Mirrors Follow einer Story

haruka_sama Haruka Fujoshi

Ezra Reese era um garoto com problemas: não sabia falar com pessoas (e nem agir perto delas), só teve namorados idiotas e as memórias do colégio ainda o perseguem ― além, é claro, de seu expressivo ódio por espelhos. Afora tudo isso, o rapaz encontrava-se, aparentemente, apaixonado por seu colega de trabalho incrível e quase inalcançável. Já Liam Maximus era um cara normal. Ou tanto quanto um ser humano como ele poderia ser. Piadista nato e falador, é um homem que nunca se apaixonou verdadeiramente por alguém. Quando ambos se encontram por acaso em uma mercearia num acidente relativamente cômico, mal podiam imaginar as mudanças que causariam um na vida do outro. Porque Ezra odiava espelhos. E Liam tinha aparecido para mostrar que eles poderiam não ser tão ruins assim.


LGBT+ Nicht für Kinder unter 13 Jahren.

#romance #narrativa #drama #sexo #fluffy #comédia #angst #homossexualidade #nudez
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O Garoto da Mercearia



―Oi, Ezra.


O coração do garoto se acelerou automaticamente.


―Hm, eu... hã, oi. Oi, Tommy. ―Ele acenou com a mão que estava segurando um sache de molho de tomate, fazendo-o cair no chão. Ezra, que já sentia as bochechas queimando, se perguntou duas coisas naquele momento: numero um, é possível apenas o rosto de um ser humano entrar em combustão espontânea? E número dois, é possível alguém ser tão idiota quanto eu? Para as duas perguntas, ele achava que a resposta era um provável grande e sonoro NÃO. Ele se abaixou para pegar o sache, completamente desajeitado, enquanto observava o sardento franzir as sobrancelhas e seguir seu caminho.


Reese imaginou o menor pensando algo como nossa, como esse gigante é tapado, mas resolveu não refletir muito sobre o assunto.


Ele não era exatamente bom conversando com pessoas desconhecidas. Nem conhecidas. Na verdade, nem seus amigos mais próximos.


Ok, ele não era bom com seres humanos num geral.


E, obviamente, isso se aplicava ao seu querido colega de trabalho, pelo qual descobrira palpitações do coração um pouco mais frenéticas do que o usual. Aquele suor nas mãos e a vontade insana de ser um avestruz apenas para se esconder quando aquele menino bonito passava não podiam significar algo diferente. Ou, ao menos, era o que ele pensava.


Com um suspiro e um ajeitar de óculos, o rapaz alto voltou a arrumar a prateleira.





Ezra Reese odiava espelhos. Mesmo. Ele não suportava aquelas coisas.


É que, na realidade, ele não era muito fã de si mesmo, então também não era muito fã de olhar o próprio rosto. Quer dizer, o que tinha para gostar ali? Um garoto entediante, alto demais, míope, extremamente tímido, ficava vermelho por qualquer coisinha, magrelo e gay. Se ele fosse outra pessoa, passaria bem longe de si mesmo.


E, é claro, o destino adorava brincar com a sua cara. Sua mãe, a espalhafatosa Beth Reese, resolveu que querido, você não tem espelho nenhum! Como você vai se arrumar? E, bom, quando ele se mudou para um apartamento mais próximo a faculdade, ela lhe comprou um guarda-roupas e, sim, isso mesmo que você está pensando, com aqueles espelhos enormes que serviam como portas.


Ezra quase teve um surto quando viu aquilo. E aquele maldito móvel ficava ao lado da sua cama, de forma que, todos os dias, quando acordava, a primeira coisa que via era seu reflexo lhe encarando com a pior cara amassada do mundo.


Ele até já tinha cogitado a idéia de fazer algo a respeito ― desde cobrir com um simples lençol até assaltar uma lata de Spray preto do pessoal de artes e cobrir aquela merda toda ― Mas, por fim, a preguiça e o medo de ofender Beth caso ela fosse lhe visitar o venceram.


Dessa forma, naquela quarta-feira que tinha de tudo para ser apenas mais um dia normal, o garoto se sentou na cama às exatas sete e meia da manhã, quando seu despertador tocou. Ele olhou para o lado, encarando seu próprio rosto ainda sem óculos com uma expressão de o que eu ainda estou fazendo vivo? Claramente estampada ali. Depois, ele seguiu sua rotina normal: comer alguma coisa, estudar um pouco, ver o noticiário da manhã e, logo depois, se arrumar para o trabalho.


Ele pegava às dez e dez. Talvez um pouco tarde, principalmente para um repositor, mas Jake dizia que estava ótimo. O homem de bigode sempre chegava mais cedo, talvez umas sete horas, com Lisa em seu encalço.


