Sobre Momentos Certos Follow einer Story

ditto Liiz Lestrange

Isso confundia as pessoas o suficiente para, de pouco em pouco, convencerem-se de que não éramos nada além de bons amigos. Mas não convencia a nós mesmos. Não havia desculpa ou piada que pudesse justificar os momentos que passávamos sozinhos. Aqueles longos momentos estendidos em silêncio, deitados no tapete do quarto, os dois imaginando o quão maravilhoso seria e ninguém se atrevendo a mover um músculo sequer.


Fan-Fiction Nicht für Kinder unter 13 Jahren.

#yaoi #naruto #sasuke #narusasu #sasunaru #naruto/sasuke
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Sobre Momentos Certos

Sasuke era meu melhor amigo desde a pré-escola. Ou melhor dizendo: não era meu melhor amigo até o primeiro ano do ensino médio. Eu nunca fui do tipo que consegue manter o mesmo círculo de amigos por muito tempo, as pessoas pareciam cansar de mim e me empurrar para outro grupo em dois ou três anos, mas Sasuke estava sempre lá, foi ficando enquanto os outros se afastavam. Era inevitável que, com o passar dos anos, a intimidade que eu tinha com ele ultrapassasse a intimidade que eu tinha com qualquer outra pessoa dos meus novos grupos de amigos.

Ele não era o melhor amigo dos meus sonhos que eu pediria se pudesse ter um feito sob encomenda: ele não gostava dos meus filmes e bandas favoritos, não cantava comigo em plenos pulmões pela rua, quase nunca ia junto cabular a aula e nunca gargalhava das minhas piadas ruins, como eram todas as outras pessoas com quem eu costumava andar. Mas por outro lado, ele sempre me mostrava e fazia eu me apaixonar por coisas totalmente fora do meu comum, que eu jamais teria conhecido ou dado uma chance por interesse próprio, me ajudava com as matérias que eu tinha dificuldade, mesmo que emendando com uma bronca ou outra pela minha irresponsabilidade, o senso de humor dele, ácido e discreto, era uma benção em momentos tediosos de decoro e… Bem, ele não ria das minhas gracinhas, mas dava um mínimo suspiro inaudível e rolava os olhos devagar até pousá-los em mim com um ar indulgente e malicioso, e então seus lábios se mexiam daquela forma quase impossível de perceber que só eu no mundo reconhecia como um sorriso. Por algum motivo delirante, aquela reação me extasiava mil vezes mais do que qualquer risada.

Então, não. Sasuke não era o melhor amigo que eu pediria se pudesse, mas era por isso que eu me sentia tão imensamente sortudo de tê-lo. Ele era muito além do que a minha imaginação avoada e bocó jamais cogitaria. Sasuke para mim era o imprevisível, o insurgente, como algo muito essencial que você passa a vida inteira procurando ao longe e falha em encontrar a não ser que alguém lhe dê uma sacudida e aponte-o dando sopa bem ali debaixo do seu nariz. Parecia que ele estava sempre me mostrando um universo novo e inusitado. Ou melhor dizendo, me ensinando a ver o meu universo por uma ótica inimaginável. Vai ver era por isso que falar com ele sobre qualquer coisa era tão fácil, tão natural. Eu sabia que poderia dizer a ele qualquer maluquice que se passasse na minha cabeça ou no meu coração: ele não estranharia se eu fugisse do senso comum, ele próprio era uma constante quebra do meu comum. E eu sabia que ele também me contava coisas que não confiava a mais ninguém. Não tanto quanto eu fazia, eu sempre fui uma torneira quebrada, bastava abrir uma frestinha e eu já desatava a despejar minha intimidade em detalhes infelizes sem filtro algum. Ele era reservado: contava o tema, talvez um ou dois pontos chave, mas nunca os pormenores a não ser que perguntado especificamente sobre eles. Por vezes nem assim.

Foi desta forma quando um dia, em minha casa, ele tomou um ar sério num longo momento de silêncio em que eu estava distraído tentando consertar o vídeo game. Ele chamou meu nome com um ar soturno, fez eu deixar o controle de lado, encará-lo, prometer segredo. “Eu preciso te contar uma coisa”. Fiquei nervoso que cheguei a imaginar se ele tinha matado alguém e queria ajuda com o cadáver.

-Fala logo, desgraça!

-Eu sou gay.

Respirei fundo, uma sensação estranha percorreu meu corpo e estacionou com peso em meu estômago, mas eu não soube identificar o que era. Dei de ombros e continuei o encarando como se esperasse que ele dissesse mais alguma coisa.

-Tá bem.

-Você se importa?

-Eu te conheço desde sempre, por que isso faria diferença?

Mas a verdade é que eu me importava. Não que eu estivesse bravo, enojado, triste nem nada do tipo. Eu sequer sabia explicar o porquê, mas me parecia fazer alguma diferença enorme em algum lugar e eu não conseguia apontar exatamente onde.

Mais tarde no mesmo dia eu tentei perguntar a ele mais detalhes: desde quando ele sabia, se havia alguém, como chegara naquela conclusão… Mas recebi apenas respostas vagas.

Um mês depois, novamente em meu quarto, foi minha vez de contar a ele algo que já vinha assombrando a minha cabeça desde muito antes:

-Eu acho que sou bissexual.

-Acha?

-Eu… ah, não sei, acho que sim.

-Sem essa, para de ser frouxo. Você faz todo esse suspense, tá pensando nisso há meses e aí reúne coragem pra vir me dizer que acha? Volte novamente quando tiver certeza.

-Tá bom, então eu tenho… Eu sou.

-Ah, agora sim.

Eu ri e rolei os olhos. Não se falou mais no assunto.

