ pediu, jogando-se em seu peito.

   Dentre as tantas histórias infantis que estavam gravadas em sua mente, foi uma criada de última hora que ele resolveu contar a Lee.

   O bosque encantado do solitário violinista, que tinha os olhos de lua e vivia à beira de um lago.

   E Lee ouvia a cada palavra atentamente, admirado pela música mágica do violinista e enchendo-o de perguntas entre um bocejo e outro até que finalmente rendeu-se ao sono.

   Gai ficou mais um pouco ao seu lado, admirando seu filho em seu sono. Quando conseguiu deixá-lo sem correr o risco de fazê-lo acordar, Gai voltou a sala onde havia deixado sua câmera. Jogou-se no sofá, ajeitando-se entre as dezenas de almofadas que mantinha ali, e passando uma a uma das fotografias tiradas naquele dia, até chegar à última. O pôr do sol brilhando sobre o violinista que tocava tão delicadamente.

   E ele a admirou. Até adormecer e poder vê-lo outra vez em seus sonhos.

***

   Foi preciso exatamente uma semana até que Gai desistisse e se deixasse levar pelo desejo que o impulsionava a voltar ao mesmo lugar em que viu o estranho violinista.

   E ele ficou dividido entre a surpresa e o alívio ao vê-lo ali, ao final do caminho de pedras brilhantes, tocando seu violino em frente ao lago. A mesma melodia de antes.

   Os olhos mantinham-se fechados como da primeira vez, e a máscara ainda lhe cobria parte do rosto.

   E, pela segunda vez, não conseguiu pronunciar uma única palavra diante da cena a sua frente. Nem mesmo a câmera entre suas mãos foi capaz de captar toda a beleza daquele momento.

   Ele não entendia absolutamente nada a respeito de violinos e muito menos sabia como tocar um, mas, para ele, não havia ninguém que tocasse tão bem.    Entretanto, Gai sempre precisava ir embora e deixá-lo com sua música. Sempre se afastando como se nunca estivesse estado lá, levando consigo as lembranças dos minutos em que permaneceu observando atentamente cada um de seus movimentos.

   Mas ele voltava. Todos os dias, nem que fosse por apenas alguns minutos. E o violinista sempre estava lá, tocando a mesma melodia, com os olhos fechados até que a lua surgisse no céu iluminando-o com sua luz prateada.

   E todos os dias Gai sentia-se tentando a lhe falar algo. A elogiar sua música, a perguntar seu nome. E todos os dias falhava, e continuava a referir-se a ele como o violinista.

   Nori foi a primeira a perceber que algo estava acontecendo. Talvez fosse pelo sorriso bobo que via em seu rosto todos os dias, ou talvez Lee tenha lhe falado sobre as novas histórias de ninar que Gai passou a lhe contar todas as noites.

   ᅳ Bosque encantando, ein... ᅳ E assim Gai descobriu que se tratava da segunda opção. Pelo que pode entender, em uma das noites em que dormiu com a mãe, Lee pediu que ela lhe contasse as mesmas histórias que Gai. E, bom, Nori sempre foi o tipo de pessoa que soube compreender o que havia nas entrelinhas. ᅳ Vou precisar mesmo lhe perguntar sobre esse tal violinista “com olhos de lua”?

   Nori havia o convidado para tomar uma cerveja, já que, segundo ela, a correria do trabalho não a deixava sair para se distrair por uma noite.

   E Gai engasgou-se com a bebida, ao mesmo tempo em que o sangue se concentrava em seu rosto fazendo-o senti-lo queimar. Nori o encarava com os olhos brilhante em expectativa, como se estivesse prestes a ouvir a maior fofoca dos últimos tempos. E ele lhe disse tudo, porque sabia que não adiantava esconder as coisas daquela mulher que o conhecia tão bem.

   Lhe contou sobre o lugar que Genma lhe indicou para tirar novas fotos, sobre as árvores, as flores e os animais. E sobre o violinista, com sua melodia inalterada e os olhos fechados. Sobre como a luz do sol e da lua refletia sobre seu corpo, dando-lhe um aspecto mágico, diferente de tudo que ele já havia visto até então.

     E, entre um gole e outro da cerveja barata que bebiam, Nori sorria.

   Então ele lhe falou sobre sua incapacidade de dizer qualquer coisa aquele homem. O quanto ficava sem ação, sem palavras, sem chão.