Reese nunca tinha notado (Se bem que o garoto era meio lento para notar as coisas) sobre o, bom, envolvimento do chefe. Esse, inclusive, foi o tema da primeira conversa propriamente dita que teve com Saint Blue. 


Para simplificar as coisas, Jake e Lisa saíram para pegar uns produtos da loja, depois de se certificarem que Tommy e Ezra eram confiáveis e seguros o suficiente para tomar conta da loja por alguns minutos (ou, no caso, deram uma olhada pra ver se as câmeras estavam funcionando). Enquanto estavam parados observando os dois sumirem pela esquina, Tommy comentou casualmente:


―Esses dois são nojentos, não?


Ezra levou uns três segundos para notar que o menor se dirigia a ele.


―Ah, hm... Por quê? ―Ele sentiu seu coração bater um pouco mais rápido. Sempre que ele falava em voz alta aquilo acontecia, já nem era mais uma novidade. Ele até pensou que estava um pouco melhor com aquela coisa de falar do que há alguns anos.


Tommy o olhou, com aquela cara de Não Acredito Que Você Realmente Está Me Falando Isso – Vol. 2.


―O que? ―Questionou o rapaz, confuso.


―Ezra, eles são amantes.


―Hm... não, o... o Jake não é casado? ―Disse o maior novamente. Ele também podia ser um pouco inocente, às vezes.


―Esse é o ponto.


―Ah.


De cima, o mais velho observou os cílios espessos do sardento batendo nas lentes dos óculos. Blue suspirou, parecendo ponderar sobre algo, e olhou para o seu rosto, lhe encarando.


―Você é bem alto. É bonito, até.


Ezra corou mais.


―Hã, não. Não sou. Eu sei disso.


―É, sim. ―Rebateu o mais baixo. ―Olha, eu nem te conheço direito, mas... Tenho a impressão de que as pessoas não falam isso pra você com freqüência, o que não significa que não seja verdade. ―Ele começou a andar de volta para o caixa, deixando um Ezra Reese totalmente confuso e envergonhado para trás. O garoto parou e se virou. ―Eu não costumo dizer esse tipo de coisa pras pessoas, não normalmente, ainda mais quando... sabe, como eu já disse, eu nem te conheço direito. Ai, hm... é, é isso. Vou voltar pro meu lugar antes que eles, bem, eles votarem e resolverem limpar a boca suja de porra e outras coisas na pia do banheiro, então... fui.


Depois, voltou a fazer seu caminho.


Reese engoliu seco e, em seguida, tentou se concentrar no corredor de doces.





Ele é muito legal, pensava Ezra, observando Tommy franzir o cenho enquanto conferia o troco de um senhor meio corcunda. Lisa, no segundo caixa, lixava as unhas postiças pintadas de vermelho.


Digo, ele mal conhecia o menino mais jovem, muito menos além daquela loja. O máximo que sabia era sobre Matt, já que o próprio Blue já tinha comentado por alto a respeito dele. Já tinha visto o menor com aquele cara quase tão alto quanto si, aquela pinta de rockeiro e a Kawasaki Ninja. Eles pareciam mais bons amigos do que qualquer outra coisa, então não deu muita bola.


Mas tinha algo nele, o jeito como falava, talvez a aparente irritação constante, o foda-se que adorava jogar pras coisas, e, uau, como se esquecer do dia em que ele enxotou o mini cleptomaníaco filho de um advogado? Saint Blue era muito legal nesses pequenos feitos, ninguém poderia negar.


Nossa, Ezra nem sabia se Blue era gay ou não, mas o que ele pensava que sentia parecia ser tão intenso para ser refreado...


Reese suspirou, voltando seu olhar para examinar o preço que estava na etiqueta das latas de Dr. Pepper quando o caixa de cabelos revoltos levantou o rosto. O rapaz alto ajeitou os óculos e, levemente corado, virou-se e seguiu para o corredor de biscoitos para repor os Cheetos e Lay’s ― coisas que as crianças que iam ao lugar, por algum motivo estranho, adoravam misturar.


Então, poucos minutos depois, aquela quarta-feira totalmente comum foi quebrada. Quebrada quando um homem entrou pela porta de vidro do lugar, fazendo o trim característico do sininho soar pela loja.


A princípio, Ezra não o viu. Claro, ele estava no corredor de biscoitos, então não tinha como o ver exatamente de primeira.


Ok, na realidade, ele só “viu a oportunidade” quando ela, literalmente, caiu aos seus pés.


―Ai, puta que o pariu! ―Disse o homem, agora no chão, numa espécie de grunhido. Reese levou as mãos à boca, derrubando um pacote de biscoito das suas mãos e, se você está se perguntando se as coisas costumavam a cair das mãos dele com freqüência, a resposta é um grande e sonoro SIM. Ele passava a mão na cabeça, como se tivesse batido em algum lugar que, o maior suspeitava, tinha sido a prateleira.