Não que nós não trocássemos uma palavra ou outra sobre nossas experiências conforme elas começaram a acontecer, disso a gente conversava. As primeiras muito timidamente, depois com uma gama cada vez maior de detalhes conforme íamos avançando além dos beijos com nossos respectivos parceiros. Eu só ficava com meninas durante a maior parte da época de escola, ele achava engraçado, fazia caretas e comentários sarcásticos do tipo “deus disse Adão e Ivo, Naruto, isso é pecado”, “sua mãe sabe que você gosta de meninas?”, mas ele jamais questionava a minha sexualidade. Nós dois sabíamos o quanto era mais fácil para mim ficar só com garotas enquanto estava no colégio, que todos os colegas que nos cercavam eram carregados de um heteronormativismo intoxicante, que a ideia de beijar outro garoto, por mais atraente que me fosse, parecia algo pesado e inadequado, era nadar contra a corrente. Ele respeitava isso e não parecia se importar, por mais que, para ele, as coisas fossem diferentes.

Para ele, beijar garotas não era uma opção.

Mas foi apenas na primeira vez em que eu fiquei com um menino que as coisas começaram a mudar de figura. Eu estava feliz, empolgado, achei que ele também ficaria, me faria perguntas, entretanto ele apenas me encarou com um semblante vazio e respondeu com um “hn” desinteressado. E eu, passado um primeiro momento ofendido, fiquei incomensuravelmente aliviado. Eu não queria falar sobre aquilo. Descobri, de repente, que a sensação estranha e incômoda que eu tentava ignorar quando ouvia Sasuke me contar de seus casos não tinha nada a ver com alguma bobeira minha de lidar com a homossexualidade, porque eu, feliz e satisfeito de ter saciado minha vontade de experimentar a boca de um garoto, me descobri enojado e culpado com a perspectiva de falar sobre isso para ele. Contei para minha mãe, para outros dois ou três amigos mais próximos, nenhum deles me causava aquela sensação horrível. Sasuke era o problema.

Depois daquilo, não falávamos mais nem um comentário sobre nossos casos que ultrapassasse a marca de “saí com fulane ontem”. Mas isso não significava que havíamos nos distanciado, ah não, muito pelo contrário. Ao longo do último ano do ensino médio nos tornamos mais colados do que nunca. Nós não éramos do tipo muito afetuoso, o máximo de contato físico que nos era comum era umas brincadeiras idiotas de se bater. De uma hora para a outra, entretanto, isso mudou. Eu acostumei a descansar a cabeça em seu ombro, ele acostumou a ler com a cabeça deitada no meu colo, ficamos dados a abraços e beijos no rosto e, curiosamente, desaprendemos a conversar sem estarmos encostando um no outro de alguma forma.

E os nossos casos? Viraram até motivo de piada entre nossos amigos. Nenhum de nós saía com a mesma pessoa mais do que duas ou três vezes e, sempre que tínhamos a chance, arruinávamos os encontros um do outro das maneiras mais idiotas e descaradas. Era compromisso inventado de última hora, ligar quando um sabia que o outro estava com alguém só para fazer alguma pergunta irrelevante, iniciar uma conversa complicada via mensagem ou até aparecer de surpresa no meio do encontro fingindo ser uma coincidência e se juntar ao programa de casal sem ser convidado. Mas nenhum dos dois cortava esse comportamento ou pedia para o outro parar, ao invés disso dávamos corda para aquela traquinagem. Acho que havia se tornado uma espécie de jogo silencioso entre nós, uma competição para testar até onde ia o limite, quem conseguia se impor mais entre os relacionamentos do outro sem levar uma bronca, esperando o dia em que haveria alguém relevante o suficiente na vida de um de nós para a brincadeira ter de parar. Ou, mais honestamente, o objetivo daquele jogo era tornar o mais impossível que fosse de qualquer ser humano ter tempo e paciência o suficiente para conseguir se tornar esse alguém.

Ninguém ali era burro demais para perceber o que estava acontecendo, lógico. Todas as pessoas próximas de nós começaram a comentar ou fazer perguntas. Todavia, sempre que alguém questionava, nós diríamos algo como “começar a namorar? Mas nós já estamos namorando faz cinco anos”, “oh não! Não acredito que você descobriu nosso segredo”, “mas Suigetsu, nós nos casamos faz dois meses, não lembra? Você tava lá, era a dama de honra”. Isso confundia as pessoas o suficiente para, de pouco em pouco, convencerem-se de que éramos apenas bons amigos com muito grude, intimidade e senso de humor. Não era muito difícil, afinal, nós éramos amigos desde muito pequenos, quase parte da família um do outro, qualquer um pensaria que éramos como irmãos.

Mas não convencia a nós mesmos. Não havia desculpa ou piada que pudesse justificar os momentos que passávamos sozinhos. Aqueles longos minutos estendidos em silêncio, deitados no tapete do quarto, meros centímetros de distância, os olhos grudados, as mãos se tocando de leve, cada um decorando cada centímetro do rosto do outro, uma banda tocando de fundo no computador, os carros passando na rua e nossa respiração baixa e lenta, os dois imaginando o quão maravilhoso seria e ninguém se atrevendo a mover um músculo sequer. Quantas vezes não me peguei pensando que eu poderia simplesmente esticar o pescoço só um pouquinho mais, aproximar o rosto só mais meros centímetros à frente, qual seria o gosto, como seria a sensação.

Não pense que éramos idiotas medrosos. Talvez até fosse o caso, é verdade, mas havia motivo por trás do nosso silêncio. Era excesso de cuidado. Nenhum de nós estava desesperado, para começo de conversa, tínhamos uma amizade impecável que pouco devia a um namoro de verdade. Já tínhamos a convivência, o apoio incondicional, conversas das mais pessoais às mais tontas, uma gama invejável de piadas internas, os cafunés, a intimidade, até as provocações maliciosas e discussões de relação. E amor. Muito amor, de vários tipos, de várias formas. A única coisa que faltava eram os beijos e o sexo, mas isso tínhamos com outras pessoas. Aos dezessete anos não importa muito a boca que se toma, mais importante é experimentar de tudo o que puder e ambos estávamos satisfeitos em acumular números naquele momento. Além do mais, se apaixonar por uma pessoa que acabou de conhecer é uma coisa, se descobrir apaixonado por alguém a quem você conhece há uma vida inteira é outra completamente diferente. Nós já tínhamos uma relação consolidada, uma história, uma dinâmica... Se der errado com uma paixão nova, você perde somente um namoro, se desse errado com Sasuke eu perderia metade de toda a minha vida, metade de mim. Sair do certo para o incerto em meio ao estresse de vestibulares, provas finais, formatura, noites mal dormidas, ainda mais naquele ambiente escolar machista, homofóbico e quadrado, tudo aquilo parecia pesado demais. Arriscado demais.