      ᅳ Você sabe, não pode ficar apenas o olhando eternamente sem dizer nada. ᅳ Nori colocou sua garrafa no chão seu lado e olhou dentro dos olhos desanimados de Gai. ᅳ Além de ser algo estranho e, francamente, totalmente fora do seu padrão de comportamento normal, é bem óbvio que você está interessado nesse cara. Então fale com ele! O máximo que pode acontecer, é ele te dizer um não... ou chamar a polícia. ᅳ Ela deu risada de sua própria piada, enquanto os olhos de Gai se arregalaram com a possibilidade. ᅳ Mas ai você diz que quer sua advogada e me liga.

   E assim, Nori fez questão de lhe explicar detalhadamente cada uma das formas que ela poderia imaginar dele se aproximar de seu violinista. Gai queria negar, dizer que ela não precisava fazer nada disso, mas, ainda sim, ele gravou cada uma das dicas que lhe foi dada, e imaginou cada uma das cenas em que poderia usá-las.

   Sua mente o preparou para cada situação imaginável, fazendo-o sentir-se decidido a tomar uma atitude. Ele só não esperava que no dia seguinte, ocorresse a única coisa que ele não havia planejado.

   A primeira coisa que Gai percebeu, foi a mudança da melodia.

   Era um som mais triste, melancólico. Que parecia combinar tanto com o clima nublado daquele fim de tarde. As pedras não brilhavam sob seus pés, tornando seu caminho tão simples quanto qualquer outro.

   E o violinista parecia diferente.

   Seu rosto não possuía a expressão serena a qual já havia se acostumado, os ombros tensos, as mãos cobertas moviam-se mais lentamente. Mas os olhos mantinham-se fechados. Apertados firmemente como se quisesse impedi-los de se abrir a qualquer momento.

   E dessa vez, Gai conscientemente desistiu de lhe dizer qualquer coisa. Até que percebeu que se tratavam de ataduras cobrindo suas mãos.

   ᅳ Você está bem?! ᅳ Sentiu-se em choque ao escutar o som de sua própria voz, alta, com um tom tão preocupado.

   As mãos do violinista pararam, dando fim ao som lamentoso. Os olhos se abriram, surpresos por um momento, e se viraram em sua direção, encarando-o com tanta intensidade que sentia como se pudesse realmente vê-lo. Gai tinha a impressão de que ele sorria, mas a máscara cobrindo seu rosto não o deixava ter certeza.

   ᅳ Então você realmente pode falar. ᅳ O tom desinteressado o chocou, ao mesmo tempo em que a voz grossa fez com que sua pele se arrepiasse. ᅳ Eu já estava começando a pensar que você fosse mudo.

   A princípio, Gai estranhou a forma tão despreocupada com que ele lhe falava. Não havia qualquer receio em sua voz, como se ele soubesse o tempo todo que Gai estava ali. E talvez ele realmente soubesse, afinal, não se dizia que quando uma pessoa era privada de um sentido os outros tornavam-se mais aflorados?

   ᅳ Eu... ᅳ E Gai não sabia o que dizer, fazendo-os cair em um silêncio estranho, levemente constrangedor.

   O olhar fixo do violinista em si parecia questioná-lo. Acusá-lo sobre todo o tempo em que se manteve o observando em silêncio. E a ele só restava desviar o olhar pela vergonha que o dominou.

   ᅳ Água ᅳ murmurou o violinista, de repente. ᅳ Água quente... Minhas mãos. ᅳ Ele colocou o violino em seu estojo com o mesmo cuidado de sempre e então voltou a mesma posição de antes, dessa vez com ambos os braços jogados ao lado de seu corpo. ᅳ Você parecia preocupado. Derramei a água quente acidentalmente em cima das minhas mãos. Como o bom cego que sou, isso acontece de vez em quando.

   Seguindo os instintos que gritavam dentro de si, Gai se aproximou. Houve um breve momento de hesitação, antes que pegasse uma das mãos enfaixadas entre as suas, sentindo o calor da pele através das ataduras.

   E então Gai sentiu como se estivesse em um daqueles poucos momentos decisivos da vida. Como quando saiu de casa, decidido a viver sua vida por contra própria; quando conheço Nori e, no dia em que, repleto de coragem, a pediu em casamento; quando ficou assustado e deslumbrado ao saber que seria pai, e o momento em que pode colocar os olhos sobre seu filho pela primeira vez.

   Como se apenas em um único segundo, toda sua vida pudesse mudar.

   E ao olhar tão perto nos olhos do violinista, os olhos de lua que pareciam poder desvendá-lo mesmo que não o vissem, Gai sabia estar vivendo aquele mísero segundo. E ele o aceitou, como fez em todos os outros momentos de sua vida.