―Oh, meu Deus, senhor, me desculpe, me desculpe, eu... ai, que droga. ―Ele estendeu as mãos para o homem no chão, que as pegou, firme. O rapaz fez certa força para cima, mas apostava que, em realidade, o cara tinha se erguido completamente sozinho.


Quando o outro levantou, Ezra pôde ter uma visão dele por inteiro.


A única palavra que tinha para descrevê-lo era caramba.


Ele não era muito alto, ou pelo menos não tão alto Reese. Talvez um metro e setenta e cinco ou um pouco mais. Os cabelos castanhos claros dele iam até um pouco abaixo das orelhas, mais ou menos como os do Kurt Cobain, e se ondulavam nas pontas. Era forte, do tipo malhado. Suas bochechas eram fundas, tinha um cavanhaque curto e as sobrancelhas um pouco arqueadas. Usava óculos com uma armação parecida com as do próprio Ezra. Seus dois braços eram cobertos de tatuagens, e os nós dos seus dedos também tinham algumas letras que ele não identificou. Vestia uma camiseta de tirantes cortados com a frase Shut up and Kiss Me escrita em branco, calças saruel cinzas de moletom e tênis pretos da Nike.


―Uh, an... você está bem, senhor?


O cara sacudiu a cabeça e piscou os olhos, sorrindo um levemente atordoado em seguida. Ele tinha os dentes um pouco tortos, e por incrível que pareça, aquilo apenas o deixava mais interessante. Tudo nele parecia gritar problema, mas o rapaz via algo bem diferente disso nos olhos castanhos.

Ele cheirava a madeira, pasta de dentes e vinho.


―Se eu to bem? Acho que to, cara, acho que to... ―Ele olhou para o alto e levantou as sobrancelhas, ficando em silêncio por alguns segundos. ―Uou. Cê é altão.


―Hm... ―Ezra estava, no mínimo, perdido. Aquele cara tinha acabado de tropeçar numa caixa de Lay’s, caído de cara no chão, grunhido um palavrão, batido a cabeça e agora estava sorrindo e falando sobre sua altura.

 

―Que foi?


―O senhor acabou de cair no chão? ―Questionou o mais alto.


―Ah, eu sei. Acontece com mais freqüência do que eu gostaria, na real.


O mais alto fez um movimento com a cabeça que ao mesmo tempo não dizia nada e dizia tudo.


―To acostumado. ―Explicou o outro. ―E não me chama de senhor, sério. Eu tenho trinta e dois anos, cara. Prefiro não acreditar que to indo pra casa dos quarenta já, já, então mantenha as ilusões desse velhote aqui intactas, por favor. ―Ele estendeu a mão direita para o funcionário e, vendo que ele estava levemente surpreso pela conduta do cliente e não iria fazer nada, puxou a mão macia do mais alto, fazendo com que os dois dessem um aperto de mãos desajeitado. ―Sou Liam Maximus, e antes que cê cogite a idéia de falar, eu sei que é um nome ridículo e, sim, já ouvi provavelmente todas as piadas possíveis a respeito disso.


Ezra estava vermelho, e provavelmente era da cabeça aos pés. Suas mãos começaram a suar um pouco.


―Uh... Ezra. ―Murmurou.


―Que cê disse?


―Ezra, meu nome.


―Ah, sim. Tipo aquele atorzinho né? Ezra Milles?


―Miller. ―Ele engoliu seco antes de falar. ―Todo mundo faz essa piadinha, também. É Reese, meu sobrenome.


Liam alargou seu sorriso.


―Entendi.


Ele balançou a cabeça para um lado e para o outro, de leve. Maximus o encarava.


―Você ta mesmo bem?


―Ah, to de boa. Digo, relaxa. Não vou, sei lá, ligar pra polícia só porque eu não vi uma caixa de papelão no meio do corredor.


Ezra sorriu de leve.


―Obrigado.


O homem lhe deu um aceno de cabeça e um sorriso um pouco cúmplice.


―Então... ―Ele se balançou de leve, batendo as mãos na frente e atrás do corpo. ―Cê trabalha aqui, né?


―Eu, hm, não usaria essa camisa no meu dia a dia normalmente. Não posso dizer nem pagando, porque é meio o que eles fazem...


O outro passou a mão no nariz, o que parecia ser um tique. Seu sorriso continuava lá e, por alguns momentos, Ezra quis ser do tipo de pessoa que sorria fácil daquele jeito.


―Bom, é mesmo feia. Seus chefes podiam mudar essa coisa ai. Joga uns verdes; pretinho básico sempre cai bem, essas coisas. Mas, enfim, Ezra Reese, já que eu caí aos pés de um funcionário, vamos considerar como destino. Pode me contar onde ta aquela promoção de leite integral?