Não havia motivo para pressa, a adrenalina dos nossos flertes indiretos e jogos de ciúme era fantasticamente suficiente.

Antes que pudéssemos perceber, havíamos trocado a escola pela faculdade. Lá as coisas eram diferentes, a sensação de liberdade era arrebatadora. Não havia uniforme, podíamos sair e entrar a hora que nos bem entendesse, álcool era liberado e, talvez fosse coisa do meu curso, mas de repente a proporção de héteros no meu convívio parecia ter se invertido. Acho que essa parte da minha nova liberdade foi o que mais empurrou para longe a resolução do nosso caso, porque eu, que nunca havia me sentido muito bem com a ideia de ficar com outros homens, estava embevecido com a repentina alforria que me permitia sair com quantos caras me desse na telha e ser recebido com normalidade. E também, em cursos diferentes e nos matando de estudar, Sasuke e eu pouco ficávamos juntos no nosso primeiro semestre como universitários.

Estar longe dele me fazia mal. Era uma espécie de abstinência que ia me adoecendo e deprimindo conforme os dias iam passando e, num fim de semana que combinávamos de sair, eu voltava ao meu normal. Costumávamos sentar juntos na escola, estudar juntos em casa, jogar juntos, passear juntos, dormir um na casa do outro, de repente isso simplesmente não era mais possível e a situação parecia ter escorregado de nossas mãos e espatifado no chão, como um globo de vidro, enquanto estávamos distraídos com as novidades. Antes parecia só questão de tempo até ficarmos juntos, mas nos vendo uma vez por mês, às vezes menos, o medo de que os sentimentos dele esfriassem me aterrorizou. Comecei a temer que ele nos visse como apenas uma coisa boba de adolescente a ser superada e a nossa amizade voltasse a ser somente isso e nada mais, que tivéssemos desperdiçado nossas chances.

E então minha decisão foi, e desta vez concordo com você se achar que foi idiota e medrosa, falar sobre morarmos juntos. Não foi seguro, admito, era mais coerente eu ter só aberto o jogo com ele e falado sobre como eu me sentia de uma vez, mas já estávamos comendo pelas bordas há tanto tempo que eu acabei seguindo o nosso ritmo de sempre. Mas ele concordou empolgado, com uma troca de olhares senti que os meus medos eram também os seus e os nossos planos estavam em harmonia.

-Eu vou entrar no meu estágio remunerado esse mês - me disse sorrindo com seu jeito de sempre - Já vou começar a juntar dinheiro. Faça isso também, eu sei que é difícil pra você, mas crie um pingo de autocontrole e não desperdiça dinheiro a toa se você quiser mesmo arranjar um apartamento pra gente.

Mas ele não precisava me aconselhar sobre aquilo, pois minha motivação era extraordinária e eu juntei até mais dinheiro do que o nosso planejamento. Em mais um ano, estávamos vendo lugares para morar. Estávamos decidindo por um pequeno apartamento que, definitivamente precisaria de reforma, mas tinha boa localização e cabia perfeitamente no nosso orçamento quando Sasuke fez cara séria e disse que precisávamos conversar.

-Eu não queria falar isso antes, porque não era certeza e eu não queria arruinar nossos planos, mas… Agora eu já passei da primeira seleção e as chances são bem grandes que eu consiga ir pra Londres pra fazer intercâmbio por uns meses.

Eu murchei, encarando-o sem muita reação e nenhuma ideia do que dizer.

-E o apartamento?

-Eu não quero perder o apartamento, de verdade - ele segurou minha mão por cima da mesa e me encarou com segurança - Se você quiser desistir ou encontrar outra pessoa pra dividir com você, tudo bem, eu vou entender, mas eu realmente quero insistir nisso. Eu juntei dinheiro pra isso e eu quero morar com você. Se você topar esperar até eu voltar, eu tô disposto a pagar pela minha metade do apartamento agora, mas eu não vou poder dividir as contas enquanto eu estiver fora, eu vou ter que me bancar lá na Inglaterra. Então...

-Tudo bem! Não faz mal, eu… Eu dou um jeito até você voltar. Eu tô indo bem no estágio, talvez eu seja efetivado! Eu tô muito feliz por você! Não faz mal, não faz mal… O apartamento é de nós dois, eu não quero morar com outra pessoa.

E logo mais, eu estava me mudando sozinho para um apartamento velho e melancólico. Sasuke ia partir na mesma semana em que recebemos as chaves e acabamos decidindo que seria trabalhoso demais ele levar as coisas para lá nas vésperas de uma viagem daquele porte. Não tinha móveis ainda, então nem mesmo eu queria dormir naquele lugar por hora. Ainda mais dormir sozinho num quarto vazio quando a expectativa de passar seis meses longe de Sasuke estava esmigalhando meu coração.

-Não me olha assim, - ele suspirou no aeroporto antes de partir - você tá deixando tudo mais difícil.

-Quatorze anos… Em quatorze anos, a gente nunca passou tanto tempo longe.

-A gente faz video chamada toda semana, ok? São só seis meses, você nem vai sentir o tempo passar. Chega, Naruto, chega de drama, a gente nem tava conseguindo se ver muito esses últimos tempos, de qualquer jeito.

Nós dois conversávamos baixinho, mais um grupo de nossos amigos mais próximos e o irmão dele estavam ao nosso lado. Sasuke já havia se despedido de todos, menos de mim, que o mirava com escancarado desgosto e chateação quando chegou a minha vez.

