kztironi Karina Zulauf Tironi

Havia uma profecia antiga sobre um homem, amaldiçoado a carregar o peso do próprio coração nos ombros, que caminharia sobre uma campina ao nascer de um dia e com ele, traria bênçãos para toda a humanidade.


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A Profecia do Homem com o Coração nas Costas

Havia uma profecia antiga sobre um homem, amaldiçoado a carregar o peso do próprio coração nos ombros, que caminharia sobre uma campina ao nascer de um dia e com ele, traria bênçãos para toda a humanidade. Alguns, os mais velhos, alegam que esse homem já foi um anjo, ou talvez um deus – não daqueles que sentam em tronos de ouro e miram seus olhos divinos com desprezo, mas um deus benevolente e muito adorado pelas pessoas –, outros diziam ser um homem comum, suportando uma tristeza enorme como castigo por algum mal que havia feito na vida passada. Mas a data da profecia mudou tudo e todos aqueles que eram ignorantes ou céticos no princípio tornaram-se ansiosos e animados.

A população se reuniu em uma pequena campina no fim da noite, poucos minutos do dia marcado muitos séculos antes. Grupos de familiares, amigos, conhecidos e vizinhos tomaram os lugares na grama verdíssima, molhada com o orvalho da manhã e iluminada pelos primeiros raios de sol. Cada qual havia trazido algo, como uma cesta de piquenique, uma luneta, o animal de estimação da família em uma coleira ou solto correndo pela campina; não havia uma pessoa sozinha e todos os grupos se entretinham durante a espera pelo homem com o coração pendurado nos ombros e caindo pelas costas. A espera foi longa, as famílias terminaram de beber o café e saborear seus sanduíches de frango ou tomate e rúcula, nuvens branquíssimas apareceram e o cachorro se cansou de correr pelo gramado e se sentou aos pés de sua dona, uma menininha de sete anos e sorriso janelinha. Em nenhum momento as pessoas se levantaram e foram embora, mesmo com o passar das horas.

Então, alguns minutos depois de Flávia ter deitado sua cabeça na barriga de Teddy e começar a contar as nuvens no céu, uma silhueta surgiu ao longe, contornado pelo sol alaranjado, fazendo parecer que estava pegando fogo.

– É ele! – O velho senhor Silva exclamou, se colocando de pé com ajuda de sua bengala de madeira e o braço de sua neta mais velha – Eu sabia! É um anjo!

– Coloque seus óculos, vovô. O homem não tem asas, não pode ser um anjo.

Todos se levantaram devagar, com uma certa reverência e cuidado. Não pareciam acreditar no que estavam vendo, mesmo conhecendo a profecia há tantos anos; eles acreditavam, mas, de alguma forma, nunca pareceu que realmente aconteceria e que eles estariam lá para presenciar.

Afinal, quantos são os privilegiados de presenciar uma profecia se concretizando?

Teddy ficou nas quatro patas e latiu conforme o homem se aproximou ainda mais. Estava longe o bastante para que ainda não fosse possível ver seu rosto ou sua expressão, mas perto o suficiente para que fosse claramente notado por todos que ele carregava, de fato, alguma coisa pesada nos ombros. E não eram asas de anjo.

– Talvez seja um saco. Ou uma mochila. – Anderson Booz ponderou, considerando o tamanho e a forma. A sua vizinha Rúbia, que estava com seu grupo de amigos do trabalho, balançou a cabeça, apertando os fartos e rosados lábios.

– Dificilmente. – Ela não expôs os motivos que a faziam duvidar sobre se tratar de uma mochila, mas não precisou, o homem estava mais perto agora e aos poucos todo mundo conseguiu reconhecer o que carregava nos ombros.

Ou melhor, quem.

Houve uma agitação silenciosa enquanto o homem cansado terminava de percorrer a distância que os separava, cabisbaixo. Não sabiam dizer se ele sequer havia notado-os ali e muitos se perguntaram por quanto tempo ele estava andando. O homem aparentava estar quase sem forças, o corpo curvado para sustentar o peso em seus ombros e costas, cada passo carregando uma persistência e força quase impossíveis; ele podia estar devagar, mas não parou de caminhar por um segundo.

– Alguém deveria ajuda-lo. – Sussurrou Marta, desconcertada em permanecer ali olhando.