Reese se lembrava de um dia, há quase dois anos, quando, no meio de uma conversa, foi dizer água mole, pedra dura, tanto bate até que fura. Ou, isso fora o que pretendera. Na realidade, saiu algo como mole é a que bate na pedra da água eu esqueci o resto. Seus amigos o zuavam até hoje por isso, e Claire, uma menina do curso de História, tinha seu contato no celular salvo como Ezra Esqueci O Resto.


E, assim, ele pensou em Liam por alguns dias, esperando, mesmo que lá no fundo, que o tatuado entrasse pelas portas de vidro. Ezra nem ao menos sabia o motivo de esperar por isso, mas a questão era que estava lá, pairando.


Quase um mês depois, quando as provas do semestre estavam chegando e ele estava ocupado demais pensando sobre como demônios iria entender todos os cento e cinqüenta slides sobre a história da filosofia moderna em menos de trinta e seis horas para se preocupar com homens tatuados, ele acordou com uma sensação estranha. E ruim, bastante ruim. Principalmente depois do pesadelo que teve.


Eram nove e meia, pouco antes dele sair de casa. Seu estômago estava embrulhado, de forma que mal conseguiu comer, tomando apenas um café forte.


E aí, o celular tocou.


O som de mensagem característico soou pela antes silenciosa sala pequena. Ele inspirou fundo e caminhou de volta até o braço do sofá, pegando o Smartphone com certo receio. Ele desbloqueou.



[08/05 09:33] Julian: Oi

[08/05 09:33] Julian: Tudo bom?

Ele expirou. Julian.



Julian, bom, Julian era seu ex-namorado e, se você estiver pensando “mas ele não era todo envergonhado e esse tipo de coisa?” Fique sabendo que pessoas envergonhadas e com zero confiança em si mesmas também transam às vezes.


Ele comprimiu os lábios, subitamente nervoso e pensativo. 


Ambos não tinham tido um fim muito bom.


Basicamente, Ezra o tinha pegado transando com Pâmela, a recepcionista do lugar em que o outro trabalhava.


Reese não o culpava. Pâmela era bonita de um jeito que ele jamais seria, bem como Julian Campbell tinha quase esfregado na sua cara poucos minutos depois de ser pego no flagra. O rapaz alto não estava exatamente surpreso. Nunca tinha se sentido o suficiente para absolutamente ninguém, e o ex gostava de deixar bem claro que não era todas as vezes que fosse possível dizê-lo. Ele amava diminuir Ezra, e Ezra só percebeu isso depois que eles terminaram e ele teve uma longa, bêbada e chorosa conversa com seus amigos.


Mesmo assim, o que seus amigos chamavam de diminuir, Reese via mais como um dizer a verdade na cara dura. Mas nunca admitiria aquilo para eles.



[08/05 09:34] Ezra: o que você quer?

[08/05 09:35] Julian: isso é jeito de falar com alguém q vc não vê há tanto tempo?

[08/05 09:35] Ezra: fala logo o que é

[08/05 09:37] Julian: bom, eu tava tentando ser discreto

[08/05 09:37] Julian: to um pouco nervoso lol

[08/05 09:37] Julian: Mas já q vc quer, vou ser o mais direto possível

[08/05 09:37] Julian: o q acha da gente voltar?

[08/05 09:42] Ezra: Não.

[08/05 09:42] Julian: pq não?

[08/05 09:42] Ezra: eu não quero.

[08/05 09:43] Julian: qual é o seu problema?

[08/05 09:43] Ezra: ?

[08/05 09:44] Julian: eu to te pedindo uma segunda chance

[08/05 09:44] Julian: não te pedindo né, te oferecendo

[08/05 09:46] Ezra: como assim?

[08/05 09:46] Julian: cai na real Ezra

[08/05 09:46] Julian: eu sou a melhor chance que vc vai ter

[08/05 09:47] Julian: pensando bem, na vdd eu to te fazendo um favor

[08/05 09:47] Ezra: ???

[08/05 09:49] Julian: tipo, vc é feio

[08/05 09:50] Julian: isso só pra começar

[08/05 09:50] Julian: tem essa sua altura doida ai q não é nem um pouco legal pra ser sincero

[08/05 09:50] Julian: vc é chato pra caralho

[08/05 09:50] Julian: e só faz merda

[08/05 09:51] Julian: e pelo visto é mal educado tbm

[08/05 09:51] Julian: então magrelo, é aquela questão do me ajude a ajudar vc. Voltar comigo é a melhor opção, de vdd



Ezra o bloqueou.


E, o pior, ele nem sabia como — estava chorando tanto que mal conseguia enxergar o celular. Não tinham soluços, apenas lágrimas rolando continuamente, grossas.


Entenda, ele não sentia mais nada com relação a Julian, então bloqueá-lo não tinha sido exatamente um problema. Ele mal sabia o motivo de não tê-lo feito antes. O problema em si era que o ex-namorado tinha dito algo crucial: a verdade. Ezra era sim tudo o que Julian tinha descrito. E todo mundo já tinha deixado claro.