-Vê se não se deslumbra com algum lorde com sotaque de Harry Potter e esquece de mim, hein?

Ele fez aquilo de rolar os olhos do jeito que eu gosto e me lançar o sorrisinho mínimo, conseguindo dobrar minha carranca em um sorriso melancólico. Então me abraçou forte, de um jeito que jamais havia feito antes, e eu o abracei tão forte quanto, colando-me a ele como se pudesse impedí-lo de partir.

-Eu nunca que ia me esquecer de você, idiota - ele sussurrou no meu ouvido.

-Me liga assim que chegar, ok? Eu vou ficar no skype esperando, então vê se não esquece.

-Pode deixar. Cuida da nossa casa enquanto eu tiver fora.

Ele apertou um pouco mais, eu fiz o mesmo. Contra o meu peito, eu podia sentir a palpitação surda de seu coração acelerando e, por reflexo, senti o meu fazer o mesmo. Antes de soltar o abraço, ele fez a coisa que eu mais queria e menos esperava do mundo: selou minha boca com um beijo. Tive tempo apenas de fechar os olhos, deixei que ele pressionasse os lábios com força contra os meus, incapaz de reagir. Aquilo havia sido uma fantasia por tanto tempo que eu mal conseguia entender que de repente estava acontecendo de verdade, assim, sem aviso. Mesmo que não passasse de um selinho. E, se minha memória não falha em devaneios, por um único e fantástico segundo antes de separarmos as bocas, nossas línguas se tocaram com pressa para terminar aquela despedida com um estalo molhado.

-Tchau - disse sua voz rouca e nervosa enquanto Sasuke acenava com a cabeça e me dava as costas numa repentina correria à sala de embarque, me largando sozinho para responder a enxurrada de perguntas perplexas que me cercou. “Não,” eu lembro de murmurar atordoado, “nós não estamos namorado, tô tão surpreso quanto vocês, isso nunca tinha acontecido antes, eu preciso sentar e tomar um copo d’água.”

Meu nervosismo em casa, esperando sua ligação, era imenso. Eu sabia que o voo só chegaria por volta das nove horas da manhã seguinte, que o desembarque era demorado, que levaria tempo até Sasuke chegar em sua nova estadia, conhecer as pessoas que dividiriam a casa com ele, talvez até fosse difícil conseguir um momento livre para entrar no computador em seu primeiro dia, mas eu não consegui dormir. Tentei me distrair, assistir um filme na televisão, jogar videogame, voltar a dormir, fiz um lámen instantâneo para ocupar minha cabeça comendo, mas quando o relógio marcou nove em ponto, eu não consegui mais arranjar nenhum tipo de desculpa para impedir a mim mesmo de ligar o computador e encarar o skype ansiosamente. Não havia ninguém online. Fiz outro lámen um tempo depois e me enrolei no cobertor, encarando a tela inerte como se fosse um programa muito interessante, meu coração dando um salto a cada vez que algum nome pulava na tela com a bolinha verde ao lado, mas se frustrando no segundo seguinte ao reconhecer a foto de alguém que não era ele.

O toque alto me acordou assustado, havia cochilado com a testa na escrivaninha na minha espera aflita. Aceitei a ligação antes mesmo de checar quem era ou as horas, mas nos segundos que levou para conectar a vídeo chamada, arrisquei olhar para o relógio. Era quase uma hora da tarde.

-Oi - murmurou a imagem cansada do outro lado da tela.

-Oi! Oi, como foi, como você tá? Como foi de viagem?

-Calma, respira fundo, Naruto. Você tava dormindo?

-Ah… eu cochilei um pouco, agora... Mas e aí? Me conta tudo!

-Bom - ele mordeu a boca por dentro e desviou os olhos pensativo - Eu tô bem cansado da viagem, pra ser sincero. Eu tinha planejado dormir a maior parte do tempo, mas acabei dormindo só umas duas, três horas picadas, daí o desembarque é aquele porre, etc… O lugar é legal, você ia gostar daqui, parece filme, sabe? Minha república é legal, também. Digo, o lugar é pequeno e entupido de gente de tudo quanto é país, o que pode acabar sendo horrível, eu espero não odiar ninguém, porque passar seis meses preso numa casa cheia de gente insuportável seria uma tortura…

-Você que é insuportável, vai infernizar a vida de todo mundo aí.

-Eu me esforço.

-Idiota…

-Não sei do que você tá falando. Quem foi que pediu pra morar comigo por livre e espontânea vontade?

-Mas eu já tô acostumado, não é mesmo?

Ele sorriu.

-Enfim… Acho que é isso. Tenho um tempinho livre agora, daqui a pouco vamos sair pra comer e depois eu vou dormir. Amanhã vai ser um saco, porque eu vou ter que desfazer as malas e ir na faculdade receber um monte de instruções e blablabá…

-Hm…

-Mais alguma pergunta?

Eu olhei para a tela do computador meio abobalhado. Sasuke estava ali falando comigo, mas em outro continente, em outro país. Meu coração palpitava de nervoso, poucas horas antes aquela boca estava junto à minha pela primeira vez e, de repente, eu não poderia chegar nem perto dele por mais seis meses, e ele agia como se nem lembrasse do que havia feito. Umedeci os lábios devagar, uma série de perguntas e declarações se amontoaram na minha boca sem conseguir sair. Eu lhe dei um pequeno sorriso.

-Eu espero que você se divirta muito aí.

-Valeu. Eu vou tentar.

-Me mande mensagem sempre, me conta tudo o que acontecer. E sempre que tiver um tempinho, a gente combina de se falar por aqui, tá?

-Pode deixar, mãe.

-Vá se foder.

Ele sorriu. Eu sorri em retorno. Passou-se algum tempo de perfeito silêncio em que ficamos apenas encarando as imagens sorridentes um do outro, de início repletas de ternura, mas lentamente tomando um ar melancólico.

