stefanippaludo Stéfani Paludo

"Juramentos podem ser quebrados. Principalmente por uma boa causa. Você vai deixar que o país continue como está, apenas porque prometeu servir aos governantes? " Após uma doença que devastou a humanidade, um único país sobrevive em meio à Floresta Amazônica. Uma sociedade semelhante as anteriores, onde desigualdade, miséria e corrupção predominam. Um governo negligente e com poderes ilimitados permanece no poder, satisfazendo apenas suas próprias necessidades. Um grupo de amigos decide agir e forma um grupo revolucionário e secreto, denominado "A Missão". Seu principal objetivo é tirar os governantes do poder e implantar a democracia. Os principais líderes têm cargos de confiança ligados aos governantes e vão tramar dentro de seu próprio Palácio para derrubá-los. Mas como vão conseguir realizar todo o plano? Até que ponto conseguirão novos aliados sem colocar o tudo em risco? Irão conseguir o apoio do povo? E como governar um país? Como não transformar tudo em um golpe ditatorial? Os fins realmente justificam os meios?


Postapokalyptisches Alles öffentlich.

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Capítulo 1

JÚLIO

Foi difícil a decisão entre cumprir as ordens ou não, a escolha me gerou várias consequências, mesmo depois de tanto tempo... Foi a partir dela que surgiram muitas mudanças em minha vida...Nada mais foi como antes. Conquistei meu cargo. Mas a que preço? Era imaturo, apesar de já ser um soldado, não conhecia nada sobre a vida e sobre o que era ser militar de verdade.

Muitos consideram sorte estar agora onde estou. Quando decidi participar da competição, sonhava com o crescimento rápido, a oportunidade única de ter um dos cargos de confiança dos governantes, trabalhar no Palácio do Governo. Consegui, mas não foi tão fácil como parece.

Mesmo agora, nada é fácil. Na competição pude escolher. Aceitar as ordens era estar um passo à frente em busca do meu objetivo, rejeitar significava voltar para casa e me contentar em ser um simples soldado pelo resto da vida. Optei por seguir na competição e cumpri-las. Agora há possibilidade de ter que cumprir de novo, em uma situação diferente, mas em um mesmo contexto: uma morte a sangue frio a pedido da governante.

Margareth ainda não ordenou, somente pediu que leve uma criança. Porém, conheço o que ela e os outros dois fazem quando se cansam de alguém e essa pessoa sabe demais. Foi o que ocorreu à guarda pessoal dela, há alguns dias. A soldada que trabalhava comigo na proteção da governante foi morta porque torceu o pé em um treino e precisaria ficar alguns dias afastada. Como necessitariam arranjar alguém para ficar em seu lugar por algum tempo, e Tamara já tinha uma certa idade, preferiram matá-la e convocar outra para ser permanente na função.

Apesar da angústia e das lembranças que as ordens de Margareth me causavam, aprendi a esconder minhas emoções e controlar-me todos os dias. Não demonstrei nada a ninguém. Reação alguma. Agir contra meus princípios fazia meu coração acelerar e a boca secar, mesmo assim segui em frente.

Fomos até um bairro afastado do centro. Era mais um dos inúmeros locais pobres que cercavam a Capital, cheio de casebres de madeira e papelão, rodeados por lixo, pobreza e desgraça. O esgoto corria em valetas na beirada da rua e o calor da manhã só ajudava a aumentar o odor, que podia ser sentido mesmo de dentro dos carros. Havia também lixo misturado ao esgoto, apodrecendo e exalando o fedor da putrefação. Alguns cachorros reviravam os dejetos à procura de alimentos. Pela magreza dos animais, exibindo a pele repuxada pelas costelas, era de se imaginar que não arranjavam muita coisa.

Vários moradores observaram desconfiados quando nos aproximamos, por ser distante e por ter uma população carente, ninguém ia até o local, muito menos militares.

Desci do carro, liderando os outros soldados. Nem havíamos entrado em formação quando fomos cercados por várias crianças. Todas pareciam ter menos de 10 anos e estavam seminuas, com calções rasgados e pés descalços. Suor e urina exalavam das criaturas em nossa frente.

— Que fedor dos infernos! — disse o outro sargento, olhando com desprezo os seres em nossa frente — Vamos fazer isso duma vez e dar o fora daqui!