Ele tentou se recompor. Levantou-se do chão, de onde nem tinha se dado conta de ter sentado, e seguiu para o banheiro. 


Talvez tomar um banho pudesse ser uma boa idéia.





―Você ta bem?


―O que?


―To perguntando se você ta bem, Ezra.


―Ah, sim. Eu... to ótimo. ―Ele tentou um sorriso. ―Acho que um pouco cansado. Provas.


―Cansado, é?


Reese confirmou com a cabeça, tentando parecer o mais convincente possível. Tommy cerrou os olhos, como se não acreditasse em nenhuma palavra do que o outro dizia, o que significava que o plano de tentar ser o mais convincente possível não tinha dado tão certo.


―Eu não sou a pessoa mais recomendável do mundo pra dar conselhos, altão, mas vai passar. Não acredito muito nessa, hm, filosofia ou sei lá pra mim mesmo, porque no meu caso as merdas só vão se sobrepondo, mas você? Você com certeza é mais forte que eu. ―O garoto corou um pouco, coisa que Reese achou adorável. ―Você vai superar, e é... é isso.


Blue sumiu da sua frente quase como num passe de mágica, como sempre, deixando o outro totalmente confuso para trás.


Por alguns segundos, Ezra não fez nada mais do que ficar apenas parado, aparentemente contemplando a visão da prateleira na sua frente.


Ele se sentia uma farsa.


Digo, ele não era forte como Tommy pensava que era, não mesmo, muito menos mais forte do que o garoto sardento. Ele não era legal, não era engraçado, não tinha colhões para expulsar filhos de advogados, por Deus, ele mal sabia falar como uma pessoa meramente normal. Um suspiro. Reese fechou os olhos com força, tentando se recompor.


Se Tommy soubesse de tudo...





Seu dia não podia ficar pior.


Ao menos, foi isso que pensou enquanto o seu turno acabava. Ele tinha uma vassoura na mão, e varria próximo aos caixas. Estava de costas para Blue, que começava a se arrumar para ir embora. Reese observava o céu pelo vidro.


Parecia que ia chover.


Ele suspirou e saiu devagar dali, sentindo uma terrível dor de cabeça e um cansaço sem igual.


Depois de uns dez minutos, Ezra estava pronto para sair dali. 


Ainda tentava decidir se iria ou não para a faculdade.


Seus óculos estavam limpos, o celular no bolso direito e a carteira no esquerdo, tinha trocado de blusa, a bolsa de couro preto de alça atravessada estava bem fechada e os fones nos ouvidos tocavam uma música qualquer do Arctic Monkeys.


Ele se despediu de Jake e de Lisa, dando um sorriso curto e ainda nervoso. Ficou um pouco dividido em não imaginar o que aconteceria no banheiro pequeno e meio sujo (que, sinceramente, Ezra tinha desistido de limpar há certo tempo), porque, bem, provavelmente seria bastante nojento. A sua outra parte queria sobre pensar sim sobre isso. Ele precisava de algo para distrair sua mente, então, por favor, não o julguem. Reese ajeitava os fones e sacudia a cabeça de leve no ritmo da música quando pôs os pés para fora do lugar.


E você com certeza sabe sobre aquela coisa de filmes e desenhos animados, do tipo que o personagem diz “bom, não tem como ficar pior!” e tudo piora de um segundo para o outro?


Ezra sempre, desde criança, tinha sido do tipo que amava desenhos animados, embora nunca tivesse acreditado que algo deles pudesse acontecer no mundo real. Até que a regra do não pode ficar pior simplesmente foi esfregada na sua cara, porque as coisas podem, sim, ficar piores. E acredite, não apenas naquele momento.


Porque Tommy Saint Blue estava do lado de fora, beijando seu grande amigo da Kawasaki Ninja.


Sinceramente, o rapaz nem teria notado aquela cena se não tivesse se lembrado do pacotinho de chicletes de menta no bolso externo da bolsa que carregava, e também pela coincidência desse bolso encontrar-se bem naquela direção.


Matt segurava o rosto do garoto menor com as duas mãos, e Tommy tinha a cabeça um pouco erguida. Ele não conseguia ver as bocas dos dois se chocando e graças a Deus, ângulo, mas tinha certeza que era isso que acontecia ali. Só um ser mais idiota que Ezra Reese não conseguiria ver o que acontecia, na realidade. O cara de preto parou e sorriu, parecendo muito feliz, e Blue deu um soco aparentemente fraco no ombro do outro. Os dois falavam algo que o garoto alto não conseguia entender, mas a questão é que ele não precisava. Não tinha o que entender ali, porque tudo era muito óbvio.