-É melhor eu ir agora… Me avise você, também, quando tiver se mudando.

-Tá bem.

-Tchau, até mais.

Depois disso, eu finalmente consegui deitar a cabeça no travesseiro e dormir até a hora do jantar.

A mudança foi alguns dias depois. O lugar não estava muito convidativo e, sendo eu alguém que nunca havia morado sozinho antes e tinha planejado estar ali com outra pessoa, era mil vezes mais solitário passar as noites sem ninguém. Sempre que podia, levava gente para dormir em casa. Não amantes, apenas amigos. Ainda que jamais houvesse me sentido tão carente e sozinho na vida, o fato de que aquele beijo de despedida não saia da minha cabeça acabava por assassinar qualquer desejo superficial que eu pudesse ter. Por mais natural que tivesse sido por toda a minha vida até ali, de repente eu não queria mais beijar outras bocas ou me deitar com outras pessoas. Eu queria Sasuke.

Mas naquele momento Sasuke não era mais que um nome que piscava com mensagens no meu celular e uma imagem que aparecia uma vez por semana na tela do computador. Ele não podia estar comigo de outro país. Havia chegado o momento em que, sim, eu tinha pressa, eu não queria mais aproveitar minha libertinagem adolescente, nem tinha medo de algo dar errado no meio de um momento de transição. O momento era de certeza e ansiedade. O único problema era que… Eu não podia simplesmente discutir um assunto daqueles através de um computador. Não, isso nunca. Parecia absolutamente ridículo, desesperado e pedinte passar anos ao lado dele todo santo dia para vir com um papo dramático de declarações de amor via skype justo enquanto ele cursava a faculdade em outro continente.

Então que fosse: minha única opção era esperar os meses passarem. Eu até cogitei dar um jeito de ir até lá passar aquele semestre com ele, mas minhas notas não eram tão boas para conseguir uma bolsa, muito menos meu inglês passava num teste de fluência. E, bem, sem bolsa eu não tinha chance nem de uma viagem turística de uma semana: eu era um universitário que havia acabado de torrar todas as suas economias dando entrada em um apartamento cujas contas eu estava pagando sozinho. Decidi pela a única coisa que eu podia fazer por mim naquele momento: passei a economizar dinheiro ao máximo para dar um trato naquele apartamento deprimente. Não era muito rápido no meu estado financeiro e muito menos sobrava tempo para fazer alguma coisa entre o trabalho e a faculdade, mas pelo menos me dava alguma motivação para ocupar a cabeça além de ficar contando os dias, horas e minutos pela volta de Sasuke num ritual deprimente e desesperador de autopiedade.

Faltando um mês para o seu retorno, eu havia conseguido comprar tinta, estantes e quadros interessantes para renovar as paredes e decidi separar um fim de semana para cuidar disso. Queria terminar tudo antes de Sasuke chegar, como uma surpresa de boas vindas. Coloquei uma roupa velha, deixei música alta tocando, forrei os cantos com jornal, preparei a tinta e comecei a pintar a sala. Já estava quase terminando a primeira parede, cantando a plenos pulmões, quando começou a tocar uma banda que Sasuke havia me apresentado no colegial. Uma daquelas ocasiões em que ficamos deitados em silêncio no carpete fofo do meu quarto ao som da música, imersos no nosso oceano particular, dividindo o mesmo oxigênio, que parecia incrivelmente escasso enquanto o coração acelerava pouco a pouco sob o olhar dele cravado no meu. Parecia uma realidade tão distante naquele sábado a tarde.

Senti uma pontada no coração relembrando aqueles pequenos momentos de sagrada intimidade e descansei o braço da pintura por um momento, soltando um profundo suspiro. A minha espera não duraria muito mais, pensei consolando-me das saudades, faltava um mês exato para o retorno dele. Já estava tudo planejado, eu iria buscá-lo no aeroporto e trazê-lo para nosso apartamento, devidamente reformado, com as paredes pintadas, as estantes cheias, um ar fresco e convidativo. Tudo do jeitinho que eu havia planejado e do jeito que eu sabia que ele iria gostar tanto quanto eu e, portanto, faria daquele lugar tão maravilhosamente nosso. Com outro suspiro arrastado, peguei novamente o rolo de pintura para voltar ao trabalho quando ouvi um barulho na direção vindo da porta e me virei para encontrar Sasuke entrando com a mala de viagem e um ar zangado.

-Que porra você tá fazendo? - ele rosnou empurrando a mala para a frente e fechando a porta às suas costas.

Atônito, confuso e alarmado, tentei ir em sua direção, mas chutei acidentalmente a bandeja de tinta e me assustei, largando o rolo dentro dela e, por consequência, esparramando tinta para todo o lado, inclusive em mim mesmo. Encarei Sasuke num silêncio culposo e vulnerável, ele deu um longo suspiro e deixou a mala de lado. Fiz que ia sair dali, mas ele ergueu a mão no ar em sinal de espera.

-Não se mexe, vai pisar na tinta e sujar mais ainda o chão. Tem aguarrás ou algo assim?

-Tem… área de serviço…

Ele entrou pela porta da cozinha e sumiu por alguns instantes enquanto eu aguardava imóvel da cabeça aos pés e o coração saindo pela boca. Logo ele voltou, as mangas da blusa dobradas para cima, a lata de aguarrás numa mão, dois panos na outra. Um maior ele encharcou e jogou no chão ao meu lado, onde a tinta havia espirrado pavorosamente para além do jornal, pisou em cima e esfregou um pouco em volta. Depois o deixou lá e voltou a atenção para o pano menor, que molhou também antes de pousar a lata no chão e erguer meu pulso com cuidado para tirar a trilha de respingos que coloria meu antebraço.

-O que cê tá fazendo aqui? - falei finalmente numa voz exasperada - Achei que você só chegava mês que vem!

Ele ergueu os olhos para mim furioso.

-Mês que vem, Naruto? Eu mandei o print do site da companhia aérea com todas as informações do voo!