   ᅳ Você precisa passar uma pomada própria para queimadura ᅳ o tom de voz baixo, tão incomum de seu normal, lhe parecia estranho. E ele sorriu pelo nervosismo que sentia. ᅳ Meu nome é Maito Gai.

   O violinista não retirou a mão das suas, mas seus olhos se abaixaram como se estivessem tentando vê-las uma sobre a outra.

   ᅳ Kakashi ᅳ respondeu baixinho, num murmúrio que Gai não escutaria se não estivesse tão próximo a ele.

   E assim seu violinista passou a ter um nome.

***

   Pouco a pouco as coisas passaram a mudar.

   Kakashi parou de tocar a mesma melodia todos os dias. Havia sempre algo novo, algum antigo clássico que ele tocava para Gai, após ficar surpreso por saber que ele conhecia tão pouco sobre as músicas clássicas. E haviam suas composições. As que tocava com uma delicadeza que Gai ainda não havia visto.

   E as melodias passaram a se misturar as vozes cada vez mais conhecidas. No início Kakashi falava pouco, mais sobre seus compositores favoritos e sobre as músicas que gostava, e em troca Gai lhe dizia sobre as fotografias que tirava. E lentamente as conversas passaram a ser mais íntimas. Sobre o passado, o presente e o futuro. E quando se deram conta, era como se se conhecessem a anos.

   Kakashi sabia sobre Nori, Lee e seu pai. Ele conhecia toda a história da vida de Gai, desde que ele era apenas um garoto magricela correndo pelas ruas do bairro onde morava junto com tantas outras crianças, ralando os joelhos e enchendo-se de lama. Ele sabia sobre seus encontros fracassados e os poucos namoros que não deram certo. E se surpreendeu ao saber que Gai era tão amigo da ex-esposa.

   E Gai soube do acidente que matou seu pai e tirou sua visão. Kakashi lhe contou que o violino que tocava era uma herança de seu pai, e estava na família a anos. Um Stradivarius, ele lhe disse. Não que isso fizesse alguma diferença para Gai, mas Kakashi lhe explicou o quanto consideravam esses violinos tão especiais, especialmente quando eram tão antigos quando o seu.

   Eles se tornaram confortáveis uma para o outro. E talvez tenha sido que por isso que, um dia, sentados lado a lado na grama seca, Kakashi tenha lhe pedido para tocar seu rosto. Porque ele queria vê-lo. E Gai o deixou tocá-lo.

   Com os olhos fechados, ele sentiu os dedos frios deslizarem por sua pele, tocando delicadamente as sobrancelhas grossas e seus olhos, passando por seu nariz, acariciando suas bochechas e contornando sua mandíbula, passando os dedos por entre os fios de seu cabelo. E ele se demorou sobre seus lábios. Tocando-o lentamente. E Gai abriu os olhos ao sentir a respiração quente sob a máscara em seu rosto e os lábios cobertos tocarem os seus.

   Então se afastou, passando a falar sobre qualquer outro assunto, enquanto Gai mantinha-se o olhando espantado.

   Com o tempo, chegou o dia em que Gai o apresentou para Nori e Lee, como o amigo violinista com quem tanto passava parte de seu dia. E Lee o adorou à primeira vista, porque ele era como “o herói das histórias que o papai contava a noite”. E tão inteligente como era, Lee percebeu que Kakashi era diferente, como seu amiguinho da escola que não podia ver como as outras crianças. E Nori o manipulou, colocando-o sobre sua asa como se estivesse ganhando um novo melhor amigo, contando-lhe todas as histórias engraçadas sobre Gai que ele ainda não conhecia. E Kakashi lhe apresentou os poucos amigos que tinham.

   E assim Kakashi passou a ser uma presença constante em suas vidas. Conversando com Nori de assuntos que Gai não conhecia, ensinando Lee a tocar em seu antigo violino, porque a criança insistiu em querer aprender após vê-lo tocar enquanto conversava com Gai.

   E então chegou o dia em que Gai pediu para tocar em seu rosto, deixando-o surpreso e fazendo-o colocar seu violino de lado para sentar-se de frente para ele, tal como Gai fizera da primeira vez.

   Gai começou por seus cabelos, sentindo a maciez ao deslizarem por seus dedos. As sobrancelhas, tão finas se comparadas as suas. Os olhos até então fechados, se abriram conforme seus dedos se aproximavam do início de sua máscara. E foi com um leve aceno que Gai tocou na borda, puxando-a delicadamente para baixo, até deixar o tecido esquecido em seu pescoço. E seu coração se acelerou ao ver pela primeira vez a face de Kakashi completamente despida. A pele um pouco mais pálida, as bochechas levemente coradas, uma adorável pinta próxima ao seu queixo, os lábios entreabertos. E dessa vez, Gai os tocou com os seus, sem qualquer barreira que o impedisse de sentir seu toque.