– Não. – Seu marido foi suave, mas firme – Deixe que ele venha até nós.

E assim ele veio, diminuindo gradativamente o passo até parar por completo a mais ou menos uma distância de quatro metros. Quando o homem ergueu a cabeça, mostrou-se ser um senhor de idade, talvez uns cinco anos mais velho que Rafael, marido de Marta. Ele possuía marcas de expressão fortemente marcadas ao redor dos olhos claros, no cenho queimado pelo sol e ao redor da boca ressecada e havia certamente algo muito triste em seu olhar, algo como perda e derrota. Por um minuto inteiro, tudo que os presentes ali conseguiram fazer foi respirar e piscar; para alguns foi difícil engolir.

O homem carregava uma pessoa pequena nos ombros, com cabelos escuros e despenteados e cortes superficiais no que era visível de suas canelas. Ela não estava se mexendo e não era possível ver seu rosto.

– Por favor – o senhor disse com uma voz rouca que não era usada há séculos – Ajudem-nos. Ajudem meu filho.

– Eu sou médico. – Anderson Booz prontamente deu um passo à frente, adquirindo sua famosa expressão de pediatra – O que aconteceu com seu filho?

– Só ajude-o, por favor. – Insistiu o homem, suas forças sendo exauridas até ele não conseguir mais permanecer em pé e cair de joelhos no chão, o corpo tremendo em pequenos e curtos espasmos.

Anderson não hesitou em sua assistência. Acima de qualquer dever e obrigação médica, ele era um bom homem.

Primeiro conferiu o menino, em estado de aparente inconsciência, com as roupas e o rosto redondo, infantil, sujos de fuligem. Porém, ao pressionar dois dedos em seu pescoço e observar seu peito, constatou que o menino não respirava, seu coração não batia. Se o homem andara por tanto tempo, era provável que o menino já tivesse morrido há algumas horas. Anderson segurou uma das mãos do menino, fria e dura ao toque, a pele com uma coloração roxa e acinzentada – sinais de que os estágios iniciais da decomposição já estavam acontecendo. Ele pressionou os lábios, lamentando imensamente pela perda daquele pai, que ainda não tinha conhecimento do falecimento do filho.

Essa era sempre a parte mais difícil, pensou Anderson. Muito mais difícil que usar um bisturi, cessar sangramentos e unir ossos quebrados era a tarefa e o dever de um médico de dar más notícias.

Para isso, não haviam manuais ou uma matéria no curso de medicina. Para isso, bastava se permitir ser humano e entender que a dor do outro é tão importante e crua quanto a nossa. Para dar uma notícia dessas, não bastava ser um médico e ter todo o conhecimento; era necessário ter empatia e amor pelo outro.

– Vocês estão andando há muito tempo? – Ele perguntou, ainda segurando a mão do menino, como se continuasse o examinando, tomando o cuidando de usar o plural na pergunta.

O senhor estava tão exausto que até mesmo o fraco aceno de cabeça parecia o exigir demais. Aparentava que, agora que havia encontrado alguém para cuidar de seu filho, toda a força restante que ainda possuía (para ser forte pelos dois) aos poucos se esvaía.

– Perdi a noção do tempo.

Seu sofrimento era tão visível que era como um manto sobre todas as famílias ali, cobrindo todo mundo. Anderson assentiu suavemente com a cabeça e se afastou um pouco do menino para poder tocar no ombro do pai.

– Não sei o que lhes aconteceu ou porquê andaram tanto para chegar até aqui, mas quero que saibam que são muito bem-vindos nesta terra. Nós os acolheremos como amigos, como família. – Falou baixinho, se preocupando em silêncio com o estado físico e emocional do homem à sua frente. Anderson temia que pudesse desmaiar de exaustão – Você está com sede?

Antes que ele mesmo respondesse, Flávia se apressou para pegar a garrafa de água de dentro da sua mochilinha azul. Ela teve vergonha de dar ela mesma, então a estendeu para Anderson, que sorriu com carinho para ela antes de entregar a água para o homem cabisbaixo.

– Muito obrigado, querida.

Ele bebeu, primeiro devagar e depois com certa avidez, deixando a água escorrer dos cantos da boca pelo pescoço, trilhando um caminho na sujeira impregnada em sua pele e suas roupas rasgadas. Em um momento, se afogou e foi amparado por Anderson, que o incitou a respirar fundo.