-É, eu sei! Tava escrito 7/6, eu achei…

-Sim! 7/6! Sete de junho, qual é a dúvida?

-Eu achei… Tava tudo em inglês, eu achei que era seis de julho! Não é ao contrário quando tá em inglês?

Sasuke largou o pano no chão e arregalou os olhos de um jeito que achei que ia me socar.

-É ao contrário nos Estados Unidos, seu retardado! Não na Inglaterra! Eu voei por uma companhia britânica! Eu tava em Londres!

-Eu não sabia!

-Como você não reparou que eu passei a semana inteira falando sobre isso?

-Eu achei que você tava sendo exagerado! Como você não reparou eu reclamando que ainda faltava uma eternidade?

-Eu achei que você tava sendo exagerado!

-Como você saiu de lá sem dizer nada que tava embarcando?

-Eu tava super enrolado, um monte de correria, mil coisas na cabeça, sei lá!

-E por que não me ligou do aeroporto quando viu que eu não tava lá?

-Acabou a bateria durante o voo! - ele suspirou e penteou o cabelo para trás com a mão - Eu pensei em procurar uma tomada pra carregar o celular e te ligar pra saber o que raios aconteceu, mas eu nem sei onde tá meu carregador na bagagem, eu tava cansado, pareceu mais fácil só pegar um táxi pra cá direto.

Eu bufei frustrado e fitei o chão. Um nervosismo enorme tomava conta de mim, tinha a ver com a culpa horrível que eu sentia por ter errado o dia do seu voo, por estarmos brigando, pela redecoração surpresa estragada, por todos os meus planos de reencontro indo por água abaixo e, mais que tudo, pela vontade esmagadora de me jogar em cima dele e abraçá-lo com toda a minha força e necessidade de matar as saudades, que estava sendo boicotada pela infelicidade de eu estar coberto de respingos de tinta fresca e ele estar vestindo uma roupa claramente nova. Esse conjunto de infortúnios me fez erguer os olhos para ele com uma expressão de profunda infelicidade e soltar um murmúrio baixo.

-Porra, Naruto, dá pra no mínimo fingir que tá feliz de me ver depois de tanto tempo? - ele reclamou pousando as mãos no quadril com um ar cansado.

-Eu tô! Ah, que merda… - eu esfreguei a mão que não fedia a aguarrás no rosto e dei outro murmúrio de chateação - Eu não acredito que eu confundi a data, me desculpa. Eu tinha planejado tudo tão diferente…

-Deixa pra lá, o importante é que eu já cheguei… - ele estalou a língua e olhou em volta distraidamente por um instante - Eu tô com fome, na verdade, por que você não faz uma pausa da sua pintura um momento e a gente come alguma coisa? Tem o que comer aqui?

-Eu… Ah, eu andei economizando muito pra comprar as coisas da reforma… - eu murmurei num tom culpado - Eu tô sobrevivendo de cup noodles, basicamente… Mas a gente pode sair pra comer, tem uns restaurantes legais aqui perto.

-Não, eu não quero sair agora. Pode ser cup noodles, mesmo, não faz mal.

-Tá, deixa eu me trocar rapidinho e eu já boto a água pra ferver.

-Limpa a sola da sandália no pano de chão antes, pra não sair pintando a casa inteira.

Eu dei um sorrisinho sem graça e obedeci antes de correr para o quarto e me trocar. Ouvi Sasuke passar com a mala de viagem enquanto eu despia a camiseta e fiquei completamente frustrado de chegar devidamente limpo na cozinha e encontrá-lo já se adiantando, acendendo fogão, medindo água. Tinha esperanças de lhe dar um abraço apertado de boas vindas uma vez que eu não era mais uma ameaça de tinta. Mas parecia inapropriado, ele já havia se ocupado com alguma coisa e o timing pra isso tinha morrido.

-Pega os copos e algo pra beber - ele disse sem me dar muita atenção, ocupado em escolher um sabor de lámen.

Colocamos a água no macarrão e levamos tudo para a sala e, já que não havia muitos móveis, nos instalamos na parte do chão onde tínhamos planos de colocar uma mesa de jantar algum dia. Sentamos próximos a uma quina, cada um com as costas apoiadas em uma parede, esperando os três minutos para o macarrão ficar pronto.

-Essa cara de deprimido ainda é porque você errou o dia da minha viagem? - eu ergui a cabeça para ele um tanto surpreso. Estava tão absorto em me lamentar mentalmente por cada segundo que se passava que mal me dei conta de que continuava exalando melancolia por todos os poros - Porque se for só isso, relaxa. Não tem muita importância, eu ia te encontrar lá pra vir até aqui, ao invés disso eu te encontrei aqui direto, não é como se tivesse mudado muita coisa.

-Ah… Tá bem. Foi mal.

-Só para de fazer essa cara de sofrimento, fazendo o favor. Eu tava esperando uma recepção mais alegre e calorosa depois de passar seis meses em outro país.

-Me desculpa! - choraminguei exasperado - Eu só… Esquece. Eu tô muito feliz que você voltou! Mais feliz ainda que foi antes do que eu esperava, eu tava achando que ainda ia levar mais um mês inteiro até eu te ver, tava até pensando em você quando você entrou de surpresa e quase me matou do coração. Tava morrendo de saudades!

-Ah, aí sim: sorrisos, finalmente - ele deu um meio sorriso em retorno e eu dei uma risada fraca.

-E você?

-Que tem eu?

-Sentiu saudades de mim?

Sasuke abaixou os olhos para seu cup noodles e o cutucou com o hashi para ver se já estava bom, mas um arco discreto continuou em seus lábios.

-Claro que senti - murmurou baixinho.

Minha chateação se desmanchou imediatamente, deixando no lugar uma sensação cálida e agitada no peito.

-E aí, me conta como foi lá.