Ele fechou os olhos, engoliu seco e tentou manter o mínimo de dignidade que mal sabia ter. A passos firmes, ele voltou a andar.


Parece que alguém não vai pra faculdade hoje, Ezra Bobo Reese.






O rapaz estava sentado num banco de praça. Claro, estava chovendo. Essa coisa de desenho animado realmente funciona, caramba. De verdade, ele nunca quis saber sobre isso na pele, mas sempre era obrigado a tal.


Ah, sim, vida maravilhosa.


Ele piscou, tentando afastar mais lágrimas que iam e vinham sem aviso prévio ― com ou sem força ― no período de cerca de quarenta minutos em que estava sentado ali.


Os pensamentos de ninguém são organizados, e, é claro, não seriam os de Reese que quebrariam isso.


Ele pensava sobre Tommy, sobre Matt, sobre o ex-namorado, sobre o jeito ridículo de agir e ser que ele não conseguia largar, sobre as malditas coisas do colégio que se seguiram até o ensino médio, sobre o jeito como ele era com as pessoas. E tudo culminava na linda frase de se eu não fosse assim, tudo seria muito diferente.


Suas mãos tremiam, tanto pelo frio que a chuva gelada o fazia sentir quanto pela coisa que o consumia. Aquela vontade louca de ser outra pessoa, estar em outro lugar.


Ele abaixou o tronco, apoiando o rosto sem óculos nas palmas das mãos. Alguns minutos depois, Ezra tomou um susto enorme quando uma voz um pouco rouca falou:


―Cê deve ta com frio, né altão?


E aquele cara, Liam Maximus, pairava acima de si, com um guarda-chuva amarelo e grande aberto sobre a cabeça.

Mas ele não estava vestido de Liam Maximus, ao menos não o que Reese conhecera na mercearia. Usava um blusão social branco, calças pretas de perfeito caimento e sapatos sociais. Os óculos dele estavam um pouco molhados e ele tinha um sorrisinho do tipo “por mais incrível que pareça, apesar de eu ter te visto apenas uma vez e não fazer a menor idéia do que você está passando, saiba que eu entendo”.


Por alguns segundos, Reese também se sentiu um pouco mal por ter se esquecido do tatuado, apesar de não saber exatamente o por quê.


―Tsc, que idiota perguntar isso. É claro que cê ta. ―O homem de cavanhaque permanecia com um brilho divertido no rosto, a despeito de toda a chuva a sua volta. ―Eu não sou um stalker estranho, aliás. Esse é meu caminho diário pra voltar do colégio, e não pude deixar de notar meu atendente favorito chorando no banco da praça.


Ezra imediatamente foi possuído por um sentimento de vergonha muito intenso. Ele detestava ser visto chorando. Ainda mais por alguém como Maximus.


―Relaxa. Vamos. ―Ele fez um aceno com a cabeça. ―Eu te dou uma carona até a sua casa, ai no meio do caminho cê me conta o que te aconteceu pra ficar nesse estado de melancolia eterna e tal, porque, é o que dizem, contar problemas pra estranhos pode ser muito libertador. Bom, eu acho que dizem isso, mas não sei. Enfim, com sorte e minhas frases de pára-choque de caminhão cê fica melhor.


Ezra, apesar de tudo, apenas lhe olhou como quem diz o que? Ao que Maximus apenas fez um maneio de não temos tempo pra explicações.


Depois de segundos silenciosos, com o mais velho tentando convencer Reese apenas com o olhar de que está tudo ok, Liam suspirou em derrota.


―Olha, garoto, se você quiser eu juro de mindinho, e cê sabe, os juramentos de mindinho são os mais verdadeiros possíveis: eu não sou um super-psicopata-assaltante-ninja-maluco-assassino nem nada assim, então cê pode entrar no carro comigo, ta bom? Se bem que se eu fosse um psicopata maluco e mais alguma coisa que eu esqueci eu estaria dizendo exatamente isso pra atrair você pro meu covil do mal (meu porão, por que sempre o porão?) então... realmente. Não faz sentido algum. Mas eu juro que não vou fazer nada ruim, e... hm... cê vem ou...


―Tudo bem. Eu vou. ―Reese se levantou, cortando-o, completamente cansado de tudo, pegando a bolsa de baixo do banco de praça e a abraçando em seguida. ―Mas, hm, eu estou todo molhado dessa chuva e...

Ele fungou.


―Não, não, sem problema altão. Vamos lá, encare como um tipo de recompensa: cê me mostrou a promoção de leite e eu te levo pra casa no meu carro, mesmo que cê molhe tooodo o estofado.


Ezra secou os olhos e se enfiou de baixo do guarda-chuva com o homem mais baixo, embora aquilo nem de longe pudesse ajudar em seu estado, bem... molhado.