– Está com fome? – Perguntou, após certo tempo – Nós temos frutas, sanduíches...

– Eu quero que ajude meu filho. – Insistiu.

Anderson ainda estava ajoelhado no chão, junto com o pai e seu filho morto. Ele se afastou um pouco para poder olhar o homem nos olhos e tentar transmitir um pouco de calma para ele nesse momento difícil.

– Senhor, o seu filho...

– Eu sei.

Ele baixou os olhos marejados para o menino, deitado na mesma posição em que havia sido deixado. Sem a coloração da pele que o denunciava, poderia até se passar por uma criança que havia adormecido enquanto observava as nuvens no céu.

– Matheus me disse adeus. – Fechou os olhos, arrebatado por uma onda de emoções – Mas não pude deixa-lo. Não assim. Não o desonraria dessa forma.

Anderson conhecia sobre várias culturas em que todos que faleciam precisavam ser enterrados para que suas almas se libertassem finalmente e pudessem encontrar seu caminho no pós-vida. Eram poucos os que não seguiam o ritual do enterro; andarilhos sem família, homens e mulheres deserdados, pessoas que desapareciam e morriam longe de todos que conheciam, sem poderem ser acolhidos pelos entes queridos. Era um último carinho, uma cerimônia para eternizar o amor pela pessoa que se fora.

Aquele homem desejava poder enterrar o próprio filho. Não teria o largado, mesmo que o peso em suas costas dificultasse a caminhada e pudesse ser seu erro fatal.

Ele havia carregado seu coração pendurado nos ombros por todo o caminho. O mínimo que todos ali presentes poderiam fazer por ele era ajuda-lo a enterrar o menino.

Anderson tocou o ombro do homem, quase que com reverência, e o fitou nos olhos cansados.

– Você é um bom pai. O ajudaremos a enterrar seu filho e você poderá permanecer conosco por tanto tempo quanto desejar.

O homem desatou a chorar. Baixinho, tão silencioso como um último suspiro.

O velho senhor Silva baixou sua cabeça em respeito e foi acompanhado por todos os outros. Flávia abraçou Teddy apertado e fechou seus olhinhos.

Após dez longos minutos, o homem permitiu que Anderson o ajudasse a se levantar. Lucas, de quinze anos e cabelo descolorido, se juntou a eles e usou seu corpo como apoio, passando o braço esquerdo do senhor por seus ombros. Juntos, eles cuidaram dele, lhe ofereceram comida, banho na casa da família mais próxima e novas vestes.

– Eu me sinto como uma criança novamente. – Disse ele com um sorriso triste.

Seu filho também foi cuidado, limpo cuidadosa e respeitosamente com panos úmidos e vestido com as roupas do caçula de Rúbia por cima de suas vestes originais. Quanto tudo estava pronto, Anderson acompanhou o homem até a cova recém cavada na campina, onde todos os esperavam. Seu filho estava lindo em roupas formais, corado graças às maquiagens de algumas mulheres, o cabelo penteado para trás e um ar solene. Flávia segurava um tipo de buquê de flores que havia juntado e esperava que isso fosse deixar o senhor um pouquinho menos triste.

“Tenho certeza que ele vai gostar das flores, querida”, sua mãe dissera, passando as mãos pelo cabelo cacheado da filha.

Mais uma vez, todos esperaram em consideração quando o homem chorou, mais uma vez, ao ver seu filho. Ele se ajoelhou e tocou a barriga dele com sua testa, o corpo balançando aos soluços.

Ninguém nunca está preparado para perder um filho. Não é assim que o ciclo da vida deveria se desenrolar.

Ele segurou sua mão, passou os dedos por seu rosto infantil, seus cabelos, como se precisasse se certificar de que lembraria de todos os detalhes para sempre.

Com lágrimas ainda rolando pelo rosto, o homem se levantou e assentiu fracamente, sem dizer nada.

Anderson, juntamente com Ivan e Rodrigo, baixou o corpo do menino pelas pontas de uma toalha de piquenique. O silêncio predominava, esmagador e frio, como a descoberta de uma tragédia, e Flávia correu para perto do homem antes que começassem a cobrir seu filho de terra. Ela estendeu as flores, um pouco envergonhada.