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, um garotinho me chamou a atenção em meio à multidão, não parecia ter mais de cinco anos de idade e vestia uma bermuda rasgada que fazia sua proeminente barriga se destacar do restante do corpo. Apesar de à primeira vista aparentar ser gordo, o rosto, os braços e as pernas eram bem magros e ao contrário dos outros, ele me encarava sério, admirado. Um grande grupo já se formava em nossa frente, as crianças mais próximas de nós e suas mães logo atrás. Não haviam homens, apenas mulheres que observavam os soldados fardados e armados em frente aos seus filhos.

— Venho aqui em nome da governante Margareth — comecei, com o tom mais alto e a voz mais autoritária que pude — anunciar uma grande chance para um de vocês! A governante precisa de uma criança entre quatro e oito anos para gravar hoje um comercial ao seu lado.

Conforme assimilavam o que eu dizia, o horror tomava conta do rosto dos adultos. Enquanto os menores ainda me olhavam sem compreender nada, os outros já haviam captado a mensagem por trás das minhas palavras.

— A família escolhida, ganhará 20 quilos de alimentos, como prêmio. Generosidade da Governante — esperei que assimilassem a informação para prosseguir — Peço que se organizem em filas para que eu possa analisar um por um.

Ninguém se mexeu. As crianças ainda me encaravam confusas, sem saber o que fazer, as mães estavam um pouco mais animadas ao descobrirem os alimentos que uma delas ganharia, mas ainda assim, havia um certo receio. Apesar da fome, nenhuma mãe entregaria seu filho por alguns quilos de comida. Mas também não iriam se opor, não eram páreas para nós. Ficaram apenas paradas, observando.

Como as filas não foram formadas, fiz um breve gesto com a cabeça para os soldados ao meu lado e sem demora, eles partiram para ação; agarraram as crianças e as empurraram para o lugar correto. Apontaram as armas e ameaçaram bater nas que começaram a chorar. As maiores, acima da idade desejada, foram retiradas do grupo e levadas até perto dos adultos. Algumas crianças se assustaram ao ver os soldados os ameaçando e já se colocaram na fila. Depois de tudo, umas poucas começaram a chorar e quiseram procurar suas mães, mas a intimidação de algum soldado resolveu o problema. Em poucos minutos, todas as crianças estavam uma atrás da outra, formando quatro filas. Os outros moradores permaneceram afastados, ao lado direito das filas, apenas assistindo a cena sem poder fazer nada.

Respirei fundo e comecei minha inspeção. Precisava encontrar a criança mais adequada. Ainda assim, cada uma das que eu olhava me causava a mesma dor. Eram grandes as chances de que fosse morta depois que eu a escolhesse. Não queria ser o responsável por levar uma delas ao mesmo destino do outro.

Passei por todas umas três vezes, analisando bem. Os menores tinham cara de choro e me espiavam como seu eu fosse um monstro. Os maiores esforçavam-se em não parecer apavorados e desviavam o olhar quando eu os observava. Margareth havia solicitado a criança mais mulambenta e feia que eu encontrasse. Todas eram, e a escolha não era fácil. Como critério de desempate preferi levar a que aparentava estar com menos medo. Serviria melhor para os propósitos dela.

Por um triste acaso, o garoto que parecia estar com menos medo era o que me chamou a atenção alguns minutos atrás. Como antes, ele ainda me olhava com coragem, seu cabelo estava desgrenhado e sujo e a única peça que usava, a bermuda, parecia pequena demais para seu corpo.

Dei um passo em sua direção:

— Qual seu nome?

O pequeno garoto ergueu ainda mais a cabeça para me enxergar, sem desviar os olhos. Porém, ao responder sua voz soou baixa:

— Caio.

Virei de costas a ele e anunciei alto aos outros:

— Levarei Caio comigo ao Palácio dos Governantes.

Ouviu-se um burburinho entre as mulheres que assistiam. Com o canto dos olhos notei alguém se aproximando de onde eu estava:

— Não! Por favor! — uma mulher se atirou no chão há alguns metros de mim.

Um dos soldados que me acompanhava, suspirou impaciente e apontou a arma para a mulher. Ao ver que estava sob a mira dele, ela calou-se, mas continuou me olhando com súplica.

— São ordens da governante — falei — Abaixe isso, soldado. A criança irá apenas gravar um comercial com a governante. Nada irá lhe acontecer. Antes do fim do dia trago-o de volta. — pelo menos era o que eu esperava, mas não podia ter certeza. Margareth poderia mandar fazer qualquer coisa com o menino. — Você terá sua recompensa, vinte quilos de alimento.