   Foi um beijo calmo, apesar da urgência presente destro de si. Como se o estivesse conhecendo. E Kakashi aproximou o corpo do seu, pressionando-o. As mãos se agarraram ao seu cabelo, mas ainda sim ele não alterou o ritmo. Então eles se separaram, mas dessa vez Kakashi não se afastou. Ele permaneceu onde estava, segurando-o da mesma forma, com a respiração levemente descompassada e um singelo sorriso em seu rosto.

   E ali teve a certeza de que dentre as várias belezas que apreciou através da lente de sua câmera, nenhuma se comparava a Kakashi, a pele pálida, os cabelos prateados e seus olhos de lua. Ele era incomum, tão intenso e profundo quanto os sons de seu violino Stradivarius.

16. April 2018 02:03:06 9 Bericht Einbetten 4
Das Ende

Über den Autor

Inial Lekim 22 anos. Pisciana. Escritora. Sonhadora. Fotógrafa e Desenhista quando surge inspiração. Vocês já ouviram a palavra de KakaGai hoje?

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Boo Alouca Boo Alouca
PATRÍCIA, EU NÃO TÔ PAGANDO INTERNET PRA VOCÊ ME ATINGIR E ME HUMILHAR DESSE JEITO!  Mentira, é exatamente pra isso que eu tô pagando. EU TÔ IMPACTADA, EU TÔ NO CHÃO, MAS TÔ ADORANDO O GELADINHO NAS COSTAS!  Você e Teresinha, se unam e dêem um cursinho de descrição de cenário e paisagem, por favor, eu tô implorando!  Isso foi tão poético, tão fofo, tão lindo... TOMARA QUE EU EXPLODA DE EMOÇÃO E ROMANCE CÁLIDO!  Nossa Nori Fullpistola tá vivíssima! AAAAAAAAAAAAH!  O BEIJO NO FINAL!  Me encontro em total estado de plenitude ❤️ Eu sou grata pela existência dessa obra ❤️
3. Mai 2018 21:50:37

  • Inial Lekim Inial Lekim
    A FAMÍLIA SEGUE VIVA E UNIDA BRUNA! Deos sabe como consegui fazer algo tão longo com tanto detalhe, mas o que importa mesmo é VEJA O LEE NENÉM! EU NUNCA ME CANSO DE RELER AS CENAS DO LEE AAAAAAAAAAAA 22. September 2018 12:29:32
Políbio Manieri Políbio Manieri
MINHA FAMILIA ESTÁ VIVA PATRICIAAAAAAAAAAAAAEU TO EM CHOQUE EU TO FALICIDA Que historinha mais gostosa meu deus do cééu. Você manteve uns toques de poesia em meio a leveza de um roteiro tão simplezinho mas repleto de detalhe especial. Eu simplesmente adorei o clima de familia e amizade que você traçou entre o gai, lee e nori, e a inserção do kakashi nesse meio tão confortável. "leve" é exatamente a palavra certa para descrever a sensação. Eu simplesmente adorei esta experiência, principal principalmente nos pequenos detalhes preciosos como o toque do celular do gai, o kakashi ensinando lee ao violino, a conversa e aconselhamento com a Nori... EU TO EM PRANTOS OLHA SÓ ESSA FAMILIA MEU DEUS FINALMENTE PATRICIA A PRIMAVERA CHEGOU
17. April 2018 16:29:12

  • Inial Lekim Inial Lekim
    Eu tô impressionada que consegui fazer uma one tão grande, porque minha objetividade dificulta muito isso. Ai, Nori é um neném trazido pra complementar a família, só consigo imaginar ela sendo aquela ex-mulher super amiga do ex-marido. E aquele Lee ganhou meu coração de uma forma que você não faz ideia, minha vontade de tacar ele em tudo que é fic tá grande pra cacete! FINALMENTE CHEGOU A PRIMAVERA DA MINHA VIDA DE FANFIQUEIRA, AGORA SAI AS FIC TUDO AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA 19. April 2018 11:54:41
  • Inial Lekim Inial Lekim
    Eu to é louca pra fazer uma continuação de Stradivarius, só pra mostrar mais da relação do Lee com todo mundo, inclusive com o Kakashi. 19. April 2018 11:56:28
Ariane Munhoz Ariane Munhoz
AAAAAA COMO VOCÊ ACABA COMIGO ASSIM, PATRÍCIA?! Que fic linda, que fic maravilhosa. Eu to no chão com a delicadeza dessa narrativa, com esse agai fotógrafo e esse Kakashi cego violinista! Meu Deus! Essa história é tão bem escrita e tão leve que a gente nem nota o quão rápido avança nela, querendo sempre mais. E essa Nori que não dá pra odiar? Gente, que nenê. Adorei o Lee chibi, dá vontade de colocar embaixo do braço e levar pra casa. Sou fascinada por Stradivarius e pelas suas lendas, como a do violino vermelho e a maldição que o acompanha. Muito boa história, Paty, meus parabéns pelo excelente desenvolvimento do tema!
17. April 2018 05:46:57