-Como foi o quê, Naruto? Eu te contei tudo o que foi acontecendo praticamente em tempo real, passei mais tempo te narrando as coisas pelo chat que conversando com qualquer um pessoalmente durante toda a viagem.

-Então me fala sobre hoje, sobre o voo, não sei - eu peguei meu lámen e mexi um pouco para me certificar de que estava pronto - Esses últimos dias você falou muito pouco comigo (o que agora faz mais sentido, porque você tava se preparando pra voltar…)

Ele deu de ombros e começou a me narrar seus últimos dias na Inglaterra enquanto comíamos. Minha animação continuou crescendo. Estava deslumbrado de ouvir sua voz, vê-lo ali comigo; cada diferente, mas deliciosamente familiar, expressão que passava por sua face e enchia meu peito com uma satisfação saudosa. Minha vontade era de trancar a porta de casa e não deixar mais ele sair, nem ninguém entrar por semanas para ter Sasuke só para mim até eu conseguir saciar toda aquela saudade.

Um breve silêncio recaiu entre nós depois de concluída a história. Sasuke se pôs imóvel com um ar pensativo e fechou os olhos.

-Você tá ouvindo Muse - disse baixinho enquanto voltava sua atenção para o macarrão - Eu amo essa música.

Eu mordi o lábio. A lembrança da primeira vez que ele havia me mostrado aquela faixa reprisou em um segundo na minha cabeça. “Eu amo essa música” ele havia dito então, num timbre e entonação quase idênticos ao que havia ali usado novamente. Mas não estava sentado tão longe, estava colado a mim. Lembrei-me da sensação do seu ombro junto ao meu, seu cheiro, seu olhar cravado ao meu a poucos centímetros de distância, sua respiração quente e devagar tocando minha pele suavemente.

-Eu te amo - soltei, parcialmente consciente, parcialmente por impulso.

Sasuke ergueu os olhos para mim com uma expressão de vaga surpresa. Meu coração foi de zero a milhão sem que eu me desse conta. Ele continuou me encarando sem reação por um tempo, abriu a boca para dizer alguma coisa, mas fechou novamente e sacudiu a cabeça brevemente.

-Eu também te amo - ele respondeu franzindo um pouco a sobrancelha como se eu houvesse feito um comentário fora de contexto sobre sua roupa ao invés de uma declaração de amor entalada na minha garganta por anos.

-Não, acho que você não entendeu, eu quis dizer…

-Eu sei o que você quis dizer - ele desviou o olhar para o macarrão que ele agora cutucava, sem realmente pegar nada - Eu já sabia disso. E você sabe que eu também te amo.

Constrangido da cabeça aos pés, eu abaixei os olhos para o meu cup noodles tal como ele, mexendo com os hashis sem levar nada à boca. Aquilo definitivamente não era nada parecido com o que eu vinha fantasiando desde o segundo ano do colegial.

-É isso? - eu cortei o silêncio depois de um tempo terrivelmente longo, lançando um olhar nervoso a Sasuke, que havia voltado a comer normalmente como se nada estivesse acontecendo.

-O que?

-Eu não sei, eu esperava algo um pouco mais pra uma adaptação cinematográfica do Nicholas Sparks e um pouco menos pra uma previsão do tempo no jornal das seis.

-Bom, eu também - ele voltou a franzir o cenho para mim - Eu tinha planejado um reencontro romântico no aeroporto, continuar aquele beijo que eu te dei antes de ir, mas você errou o dia e me largou plantado lá. Mas ok, eu pensei, reencontro romântico no nosso apartamento, mas você tava coberto de tinta me encarando deprimido como se eu fosse uma assombração. Mas tudo bem, eu pensei, depois a gente sai pra um jantar romântico e eu te pedia em namoro, mas você resolveu se declarar no momento mais anticlimático da história da humanidade e eu honestamente não faço ideia do que você esperava.

-Ah, é claro que é tudo culpa minha! Você não tem um pingo de sensibilidade e eu que estraguei tudo?

-Eu não tenho sensibilidade? Você disse “eu te amo”, eu disse que também te amo. A gente tá sentado num chão forrado de jornal e comendo miojo, o que exatamente você tava esperando que eu fizesse além disso?

-Eu não sei! Qualquer coisa!

-Você quer… Quer que eu te dê um beijo? - ele rosnava agitado, botou o lámen de lado e se ergueu de joelhos me encarando com uma selvageria enraivecida - É pra eu ir aí te beijar?

-Bom, seria um pouco menos patético, não? - retruquei igualmente furioso fazendo o mesmo que ele.

-Ótimo!

Avançamos, os dois de joelhos, na direção um do outro e nos agarramos num beijo explosivo, cuja raiva pela discussão não passava da faísca que desapareceu no mesmo instante em que o acendeu. A força matriz era um acúmulo exacerbado de saudades, paixão, ciúmes, estresse, frustração, desejo e uma felicidade que ultrapassava o limite das palavras, e esse combustível queimava em forma de mordidas pouco cuidadosas nos lábios e mãos aflitas investigando o corpo oposto com urgência e selvageria. De alguma forma, assemelhava-se mais a uma tentativa literal de amassar um ao outro que um beijo.

Meu fôlego, eventualmente, se esgotou por completo, no que eu segurei o rosto dele em com as duas mãos e afastei a boca numa busca desesperada pelo ar e seus olhos.

-Eu senti tanto a sua falta… - ofeguei deixando meu nariz roçar suavemente ao seu. Um lento contraste com a barbárie do beijo trocado enquanto o fogo de tal abaixava.

-Eu também… - ele arfava quase tanto quanto eu. Suas mãos deslizaram devagar pelos lados da minha cintura ao mesmo tempo em que ele encaixou o rosto em meu pescoço, senti sua respiração quente contra a minha pele antes dos beijos que subiram até minha orelha, cada um me causando um novo arrepio, e então o ouvi inspirando fundo, colado ao meu ouvido o suficiente para me fazer estremecer mais uma vez - Senti falta do seu cheiro… da sua voz… Eu achava que sabia o quanto você é importante pra mim, mas na verdade eu não tinha ideia. Esses meses foram uma tortura, eu tava enlouquecendo.