A mulher recuperou a coragem:

— Por favor, ele é meu filho! Não quero os alimentos. Eu preciso dele! Não o tire de mim! — Se arrastou para perto de meus pés. Mal tendo forças para chorar.

— Eu já disse. Agora recomponha-se, antes que eu ordene que um deles lhe tire daqui. — O soldado voltou a mirá-la após minhas palavras.

Sem outra opção ela não se opôs mais. Entendia que não tinha forças contra nós. Peguei o menino e o arrastei para longe, sem resistência alguma.

Ao nos afastarmos dos casebres em direção ao Palácio, fiquei aliviado. Apesar de tudo, não gostava daquele tipo de lugar, era o símbolo da desigualdade e da injustiça. Quando selecionaram as pessoas que fariam parte do que seria a última sociedade do planeta, poderiam ter escolhido melhor, optado por quem faria um mundo diferente. E quando digo melhor não me refiro às pessoas que não fossem pobres, e sim, às pessoas que fossem capazes de acabar com a pobreza e as desigualdades. Mas talvez, pela própria pressa em criar o país no meio da Floresta Amazônica e salvar a humanidade, não selecionaram, fazendo com que os problemas anteriores permanecessem.

Os governantes diminuíam o alcance desses problemas, com alguns métodos. Os mais eficazes eram propagandas vinculadas nos canais de televisão, rádios e na maioria dos jornais. As propagandas mostravam uma outra realidade de Tazur, um mundo que não existia, com governantes que também não existiam. Era o que Margareth fazia naquele momento. O lema do comercial dessa vez era: "Margareth, a mãe do povo! "

Assisti, no restante da tarde, a governante gravar seu comercial junto com o garoto Caio. Margareth se apavorou com o fedor dele assim que chegou e ordenou que alguém desse algum jeito. Após borrifarem perfumes no menino, começaram as gravações, ele como estava antes: sem camisa, cabelo desgrenhado e sujo. Para as câmeras, a magnífica governante agarrava o garoto, abraçava e até beijava. Mas assim que lhe davam o aviso que aquela parte acabara, ela soltava Caio e se afastava metros dele, limpando as mãos.

O pequeno apenas fazia o que lhe pediam e ficava parado esperando mais ordens. Em momento algum falou alguma coisa que não tivessem lhe perguntado ou tratou Margareth de forma desrespeitosa. Era um bom garoto. E aguentou firme as três horas de gravações.

Quando tudo acabou, mais uma vez senti meu corpo gelar com o momento que se aproximava. Com o último "Corta" e o aviso que encerrávamos por hoje, Margareth começou a sair da sala:

— Preciso de um banho urgente! Terei que ficar horas para tirar essa sujeira e esse cheiro de mim!

Ela passou em minha frente esfregando as mãos pelo corpo, com o nariz franzido. Sua expressão era de puro nojo como se o menino fosse algum animal com uma doença contagiosa. Como estava em um dos cantos da sala, Margareth demorou a me notar, mas assim que viu-me, fui chamado.

Me aproximei dela, já temendo o que viria a seguir:

— Sim, excelência? Posso ajudá-la? — relaxei o corpo para que não notasse como me sentia.

— Tire essa coisa daqui e rápido. — Ela apontou para Caio, mais distante, ainda parado em frente às câmeras, sem saber o que fazer.

— Certo.

Fui até onde o garoto estava, e o agarrei pelo pulso o chamando para vir comigo. Ele não demonstrou resistência e apenas deixou-se levar.

Ia sair do Palácio sem maiores problemas. A governante pediu apenas para tirá-lo dali e não especificou mais nada. Eu o levaria de volta para casa e de volta para sua mãe. Não precisaria matá-lo. Não reviveria mais uma vez o pesadelo que tanto me atormentava. Matar um inocente, ver sua vida acabando com um tiro meu, seu sangue esvaindo, era desumano. Estava aliviado de não precisar cometer tamanha atrocidade mais uma vez.

Estávamos já passando pela porta, quando me permiti relaxar ainda mais e soltar ar que prendia. O garoto teria um futuro.

Porém, logo ouvi uma voz me chamando. Olhei para trás a tempo de ver Margareth dizer em alto e bom som:

— E mate-o. Ele viu demais.

10. Mai 2020 22:01:46 0 Bericht Einbetten Follow einer Story
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