– Para o seu filho.

Sem saber o que dizer e pego de surpresa, ele sorriu para a menina.

– Quer me ajudar?

Flávia assentiu com a cabeça e os dois se inclinaram para espalhar as lindas e diversas flores no menino, deitado em seu leito. Ela permaneceu ao seu lado enquanto seu pai ajudava a cobrir o buraco e, quando tudo terminou, se aproximou mais uma vez para depositar uma única florzinha amarela no topo da terra macia.

– Pronto. – Ela disse – Agora ele pode dormir em paz.


Flávia se lembra daquele velho senhor de vez em quando, do tamanho de sua força e seu amor. Quando passa pelo local do enterro ela ergue os olhos para os narcisos que cresceram lá em poucos meses e cumprimenta levemente as flores da vida eterna antes de continuar o seu caminho.

31. August 2020 19:35:56 4 Bericht Einbetten Follow einer Story
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Das Ende

Über den Autor

Karina Zulauf Tironi Como escrever sobre mim, quando me torno tantas outras pessoas enquanto estou escrevendo? Só uma menina tentando transformar seus monstros em histórias que possam entreter.

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Delvan Sales Delvan Sales
Olá, Karina. Parabéns pelo conto! Foi uma bela narrativa. Gostei bastante da forma como você trouxe para o "real" da história o que era uma "fantasia" profética. No final das contas aconteceu o que era previsto, contudo de uma maneira natural. É como a vida se apresenta, alheia às nossas fantasias particulares, mas transmitindo suas lições. Fiquei bastante feliz em ler isso!
October 24, 2020, 03:07

  • Karina Zulauf Tironi Karina Zulauf Tironi
    Oii, Delvan! Tudo bem? Caramba, muito obrigada pelo comentário tão lisonjeiro! Fico muuuito feliz que gostou do meu conto ❤️ Abraços e tudo de bom! October 25, 2020, 13:43
Mya  Zurck Mya Zurck
Oi, Karina. ⊱✿(❁ ⁀ ‿ ⁀❁)✿⊰ Cá estou para deixar minhas impressões sobre esta narrativa curta, mas imensamente profunda em termos de sensibilidade. Confesso a você que eu obtive uma ideia diferente quanto li o título. Cheguei mesmo a achar que se tratasse de algo mais ao gênero fantástico-cômico. De todo modo, estou grata até pelo equívoco, pois o que vi aqui foi um enredo tocante, belo e que nos faz refletir sobre a necessidade poderosa que, não raro, temos de passar por liturgias, para darmos um significado importante a um evento ou para apaziguarmos o nosso coração. Os gestos das pessoas, sobretudo, das que se prontificaram a ajudar o senhor que trazia ao ombro o seu filhinho morto, foram tão respeitosos quanto maravilhosamente empáticos. E o senhor em si transmitiu-me um ar de nobreza e distinção que, de fato, foram mais notórios do que suas vestes esfarrapadas, sujas e sua compleição física envelhecida. O que eu mais notei foi a sinergia entre a dor do pai extenuado necessitando de uma ajuda e prestatividade da família para amenizar o sofrimento dele. Muito lindo. Eu gostei, visualizei as cenas perfeitamente e me emocionei. Valeu a leitura. Beijinhos!
September 15, 2020, 13:10

  • Karina Zulauf Tironi Karina Zulauf Tironi
    Oi, Mya! Tudo bem? Ahh, seus lindos e fofos comentários! Fiquei super emocionada com o primeiro comentário neste conto, é a primeira opinião que recebo sobre ele. A história desse sofrido homem carregando o filho morto nas costas por sabe-se-lá quantos dias e por qual distância me veio como a ideia de escrever sobre a importância do calor humano e o respeito pela dor do outro. As coisas começaram a se desenrolar, em alguns momentos senti que o conto poderia ser interpretado de muitas formas, com uma simbologia diferente e uma visão diferente - quem sabe, para certas pessoas, até bíblica. Fico imensamente feliz que você tenha gostado da leitura e não imagina quanto significou seu comentário. Eu sentia falta de uma opinião para o conto, não por questões de reconhecimento, mas para entender como os outros o entenderiam. Mais uma vez, obrigada! Estou amando receber comentários seus, Mya! Beijoss e até a próxima <3 September 15, 2020, 14:46
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