  • Inial Lekim Inial Lekim
    Eu me surpreendi por não ter notado que ela tava bem maior que as outras! Ai, finalmente consegui fazer o Gai trabalhando em alguma coisa que não envolvesse luta ou atividade física, sinto que atingi um novo patamar na vida HUEHUEHUEHUEHUE Ai, depois que as meninas criaram a Nori, ela virou um bebê que eu to tacando em tudo que é possível. E ESSE LEE, MEU DEUS MELHOR DESCRIÇÃO QUE JÁ DELE NA MINHA VIDA <3 QUERO FAZER MIL FICS SÓ PRA USAR ELE! Olha, sobre os Stradivarius, sei é quase nada, exceto que o som dos violinos é muito lindo. Nem tava sabendo de maldição nenhuma, senão tinha usado aqui. Ah, mas fico muito feliz que se tenha gostado <3 19. April 2018 12:03:16
Mandy Mandy
VOCÊ QUER ME MATAR? VOCÊ DEVE ESTAR QUERENDO ME MATAR! E MESMO SE NAO QUISER CONSEGUIU PORQUE EU TO MORTA DE TANTO CHORAR EMOCIONADA COM TUDO DE LINDO QUE TEM NESSE CARALHO DESSA FANFIC MARAVILHOSA Primeiramente uau que lindo o divórcio amigável do Gai e da Nori (ALIÁS O CONTATO DELA COMO FULL PISTOLA SJ PASSEI MAL), é bastante incomum uma fanfic que não demonize o divórcio e eu tô amando ver um ponto de vista que não seja "nossa o divórcio fodeu a vida de todos" é isto. Gai e Nori amigos depois do divórcio é minha nova religião. Agora deixa eu surtar com o kakagai AI MEU CARALHO DE ASA COMO VOCÊ ME JOGA UMA BOMBA DE FOFURA DESSAS E SAI CORRENDO VOLTA AQUI PRA EU TE ENCHER DE PORRADA DEPOIS ENCHER DE BEIJO EU TO AAAAAAAA Quando Kakashi virou pro Gai "ah então você pode falar" o berro que eu dei não pode ser descrito de nenhuma forma porque foi muito grande, e a forma suave com a qual você descreveu a evolução da relação deles eu quis gritar e estampar num outdoor que kakagai é muito cannon sim, E O LEE AMANDO KAKASHI GENTE OLHA SÓ ESSES NENÊS OLHA ESSA FAMÍLIA EU TO JOGADOS SOMA Ah miga me ensina a descrever as coisas tão bonitinho assim viu que eu me senti nos bosques da Disney sem sair da cama. Escritora da porra você ein. Obrigada por foder meu psicológico de uma forma boa, paz.
16. April 2018 19:53:41

  • Inial Lekim Inial Lekim
    COMO ASSIM EU AINDA NÃO TINHA RESPONDIDO ESSA MARAVILHOSIDADE DE COMENTÁRIO? Pois bem, to aqui agora... mano, stradivarius foi a precursora da enxurrada de plots familia que surgem todo dia na minha mente, e se não faz ideia do quando fiquei feliz quando vocês gostaram da história (ainda que eu mesma tivesse ficado um pouco receosa de postar). Cara, o relacionamento da Nori com o Gai é a coisa mais linda desse mundo. Eu sempre adoro escrever a dinâmica desses dois, seja eles como divorciados ou apenas colegas - assim como a forma que a Nori age com o Kakashi e a amizade que eles tem. E Lee neném AAAAAAAAAAAAAA FOI A MELHOR COISA QUE JÁ ESCREVI NA MINHA VIDA <3 inclusive tenho que terminar as outras huehuheuehuehe Te amo <3 22. September 2018 12:24:40
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