Me calei, preocupado apenas em apreciar seu abraço, seu calor, seu toque, e ouví-lo falar aquelas coisas bonitas que, eu tinha certeza, ele não estaria dizendo se seu rosto não estivesse escondido, fora do meu campo de visão. Eu sabia exatamente a falta que ele me faria antes que partisse e quisera eu estar errado e ter me sentido menos amputado no tempo em que ele esteve fora. Mas tudo aquilo era passado, e o presente só não era tão maravilhoso quanto a expectativa certeira que então se estabeleceu para o nosso futuro.

Meio devagar, desenrolamos os braços de torno um do outro e nos fitamos por um momento solene, ainda tocando-nos de leve. Outro beijo, desta vez seguro e desapressado, com uma naturalidade e certeza que fazia parecer que fora sempre assim entre nós e, ao mesmo tempo, a sensação deliciosa de ser, oficialmente, o nosso primeiro. Não era uma despedida carinhosa, nem um desafogo estabanado. Era um beijo. Um beijo enamorado. E tinha uma sensação de completude, êxtase e harmonia que nenhuma outra boca no mundo poderia me dar. Bateu-me de repente a epifania de uma significância essencial que eu jamais soube que um beijo sequer poderia conter.

Estava selado ali o nosso acordo de consenso.

Depois disso, meus ossos do joelhos já estavam protestando de sustentar meu peso tempo demais e, creio eu, ele devia estar sentindo o mesmo. Além disso, não havíamos terminado de comer ainda. Sasuke voltou ao seu lugar junto à parede e eu peguei meu almoço para ir sentar ao seu lado, ombro a ombro como já era nosso costume. Ele me deu um beijo estalado na bochecha, como sempre fazia.

-Não acredito que você ia fazer a redecoração da casa toda sem mim - ele disse com o habitual cinismo, voltando a atenção para o macarrão novamente - e jogar fora a chance de nós dois fazermos isso juntos que nem um casal clichê de romance da sessão da tarde.

-Ainda bem que eu confundi a data, então. O que seria de você sem a oportunidade de reclamar do jeito que eu tô posicionando as prateleiras.

-Que bom que você me entende.

Trocamos olhares de censura risonhos. Tudo estava tão normal, tão familiar. Como se não tivéssemos acabado de nos tornar namorados, ou como se já fôssemos namorados desde sempre. Talvez, de fato, fôssemos. Pouco mudava oficializar aquilo, apenas adicionava alguns (maravilhosos e abençoados) bônus na relação que sempre esteve ali, caminhando em passos lentos. Mesmo assim, era uma pequena mudança gigantesca

O sentimento era mútuo, chegamos a comentar vez ou outra, como quem comenta do tempo, sobre como estarmos de repente morando juntos e nos tornar um casal parecia ter sido muito mais um mero passinho adiante do que o salto à distância que talvez deveria ter sido. Acho que esse é o lance de amar seu melhor amigo de infância, não existe dificuldade em construir algo junto de alguém que foi parte da construção de quem você é e você foi parte da construção que ele fez de si. Já havia tanto dele em mim e tanto de mim nele que mal havia separação entre eu, você e nós.

E com toda essa naturalidade, não era surpresa o quanto foi tão comicamente fácil confundir a cabeça de quase todos os nossos amigos e conhecidos. Continuamos insistindo na velha tática do “mas a gente já namorava desde o colégio”, “credo, nós somos praticamente irmãos, até quando você vai ficar insistindo nessa história de namoro?”, “pelo amor de deus, Suigetsu, nós já somos casados há três anos, você tava lá, lembra? Você era o buquê”. Levou um tempo até todos terem mesmo certeza de que estávamos juntos. Só minha mãe e o irmão dele realmente sabiam quando havíamos começado a namorar de verdade, ninguém mais sabia sequer o ano certo. Gerou até umas belas gargalhadas quando uns dois ou três amigos ficaram perplexos com o convite de casamento, no ano seguinte às nossas formaturas, completamente convencidos de que já éramos casados desde os dezoito anos. Mas quanto essa decisão eu fui bem claro: “você que decida quando for a hora certa e me peça em casamento. Senão depois vai ficar me enchendo o saco que eu estraguei o momento, que foi cedo demais, que eu errei o mês…”, Sasuke rolou os olhos para mim daquele jeito, lançou aquele sorrisinho ínfimo de praxe e eu já mal lembrava do que estava falando. Ele pediu no dia seguinte.

26. Februar 2018 07:00:04 3 Bericht Einbetten 19
Das Ende

Über den Autor

Liiz Lestrange No mundo das fanfics há mais de dez anos, obcecada com sasunaru há mais de cinco, apaixonada por todo tipo de arte e sempre exaltando meu otp como se não houvesse amanhã.

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Leyla Mir-chan Leyla Mir-chan
que lindo, amei toda a narração em primeira pessoa de Naruto, tão espontânea e emotiva assim como ele é...quero mais pfv
20. Mai 2018 21:52:25
Celi Luna Celi Luna
Eu amo tanto essa fic que não cabe em miiiim e comento todas as vezes mesmo mdssss
5. März 2018 18:15:44
Zea Zhi Zea Zhi
MANO DO CÉU EU TO MUITO APAIXONADA PQP SOCORRO ITI MALIA QUE FANFIC MARAVILHOSA EH ESSA EU ATÉ CHOREI PQ FOI TU FEZ BONITO DEMAIS COM MINHA ALMA, PELO AMOR DE JIRAIYAAAAAAAA!!!!! VOCÊ QUER O MUNDO? EU TE DOU MEU AMORZINHO XODÓZINHO DE FANFIC AI COMO EU TO APAIXONADA JAESUS AMÉM SASUNARU ISSO AQUI NÃO MERECE PALMAS MERECE O TOCANTINS INTEITO #surtei
3. März 2018 18:25:55
~