Depois que ambos entraram no carro, um Logan preto, Liam segurou o volante, as duas mãos apertando-o com firmeza, soltando um pigarreio em seguida.


―E ai, onde é que cê mora?





―Vai tomar um banho quente, garoto. Juro que não vou roubar nada. Eu prometi isso de mindinho. Acho que isso também tava incluído no que eu disse, mas se não tava, inclui agora. Meu Deus, eu preciso parar de dizer as coisas a esmo, caralho...


―Você não... vai embora? ―Questionou o mais alto, incerto.


―Por quê? ―Maximus perguntou com um sorriso natural e um pouco irônico no rosto, sentando-se no sofá depois de uma afirmativa silenciosa por parte de Ezra de que, sim, ele estava livre para fazer aquilo. ―Quer que eu vá?


Reese sentiu o rosto esquentar.


―Não é isso, é que... hm... A chuva ta forte. ―Ele engoliu seco. ―E você não tem a obrigação de ficar aqui.


―Mas eu tenho a obrigação de ir embora? ―Retrucou o outro, passando a mão no nariz.


―Bom... não?


―Então eu vou ficar. Você não parece estar bem. Vai lá tomar um banho. Deve ta morrendo de frio e não, não sou sua mãe, mas... ―Ele pareceu pensar por alguns segundos em alguma desculpa. ―Mas eu sou um professor! Isso, cê tem que obedecer esse professor aqui. Agora vai, Ezra. Vou ficar aqui, na minha, sentadinho, como o bom cachorro obediente que eu sou, promessa. Só toma esse banho. Tem que se cuidar, se não vai pegar um resfriado.


Reese olhou para baixo, pensando por um momento. Aquela situação era, no mínimo, estranha. Um cara que ele tinha visto apenas uma vez tinha lhe dado uma carona, no meio da chuva, enquanto chorava por causa de um-colega-de-trabalho-e-por-causa-de-outras-coisas-também, e agora os dois estavam parados na sala do mais alto, tendo uma discussão totalmente sem sentido. E, quer saber? Ele estava mesmo cogitando a possibilidade de falar com aquele cara tatuado.


O professor no seu sofá estava oferecendo isso, não é? Uma conversa.


Ele fechou e abriu os olhos.


―Tem café. Pode beber, se quiser.


E depois seguiu para o banheiro.



Era um apartamento pequeno, simples e surpreendentemente arrumado.


O chão de pisos brancos era limpo e a cozinha cheirava a café e limpa vidros. Os porta-retratos da sala, com fotos de Ezra a meio sorriso com uma mulher loira de uns quarenta anos e de Ezra com outros três jovens não tinham poeira. As almofadas eram mais arrumadas que o guarda-roupa de Liam (muito mais, na realidade. Muito mais) e umas poucas canetas e dois cadernos em cima da mesinha de centro eram tudo o que Maximus podia notar fora do lugar nos ambientes em que estivera.


A chuva tinha se intensificado bastante desde que chegaram.


Ele soltou o ar pela boca.


Tinha se afeiçoado pelo moleque, tinha que admitir. Desde que o vira na mercearia, tinha pensado nele algumas vezes, em momentos muito aleatórios. Não de um jeito sexual, nem de longe, mas como quem pensa em algo que vai acontecer no futuro. Porque ele sentia isso em relação a Ezra: algo que vai acontecer no futuro. De um jeito bom, ruim ou neutro era algo que apenas o destino decidiria. E, bem, Maximus não era muito de ter esse tipo de sensação. No fim, ver a figura de Reese sentada num banco de praça no meio da chuva foi como ver um grande letreiro de luzes neon com a palavra OPORTUNIDADE piscando, convidativa. O professor queria entender o que estava sentindo, o que era muito complicado ― normalmente, ele não sentia quase nada além de vazio.


Liam começou a procurar alguma xícara ou caneca pela cozinha também organizada (sem surpresas até aqui) para pôr seu café e o do menino. O tatuado podia não ser muito bom cozinhando, mas seu café era o melhor da família. Ele tinha certo orgulho disso.


De repente, foi interrompido quando seu celular fez um barulho de mensagem recebida. Ele franziu o cenho e o pegou.



[08/05 20:24] Christian: ta em casa já?

[08/05 20:25] Liam: não

[08/05 20:25] Liam: Acabei parando pra ajudar um amigo

[08/05 20:25] Liam: Pq?

[08/05 20:27] Christian: Me falaram aqui q csiu uma árvore na estrada

[08/05 20:27] Christian: Caiu*

[08/05 20:27] Christian: Bem naquele caminho pro teu apartamento

[08/05 20:27] Christian: Acho q vc ta meio ferrado então LOL

[08/05 20:28] Christian: Desculpa ai, amigão, mas não vai dar pra vc vir pra minha casa hj pra dormir por aqui, antes q pergunte, pq sei q vai

[08/05 20:28] Christian: Sabe a Olivia? =D

[08/05 20:28] Christian: Pretendo ter uma noite longa de sexo e vinho e sexo

[08/05 20:28] Christian: vou ficar te devendo essa



Ah, puta que o pariu, foi tudo o que Liam pensou. No mesmo momento, Ezra Reese apareceu pela porta do local, os cabelos úmidos e vestido com uma calça de pijama listrada, azul. A blusa de meia manga era branca, com um desenho de um panda fofinho na frente. A toalha verde estava pendurada em seu pescoço.


―Uhn... Café? ―Disse Liam, dividido entre rir da roupa completamente infantil (que combinava com ele, de certa forma) e se preocupar fodidamente com Mercury, seu cão, que ficaria sozinho e tinha um intenso pavor de trovões.


―Obrigado. ―Disse o rapaz, estendendo as mãos compridas para Maximus. Seus dedos se tocaram de leve. Ezra parecia estar um pouco melhor de... seja lá o que fosse. Apesar disso, seus olhos continuavam um pouco inchados.


Ele fungou antes de dar um gole no liquido quente. O jeito meio desolado dele fez Liam sentir uma pena muito incomum.

Um silêncio desconfortável se instalou entre eles. Não se conheciam, afinal.


―Hm... melhor?


―Um pouco... ―Respondeu o garoto, ainda sem contatos visuais. Ele estava corado, do jeito vergonha mesmo, como se estivesse se dando conta apenas naquele momento que um cara estranho estava na sua casa. ―Sala?


―Sala.





―E o que aconteceu?


―Sobre?


―Não desvia do assunto, Reese. Foi minha proposta, cara.


O menino hesitou por tempo o suficiente para parecer que tinha desistido. Por fim, começou:


―É só que... ―Ele pôs as mãos no rosto, esfregando-o. ―Tudo resolveu vir na minha cabeça hoje. Alguém que eu conhecia me mandou umas mensagens não muito legais e... eu vi a pessoa que eu gosto beijando o namorado (nem sei se eles são mesmo namorados, caramba) na frente do meu trabalho. Eu to bem mal. Fora umas coisas que sempre acabo pensando.


―Coisas?

―Época de colégio. Não vale a pena. Só são coisas ruins o suficiente pra pensar de vez em quando, sabe.


―Na verdade, não sei. ―Liam pensou por alguns segundos. ―Quer conversar sobre essas coisas?


Reese lhe encarou, parecendo muito nervoso. Fez que não com a cabeça de um jeito bem rápido.


―Não, não.


―É complicado?


―Você não faz idéia.


―Ah.


Silêncio.


―Por que você... você me ajudou?


―Por que eu não te ajudaria? ―Retrucou o mais velho, sorrindo, mostrando os dentes levemente tortos. ―Cê parece ser uma boa pessoa, Ezra. Uma boa pessoa com problemas, que, bem, é o que geralmente acontece com boas pessoas. É injusto, sei que é.


Reese apenas afirmou com a cabeça, mesmo que não houvesse nada para ser afirmado.


―Quer conversar? Digo, não sobre essas coisas. Eu... ―Ele checou o celular. ―Preciso ir embora daqui a mais ou menos uma hora. Caiu uma árvore no caminho pra minha casa, sabe. ―Ele passou a mão no rosto, nervoso. ―Meu cachorro, um labrador chamado Mercury, ele ta sozinho em casa. Ele morre de medo de trovões. É um bobão. Vou ter que deixar meu filho sozinho.


Ele riu.


Ezra sorriu de leve, no mínimo hesitante, como se estivesse na frente de uma pessoa tão importante que não sabia como se portar. Ele abriu a boca duas vezes antes de dizer:


―Tem certeza que quer conversar comigo? Posso não ser muito interessante. ―E, finalmente, ele olhou nos olhos de Liam. E aquela timidez ainda era muito presente, muito mesmo.


―Sério? Deixa eu concluir isso sozinho, então cara. ―O tatuado sorriu mais, fazendo uma cara convencida depois. ―A minha vida, posso te dizer, ela é o máximo. Pra começar, eu juro, juro mesmo, que nunca viram eu e o Batman no mesmo lugar. Não to falando que sou ele, só constatando os fatos...


E o rapaz finalmente deu uma risada verdadeira, apesar de qualquer coisa (ou, como sua avó dizia: apesar dos apesares). Maximus sentiu o peito esquentar diante daquela visão. Reese não parecia ser do tipo que sorria daquela forma, não com freqüência.


No entanto, o mais velho pensava que essa sensação morna se dava pelo contraste entre as cenas; o contraste entre um Ezra desolado e um Ezra feliz. Mas, principalmente, pelo sentimento de que o próprio professor podia provocar aquilo nele.

26. Februar 2018 23:10:55 0 Bericht Einbetten 3
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